© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Malèna

Muitas vezes dou por mim na pele de Renato, o imberbe adolescente do conto de Luciano Vincenzoni, teimando queimar etapas; almejando chegar mais próximo do que ainda não lhe é devido, nem merecido, ou ajustado - dizem. Aí, cairei da bicicleta, deixarei de ser mais um timorato e sairei livre. De mim.

Malena (End Titles) by Ennio Morricone on Grooveshark

domingo, 1 de julho de 2012

tarefa fátua

Ontem encontrei-me com os meus catorze anos. Apareceram-me lampeiros a meio do dia de trabalho, e eu que já não me lembrava deles. Apareceram-me pela mão da minha memorável colega de carteira, a Ana Clara, e eu que já não me lembrava dela.

A Ana Clara tinha dezassete anos numa turma de miúdos de catorze ou quinze. A turma era gaiata, estudiosa e competitiva. A Ana Clara era bonita e namoradeira. A turma vestia desportivo e jogava voleibol. A Ana Clara vestia sensual e jogava aos amores. A mãe estava no negócio da beleza e ela era uma excelente montra: longa madeixa loira, pele mate, perfeita de fond et de teint, malares esculpidos e olhos de tísica, com uma expressão ligeiramente bovina, que a rapariga era burrinha e com poucos entusiasmos para além da aparência e das lacerações do coração.

O seu universo estava cheio de paixões, protestos de amor eterno, crises sentimentais, rupturas encharcadas em lágrimas, ameaças de suicídio, num permanente novelo. Precisava, naturalmente, de um confidente, papel bem difícil de preencher em casting de catraios. Coube-me a mim por mor de três qualificações essenciais: altura, talento para primeiros socorros e a superior experiência de vida conferida pela leitura precoce de romances oitocentistas. Que a Ana Clara nada devia a Eugénie Grandet.

E assim o ano dos meus catorze anos correu dramático e instrutivo. Entretanto, a vida fluiu e a singularidade que nos aproximara perdeu-se em percursos oblíquos. Restava-me apenas a impressão de que casara cedo, obviamente grávida, e teria mudado para os subúrbios.

Até hoje, que me entrou pela porta. Sucessivos e avassaladores amores depois, com bastas traições de faca e alguidar, depressões e químicos a granel, a morte várias vezes próxima, uma miríade de intervenções e internamentos, esta Ana Clara é um embrulho vazio. Já não mora ninguém dentro do olhar vago da poupée de cire em que se tornou. Curiosamente, a degradação mental não foi acompanhada pelo degenerar físico. Talvez com a idade. Agora, é uma concha bonita e perfeitamente maquilhada, que, à saída, se insinua ao nosso velho porteiro gordalhufo. Ele encolhe a barriga e impa pressuroso e mesureiro, enquanto, ao lado, a companheira comprime a beiça e ajeita mentalmente a adaga na liga. Em segundos, compôs-se um triângulo de ardores. Há coisas que nunca mudam. Malheureuse Eugénie, do alto dos meus catorze anos te digo: há mais na vida do que sentir e o destino não existe.

reeditado

sábado, 30 de junho de 2012

a geração marc johnson

No seu espelho, vê um homme du monde. Influente, abastado, movendo-se nas rodinhas certas. Um connoisseur de restaurantes, vinhos, máquinas potentes, "gajas" e essoutros adornos que lhe enfeitam o aplomb. Tem convicções, claro: a sua geração produziu mais convictos por milímetro quadrado que ratos o navio. Todos francófonos, por defeito. Excessivement ennuyeux, à Steinbroken. Chatos que nem hóstias, à moi.

Um tipo perfeitamente tolerável, em doses profiláticas, por efeito vacina. Em certos domínios e em particulares coutadas, quase inevitável: vem com a mobília. Sobretudo com a cadeira magistral. O que hoje me caiu em penitência, no entanto, é um híbrido: foi cruzado com porteira. Sabe rigorosamente tudo sobre toda a gente, do primeiro ministro ao último moicano. Tudo, no caso, é o pormenor insalubre, o mexerico fica-entre-nós, o guloso não-devia-contar-isto, o impante ninguém-sabe-mas. Seguro em fontes credíveis, fontes em primeiro ou segundo grau de proximidade, que o biltre conhece meio mundo e a outra metade não tem que conhecer.

O prazer que retira da bisbilhotice é quase físico. Estremece na gargalhadinha púbere, os olhos reluzentes de gozo, enquanto pela boca móbil de garoupa lhe escorre sumo de malícia, com um soupçon (hélas! a francesice é altamente contagiosa) de peçonha. Vibrante de picaresco revisteiro, invade o interlocutor com palmadinhas nas costas inundadas de cumplicidade balofa enquanto debita adultérios sem graça e intrigas rascas. É constitucionalmente impossível fazer-lhe entender que a maledicência não é a oitava arte. Plus ça devient vieux plus ça devient con...

reeditado

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Alesandra

Devia ter uns 20 anos, acabara a licenciatura e preparava-me para o MBA. Precisava de fazer uns testes de inglês, o TOEFL, e entusiasmava-me a ideia de prepará-los com uma londrina, nascida em Johannesburg, que não falava um olaré de Português. Talvez já tenha escrito, mas sempre me seduziram mulheres maduras (nem todas, muitas expiram verdes), experientes e tolerantes para com meninos petulantes e convencidos. Como eu era. Aliás, se há idade para ser-se convencido, impiedoso e, lá está, petulante, será por aí, pelos 20 – antes disso passaríamos por parvos e depois,  por estúpidos.

Alesandra tinha 25 anos de corpo e 35 de cabeça. Loirinha, branquinha, olhos castanho-clarinhos hazel, era uma activa contestatária do regime do apartheid e, sempre que surtia ensejo durante a docência, arrasava o malfadado regime segregativo, atentatório dos direitos humanos, encabeçado à altura por Pieter Botha. Já eu, sempre que surtia ensejo (convencido, impiedoso e petulante), permanecia mais militante no fervor da curvatura da barriga da sua perna por debaixo da mesa, desafiando o frenesim do toque fortuito.

Tínhamos quatro semanas para preparar os testes e à terceira, já balanceados, Alesandra interrompe abruptamente a explicação. Tudo certo, esperava mais uma dissertação sobre a distribuição geográfica das tribos Zulus e da sua influência nos bantustões:
- Paulo!
- Sim…
- Se uma pessoa está interessada em alguém, não perde nada em lho dizer, não achas?

Era Verão, uma vaga de calor tinha baixado sobre a cidade. Ora, um ataque de rubor na face de um bantu seria coisa despicienda, quando muito dilataria os vasos oculares e o semblante manter-se-ia impávido ou pouco mais vivo. Já se seguido de suores em cascata pela testa e fronte, era a morte do preto. Claro que estou a ser politicamente incorrecto: Alesandra estimava bantus, logo, quem se viu a titubear gaguejos foi aqui o caucasiano:
- Sim, claro, claro… não se perde nada em dizer…

Alesandra era uma mulher madura, sensata e tolerante. Há uns meses encontrei-a no FB (zero amigos em comum), mas nunca a perdi da memória. Ensinou-me muitas coisas. Uma das mais importantes foi que não existe frontalidade sem condescendência. Outra, que não se perde alguém que nunca tenha sido nosso. Ela foi minha. E, como na maioria das minhas memórias, orgulho-me disso.
La valse d'Amélie (piano) by Yann Tiersen on Grooveshark


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Euro 2012 (iv)

Está tudo bem. Vá, agora andor, 'bora fazer pela vida e... bazar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

mãe solteira que amanhece

De manhã, cedinho, burocracias inadiáveis várias levaram-me à baixa pombalina. Avisado, esperava ruas, passeios e esquinas imundas, uma meia dúzia de horas após os festejos da selecção. Cegos pedintes a tocar concertina, homens-estátua a pintar rostos à pressa, seculares engraxadores na rua a polir trompetes – os turistas do norte da europa são madrugadores, os seus pequenos-almoços continentais são servidos às sete e as moedas gordas podem começar a telintar pelas nove. Esperava, mas não encontrei. Toda a gente sabe que as ruas encardidas e os graffiti garridos ficam mais brancos com o reflexo das águas salobras do Tejo; que multidões vindas do Cais do Sodré varrem as calçadas e espelham as vitrines; que o sol saído das muralhas do castelo entumece os verdes das árvores da avenida. Lisboa permanece mãe solteira, alegre e viçosa, à espera dos seus filhos.


Lisboa que Amanhece by Sérgio Godinho on Grooveshark


terça-feira, 19 de junho de 2012

das argoladas

Às vezes falamos muito mal de nós próprios apenas para que do outro lado alguém nos infirme ou adverse. Na maior parte das vezes resulta, e caridosas vozes ecoam em uníssono exactamente o que pretendemos ouvir: «disparate, não és nada disso…». Outras, nem por isso, e até o mais tímido recalcado capta o ensejo para confirmar o que há muito lhe aportava na mente: «às vezes és fatigante, és, és…». Pior? Ora, pior é quando o nosso espertalhão e premeditado autoflagelo é concisamente correspondido com um eloquente silêncio. É que até dói.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

E se nos entendêssemos primeiro quanto ao significado das palavras

… antes de ratificar outros desacordos?

Muito longe de pretender ser uma espécie de filólogo ou linguista, custa-me observar a utilização maciça - principalmente por agentes ditos culturais - do verbo "despoletar" querendo significar precisamente o oposto. A palavra deriva de "espoleta" (do italiano, spoletta), peça de um engenho explosivo (granada, cartucho) que, ao fazer faísca, faz detonar o engenho. Ora se o "despoletamos", retiramos a espoleta, o disparador, fazendo com que o processo não se inicie. Se o "espoletamos", o sentido é contrário: podemos desencadear o processo de explosão.

Em termos figurados, despoletar significa anular, retirar aquilo que permite uma acção e espoletar significa atiçar, deflagrar o que desencadeia a acção. Esta pequena explicação tem lógica e é facilmente entendível, só que não é isso que ouvimos e lemos por aí. Em boa verdade, ouvimos e lemos, por exemplo, «determinado acontecimento despoletou uma série de outros acontecimentos», sendo esta a "norma" tida por vigente.

O erro é grave? Não, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa (Editorial Verbo), o Grande Dicionário Língua Portuguesa (Porto Editora) e o Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa (Círculo de Leitores) advogam o que acabei de escrever e... o seu contrário. Já o Ciberdúvidas é acérrimo defensor deste entendimento.

Bem sei que a Língua é viva, mas não a cria (de crer) ensandecida nem feérica. Entendam-se!

Post reeditado

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Euro 2012 (iii)

Não consigo criticar Cristiano Ronaldo. Ainda por cima quando acabo de ler estes latidos de Kahn. Para aqueles que nunca jogaram futebol, garanto, com alguma pesporrência, que não há nada mais cruel para um jogador do que ver-se isolado diante a mancha de um guarda-redes adiantado. Ainda hoje sonho com isso e deixei de ser federado há mil anos - e, claro, não fui nadica de nada comparado com Ronaldo. Muitos pensam que uma comitiva de psicólogos clínicos ajudaria. Concordo: todos eles passariam finalmente a conhecer e a estudar a miríade de pensamentos e emoções que ocorrem naqueles dois segundos.

Dos que crêem que esta selecção é a pior dos últimos doze anos, também discordo. Primeiro, geriu-se muito mal as acrimónias com Ricardo Carvalho e com Bosingwa (prescindindo à partida de um campeão de Espanha e de um campeão da Europa). Segundo, quase todos eles já foram campeões nas suas actuais ou anteriores equipas. Então o que é que falta? Uma equipa. Uma equipa sem fantasmas e... com outra tranquilidade.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Euro 2012 (ii)

Miguel Sousa Tavares é um excelente entrevistador. Provido de aguda perspicácia e de ágil visão raios X, leva ao desespero, quase à forca, qualquer político que lhe pie mais fino. Em boa verdade, ele e Margarida Marante foram "os" entrevistadores nas idas décadas de 80 e 90. Mais tarde, depois de umas incursões pelo Sahara, reaparece com um dos mais vendidos best-sellers portugueses de sempre, Equador. E depois com Rio das Flores. Livros injustamente esmiuçados e injuriados pelo monóculo clínico de Vasco Pulido Valente – que vindicava grosseiras imprecisões históricas, sem polimento algum.

Como comentador, MST é de segunda linha e de segunda água. O seu ar blasé condiz na perfeição com a sua impreparação sobre os mais díspares temas e factos. Ontem, na SIC, apelidou mais uma vez, todos aqueles que apoiam a selecção de "patrioteiros", explicando que não se deve sofrer de tais afrontamentos… Ora, eu até concordo. Ir longe no Euro em nada contribui para nos mantermos na zona euro; o futebol não passa de uma sucessão de jogos e não será este o verdadeiro campeonato que Portugal terá de ganhar. Só não entendo tê-lo já visto de olhos lacrimejantes e vidrados, pálpebras inchadas pesadas e beiços caídos, todas as segundas de manhã, por cada vez que o FêQuêPê num ganhaba no Dragon

segunda-feira, 11 de junho de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

Euro 2012 (i)

É sintomático, só ultrapassado o temor reverencial é que passamos a jogar melhor. Sempre demasiado tarde. Isto aplica-se aos energúmenos comentadores da rtp: primeiro era a «poderosíssima alemanha», depois a «alemanha desorientada». É uma "coisa" que se lhes dá.

'tadinho do Pepe, teve de responder à pergunta "o que sentiu quando o seu remate foi à barra?" Se fosse a ele teria respondido... (esqueçam)