© Paulo Abreu e Lima

terça-feira, 29 de abril de 2014

sabe do que fala

quem já encastrou no corpo a realidade que aplica nas palavras, quem já viveu o sentir aclamado, o medo ajuizado, a paleta de cores negras de uma morte anunciada. Sabe do desgosto do amor quem já o amargou, o vazio da noite quem já a transitou, o oco do dia quem já o dirigiu na proa de um barco solto, no colo de um temporal. Sabe do desapego quem já nadou na estranheza do incerto, quem já naufragou numa praia vazia, quem já se encontrou errante no meio de um deserto de areias finas e quentes que teimam no escalda-pés. Minto, minto várias vezes quando olho nos olhos de quem me procura e juro a pés juntos que sei exactamente do que falam, que conheço o meandro do que sentem na pele, que conjecturo perfeitamente os sentires nefastos que se acomodam nos corpos esgotados. Minto, minto com os dentes todos da minha boca quando tento adormecer sentimentos com base na experiência arquitectada, quando ouso catalogar ausências que não contenho, quando anseio apagar os traços fortes de um abandono que não habitei. Não sei o que é, na maioria das vezes não sei do que me falam. Porque só sabe o sentimento quem o atravessa ao meio, quem o respira sôfrego por todos os poros da pele, quem o transpira cansado pelos olhos, pela boca, pelas entranhas revoltas de uma desilusão. Só quem entranha a vida sabe o que vem com ela. O resto são meras suposições, tão frágeis como a previsão incerta de um destino escrito em linhas de mão. Mais ou menos coisa nenhuma. 

8 comentários:

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    1. :) Um abraço para ti. Apertadinho...

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  2. Lindo e verdadeiro! Parabéns CF!

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    1. Obrigada Maria João. Se não fosse tão verdadeiro, talvez a vida fosse mais fácil...

      um beijinho para si. :)

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    2. Por ser tão verdadeiro, muitas vezes opto pelo silencio. Limito-me a ouvir e a aceitar. Ouço com plena consciencia da minha ignorancia no que diz respeito ao estado do outro. Aceito sentimentos que não compreendo, aceito comportamentos que me são estranhos. Por vezes tento-me a 'opinar' com base nos meus sentimentos ou forma de ver a vida, mas de imediato sinto a mentira de que a CF fala. E volto ao meu silencio.
      Quem fala das suas angustias, das suas dores, das suas perdas, por vezes ao ouvir-se a si proprio vê/sente coisas que nós, os ignorantes na matéria, não os sabemos fazer ver/sentir. O silencio de quem ouve pode por vezes ajudar. Faz com que quem fala, se ouça a si próprio! Digo eu ...
      um beijinho CF

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    3. Prece-me que diz bem, Maria João. Diria que está perfeita esta sua visão, onde poderemos ajudar o próximo sem invasões excessivas, e só com a escuta... Acredite mesmo que funciona... :)

      Um beijinho.

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  3. É uma bonita formulação de uma verdade que tendemos a esquecer, na nossa ânsia de opinar sobre tudo e mais alguma coisa, quando o que se sente na pele, do lado de dentro ou de fora de corpo, acaba sempre por ser profundamente distinto do que supúnhamos ou supomos.

    Um beijinho, CF!

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    1. Tendemos Isabel. Não só na ânsia de opinar, como também na expectativa de compreender... Vale pela genuinidade do esforço, mas a mim parece-me francamente impossível... Um beijinho e bom fim de semana para si. :)

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