© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

modas

Eu sei que posso ser abusada na atribuição de significados. Que posso parecer picuinha, miudinha, com a mania de justificar o injustificável, de compreender a casualidade, de baptizar o que simplesmente não tem nome. Encaro este meu hábito como uma distracção legítima, um passatempo idêntico a palavras cruzadas, a jogos de facebook, a leituras ligeiras de revistas cor de rosa, a frequências distractoras de mesinhas de café (todos temos deambulações). As unhas das senhoras, por exemplo, merecem a minha dedicada atenção. Evidentemente longe de qualquer questão estética, parece-me de todo impossível tal pressuposto, distraio-me a pensar no que fará a menina espampanante pintar um unha de cada forma, alternando o padrão da vaquinha com as risquinhas pretas e brancas, as bolinhas cor-de-rosa e o lacinho colado cuidadosamente, na unha do dedo anelar. Bem sei que sempre tive dificuldade em imaginar as necessidades de exagero, as hipérboles do corpo, as ampliações da consciência. É verdade que não consigo descolar-me do meu sentir minimalista, da minha tangência ao monocromático, da minha simpatia com a discrição, mas ainda assim obrigo-me e faço um esforço. Fecho os olhos uns segundos. Tento sacudir-me de mim, concentro-me na temática e abro-os de novo, imagino as minhas unhas uma por uma, a começar com as riscas, a passar para manchas pretas e brancas, a saltar para as bolinhas, por último enfeitadas com um laço. Instintivamente escrevo no computador e inicio a idealização do que é ter aquela panóplia de cenários a rodopiar-me diante dos olhos, a inundar-me a vista de ruído, a maltratar o meu cérebro com insistência e violência, todas elas aos gritos por estarem ali. Não vale a pena, é escusado, concluo, a única tendência para onde me remete esta abundância de cenários é para a desordem. E um padrão de animalzinho, convenhamos, não assenta nada bem com estados confusionais de consciência.

2 comentários:

  1. É como o excesso de acessórios. Pesam no corpo e ferem a vista. Demasiada informação :)

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    1. Excesso de informação. É por aí... :)

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