Clara era escura. Não da exacta cor de ébano, mas da tonalidade com que gostamos de sair do estio: suavemente acobreada. Pele lisa, macia, perfumada, sem marcas nem protuberâncias. Olhos vivos, brilhantes e amendoados. Esguia e atlética, não traíra generosas curvas africanas. Nascera em Príncipe, mas cedo foi para Santiago e, mais tarde, para a Holanda. Acabei por conhecê-la em Bremen, Alemanha. Ela e a sua passada larga, desconfiada e acelerada. Falava fluente alemão, sueco e holandês e, solícita, sem saber ao certo porquê, ficou minha intérprete nos delicatessens e pubs mais castiços das ruelas de Schnoor.
Desconcertante, falava sobre tudo. Desde as put and call options nos mercados de commodities, aos míticos e majestáticos veados escoceses de doze hastes; desde a receita de pudim de leite moça que a avô lhe ensinara, à capacidade de carga dos melhores contentores de 40 pés; desde a influência do dadaísmo na literatura e nas artes plásticas, à importância da sacarose de beterraba. Encontrávamo-nos todos os dias às seis e meia, já ao anoitecer. Todos os dias. De segunda a domingo. Mais facilmente perderia o cartão do quarto single do hotel onde residia, do que aquelas seis e meia da tarde com ela; mais rapidamente esqueceria onde estava, por quem ia e ao que vinha, do que aqueles momentos de cumplicidade e devoção. Pontualmente às seis e meia no Scusi.
Até um dia, um único dia, uma terça-feira, em que não me apareceu. No dia seguinte também não. No seguinte ao seguinte, não e não. Nunca mais a vi. Nem desconfiada, nem acelerada, nem passada, nem nada!
Anos mais tarde apareceu no ecrã do meu televisor, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Atenas, gesticulando um evasivo Adeus ao público esfuziante do estádio. Desliguei a televisão e, estranho, inalei um desenxabido Adeus também.












































