© Paulo Abreu e Lima

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Adeus em Atenas


Clara era escura. Não da exacta cor de ébano, mas da tonalidade com que gostamos de sair do estio: suavemente acobreada. Pele lisa, macia, perfumada, sem marcas nem protuberâncias. Olhos vivos, brilhantes e amendoados. Esguia e atlética, não traíra generosas curvas africanas. Nascera em Príncipe, mas cedo foi para Santiago e, mais tarde, para a Holanda. Acabei por conhecê-la em Bremen, Alemanha. Ela e a sua passada larga, desconfiada e acelerada. Falava fluente alemão, sueco e holandês e, solícita, sem saber ao certo porquê, ficou minha intérprete nos delicatessens e pubs mais castiços das ruelas de Schnoor.

Desconcertante, falava sobre tudo. Desde as put and call options nos mercados de commodities, aos míticos e majestáticos veados escoceses de doze hastes; desde a receita de pudim de leite moça que a avô lhe ensinara, à capacidade de carga dos melhores contentores de 40 pés; desde a influência do dadaísmo na literatura e nas artes plásticas, à importância da sacarose de beterraba. Encontrávamo-nos todos os dias às seis e meia, já ao anoitecer. Todos os dias. De segunda a domingo. Mais facilmente perderia o cartão do quarto single do hotel onde residia, do que aquelas seis e meia da tarde com ela; mais rapidamente esqueceria onde estava, por quem ia e ao que vinha, do que aqueles momentos de cumplicidade e devoção. Pontualmente às seis e meia no Scusi.


Até um dia, um único dia, uma terça-feira, em que não me apareceu. No dia seguinte também não. No seguinte ao seguinte, não e não. Nunca mais a vi. Nem desconfiada, nem acelerada, nem passada, nem nada!

Anos mais tarde apareceu no ecrã do meu televisor, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas, gesticulando um evasivo Adeus ao público esfuziante do estádio. Desliguei a televisão e, estranho, inalei um desenxabido Adeus também.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Não é especialmente uma questão de Regime...

Mas de Exemplo e de Sentido de Estado que, por definição, costumam vir de cima:


D. Carlos, via Chez George Sand

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Desaparecida


Aparecia-lhe quase todas as noites durante quase vinte anos consecutivos. Quando acordava já nem distinguia o sonho do pesadelo, apenas se via suado, frio e transtornado como se fosse a primeira vez. Afinal Isilda tinha sido a sua grande paixão; andaram e desandaram por uns longos quatro anos na faculdade e acabaram sem uma só palavra no final. Foi um desvario de tal forma fulminante que nunca chegou a arrefecer o que deveras sentira, volvidas quase duas décadas sem nunca mais lhe pôr os olhos em cima. O pretérito aqui é incorrecto, pois cada vez que ela lhe aparece à noite de rompante durante aqueles minutos que os especialistas chamam de sono REM, ela grita bem alto presente com a sua voz rouca e impositiva. Aliás, faz-se presente e muito quente, relembrando em quanta salacidade todo o seu longo e desejado corpo já se lhe desfizera em pontadas de contínuo e irrepetível prazer.

Dois anos de psicoterapia centrada fizeram-lhe por fim entender a razão das aparições. Cada vez que não se sente afectiva e sexualmente sobre ressarcido – e só elas, e a psicóloga, sabem o quanto ele necessita de tudo isso e de uma pitada mais – , Isilda volta mais loura, altiva e risonha do que da última vez. E como ao acordar, fogosa, lhe foge, deixando-o uma e outra vez sempre mais sozinho, triste e real, só lhe resta conferir algumas coisas: não pode estar de bem com a mulher, nem com a amante ou muito menos com a vida em geral.

Isilda dissera-o!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sawm



Nascera em Moçambique, onde seus pais oriundos de Diu vieram a estabelecer negócio promissor de pescados, mas muito cedo chegou a Portugal. Os seus traços indianos eram indisfarçavelmente belos. Cabelo abundante negro ligeiramente ondulado e quase azul ao clarão dos raios solares, olhos cleópatras escuros de escleras alvas luzentes, lábios recortados marrons, corpo esguio de silhueta marcada. Esta é pra casar!, cuinchava o Luís, nascido todos os dias na Luciano Cordeiro, cada vez que aparecia com os mapas do pessoal e lhe tentava apanhar o cheiro viçoso a romãs frescas pela manhã. Já o Joel, arquivista dos Correeiros, não a conseguia olhar de frente e só à distância sussurrava boa tranca! enquanto falhava sempre o primeiro degrau da escada. Os piropos que Elisa recebia diariamente no trabalho eram fatelas, sem pontinha de graça, mas inofensivos e pouco audíveis. Qualquer coisa nela os remetia para o recato. Talvez porque juravam tê-la visto a caminho da mesquita ou, porque nunca a tinham visto a comer uma só maçã, achavam que jejuava o Ramadão ao lado de um chulo terrorista que lhe bombardeava o corpo e lhe raptava a alma. Porventura, estavam certos: Elisa vivia sozinha numa cave esquerda húmida sem electricidade com o seu filho faminto de dois meses e a visita diária do velho senhorio suicida que empunhava três meses de atraso.

sábado, 8 de outubro de 2011

Irreflexos (ii)

Era um homem de paixões que necessitava de fortes causas para se exceder a si próprio. Aguentava trabalhos supervenientes e desnecessários, mas era mesmo do cume que voava; que se excedia para lá do excesso sem lamúrias. Sabia-se intenso e dramático, só que era apenas um meio para atingir um outro meio e chegar ao êxtase final. Disse final...? Não, o alvo era afinal um outro único meio para atingir mais um e outro e alcançar outro propósito que por então jamais seria definitivo. Mesmo que porventura fatal.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ou por ficheiros

Em conversa com querida amiga, daquelas que podemos falar sobre tudo e não devemos ficar calados sobre nada, perguntei como consegue organizar os seus problemas de forma a compartimentá-los com uma racionalidade e uma estanquidade à prova de qualquer contaminação. Respondeu-me que muito antes de poder ser interpretado como uma razoável forma de eficiência, de defesa ou diabo a sete, era parte integrante, e precoce, de sua personalidade. Era assim e ponto. Assenti e lembrei: pessoas que, perante fortes percalços ou graves adversidades em determinada dimensão da vida, impeçam que a teoria dos vasos comunicantes vingue e conspurque todo o resto da sua integridade, ou são pródigas por natureza, ou – muito mais cedo do que mais tarde – definharão como a mais aturdida das inutilidades. E claro que não incluo a vertente profissional. Um artífice competente só o é se o conseguir ser sempre.

sábado, 1 de outubro de 2011

Afinal quem era mesmo a legítima de Rodin: Camille ou Rose...?



A cultura não deve ser entendida como um interminável número de arquivos encarrilados em direcção ao mais sumptuoso dos destinos; nem como uma infindável escada em que cada um se coteja em cima do outro; ou, ainda, arma de subjugação para infirmar complexos de inferioridade mal tratados. Cultura é assentar em seguros carris que nos levam ao lugar mais aprazível; é a firme mas irregular escada que nos incita a olhar com mais cuidado para o chão; ou, principalmente, expediente necessário, mas não suficiente, em presentear com bonomia e simplicidade todo o nosso quotidiano.

Em Meia-noite em Paris, Woody Allen parece querer vincar muito bem esta dicotomia. Entre o que se almeja ser e o que realmente se é, ou entre o pseudo-intelectualismo pédant (na voz da guia Sarkozy) e o singelo prazer de "andar à chuva".

Os loucos anos vinte em Rive Gauche ao seu melhor estilo bobo (bourgeois-bohème) são muito bem recriados, quer nos ambientes, quer nas inacreditáveis personagens que confluíam para Paris: Zelda e Scott Fitzgerald , Cole Porter e Hemingway. Todos expatriados norte-americanos pertencentes à "Geração perdida", nas palavras de Gertrude Stein. Estas são as primeiras, mas muitas mais celebridades se seguirão (tal como as mais descaradas e subtis referências às suas obras): Picasso, Modigliani, Matisse, Bruñuel etc. Uma menção especial para Dalí (interpretado por um fabuloso Adrien Brody), até porque fica explicado o Rinoceronte vestido con puntillas

Este realismo fantástico que lembra Rosa púrpura do Cairo e esta homenagem a Paris que nos remete para Manhattan, fazem deste filme a mais bem conseguida obra desde o seu único drama, Match Point. Woody Allen está mais doce e mais romântico, mas não deixou aquela pitada de humor ácido que não contemporiza com cinismos petulantes da nossa época e, acima de tudo, da sua América. Entretanto até parece que lançou mais uma diva em jeito de cliché: Léa Seydoux. Não há-de Scarlett atirar mais fotos suas nua para a net…

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Irreflexos (i)



Cada vez mais padeço do síndroma do incompreendido. Não que alguém, de facto, me tente compreender, mas no excesso em que me empenho para entender os outros, não vejo reflexo - enviesado que seja - do que sinto. Dito de outra forma, não vindico que me entendam, mas tenho a estranha sensação de que estão todos errados. Daqui, rapidamente, passamos para o síndroma do presunçoso. O que, não fora o perigo de incomunicabilidade, ainda não constitui presunção, per se.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Açores inacabado

Concluo por ora as ilhas encantadas. Porque parte de mim ficou lá. Retida por um estranho chamamento untado de tenros nacos de poesia de Antero, idiossincrasias de Nemésio e, mesmo agora, por polainas de inebriamento nos "Cantos" de Maria Filomena Mónica. A outra parte não sabe se saberá se a elas voltarei, comprarei casa e, se ainda Divina Providência me esbanjar velhice, morrerei eremita pelos amores de minha vida. Entretanto, consciente, requeiro: não queirais saber de Atlântidas perdidas para nada. A vossa vida é grande e continental; não sois estúpidos, nem tão avançados, para apontar frotas de veleiros à minha parte mais ousada.

Fiquem-se por mais umas fotos das milhares que registei e comigo guardo. Uma cantata barroca de Bach vai muito bem. 


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

As Lagoas, todas boas

Das sessenta e sete lagoas existentes no arquipélago, vinte e três encontram-se em S. Miguel. Têm todas origem nos abatimentos das crateras ou caldeiras vulcânicas, embora algumas delas não se situem no cimo dos cones, mas em simples abatimentos com a mesma origem. Muitas delas estão associadas a lendas muito interessantes. Interessantes, criativas e com ensinamentos morais ao longo dos séculos. Visitei quase todas, mas só vou aqui falar das três maiores e mais importantes da ilha e de duas outras que me merecem um destaque especial.

Lagoa das Sete Cidades

As suas duas caldeiras siemesas constituem o maior reservatório natural de água de todo o arquipélago, alimentando-se de inúmeros leitos que correm pelas falésias de mais de 800 metros. Uma das caldeiras tem espelho verde devido às algas da mesma cor que habitam o seu fundo; a outra apresenta-se em tons de azul. Ambas são separadas por um pequeno canal rochoso - em cima do qual foi contruída uma estrada que nos conduz à pequena povoação Sete Cidades, mesmo no interior da caldeira. São inúmeras as lendas associadas a este lugar desde os fenícios. No Séc VIII, com o reino ibérico dos visigodos em decadência ante as invasões muçulmanas, surge em Porto-Cale (actual cidade do Porto) um manuscrito de um clérigo cristão que identificava a existência da Sete Civitates  no atlântico ocidental. O arcebispo local, procurando o exílio em terras católicas, decidiu partir levando com ele uma frota de mais vinte veleiros. Dizem que chegou são e salvo, ele e mais cinco mil seguidores...


Lagoa Azul
  
Lagoa Verde (não, infelizmente, não sou eu)

Separação rochosa sobre a qual foi construída a estrada que nos leva à pequena freguesia Sete Cidades


Lagoa do Fogo

Esta lagoa, a segunda maior da ilha, com uma área de 1.360 ha, encontra-se no cume de uma montanha com mais de 950 metros de altura. A última erupção ocorreu em 1563. O desnível das suas falésias interiores ascendem a 575 metros e não se pode lá chegar senão em escadas pedestres em terra batida e desnivelada com degraus de mais de 50 centímetros. Ora, 1.150 degraus de meio metro, descer e subir  o equivalente a 150 andares, não é para todos. Mas vale mesmo a pena! Lá em baixo há um belo e extenso areal e a temperatura da água à volta dos 26Cº.

  
Panorâmica obtida do Miradouro da Serra da Barrosa
 
Lá ao fundo é visível o extenso areal que circunda o pontal

Aqui em baixo as águas são extremamente transparentes, límpidas e... quentes! E há que retemperar forças e pensar em subir o equivalente a um prédio de 150 andares sem corrimão
Lagoa das Furnas
Esta lagoa localiza-se na parte oriental da ilha, no concelho de Povoação. Em suas margens, existem pequenas caldeiras de água em ebulição com um intenso cheiro a enxofre. Ali perto é confeccionado o tradicional Cozido das Furnas. De todas as que visitei, esta é a mais fantasmagórica; não só pelas lendas associadas, pela presença do Masoléu de José do Canto que já aqui escrevi, mas por toda uma luminosidade verde escura e enevoada que confere a todo aquele local algo de sinistro, de gótico, de sobrenatural. Uma das lendas mais conhecidas diz que antes da lagoa existia uma feliz aldeia em que os seus habitantes faziam quase todos os dias festas de arromba com farta comida e bebida. Em três dias, montes deslocaram-se, terrenos revoltos moveram-se e no lugar da aldeia surgiu a actual lagoa. O borbulhar e o fumo das águas quentes nas caldeiras da margem, seriam a evidência que na aldeia soterrada ainda se encontravam os festivaleiros habitantes que, em contínuo, cozinhavam lá de baixo, deixando aromas de milho e pão cozido.




Lagoa do Congro

Próximo da Lagoa do Fogo, situa-se a lagoa que mais me surpreendeu. Imaginem uma área relativamente plana e densamente florestada por espécies seculares. Do nada, surge um trilho pedestre que, entre árvores e arbustos intocados pelo Homem, nos leva por ali abaixo sem vislumbrarmos para onde nos dirigimos. Vinte minutos depois encontramos isto:



Muitos açorianos desconhecem esta esmeralda gigante. Água tépida verde-musgo sem qualquer impureza (banhei-me por muitas horas), numa harmonia desconcertante com todo aquele arvoredo. Guardei segredo quanto à sua precisa localização.

Lagoa do Ilhéu de Vila Franca do Campo

Deixemos agora a ilha e... vamos para um ilhéu. A pouca distância de Vila Franca do Campo existe um ilhéu que ao contrário dos outros, as encostas viradas para o mar são muito mais altas do que o centro. De forma anelar, o centro do ilhéu não é mais do que a cratera extinta de um pequeno vulcão, em que a água marítima entra por uma pequena entrada, fazendo da caldeira uma lagoa de água salgada. Por dia, só podem ir quatrocentas pessoas para o ilhéu, não se pode usar cremes bronzeadores e fumar só mesmo de cinzeiro plástico na mão. Conclusão: águas transparentes e límpidas cheias de peixes de considerável tamanho, numa piscina circular natural com fundo em areia branca. Ao longe, Santa Maria à vista.

domingo, 28 de agosto de 2011

As bárbaras invasoras

O arquipélago dos Açores é constituído por nove belíssimas ilhas. Quase que poderíamos afirmar que cada uma delas é um imenso jardim. Contudo, as espécies mais associadas às ilhas não são endémicas, mas fruto da introdução pelo Homem ao longo dos últimos 600 anos. Há quem veja nelas espécies invasoras, que vêm ocupar o habitat das autóctones. Não sou tão dramático.
 Em primeiro lugar, o que é um jardim senão a interacção esteticamente harmoniosa entre o Homem e a Natureza? Nenhuma espécie vinga em solo e em clima que não sejam compatíveis com as suas necessidades; da mesma forma que nenhum homem escolhe variedades que não ornamente e embeleze o espaço ao seu redor segundo os seus parâmetros estéticos. Os edílicos Jardins Suspensos da Babilónia (uma das sete maravilhas do mundo antigo) não foram mais do que uma demonstração de Amor que Nebucadrezar ofereceu à sua mulher Amitis, ou seja, por detrás de um jardim, há sempre um acto de amor, um propósito maior, um esforço de se abeirar ao belo. Em segundo lugar, muitas das espécies não autóctones extinguiram-se nas suas regiões de origem, fazendo desta intervenção humana uma forma de as perpetuar noutros locais com idênticas condições ambientais, privilegiando quer a Natureza, quer o Homem. Em terceiro, na generalidade da Macaronésia, donde é originária a floresta Laurissilva (loureiro e cedros), e em particular nos Açores, estas novas espécies não ameaçam de facto a riqueza endémica, porque acima dos trezentos metros praticamente não vingam. Por último, chamá-las de invasoras acaba por parecer menor, quando comparadas às grandes queimadas que desde os primeiros habitantes se executaram para o cultivo agrícola e de forragens para pastagens.


1-  Hortênsia (Hidrangea macrophyla), originária da China, introduzida como quase todas as espécies no Séc. XIX, abunda nas bermas de quase todos os caminhos das ilhas – uma das ilhas, o Faial, é conhecida por ilha azul precisamente pelas extensas manchas de Hortênsias. A cor das suas flores variam consoante o ph do solo: solos mais ácidos produzem flores mais azuis a raiar o violeta; solos mais alcalinos produzem flores mais rosa, mesmo brancas;


2-  Conteira ou Roca-da-velha (Hedychium gardnerianum), provenientes dos Himalaias e também introduzidas no Séc. XIX, disseminam-se facilmente através dos pássaros – talvez, de todas, a que mereça mais atenção quanto à possível ameaça à Laurissilva, na medida que convivem muito bem com altas altitudes;

3-  Incenso ou Faia-do-norte (Pittosporum undulatum), oriundo do sudoeste da Austrália, introduzido há séculos, não tendo sido possível determinar exactamente quando, com o intuito de separar terrenos com sebes e proteger pomares, tem um odor extremamente agradável e pelas suas folhas lustrosas e perenes adquirem particular beleza;

4-  Feto Arbóreo (da família das Cyatheaceae). São todos os fetos com troncos que se podem elevar até aos vinte metros de altura, do tempo do Jurássico (há-os fossilizados). Não se sabe ao certo quando foram introduzidos nos Açores, mas são oriundos da Nova Zelândia, Austrália e Malásia. Têm pelos e as suas frondes podem atingir os 4 metros, fazendo copas de 8.

Dá vontade de afirmar que com invasoras assim, muito dificilmente alguém poderá fazer melhor do que se render!
Vejamos então que espécies mais conhecidas, qual bárbaras, invadiram aquele território:

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Como é óbvio, a culpa é delas!

Sabem por acaso por que razão a caça do cachalote ao largo dos Açores foi indústria promissora deste o Séc XVIII?  Por causa delas, claro.

Inicialmente, só se extraia óleo das baleias e este era exportado para toda a europa como combustível para lamparinas  (não havia electricidade, verdade?). Ora, toda a gente sabe o medo que as mulheres têm do escurinho. Depois veio a moda dos vestidos com espartilhos. E de que é que eram feitos os corpetes, conferindo silhuetas que faziam inveja a qualquer Kate Moss? De ossos dos tadinhos. Com a proliferação da electricidade, menos lamparinas; com o fim da Época Vitoriana e da Belle Époque na Primeira Grande Guerra, desapareceu a moda dos corpetes. Mas mantiveram-se os chapéus-de-sol femininos. Com varetas feitas de quê? Dos ossos dos bichinhos. E depois dos Loucos Anos Vinte? Que mais surgiu além das cigarrilhas nas bocas delas? Os batons e os cosméticos... subprodutos de cachalotes! Toda esta pouca vergonha até a década de oitenta, em que a lecitina de soja substituiu os derivados animais. E por falar em soja, onde ainda se come carne (gordura) de baleia? No Japão. Pelas japonesas...!

Nos Açores, a caça do cachalote foi proibida em 1987 e, hoje em dia na Europa, graças a uma moratória, só a Noruega caça baleias. No Extremo Oriente, sob a encapotada cláusula de "Caça Científica", também o Japão o faz. Abusivamente! Salvo estes dois países, nenhum outro o pratica legalmente para fins comerciais. Saliento ainda que os cachalotes não são da família das baleias, mas dos golfinhos - essas criaturas delicadas e inteligentes chacinadas em prol da futilidade do bem-estar feminino.


Bom, depois da chacina, finalmente a Arte. Deasactivadas as baleeiras, começou uma forma muito particular de arte: o scrimshaw. Vocábulo inglês, com origem não identificada,  significa o entalhe através de incisão ou gravação de pigmentação (tinta) em dentes ou ossos que sobraram dos cachalotes. Os melhores museus específicos desta arte única em todo o mundo encontram-se nos Açores. Obras espantosas no detalhe e na criatividade. Para terem uma ideia, um srimshaw num pequeno dente de cachalote é coisa para custar mais de dois mil e quinhentos euros (falamos de peças ocas com dez por cinco centímetros), mas vi mandíbulas enormes de valor incomensurável. Como estas:






Quem quiser saber mais sobre a caça baleeira, a extracção de todos os produtos e subprodutos do cachalote e, basicamente, ler um grande clássico da literatura mundial, sugiro a leitura do romance de Herman Melville, o famoso "Moby Dick". Atenção, não confundir com os desenhos animados. É uma obra para adultos, sobre o Homem, o Animal e a sua coexistência. A exploração do Homem pelo Homem, do Animal pelo Homem e demais ingressões pela filosofia e sociologia.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Ananases Cozidos

Questão prévia que parece abalar a net (sem falar de menores árvores de fruto): sabem qual é a diferença entre o ananás e o abacaxi? É a mesma que a diferença entre o damasco e o alperce. Ou seja, nenhuma! São da mesma família e subfamília e ambas as designações têm as mesmas espécies e variedades. Até os nomes têm origens ameríndias (um do tupi e o outro do guarani ).

Posto isto e dadas as circunstâncias (expressão usada pela minha excelente professora de português que após raspanete colectivo suavizava assim o tom),  esta questão só se coloca em Portugal (onde mais, em que a fruta deu sempre que falar...?), na medida em que o ananás está associado aos Açores e o abacaxi ao continente centro e sul-americano. Vamos, então saber por que razão.


O ananás, introduzido nos Açores nos princípios do Séc XIX, era considerado uma planta ornamental. Ficava sempre bem num jardim de um excêntrico mais abonado (já vos disse que a sociedade açoriana tem origens em fortes estratificações sociais...?) e a sua cultura para consumo só começou por volta de 1864. Em estufas, para recriar as condições de calor e humidade das suas regiões de origem, tendo sido cognominado como o Rei dos Frutos (lembram-se da coroa do lémure-chefe, em Madagáscar?). Na verdade, este ananás, em condições forçadas e artificiais, acabou por granjear uma notoriedade muito especial junto dos países europeus para onde era exportado (dezassete mil toneladas por ano, diziam à altura os registos...), graças a uma textura mais aveludada, um sabor mais intenso, uma qualidade muito intrínseca.

Muito resumidamente, são cultivados em estufas de vidro e madeira caiada na zona de Fajã de Baixo (junto a Ponta Delgada). O seu cultivo é composto por cinco fases, o fruto é colhido após dois anos e cada planta apenas tem um! Nas primeiras estufas, com temperaturas de 40 cº, são cultivados os bolbos das plantas que frutificaram; nas segundas, são transplantadas as pequenas plantas com folhas; nas terceiras, são queimadas, todas as manhãs durante 9 dias, folhas de bananeira por forma a fazer fumo para que a floração de todas as plantas ocorra em simultâneo, na quarta fase a planta frutifica e na última atinge o Brix adequado (Brix é uma escala de maturação que mede, grosso modo, o nível de açucares por forma a calcular a altura ideal de colheita) para posterior transporte. Ora, cada planta, um fruto; cada fruto, dois anos; tudo em estufas de vidro: percebem agora por que razão os ananases dos Açores são muito mais caros do que os cultivados em  milhares, milhões, de hectares a céu aberto nos países de origem...?


Bom, se o ananás, pela sua quantidade de fibra e sabor agri-doce, cai muito bem juntamente com uma morcela assada açoriana (diferente da do continente), vai muito melhor depois de um belo cozido à portuguesa. Mas por lá, impera o famoso Cozido das Furnas, confeccionado ao vapor (sem água) durante seis horas em caldeirões estanques debaixo da terra nas Caldeiras das Furnas. Ora, quem vai a S. Miguel não pode de lá sair sem experimentar tão famosa iguaria. Pois é, experimentei e detestei! O porco sabia a couve, a vaca a frango, o chouriço a inhame, a batata a nabo, o arroz a feijão, ou seja, todos os ingredientes sabiam ao mesmo. Não gostei e, não tendo sido apenas eu, acho que nenhum local ou continental volta a repetir muitas vezes aquela coisa...


Afinal, não fui eu que disse que tudo aquilo era sempre bom, como também no Céu nem tudo deve ser.