Devia ter uns 20 anos, acabara a licenciatura e preparava-me para o MBA. Precisava de fazer uns testes de inglês, o TOEFL, e entusiasmava-me a ideia de prepará-los com uma londrina, nascida em Johannesburg, que não falava um olaré de Português. Talvez já tenha escrito, mas sempre me seduziram mulheres maduras (nem todas, muitas expiram verdes), experientes e tolerantes para com meninos petulantes e convencidos. Como eu era. Aliás, se há idade para ser-se convencido, impiedoso e, lá está, petulante, será por aí, pelos 20 – antes disso passaríamos por parvos e depois, por estúpidos.
Alesandra tinha 25 anos de corpo e 35 de cabeça. Loirinha, branquinha, olhos castanho-clarinhos hazel, era uma activa contestatária do regime do apartheid e, sempre que surtia ensejo durante a docência, arrasava o malfadado regime segregativo, atentatório dos direitos humanos, encabeçado à altura por Pieter Botha. Já eu, sempre que surtia ensejo (convencido, impiedoso e petulante), permanecia mais militante no fervor da curvatura da barriga da sua perna por debaixo da mesa, desafiando o frenesim do toque fortuito.
Tínhamos quatro semanas para preparar os testes e à terceira, já balanceados, Alesandra interrompe abruptamente a explicação. Tudo certo, esperava mais uma dissertação sobre a distribuição geográfica das tribos Zulus e da sua influência nos bantustões:
- Paulo!
- Sim…
- Se uma pessoa está interessada em alguém, não perde nada em lho dizer, não achas?
Era Verão, uma vaga de calor tinha baixado sobre a cidade. Ora, um ataque de rubor na face de um bantu seria coisa despicienda, quando muito dilataria os vasos oculares e o semblante manter-se-ia impávido ou pouco mais vivo. Já se seguido de suores em cascata pela testa e fronte, era a morte do preto. Claro que estou a ser politicamente incorrecto: Alesandra estimava bantus, logo, quem se viu a titubear gaguejos foi aqui o caucasiano:
- Sim, claro, claro… não se perde nada em dizer…
Alesandra era uma mulher madura, sensata e tolerante. Há uns meses encontrei-a no FB (zero amigos em comum), mas nunca a perdi da memória. Ensinou-me muitas coisas. Uma das mais importantes foi que não existe frontalidade sem condescendência. Outra, que não se perde alguém que nunca tenha sido nosso. Ela foi minha. E, como na maioria das minhas memórias, orgulho-me disso.











