© Paulo Abreu e Lima

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ter Mundo

Na sociedade actual, "ter mundo" emana um imenso charme, uma espécie de credencial que figura bem ao lado do bom berço, do currículo académico avançado, dos "conhecimentos" certos e do percurso profissional bem-sucedido, entre outros itens.
 
Dum indivíduo viajado, que viveu em meio mundo, o meio que interessa, civilizado e desenvolvido com uns pozinhos de exotismo – afinal toda a gente sabe que na Martinica o cosmopolitan é mais intenso, tem mais cranberry –, polvilhado por umas escalas técnicas por regiões em guerra – ao perigo das imensas capitais, junte-se o mediatismo das que fazem as parangonas nos jornais mundiais –, poderemos dizer que tem mundo? Ah, pois deve ter.

Dum indivíduo letrado, que dissecou os clássicos, tratando as grandes personagens por velhos conhecidos, que já conta em sua biblioteca com mais de quarenta mil lombadas lidas, e outras tantas na mesinha da cabeceira por ler, e inúmeras incursões à Torre do Tombo, devemos dizer que tem mundo? Ah, pois tem de ter.
 
Dum sujeito bem relacionado, que conhece os meandros do poder, do político que foi seu colega de faculdade ao CEO que frequenta o mesmo restaurante uma estrela Michelin; que é amicíssimo do director do semanário e do professor catedrático com coluna semanal sobre actualidades, íntimo do grande poeta e do pintor com acervo em NYC, poderemos afirmar que tem mundo? Com certeza.

E do tipo que já comeu a apresentadora de tv da estação privada, casou com uma actriz socialite agora em depressão, frequentou assíduo os camarins das bailarinas do salão preto e prata, privou com a jornalista do painel dos prós e contras a favor da legalização dos bordeis fast fuck e da despenalização das drogas duras, que dizer? Muito mundo.

Ter mundo, hoje em dia, é como ostentar sinais exteriores de derivado de caviar. Poucos provaram, mas o original deve ser bom. E, claro, não deve figurar num cartão de apresentação de uma senhora: ela apenas será inteligente e muito interessante, tudo o resto deve ser omitido, pois esse resto não lhe assenta bem.

Porém, ter mundo é outra coisa, é muito mais. É saber entender e aceitar o próximo exactamente como ele é, reconhecer-lhe com respeito todas as suas misérias, não julgar pela aparência o que nunca presenciou, não levantar o dedo indicador a quem sente diferente e, sobretudo, nunca ser indiferente à sua diferença. Quem o souber fazer é mais conhecedor, viveu mais, tem mais mundo, todo o mundo do mundo. Afinal, há mais por conhecer em cada um de nós do que nas viagens, nos livros, nas esferas mediáticas ou nos círculos restritos. Ter mundo não é ser mundano.

11 comentários:

  1. Magnífico post, Paulo, com uma análise minuciosa e certeira. Impossível não concordar consigo, ainda que na verdade, de acordo com a definição acima, "ter mundo" é difícil e por isso também raro. Mas não impossível...

    Beijinho :)

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    1. É daqueles textos que saem de rajada, sem cuidados na forma, apenas cientes do conteúdo.
      Há, de facto, um certo misticismo na expressão "ter mundo", embora todos saibamos, quase como um cliché, que o maior dos mundos reside nas outras pessoas...
      Beijinho :)

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    2. Se o texto lhe saiu "de rajada e sem cuidados na forma", só posso desejar que tenha acessos destes mais vezes. Gostei muito! ;)

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  2. Paulo
    Estou quase no fim do ultimo livro de Tolentino de Mendonça. O seu último parágrafo - belíssimo - resume muito do que ele lá diz. Com a "agravante" de que nesse "misticismo" de entender o outro, ele se serve dos nossos cinco sentidos!

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    1. Nunca li nada dele, mas a Helena já o referenciou como um autor a ler. Vou pesquisar.
      Bjo

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  3. Pesquise sim. É padre, doutorado, vice reitor da Católica, poeta e filósofo. Em tudo o que faz é muito bom.
    Mas é de leitura muito difícil, seja no ensaio - como é o caso deste que acabei agora de ler -, seja na poética.
    Mas vai gostar, acredito!
    bjo

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    1. A parte boa é que é da minha antiga casa, é filósofo e poeta, por esta ordem. A menos boa poderá ser a dos bons dogmas...

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