Mal foi conhecido o galardão, voz amiga aconselhou-me a ler. Comprei e li cerca de pouco mais de metade das 152 páginas. Insistiram para que acabasse de ler o resto, mas perdi o interesse. Não será exactamente esta a expressão, mas é comum começarmos por ler as primeiras cinquenta páginas de uma só vez, desejando que o romance nos prenda algures por aí. Ora, eu li quase 90 e, preso, saltei fora. Um mês depois, talvez porque já tenha acumulado vários abandonos ao longo da vida, não quis subsistir na prática e voltei a pegá-lo no meio da pilha de mortos-vivos que teimosamente mantenho na mesinha de cabeceira. Conclui-lo foi idêntico ao que se faz quando sabemos todas as respostas de um quiz e apenas confirmamos as soluções invertidas na última página. E estavam todas certas.
The Sense of an Ending (o Sentido do Fim), de Julian Barnes, vencedor do Man Booker Prize 2011, é intuitivo nas diferentes lógicas de tempo narrativo e, embora o protagonista idolatre o raciocínio filosófico do amigo, prevalece um certo tipo de memória sensitiva axiomática que velozmente nos remete para o próprio sentido do desenlace. A obsessiva paranóia pelo passado não pode ser confundida com o autor de Papagaio de Flaubert. Esta, sim, uma grande obra, que Madame Bovary – ou o próprio Gustave Flaubert – não veria melindre em causa própria. Embora nela eu não soubesse as respostas e tivesse então de completar a leitura.










