© Paulo Abreu e Lima

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Act 2, Scene 4

Ha, good father,

Thou seest the heavens, as troubled with man’s act,

Threatens his bloody stage. By th' clock ’tis day,

And yet dark night strangles the travelling lamp.

Is ’t night’s predominance or the day’s shame

That darkness does the face of Earth entomb

When living light should kiss it?




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

desculpem

Ao segundo dia do ano fui à faca – tive boas entradas, portanto – e, ao décimo, já ando de um lado para outro, falo com voz colocada, raciocínio feroz e explico equações de segundo grau e respectivos casos notáveis à filha mais velha. Vejo televisão, muita televisão, confecciono refeições gourmet, oiço música, muita música, e até faço bricolage pateta. Claro que terei mais um mês de convalescença com idas diárias ao hospital, não poderei conduzir durante algum tempo e tenho prescrito um punhado de comprimidos diários mas, à parte a perscrutação do cioso tédio, que mais poderia desejar? Nada, diria. Mas não é bem assim. Ainda não consigo ler – sim, ler! – e o problema não é do foro oftalmológico, mas de um outro, anómalo, de quem abre um livro, cheira a loca da lombada, arpeja as folhas e não lhe reconhece um parágrafo, uma ideia, uma metonímia, um oximoro. Não é justo. Está visto que os livros também foram à faca e a coisa correu mal. Excisaram-lhes sobretudo cês, pês e hífenes. E sem direito a convalescenças nem condolências.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A Todos Um Feliz Natal

Aqui no sul, pelo nosso Algarve, as temperaturas oscilam entre os 22ºC ao sol e os 7ºC à noite. Não passa vivalma pela A22 - nem pela N125, para ser exacto.

A todos os meus leitores desejo um Natal quentinho, no calor da Família e no remanso do lar. Partilhado, renascido e intenso nos afectos. Haja saúde.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Euremos a quem...?

O vídeo que se segue foi realizado no âmbito das comemorações dos dez anos de circulação do euro em notas e moedas. A pergunta que se impõe fazer é: haverá motivos para comemorar? E mesmo que hoje, 15 de Dezembro de 2011, atendamos que sim, que só irá reforçar a ideia mágica de uma união monetária, quem será que em Janeiro do próximo ano, altura do início das comemorações, abrirá as garrafas de champagne, americanos ou europeus...?




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

homens tristes

 
Não há nada mais triste que um homem vencido pelas circunstâncias, pelos outros, pela vida. De repente deixa de ser pai porque já não é exemplo para os filhos e de ser avô porque já não faz sorrir os netos. Deixa de manter o emprego e de conseguir outro. De ser empreendedor porque já não dispõe de crédito, de ser sustento, de ter património ou matrimónio. Não há nada mais triste que um homem derrotado e que numa vaia muda passa a coitadinho, a peso pluma e a fardo pesado. Subsistirá sempre a dúvida se teve azar ou se foi fraco; se foi alvo de tramóia ou se já era o elo frágil; se quis ir mais longe e não teve arcaboiço. Quando muito, em surdina, dirão os espertos que foi um pouco de tudo isto, mas o estrépito que lhe implode é tremendo, quase indesculpável – não merece piedade! – e, excessivas vezes, não resiste e afasta-se. Sente como ninguém a culpa bem dentro, mesmo que nunca ninguém à sua frente lhe tenha alvejado. É homem: sai de casa, sai de si e vai morrer longe. Sem que lhe tenham encontrado mesmo ao lado a sua esmagadora presença. E dignidade.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

fazer de tudo para impressionar os mercados

Estou cada vez mais pessimista quanto ao rumo desta Europa - acordos multigovernamentais não carecem de União! Por um lado, tornaram-se indisfarçáveis laivos nacionalistas e independentistas (no caso sempiterno do Reino Unido, por exemplo), por outro começam a emergir éticas calvinistas que incitam à expiação impiedosa dos falhos países incréus do sul. No olho do furacão, valores como solidariedade, ecumenismo, sentido de pertença políticos, são conceitos só aceitáveis em gloriosos anos de prosperidade. Ora, assim, de nada adianta entreter por muito mais tempo os mercados:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

As dívidas não se gerem, pagam-se, estúpido!

É por estas (e por outras) que não concordo muito com aquela ideia bonita da Helena*, que devemos apreciar quem pensa diferente de nós e isso...


* Desculpe-me, Helena, mas acabei mesmo agora de ver o vídeo daquela triste anedota

p.s. «uma questão muito técnica» que até o seu interlocutor deixou a cadeira vazia...
p.p.s. «é preciso não deixar crescer a dívida muito», como ele fez que "só" a duplicou em seis anos

sábado, 3 de dezembro de 2011

Not only for MEC lovers

Numa altura em que andamos depressivos e em que nunca evocamos tanto e tão mal as palavras de Eça de Queirós, ouçamos, vejamos e reparemos bem quem nos tirou melhor a pinta toda:


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fado - Património da Humanidade

Fiapos em série



Parece que se chamava Natália e tinha trinta e poucos anos. Durante o dia, enquanto o marido trabalhava no centro de estudos do atuariado da seguradora, entretinha-se com as lides domésticas dando ordens à mulher-a-dias, ou cozinhando, ela própria, iguarias sofisticadas com que presenteava ao jantar o mais-que-tudo quase todas as noites. Também lia muito Amis – Kingsley e Martin –, poesia e prosa. Vladimir Nabokov e Saul Bellow completavam o inner circle literário que um mestrado em Línguas e Literaturas Contemporâneas lhe compunha espessura para superior análise e aprofundamento. De resto, saía muito pouco. Recebia a companhia diária de uma grande amiga de adolescência, também de letras. Diziam que Natália tinha quase um temor reverencial por ela, ou por aquilo que ela lhe contava e impunha. Lembravam experiências verdadeiramente esfuziantes que tanto a desassossegavam como a alardeavam. Coisas do passado longínquo lá muito delas.

Um dia discutiram forte e feio. A amiga tinha posto em causa a sua aptidão temerária em relação ao marido, saindo de casa sem abrir a porta. Natália foi atrás dela e saltou pela janela. Do sétimo andar. À polícia judiciária, o marido José jurou que nunca tinha conhecido a famosa amiga, a tal que os vizinhos só conheciam pela voz cândida da defunta que, afinal, tinha esquecido de tomar por três vezes consecutivas os doze comprimidos diários deixados carinhosamente todas as manhãs na caixinha laranja do tabuleiro do pequeno-almoço.

No mesmo prédio da Columbano, Antónia levantava-se todos os dias às seis da manhã para lavar escadas, bater tapetes e recolher os caixotes do lixo. Era a mais eficiente e dedicada porteira da avenida, testemunhava embevecido o senhor Manel, dono da esquecida sapataria da cave, a cada residente que o aguentava ouvir lá pelas oito quando abria portas, ou pelas sete da tarde quando baixava a protecção metálica. E era, sem dúvida: orgulhava-se do cargo – eu é que sou a porteira do condomínio (identificava-se assim aos estranhos)! – e, pronta, socorria os moradores mais idosos sempre que um dos elevadores teimava tropeçar entre o primeiro andar e o rés-do-chão. Quarentona, Antónia, conservava aquele andar sinuoso de quem ainda tinha curvas comprometidas de solteira, olhando inane para trás cada vez que lhe pareciam ciciar um piropo da calçada. À parte as teimosias do velhote do último andar que, em vão, se queixava de uns gritos agudos de dor que dizia que ouvia do lado, vindos da casa da porteira, Antónia era a melhor de todas elas, a maior delas, a mãe de todas as porteiras. Até que, uma semana depois do suicídio de Natália, Antónia jazeu no terraço das traseiras, adejada do último andar, do da Porteira.

Assembleia extraordinária do condomínio. Ponto único: Morte de dois moradores do prédio em menos de duas semanas.

Ante a presença em peso de todos os condóminos chocados, perplexos e assustados, um deles engendrou: grades em todas as fracções do prédio! Pesaroso e cabisbaixo, o senhor Manel vociferou: olhe, seu engenheiro, para que conste, a minha cave já tem grades e mais lhe adianto que um senhor do prédio da frente foi o primeiro que se atirou. Do sexto andar para o quintal, há menos de um mês atrás…

Tudo o que acabei de escrever não faria muito sentido – e continua a não fazer – se a médica amiga e vizinha de confiança dos meus pais, octogenária,  não escolhesse criteriosamente as três da madrugada de ontem para se impulsionar uns bons três metros e se abismar do último andar da Praça de Alvalade. A safada!