© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 15 de março de 2012

desta luz que até cega

[Aos olhos de um incauto europeu do norte, a aproximação à Portela constitui ensaio último. Ante-estreia da felicidade. Aos meus, aquela viragem à direita sobre a ponte garrida do imenso Tejo aviva o cheiro a casa, a peixe grelhado com sabor atlântico, a café curto e robusto com graça africana, a canela do Ceilão e a caril de Damão. A luz de Lisboa é enorme, junta todos os continentes, mas deixou fugir a parte mais alegre e recôndita da alma com quem dela se ausentou.]

Gaivota by Amália Rodrigues on Grooveshark

sábado, 3 de março de 2012

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

carnaval em portugal (ii)

Trágico mesmo é ver brasileiras despidas a dançar o samba. Ficam todas portuguesas.

carnaval em portugal (i)

Não me incomoda nada os barbudos que insistem vestir de mulher. Já as mulheres que se despem em matrafonas...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

sem agitações

Mal foi conhecido o galardão, voz amiga aconselhou-me a ler. Comprei e li cerca de pouco mais de metade das 152 páginas. Insistiram para que acabasse de ler o resto, mas perdi o interesse. Não será exactamente esta a expressão, mas é comum começarmos por ler as primeiras cinquenta páginas de uma só vez, desejando que o romance nos prenda algures por aí. Ora, eu li quase 90 e, preso, saltei fora. Um mês depois, talvez porque já tenha acumulado vários abandonos ao longo da vida, não quis subsistir na prática e voltei a pegá-lo no meio da pilha de mortos-vivos que teimosamente mantenho na mesinha de cabeceira. Conclui-lo foi idêntico ao que se faz quando sabemos todas as respostas de um quiz e apenas confirmamos as soluções invertidas na última página. E estavam todas certas.

The Sense of an Ending (o Sentido do Fim), de Julian Barnes, vencedor do Man Booker Prize 2011, é intuitivo nas diferentes lógicas de tempo narrativo e, embora o protagonista idolatre o raciocínio filosófico do amigo, prevalece um certo tipo de memória sensitiva axiomática que velozmente nos remete para o próprio sentido do desenlace. A obsessiva paranóia pelo passado não pode ser confundida com o autor de Papagaio de Flaubert. Esta, sim, uma grande obra, que Madame Bovary – ou o próprio Gustave Flaubert – não veria melindre em causa própria. Embora nela eu não soubesse as respostas e tivesse então de completar a leitura.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A luz gélida da ausência

Percorria a grande cidade. Toda iluminada por um clarão glaciar que se estampava nos prédios e não marcava sombra pela calçada fria, vazia de gente, de animais, de mendigos. Nenhum automóvel, autocarro, moto, bicicleta, skate pelas ruas. Um silêncio ameaçador – nada, mas mesmo nada bulia –, e cáustico, vagava apartamentos, blocos de betão armado, fachadas, portas, empenas, frestas e vidraças azuladas. As poucas árvores pareciam feitas de plástico maleável, os relvados de tapetes sintéticos verde-garrafa e o pequeno lago de espelho acrílico intenso. Era recorrente e medonha a imensa maquete que percorria naquela manhã de domingo. Num registo cinematográfico, Damiel de Der Himmel über Berlin encontraria a sua trapezista feita em mármore fria caída ao lado dos cisnes deslizantes inertes de carbono. "A grande cidade é uma imensidão de pedra dura e nua", pensou.

Ao fim do dia voltou à serra e encontrou esferovite esgravatado em vez de neve, plasticina em forma de rocha, papel-prata esterilizado como nuvens, pequenos líquenes de borracha e um uivo metálico que sugeria vento. "Muito bom, tudo como dantes, mas muito mais macio", concluiu todo ele níveo. Em  fibra de vidro.






domingo, 15 de janeiro de 2012

passa e não fica

Tempos riscados ostentam pontos perdidos
Como luzes velozes soltas no espaço;
Indiferentes, lamentam actos reprimidos
Que se incendeiam em  cada teu passo.
E sulcam baldios na lua.
E lavram pousios em Marte.
A cada despedida tua
São calma que parte

Sem arte


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Act 2, Scene 4

Ha, good father,

Thou seest the heavens, as troubled with man’s act,

Threatens his bloody stage. By th' clock ’tis day,

And yet dark night strangles the travelling lamp.

Is ’t night’s predominance or the day’s shame

That darkness does the face of Earth entomb

When living light should kiss it?




quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

desculpem

Ao segundo dia do ano fui à faca – tive boas entradas, portanto – e, ao décimo, já ando de um lado para outro, falo com voz colocada, raciocínio feroz e explico equações de segundo grau e respectivos casos notáveis à filha mais velha. Vejo televisão, muita televisão, confecciono refeições gourmet, oiço música, muita música, e até faço bricolage pateta. Claro que terei mais um mês de convalescença com idas diárias ao hospital, não poderei conduzir durante algum tempo e tenho prescrito um punhado de comprimidos diários mas, à parte a perscrutação do cioso tédio, que mais poderia desejar? Nada, diria. Mas não é bem assim. Ainda não consigo ler – sim, ler! – e o problema não é do foro oftalmológico, mas de um outro, anómalo, de quem abre um livro, cheira a loca da lombada, arpeja as folhas e não lhe reconhece um parágrafo, uma ideia, uma metonímia, um oximoro. Não é justo. Está visto que os livros também foram à faca e a coisa correu mal. Excisaram-lhes sobretudo cês, pês e hífenes. E sem direito a convalescenças nem condolências.