© Paulo Abreu e Lima

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Morte ao oito

 
Era um homem empático, de sorriso fácil, de muitos conhecidos e poucos amigos - assumia-o com orgulho na entrega que lhes dedicava. Sempre trabalhou mais de catorze horas por dia e nunca ninguém lhe conheceu patrão - manias do empreendedorismo como se diz agora; necessidade de liberdade e de condução do seu próprio destino, digo eu. Enfatizava a vida difícil que enfrentou entre os estudos e o trabalho no pós grande guerra, A dele e a da sua mãe que deu à luz mais sete irmãos e os criou praticamente sozinha pois enviuvara cedo numa remota terra beirã. Depois de um ano inteiro acamado a drenar uma pleurisia tirou a carta aos dezasseis e rumou para Vila Real onde se fez sócio dos irmãos mais velhos. Poucos anos depois estabeleceu negócio próprio na capital. Casou-se tarde para a época, pelos vinte e sete anos, com a mais bela minhota do eixo Ponte de Lima - Viana do Castelo e rapidamente constituiu família. O sucesso profissional não o deixou, abdicara das heranças de família, poucas vezes aceitara participar nas comitivas presidenciais ao estrangeiro e outras benesses advenientes do seu percurso profissional. Era, na essência, um homem realizado nos múltiplos sentidos da palavra. Um homem feliz.

O meu pai teve sempre um aspecto jovial, uma saúde de ferro, uma cabeça brilhante. Fez sessenta anos mas aparentava quarenta, fez setenta com a jovialidade dos cinquenta e fez oitenta o ano passado com a lepidez dos sessenta. Contudo, tudo mudou a partir desse preciso dia. Os filhos obrigaram-no, contrariado, a fazer um check-up rigoroso que nada revelou: umas análises de fazer inveja a qualquer teenager, um coração bem musculado de atleta, uns ossos bem nutridos, enfim, uma máquina bem oleada, datada mas com as peças todas. Contudo, repito, desde esse preciso dia tudo nele mudou.

Um homem de negócios ainda no activo liga tanto a algarismos como um filólogo a letras e, aquele oito, aquele único dígito à esquerda era-lhe insuportável de digerir. Oitenta, octogenário, octogonal, octodecimal, tudo fora do normal. Tudo lhe soava mal. Por vezes, mesmo nos espíritos mais lúcidos, o clique da idade não advém da doença ou do cansaço, nem da demência que não avisa ao chegar. O estalido paralisante do tempo que passa provém da plena consciência dos cálculos ensurdecedores que com um só número se podem fazer. Nada mais natural.

10 comentários:

  1. Diante deste texto fico sem palavras: porque me me comove e me toca muitíssimo. Sei exactamente do que fala, não por tê-lo vivido, mas por o ter visto acontecer muito perto, com todas as diferenças que fazem de cada caso uma história única.
    E apenas o amor, acho eu, pode mitigar de certo modo a inexorabilidade do tempo.

    Um beijinho

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    1. Sei que sabe do que escrevi, Isabel.
      Um beijinho

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  2. Pensar de mais (cismar), faz mal, muito mal! Deveria haver uma lei, que pudesse ser implementada dentro da alma dos homens, que decretasse que a partir de determinada idade só fosse possível viver, apenas viver, enquanto o coração aguentasse. Os pensamentos, só mesmos os bons poderiam entrar!

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    1. Compreendo, mas desconfio que mesmo assim, muitos a prevaricariam...

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  3. Paulo
    Que lindo menino sob o braço protector de seu Pai. Dá gosto ver que quase tudo se manteve nesse tranquilo olhar!
    Do tema percebo eu, como calcula, alguma coisa...
    Só há uma solução que "Coisas que me tocam" muito bem refere: afastar os maus pensamentos e dar graças a Deus por ter a idade de poder faze-lo. Ah! E importantíssimo, viver aproveitando cada raio de sol, cada pinga de chuva, cada gargalhada, enfim, cada dia que passa entregando nas mãos de Deus o futuro que todos nós - velhos ou novos - afinal desconhecemos.
    Fácil? Dificílimo, mas possível e saudável. Por isso mesmo, jamais escondi a idade...e foi ela que me permitiu ter experimentado, tardiamente como sabe, a felicidade!

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    1. Concordo, contudo, vamos ver se ele supera mais esta fase, porventura a sua mais difícil.

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  4. Perdi o meu Pai aos 68. Ele dizia que não iria lá chegar, tinha uma expectativa curta de vida. Perdê-lo nessa idade custou-me imenso. A minha Mãe ultrapassou os 83, ainda fazia planos de mudança de casa e de vida. Nunca falava da morte e nós acreditávamos que ela viveria para sempre....

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    1. Ele também nem quer ouvir a palavra morte. Há ali uma falta de aceitação que o paralisa e o distancia dos outros, enfim.

      (Conheci o seu pai no princípio da década de 80, nada fazia prever aquele desfecho tão precoce...)

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    2. O meu Pai faleceu a 5 de Dezembro de 1980, no dia a seguir ao acidente de Sá Carneiro. Mas já estava paraplégico há seis meses, depois de ter sofrido um AVC. Trabalhava demais, viveu demais, sem parar....

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    3. Tem razão, Virgínia. Conheci-o em 1977, primeiro ano de férias naquele sítio...

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