© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 13 de março de 2013

Passei por ti no Rossio

A turba aquiesce à cólera retumbante ante os gritos dos frades dominicanos, empunhando crucifixos e tochas aos céus: "hereges, deicidas"! Calcorreiam as mediações da Igreja de S. Domingos perseguindo, ávidos de sangue e de vísceras, os pobres recém-convertidos à força por decreto real. Saqueiam casas, arrastam mulheres pelos cabelos, violam corpos e débeis dignidades, esquartejam bebés e crianças, amontoam cadáveres e moribundos e ateiam fogueiras pela praça. Uma trupe cega pelas preces de quinhentos sanguinários, muitos deles marinheiros de passagem do norte da europa, que sob as palavras de ordem iradas pelos frades, identificam por fim todos os males da fome e da peste nos corpos e nas almas dos quase dois mil judeus chacinados. O massacre prolongou-se durante três tristes dias, na Semana Santa da Páscoa, no ano da desgraça de 1506. Foi no Rossio.

A Praça D. Pedro IV (Rossio) foi, porventura, o espaço mais efervescente de Lisboa. Já durante a ocupação romana, quando o Tejo ainda lhe recortava margens, por ali realizavam-se efusivas corridas de quadrigas. Seguiram-se visigodos e alanos e, mais tarde, árabes. Foi palco e plateia de autos-de-fé, sumaríssimas execuções e decapitações, feiras e mercados de especiarias, festas cortesãs, touradas, paradas militares e romarias. O edifício sede da Inquisição situava-se onde mais tarde foi erigido o magnífico Teatro Nacional D. Maria II. Em 1640, saíram, do então Palácio Almada (agora, Palácio da Independência), os Quarenta Conjurados rumo ao Terreiro do Paço para depor Filipe II. A actual configuração rectangular da Praça decorre da reconstrução pombalina após o terramoto de 1755. O chão foi sempre de terra batida com saibro e conchas pisadas do rio. Conspirava-se, juravam-se duelos com armas de pólvora, discutia-se a Carta Constitucional.


Inaugurada em 1787, a «loja grande de bebidas do Café Nicola», como referenciava então a Gazeta de Lisboa, era o botequim de tertúlias literárias por excelência, de onde surtiam os maiores combates e intercâmbios de ideias do país, madrugada fora. É célebre a frase-verso de Bocage: "Eu sou Bocage/ Venho do Nicola/ Vou p’ro outro mundo/ Se dispara a pistola". Apenas em meados do século XIX foram erigidas a estátua de D.Pedro IV e as duas fontes gémeas, e calcetado o pavimento em mosaico português com desenhos ondulantes. Pode-se de alguma forma afirmar que, apesar de pejado de História, o Rossio é uma praça com edificações parcimoniosamente recentes, porquanto, como lisboeta, muito me entristece em plena luz do dia ver isto:

8 comentários:

  1. Alegro-me de vê-lo regressar à escrita, Paulo, para contentamento dos que, como eu, apreciam (muito) o modo belíssimo como se exprime.
    Muito interessante o texto, instrutivo também,para mim em particular, eterna apaixonada da nossa Lisboa, a quem, como a si, me dói na alma vê-la maltratada, abandonada e esquecida, mas ainda assim continuo a senti-la como um lugar romântico e sedutor, tristemente belo, ao qual me orgulho de pertencer.
    (Para não me repetir, já nem falo das fotografias, que devolvem ao nosso olhar o encanto meio nostálgico da cidade)...

    E quero mais! (se faz favor... ;)

    Beijinho

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    1. (Terá mais: vou aproveitar este tempo de recobro para escrever diariamente)

      Mas, Isabel, diga lá como é possível esta praça lindíssima, repleta de boa História, chegar a este estado de degradação? É la-men-tá-vel, profundamente lamentável!

      Beijinhos e muito obrigado pelas suas encorajadoras palavras! :)

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  2. Rossio - palavra mágica que me leva aos meus tempos de Lisboa, naquela incarnação que me moldou, mas não durou.

    Rossio - tardes calmas com a minha Mãe, passeios com o meu Avô para ver o cavalinho do Constantino a andar cheio de luzes, as flores, a Suiça com belos bolos de chantili e atafulhada de gente, o Expresse, onde lanchava com a minha mãe uns batidos de iogurte com banana, de beber e chorar por mais....rossio....onde isso já vai.....

    Fotos maravilhosas, Paulinho....como sempre.

    Já sabes que vou aos Açores? 4 dias em Abril!
    Tens de me dizer o que posso ver nas poucas horas livres que vou ter, depois das sessões.

    Bjo

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    1. Amiga, mande-me por mail onde vai ficar. Farei um itenerário surpreendente... :))

      Bjos

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    1. Olhe, corei.
      Beijinho e obrigado, amiga Imperatriz.

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  4. Gosto da Lisboa velha, entristece-me que esteja maltratada e degradada. As esquinas, as calçadas, as fontes e os telhados têm encantos únicos no mundo, porque são nossos. Mas também não é à toa que Lisboa foi considerada, há bem pouco tempo, como uma das mais belas cidades do mundo. É porque é mesmo bela, e sim, deveria, também por isso, ser mais estimada. Já a conheço assim, triste em demasia, há muito. Será que piora com o reflexo da conjuntura que vivemos?... Não sei, diz-me o que achas...

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    1. Dentro do género (pequenino), Lisboa poderia ser das capitais mais encantadoras do mundo - digo-o com alguma propriedade: conheço, se não todas, quase todas as capitais europeias e muitas em todo o mundo. Na zona da Baixa-Chiado, há muitos prédios devolutos; no Rossio, especificamente, há dois ou três moradores permanentes, mas também abundante legislação para a reabilitação coersiva destas construções. A própria Câmara tem meios legais de expropriação célere, caso necessário. Contudo a reabilitação desta zona tem sido matéria de discórdia partidária na assembleia municipal. Uma salgalhada, portanto...

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