Em breve vou submeter-me a uma cirurgia. Dizem-me que é coisa poucochinha, banal até. Já fui operado duas vezes. Uma às amígdalas, quando era moda nos anos setenta. Outra à vesícula, com aqueles buraquinhos que nos fazem na barriga e por onde entram espelhos e fiozinhos, há dez anos. Lembro-me bem desta última. Tinham acabado de me rapar os pelos do peito e abdómen, administrar um comprimido que nunca soube se tinha sido um ansiolítico ou não, quando entrei no bloco operatório e estava um frio que me rasgava os pulmões. Queixei-me mas não ligaram. Ouvi alguém avisar o anestesista que o paciente fumava e abri os olhos com firmeza para mostrar que era ruim de dormir. Em vão: já estava no recobro.
Agora é diferente. Tenho medo. Adiei esta intervenção até ao sofrimento diário, até me convencer do que uma dezena de especialistas já diagnosticara inevitável. Percorri tudo o que era alternativo e só faltava mesmo ter ido ao endireita rogar para que me sarasse a inflamação. Tenho medo de me esquecer das passwords e dos PINs, dos lábios carnudos do meu filho mais novo e do nariz perfeito da minha filha mais velha. Tenho medo que me cortem o milímetro a mais que me deixará incontinente, impotente e demente. Tenho medo de morrer no mesmo hospital onde desapareceu a minha avó. Também de olhos firmes e muito abertos. Tenho medo, raios, sou homem.








