Quando era pirralho, desesperava os meus pais e tios com rajadas de perguntas sobre o sol, o céu e as estrelas, entre outras sobre a natureza em geral e os dinossáurios em particular. Curiosamente, era o meu tio Luís quem mais se empolgava com as minhas pertinentes questões bio-astrofísicas. Tinha vivido uma vida intensa no Congo Belga, numa multinacional, pelo que selva, répteis e céus africanos era assunto sério, digno de chamada a primeiro plano, anterior às inúmeras guerras facínoras que por lá presenciou e que por cá o traumatizou, até ao dia de sua morte eivado por gânglios linfáticos.
Ainda hoje preservo extensa correspondência entre nós, desde a minha primária até ao meu secundário, altura em que veio definitivamente jazer ao seu país que tão mal o tinha tratado. Do alto do seu metro e oitenta e picos, mantinha uma figura impecável. Cabelo branco, suavemente azulado, estirado para trás com ajuda de brilhantina francesa tenuemente perfumada que importou durante décadas. Cútis ligeiramente queimada por África. Pernas e pés longos, à holandês. Sem surpresa, era alvo de fulminante interesse por parte das senhoras mais púdicas da alta burguesia da metrópole, cada vez que por lá se deslocava e permanecia dois meses por ano com a sua legítima, minha tia, Tia Ritinha. Era um homem letrado pela vida, e pela faculdade de arquitectura de Bruxelas, profusamente conhecedor de todo o tipo de volumes e de planos, embora nunca tivesse desdenhado outro tipo de curvas.
«Léopoldville, 29 de Setembro de 1978
Mui estimado e querido sobrinho, (…) em boa verdade o céu não tem cor, foi pintado pelo mais escuro breu obscurantista. Se durante o dia vês azul, é devido à refracção da luz branca solar nas moléculas da atmosfera, onde predominam os raios azuis e turquesa do arco-íris. A camada da atmosfera é nossa amiga, funciona como um prisma de quartzo, idêntico aos que encontraste com esmero na quinta, e decompõe a luz branca nas sete cores. Quando te levantas e vais para o colégio, ou quando voltas depois do Pôr-do-sol, o horizonte é vermelho-laranja porque o sol esboça uma tangente sobre a Terra e os seus raios percorrem mais espaço e mais partículas, desviando para cima os azuis, encaminhando para os teus olhos aquelas cores maravilhosas de fogo ardente quente. A atmosfera e as nuvens cuidam de todos nós, o Sol é a fonte da Vida, as estrelas observam-nos intermitentemente durante a noite, mas o céu, esse é macaco perigoso, imenso, escuro e egoísta (...)»
Se assim for, espero que se encontre em paz. Pelo menos com o gorila.
(Exif: ISO 100, D.F. 300 mm, Abertura f/5,6, T.E 1/160s)