© Paulo Abreu e Lima

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

ao contrário

 
Fazia ao contrário. Cada vez que tinha de mentir, pausava a voz firme, encarava-a de frente e lançava o seu olhar mais penetrante no interior das suas retinas. Nunca desviava os olhos e raramente pestanejava, inabalavelmente convicto de que tudo o que aclarava penetrava em flecha via ocular. Um mestre na técnica do embalo e da hipnose. Um doutor do convencimento. Já quando falava verdade, enervava-se, tremia a voz ou projectava-a esganiçada. Mais: baixava o semblante e olhava para a gata. Para a janela ou a lâmpada do tecto. Não a conseguia fixar no tête-à-tête da realidade.
Até ao dia em que conheceu Ivone. Mais nova, mais branca e possuidora de uns belos olhos negros rasgados. Aí, quando falava verdade, encarava-a de frente e sentia-se calminho, levezinho, quase em suspensão. Mas quando dizia mentira, a sua afamada astúcia surtia em vão. Por mais que tentasse transpor o íntimo da sua íris cor de basalto e da sua esclera neve cintilante, revia-se num inútil mentiroso, num impotente convencido.
Não se consegue enganar quem não conhecemos. Só quem nos conhece bem.

10 comentários:

  1. Leio isto e o meu primeiro impulso é para dizer que, tal como no título, é "ao contrário": conseguimos enganar quem não conhecemos e não quem nos conhece bem. Ou, nesse caso, será pelo menos mais difícil.
    Não será apenas de uma provocação que se trata. A ideia aqui é talvez a de que o amor nos transforma. E isso pode ser verdade, sim. Porque nos desarma e põe mais "a nu" ( e não só em sentido literal :D).

    E depois, não se "tem que mentir", a não ser em circunstâncias muito pontuais, digo eu, que sou pela verdade, por mais dura que seja.
    Os mentirosos compulsivos julgam que enganam os outros, quando na verdade se enganam sobretudo a si próprios. Porque mesmo os que fingem que acreditam em tudo o que lhes ouvem, se forem um bocadinho atentos, não podem deixar de sorrir para dentro (e às vezes para fora, também,) ao vê-los "tropeçar", em cada volta da esquina, nas suas frequentes contradições.

    E, no entanto, mesmo uma mentira, dita por uns bonitos olhos como estes que se deixam ver aqui, tem sempre algum encanto :P

    Beijinho :)

    (Peço desculpa pelo exagero do tamanho do comentário, quase maior que o post. Entusiasmei-me, foi isso!...)

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    1. Olhe que não, Isabel. Quem nos conhece bem, nós conhecemos melhor, logo é mais fácil enganar. Já quem não conhecemos, nunca saberemos se enganámos alguém...

      Beijinho :)

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  2. :) A verdade é um terreno calmo, Paulo, natural, pouco exigente, normalmente potenciador de uma tranquilidade para quem dá e para quem recebe. Não há fantasia, há claridade, há um estou aqui, sem tirar nem pôr. Se houver alguém a quem possamos dar todas as nossas verdades (se é que isto é possível), tanto melhor. É por si só sinal de que há uma pessoa para além de nós, perante a qual conseguimos ser. A mentira nestes casos ( se é que não sempre) perde todo o sentido. Não condiz, atrapalha, desconforta, fica sem razão de existência. Certamente conseguiremos enganar quem nos conhece bem, pois com certeza. Mas julgo que deve doer...

    Beijinhos. :)

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    1. Ao mentiroso compulsivo deve dar prazer :)

      Mas, sim, tens toda a razão.

      Beijos

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  3. As vezes que bem gostava de ser capaz de lançar esse olhar e dizer uma mentira convictamente.
    Não para me sentir uma doutora do convencimento, mas para dar uma facada num qualquer doutor do convencimento! :)

    De qualquer forma, para quem nos conhece ou não, com alguma mentira à mistura ou não, o olhar deve servir para encantar e não para enganar!

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    1. Às vezes o olhar pode ser uma arma, mas tem razão, devia ser sempre boa poesia... :)

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  4. Estou inteiramente de acordo com a Maria João Morgado quando diz "o olhar deve servir para encantar e não para enganar!".
    Para enganar há outras formas bem mais subtis...mesmo quando se encontram Ivones!
    :-))

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    1. Ó Helena, não que tenha exacerbado interesse, mas tem de me contar essas formas mais subtis... (em Português do Brasil, diz-se e escreve-se "sutis", tão bonitinho...)

      :-))

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  5. agora coisas verdadeiramente importantes ---------------
    os olhos da fotografia são dum mentiroso?...A-sim, B-não sei C-parece (escolher a verdadeira :-0 )

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    1. Resposta verdadeira: C-Parece, mas não, são meus!

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