sábado, 16 de junho de 2012
sexta-feira, 15 de junho de 2012
E se nos entendêssemos primeiro quanto ao significado das palavras
… antes de ratificar outros desacordos?
Muito longe de pretender ser uma espécie de filólogo ou linguista, custa-me observar a utilização maciça - principalmente por agentes ditos culturais - do verbo "despoletar" querendo significar precisamente o oposto. A palavra deriva de "espoleta" (do italiano, spoletta), peça de um engenho explosivo (granada, cartucho) que, ao fazer faísca, faz detonar o engenho. Ora se o "despoletamos", retiramos a espoleta, o disparador, fazendo com que o processo não se inicie. Se o "espoletamos", o sentido é contrário: podemos desencadear o processo de explosão.
Em termos figurados, despoletar significa anular, retirar aquilo que permite uma acção e espoletar significa atiçar, deflagrar o que desencadeia a acção. Esta pequena explicação tem lógica e é facilmente entendível, só que não é isso que ouvimos e lemos por aí. Em boa verdade, ouvimos e lemos, por exemplo, «determinado acontecimento despoletou uma série de outros acontecimentos», sendo esta a "norma" tida por vigente.
O erro é grave? Não, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (Editorial Verbo), o Grande Dicionário Língua Portuguesa (Porto Editora) e o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (Círculo de Leitores) advogam o que acabei de escrever e... o seu contrário. Já o Ciberdúvidas é acérrimo defensor deste entendimento.
Bem sei que a Língua é viva, mas não a cria (de crer) ensandecida nem feérica. Entendam-se!
Post reeditado
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quinta-feira, 14 de junho de 2012
Euro 2012 (iii)
Não consigo criticar Cristiano Ronaldo. Ainda por cima quando acabo de ler estes latidos de Kahn. Para aqueles que nunca jogaram futebol, garanto, com alguma pesporrência, que não há nada mais cruel para um jogador do que ver-se isolado diante a mancha de um guarda-redes adiantado. Ainda hoje sonho com isso e deixei de ser federado há mil anos - e, claro, não fui nadica de nada comparado com Ronaldo. Muitos pensam que uma comitiva de psicólogos clínicos ajudaria. Concordo: todos eles passariam finalmente a conhecer e a estudar a miríade de pensamentos e emoções que ocorrem naqueles dois segundos.
Dos que crêem que esta selecção é a pior dos últimos doze anos, também discordo. Primeiro, geriu-se muito mal as acrimónias com Ricardo Carvalho e com Bosingwa (prescindindo à partida de um campeão de Espanha e de um campeão da Europa). Segundo, quase todos eles já foram campeões nas suas actuais ou anteriores equipas. Então o que é que falta? Uma equipa. Uma equipa sem fantasmas e... com outra tranquilidade.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Euro 2012 (ii)
Miguel Sousa Tavares é um excelente entrevistador. Provido de aguda perspicácia e de ágil visão raios X, leva ao desespero, quase à forca, qualquer político que lhe pie mais fino. Em boa verdade, ele e Margarida Marante foram "os" entrevistadores nas idas décadas de 80 e 90. Mais tarde, depois de umas incursões pelo Sahara, reaparece com um dos mais vendidos best-sellers portugueses de sempre, Equador. E depois com Rio das Flores. Livros injustamente esmiuçados e injuriados pelo monóculo clínico de Vasco Pulido Valente – que vindicava grosseiras imprecisões históricas, sem polimento algum.
Como comentador, MST é de segunda linha e de segunda água. O seu ar blasé condiz na perfeição com a sua impreparação sobre os mais díspares temas e factos. Ontem, na SIC, apelidou mais uma vez, todos aqueles que apoiam a selecção de "patrioteiros", explicando que não se deve sofrer de tais afrontamentos… Ora, eu até concordo. Ir longe no Euro em nada contribui para nos mantermos na zona euro; o futebol não passa de uma sucessão de jogos e não será este o verdadeiro campeonato que Portugal terá de ganhar. Só não entendo tê-lo já visto de olhos lacrimejantes e vidrados, pálpebras inchadas pesadas e beiços caídos, todas as segundas de manhã, por cada vez que o FêQuêPê num ganhaba no Dragon…
segunda-feira, 11 de junho de 2012
sábado, 9 de junho de 2012
Euro 2012 (i)
É sintomático, só ultrapassado o temor reverencial é que passamos a jogar melhor. Sempre demasiado tarde. Isto aplica-se aos energúmenos comentadores da rtp: primeiro era a «poderosíssima alemanha», depois a «alemanha desorientada». É uma "coisa" que se lhes dá.
'tadinho do Pepe, teve de responder à pergunta "o que sentiu quando o seu remate foi à barra?" Se fosse a ele teria respondido... (esqueçam)
'tadinho do Pepe, teve de responder à pergunta "o que sentiu quando o seu remate foi à barra?" Se fosse a ele teria respondido... (esqueçam)
sexta-feira, 8 de junho de 2012
Euro 2012 - memorando
A nossa selecção é capaz de tudo. Dos mais sublimes vexames às mais piedosas glórias. Excepto ganhar um só campeonatozinho. Será sempre nesta perspectiva que a partir de amanhã os nossos jogos deverão ser encarados, sob pena de deixarmos de ser este alegrete à beira-mar soterrado. Vencer o Europeu seria impensável. Escabroso. É que era só mesmo o que mais nos faltava aguentar mais umas jarras condoídas, sensíveis e piegas… Vá, andor!
quarta-feira, 6 de junho de 2012
O céu do meu tio Luís
Quando era pirralho, desesperava os meus pais e tios com rajadas de perguntas sobre o sol, o céu e as estrelas, entre outras sobre a natureza em geral e os dinossáurios em particular. Curiosamente, era o meu tio Luís quem mais se empolgava com as minhas pertinentes questões bio-astrofísicas. Tinha vivido uma vida intensa no Congo Belga, numa multinacional, pelo que selva, répteis e céus africanos era assunto sério, digno de chamada a primeiro plano, anterior às inúmeras guerras facínoras que por lá presenciou e que por cá o traumatizou, até ao dia de sua morte eivado por gânglios linfáticos.
Ainda hoje preservo extensa correspondência entre nós, desde a minha primária até ao meu secundário, altura em que veio definitivamente jazer ao seu país que tão mal o tinha tratado. Do alto do seu metro e oitenta e picos, mantinha uma figura impecável. Cabelo branco, suavemente azulado, estirado para trás com ajuda de brilhantina francesa tenuemente perfumada que importou durante décadas. Cútis ligeiramente queimada por África. Pernas e pés longos, à holandês. Sem surpresa, era alvo de fulminante interesse por parte das senhoras mais púdicas da alta burguesia da metrópole, cada vez que por lá se deslocava e permanecia dois meses por ano com a sua legítima, minha tia, Tia Ritinha. Era um homem letrado pela vida, e pela faculdade de arquitectura de Bruxelas, profusamente conhecedor de todo o tipo de volumes e de planos, embora nunca tivesse desdenhado outro tipo de curvas.
«Léopoldville, 29 de Setembro de 1978
Mui estimado e querido sobrinho, (…) em boa verdade o céu não tem cor, foi pintado pelo mais escuro breu obscurantista. Se durante o dia vês azul, é devido à refracção da luz branca solar nas moléculas da atmosfera, onde predominam os raios azuis e turquesa do arco-íris. A camada da atmosfera é nossa amiga, funciona como um prisma de quartzo, idêntico aos que encontraste com esmero na quinta, e decompõe a luz branca nas sete cores. Quando te levantas e vais para o colégio, ou quando voltas depois do Pôr-do-sol, o horizonte é vermelho-laranja porque o sol esboça uma tangente sobre a Terra e os seus raios percorrem mais espaço e mais partículas, desviando para cima os azuis, encaminhando para os teus olhos aquelas cores maravilhosas de fogo ardente quente. A atmosfera e as nuvens cuidam de todos nós, o Sol é a fonte da Vida, as estrelas observam-nos intermitentemente durante a noite, mas o céu, esse é macaco perigoso, imenso, escuro e egoísta (...)»
Se assim for, espero que se encontre em paz. Pelo menos com o gorila.
(Exif: ISO 100, D.F. 300 mm, Abertura f/5,6, T.E 1/160s)
sábado, 2 de junho de 2012
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Passo e não fico, como o universo
Nos meus momentos de desespero não tomo ansiolíticos, não fumo três cigarros seguidos, nem sorvo um whisky triplo sem gelo. Saio de casa, olho a pique o zénite e espreito o céu. Se conseguir ver as estrelas, sei que muitas delas já morreram, ou já não brilham como agora as vejo há milhões de anos. Mas também sei que muitas entretanto nasceram e alguma partícula de pó meu, algures, há-de lá parar. Como o universo, não fico, mas permaneço.
[ a fotografia seguinte é de longa exposição, tem uns milhares de segundos, não é photoshopada - como nenhuma minha que por aqui publico -, mas apenas acompanha o rasto das estrelas mortas tal como, mesmo há pouquinho, o meu desespero...]
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domingo, 27 de maio de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
isto não tem nada de anti-monárquico ou coisa que o valha
Parece que hoje, Sua Alteza Real o Senhor Dom Duarte, Chefe da Casa Real Portuguesa, Duque de Bragança, faz sessenta e sete anos. Talvez esteja bem conservado, mas há mais de trinta anos que lhe dou a mesma idade. Sessenta e sete anos, por exemplo.
segunda-feira, 7 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
Nem verde, nem azul, a lua d'hoje é da Virgínia
(ISO 100, Abertura f/9, Velocidade 1/160s, 400mm)
A lua (dizem os ingleses)
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa,
De sentir e de pensar.
É feita de queijo verde.
Por mais que pense mil vezes
Sempre uma ideia se perde.
E era essa, era, era essa,
Que haveria de salvar
Minha alma da dor da pressa,
De sentir e de pensar.
Sim, todos os meus reveses
São de estar sentir pensando...
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando
A Lua (dizem os ingleses)
É azul de quando em quando
Fernando Pessoa, "A Lua (dizem os ingleses)", não datado
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lua
terça-feira, 1 de maio de 2012
Hoje
Nestes últimos dias não compreendi muito bem quem, erguendo merecidas palavras de homenagem, fez sempre a ressalva «embora eu não seja da mesma área política, o Miguel foi uma enorme pessoa (…)». Não entendo esta reserva, nem a necessidade de a fazer. Um homem como Miguel Portas não carece deste tipo de cautelas, um Homem como Miguel Portas é muito maior do que a sua própria dimensão política – por mais apreciável e valorosa que tenha realmente sido. Aliás, acho que nunca me senti tão de esquerda como na semana transata. O seu legado político é a melhor parte de Abril. Conjuga determinação com tolerância; combatividade com respeito; igualdade com profunda consideração pela diferença. Respectiva e concomitantemente. Fossem todos os políticos uma décima parte do Miguel e Decência seria o melhor epíteto para política. Mas hoje dirijo-me especialmente à sua família, à Helena, por quem nutro uma desmedida admiração: grande parte daquilo que o Miguel foi é da vossa responsabilidade. Como pais e como irmãos. Assim como grande parte do que os filhos do Miguel serão é da responsabilidade do seu pai. Sois uma família exemplar, alicerçada em inalienáveis valores absolutos, que privilegia e enaltece qualquer português. A outra parte é intrinsecamente do Miguel. E na hora da sua despedida, ao dar indicações muito precisas de como queria ser lembrado e homenageado, mitigou de certa forma o desespero e a angústia dos seus: façam isto e onde quer que esteja, estarei feliz. Ao amor correspondeu com amor.
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