© Paulo Abreu e Lima

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

sem agitações

Mal foi conhecido o galardão, voz amiga aconselhou-me a ler. Comprei e li cerca de pouco mais de metade das 152 páginas. Insistiram para que acabasse de ler o resto, mas perdi o interesse. Não será exactamente esta a expressão, mas é comum começarmos por ler as primeiras cinquenta páginas de uma só vez, desejando que o romance nos prenda algures por aí. Ora, eu li quase 90 e, preso, saltei fora. Um mês depois, talvez porque já tenha acumulado vários abandonos ao longo da vida, não quis subsistir na prática e voltei a pegá-lo no meio da pilha de mortos-vivos que teimosamente mantenho na mesinha de cabeceira. Conclui-lo foi idêntico ao que se faz quando sabemos todas as respostas de um quiz e apenas confirmamos as soluções invertidas na última página. E estavam todas certas.

The Sense of an Ending (o Sentido do Fim), de Julian Barnes, vencedor do Man Booker Prize 2011, é intuitivo nas diferentes lógicas de tempo narrativo e, embora o protagonista idolatre o raciocínio filosófico do amigo, prevalece um certo tipo de memória sensitiva axiomática que velozmente nos remete para o próprio sentido do desenlace. A obsessiva paranóia pelo passado não pode ser confundida com o autor de Papagaio de Flaubert. Esta, sim, uma grande obra, que Madame Bovary – ou o próprio Gustave Flaubert – não veria melindre em causa própria. Embora nela eu não soubesse as respostas e tivesse então de completar a leitura.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A luz gélida da ausência

Percorria a grande cidade. Toda iluminada por um clarão glaciar que se estampava nos prédios e não marcava sombra pela calçada fria, vazia de gente, de animais, de mendigos. Nenhum automóvel, autocarro, moto, bicicleta, skate pelas ruas. Um silêncio ameaçador – nada, mas mesmo nada bulia –, e cáustico, vagava apartamentos, blocos de betão armado, fachadas, portas, empenas, frestas e vidraças azuladas. As poucas árvores pareciam feitas de plástico maleável, os relvados de tapetes sintéticos verde-garrafa e o pequeno lago de espelho acrílico intenso. Era recorrente e medonha a imensa maquete que percorria naquela manhã de domingo. Num registo cinematográfico, Damiel de Der Himmel über Berlin encontraria a sua trapezista feita em mármore fria caída ao lado dos cisnes deslizantes inertes de carbono. "A grande cidade é uma imensidão de pedra dura e nua", pensou.

Ao fim do dia voltou à serra e encontrou esferovite esgravatado em vez de neve, plasticina em forma de rocha, papel-prata esterilizado como nuvens, pequenos líquenes de borracha e um uivo metálico que sugeria vento. "Muito bom, tudo como dantes, mas muito mais macio", concluiu todo ele níveo. Em  fibra de vidro.






domingo, 15 de janeiro de 2012

passa e não fica

Tempos riscados ostentam pontos perdidos
Como luzes velozes soltas no espaço;
Indiferentes, lamentam actos reprimidos
Que se incendeiam em  cada teu passo.
E sulcam baldios na lua.
E lavram pousios em Marte.
A cada despedida tua
São calma que parte

Sem arte


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Act 2, Scene 4

Ha, good father,

Thou seest the heavens, as troubled with man’s act,

Threatens his bloody stage. By th' clock ’tis day,

And yet dark night strangles the travelling lamp.

Is ’t night’s predominance or the day’s shame

That darkness does the face of Earth entomb

When living light should kiss it?




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

desculpem

Ao segundo dia do ano fui à faca – tive boas entradas, portanto – e, ao décimo, já ando de um lado para outro, falo com voz colocada, raciocínio feroz e explico equações de segundo grau e respectivos casos notáveis à filha mais velha. Vejo televisão, muita televisão, confecciono refeições gourmet, oiço música, muita música, e até faço bricolage pateta. Claro que terei mais um mês de convalescença com idas diárias ao hospital, não poderei conduzir durante algum tempo e tenho prescrito um punhado de comprimidos diários mas, à parte a perscrutação do cioso tédio, que mais poderia desejar? Nada, diria. Mas não é bem assim. Ainda não consigo ler – sim, ler! – e o problema não é do foro oftalmológico, mas de um outro, anómalo, de quem abre um livro, cheira a loca da lombada, arpeja as folhas e não lhe reconhece um parágrafo, uma ideia, uma metonímia, um oximoro. Não é justo. Está visto que os livros também foram à faca e a coisa correu mal. Excisaram-lhes sobretudo cês, pês e hífenes. E sem direito a convalescenças nem condolências.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A Todos Um Feliz Natal

Aqui no sul, pelo nosso Algarve, as temperaturas oscilam entre os 22ºC ao sol e os 7ºC à noite. Não passa vivalma pela A22 - nem pela N125, para ser exacto.

A todos os meus leitores desejo um Natal quentinho, no calor da Família e no remanso do lar. Partilhado, renascido e intenso nos afectos. Haja saúde.




quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Euremos a quem...?

O vídeo que se segue foi realizado no âmbito das comemorações dos dez anos de circulação do euro em notas e moedas. A pergunta que se impõe fazer é: haverá motivos para comemorar? E mesmo que hoje, 15 de Dezembro de 2011, atendamos que sim, que só irá reforçar a ideia mágica de uma união monetária, quem será que em Janeiro do próximo ano, altura do início das comemorações, abrirá as garrafas de champagne, americanos ou europeus...?




segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

homens tristes

 
Não há nada mais triste que um homem vencido pelas circunstâncias, pelos outros, pela vida. De repente deixa de ser pai porque já não é exemplo para os filhos e de ser avô porque já não faz sorrir os netos. Deixa de manter o emprego e de conseguir outro. De ser empreendedor porque já não dispõe de crédito, de ser sustento, de ter património ou matrimónio. Não há nada mais triste que um homem derrotado e que numa vaia muda passa a coitadinho, a peso pluma e a fardo pesado. Subsistirá sempre a dúvida se teve azar ou se foi fraco; se foi alvo de tramóia ou se já era o elo frágil; se quis ir mais longe e não teve arcaboiço. Quando muito, em surdina, dirão os espertos que foi um pouco de tudo isto, mas o estrépito que lhe implode é tremendo, quase indesculpável – não merece piedade! – e, excessivas vezes, não resiste e afasta-se. Sente como ninguém a culpa bem dentro, mesmo que nunca ninguém à sua frente lhe tenha alvejado. É homem: sai de casa, sai de si e vai morrer longe. Sem que lhe tenham encontrado mesmo ao lado a sua esmagadora presença. E dignidade.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

fazer de tudo para impressionar os mercados

Estou cada vez mais pessimista quanto ao rumo desta Europa - acordos multigovernamentais não carecem de União! Por um lado, tornaram-se indisfarçáveis laivos nacionalistas e independentistas (no caso sempiterno do Reino Unido, por exemplo), por outro começam a emergir éticas calvinistas que incitam à expiação impiedosa dos falhos países incréus do sul. No olho do furacão, valores como solidariedade, ecumenismo, sentido de pertença políticos, são conceitos só aceitáveis em gloriosos anos de prosperidade. Ora, assim, de nada adianta entreter por muito mais tempo os mercados:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

As dívidas não se gerem, pagam-se, estúpido!

É por estas (e por outras) que não concordo muito com aquela ideia bonita da Helena*, que devemos apreciar quem pensa diferente de nós e isso...


* Desculpe-me, Helena, mas acabei mesmo agora de ver o vídeo daquela triste anedota

p.s. «uma questão muito técnica» que até o seu interlocutor deixou a cadeira vazia...
p.p.s. «é preciso não deixar crescer a dívida muito», como ele fez que "só" a duplicou em seis anos

sábado, 3 de dezembro de 2011

Not only for MEC lovers

Numa altura em que andamos depressivos e em que nunca evocamos tanto e tão mal as palavras de Eça de Queirós, ouçamos, vejamos e reparemos bem quem nos tirou melhor a pinta toda: