© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O calcanhar de Frederico Lourenço

A propalada entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Frederico Lourenço (FL) foi amplamente elogiada por alguns círculos ligados às Letras e aos helenistas em particular. Nada contra. As dúcteis argolas literárias, de tão precisadas, sobrevivem precisamente do culto do panegírico inter pares, abominando o embate viril de ideias – não vá a estirpe extinguir-se por falta de descendência e de dependência. Resumidamente, FL ancora-se num paralelismo entre a Ilíada de Homero e o seu percurso pessoal e profissional. Paralelismo é eufemismo, em boa verdade, deveria chamar-lhe projecção freudiana, mas já lá vamos.
 
A determinada altura, afirma: «É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes. O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte.». Para FL as pessoas não devem sequer incorrer no erro de sonhar [pensar] em ser felizes, porque na prática têm de sofrer sempre. Sempre, até à clemência da morte. Talvez por ele próprio ter sofrido bullying na escola, a desconfiança intelectual do pai, a silenciosa rejeição da sua orientação sexual por parte da mãe e do pai, a sua confessa falta de talento como pianista e porque «as pessoas por quem se apaixona são instáveis, um pouco amalucadas». No fundo, concede uma espécie de "Ámen" a todas as vítimas de injustiças, de desalentos e outras desventuras e negligências. Sofram, meus amigos, estais no caminho certo. E vai mais longe: quem tem o direito de ser feliz com o que lê nos jornais? Os eremitas das montanhas, não podem? – Pergunto eu. Os maluquinhos e demais criaturas estimadas, também não? – Volto a perguntar. Todos sabemos que a felicidade total é uma utopia, mas o sofrimento pleno não é uma obrigação. Se em vez de estar a aprender sânscrito, soubesse umas palavras de suaíle (ou tivesse visto o Rei Leão), conheceria por certo uma expressão mais colorida: "Hakuna Matata". Digo eu.
 
Continuando, e depois de revelar que o verdadeiro herói da Ilíada é Heitor e não Aquiles – porque sofre, claro –, termina dizendo: «Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: "A estas coisas permitiremos o terem sido"... Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro». Pois acho uma escolha avisada. Principalmente, e depois de tanto sofrimento, se confirma ter dito à sua irmã: «Tenho a sensação de que somos órfãos com os pais em vida».
 
Às vezes imagino o encontro entre um helenista e um verdadeiro helénico antigo, em que este, saturado com a verborreia daquele, sussurra uma frase, imaginem lá, de Schopenhauer: "A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios".

7 comentários:

  1. Muito bom, Paulo! Sobre FL e a dita entrevista o que se me oferece dizer é um simples "Não há pachorra!"...

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    1. Não vou tão longe, mas há pouca, sim...

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  2. Meu caro Paulo
    Gabo-lhe a coragem!
    Eu comecei...mas não acabei. Sofri tanto com o sofrimento do entrevistado, que desisti de ler o resto.

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    1. Não é coragem, Helena. É mais a minha costela positivista comteana a funcionar. O homem "raro" merece idêntico estudo.

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  3. Paulo
    Raro por raro, prefiro as verdadeiras raridades. O problema é que esta me soa a falso...

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    1. De facto apendemos em Economia quem nem todas as raridades têm valor. Sempre depende se é um good ou um bad. :-)

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  4. Ontem assisti ao lançamento de O LIVRO traduzido do Grego para a nossa língua e a minha curiosidade era imensa especialmente ouvir o que os três convidados teriam a dizer da obra: Pedro Mexia, José Tolentino de Mendonça e Miguel Tamen. E confirmou-se, as palavras de cada um foram inspiradoras, muito sérias e interessantes. Valeu a pena ter ido.
    O desastre foi quando a palavra passou para o Frederico Lourenço que eu não conhecia (o que é normal). Autoelogiou-se, subtil e mordaz na critica dos convidados, deu uma seca monumental à plateia (parecia uma aula na Universidade), tive o que se chama “vergonha alheia”. Um verdadeiro pavão.

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