© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ribatejo, madrugada 1:45am - 3:15am, 86º Fahrenheit

«O tempo adormeceu sobre o sol da tarde»

Dead Things by Philip Glass on Grooveshark 


terça-feira, 10 de julho de 2012

adenda ao post anterior

O meu post anterior incomodou muita gente. Não escrevo - não tenho, nem nunca terei pretensões de escrever - em nenhum meio de comunicação social; a minha vida é outra. Mas nada do que escrevi me cauciona  legitimidade de dizer o que vi, o que sei e o que constatei junto das organizações competentes. Aquela realidade não é exclusiva da zona metropolitana do Porto, bem sei. Mas não deixa de ser desigual por todo o país. Censurei comentários, claro. Como disse o reitor da Universidade do Porto, o silêncio é bom conselheiro.

 Será...?

Porto abandonado, Porto ferido

[Esta música e as fotos que se seguem transmitem bem melhor o que venho aqui dizer]

Porto Sentido by Rui Veloso on Grooveshark
O que mais me marcou nestes últimos quatro dias no Porto não foi o estado de extrema degradação das belíssimas fachadas dos pequenos e antigos prédios da baixa histórica; não foi a sujidade generalizada que encarde passeios, ruas, vielas e quelhas; não foi a quantidade obscena de pedintes que imploram moedas escuras, da cor dos seus rostos encarvoados pelos escapes de sucatas possantes e desusados carburadores. Tudo isto fica, impressiona, mas infelizmente não distingue esta bela cidade das demais grandes do resto do litoral. As gentes do Porto vão à luta rija, são empreendedoras, dão a cara, compram as maiores brigas, são valentes, invictas. Gente que combateu e venceu invasões napoleónicas; que nunca se subjugou ao poder central retrógrado miguelista; gente que teve como grandes guardiões Alexandre Herculano, António de Aguiar e Almeida Garrett. Gente de coragem, gente do Norte.
O que mais me marcou foi constatar uma crescente emergência de novos pobres pelas ruas. Pessoas envergonhadas pedindo baixinho uma sopa quente, um prato de carne, um chocolate para os filhos, um chupa para o bébé. Gente da minha idade, com a minha cara,  porventura qualificada, que se vê sem mais esperança para subsistir. Que não antecipou uma partida para o estrangeiro e que agora, sem meios, não tem por onde e como fugir. Já nem falo dos velhos enfermos escondidos atrás das persianas semi-abertas de dia e batidas à noite, dos que há muito lhes azulou o tempo da desesperança e, quedos, vão-se deixando ficar – um tecto podre sempre pode cair a qualquer hora. Escrevo de gente que, no auge da sua idade e no cume do desespero, não encontra nesta cidade apoios nas exíguas redes de assistência social existentes, já sem vazão face tão negra e súbita avalanche de pobreza. De pobreza extrema.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Porto: Extreme Sailing Series

[Este fim-de-semana estive no Porto e assisti a estas regatas (em Lisboa não perdi a Ocean Volvo Race). Quem me conhece sabe que um dos meus sonhos é fazer a circum-navegação num imenso veleiro - sozinho, ou quase. Arriscado...? Arriscado é não concretizar um só único grande sonho. Ainda mais perigoso...? Ora, é não ser enooorme e estranho.]




(A menina acima concorda comigo. As pequeninas acreditam sempre nos primos mais velhos)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Malèna

Muitas vezes dou por mim na pele de Renato, o imberbe adolescente do conto de Luciano Vincenzoni, teimando queimar etapas; almejando chegar mais próximo do que ainda não lhe é devido, nem merecido, ou ajustado - dizem. Aí, cairei da bicicleta, deixarei de ser mais um timorato e sairei livre. De mim.

Malena (End Titles) by Ennio Morricone on Grooveshark

domingo, 1 de julho de 2012

tarefa fátua

Ontem encontrei-me com os meus catorze anos. Apareceram-me lampeiros a meio do dia de trabalho, e eu que já não me lembrava deles. Apareceram-me pela mão da minha memorável colega de carteira, a Ana Clara, e eu que já não me lembrava dela.

A Ana Clara tinha dezassete anos numa turma de miúdos de catorze ou quinze. A turma era gaiata, estudiosa e competitiva. A Ana Clara era bonita e namoradeira. A turma vestia desportivo e jogava voleibol. A Ana Clara vestia sensual e jogava aos amores. A mãe estava no negócio da beleza e ela era uma excelente montra: longa madeixa loira, pele mate, perfeita de fond et de teint, malares esculpidos e olhos de tísica, com uma expressão ligeiramente bovina, que a rapariga era burrinha e com poucos entusiasmos para além da aparência e das lacerações do coração.

O seu universo estava cheio de paixões, protestos de amor eterno, crises sentimentais, rupturas encharcadas em lágrimas, ameaças de suicídio, num permanente novelo. Precisava, naturalmente, de um confidente, papel bem difícil de preencher em casting de catraios. Coube-me a mim por mor de três qualificações essenciais: altura, talento para primeiros socorros e a superior experiência de vida conferida pela leitura precoce de romances oitocentistas. Que a Ana Clara nada devia a Eugénie Grandet.

E assim o ano dos meus catorze anos correu dramático e instrutivo. Entretanto, a vida fluiu e a singularidade que nos aproximara perdeu-se em percursos oblíquos. Restava-me apenas a impressão de que casara cedo, obviamente grávida, e teria mudado para os subúrbios.

Até hoje, que me entrou pela porta. Sucessivos e avassaladores amores depois, com bastas traições de faca e alguidar, depressões e químicos a granel, a morte várias vezes próxima, uma miríade de intervenções e internamentos, esta Ana Clara é um embrulho vazio. Já não mora ninguém dentro do olhar vago da poupée de cire em que se tornou. Curiosamente, a degradação mental não foi acompanhada pelo degenerar físico. Talvez com a idade. Agora, é uma concha bonita e perfeitamente maquilhada, que, à saída, se insinua ao nosso velho porteiro gordalhufo. Ele encolhe a barriga e impa pressuroso e mesureiro, enquanto, ao lado, a companheira comprime a beiça e ajeita mentalmente a adaga na liga. Em segundos, compôs-se um triângulo de ardores. Há coisas que nunca mudam. Malheureuse Eugénie, do alto dos meus catorze anos te digo: há mais na vida do que sentir e o destino não existe.

reeditado

sábado, 30 de junho de 2012

a geração marc johnson

No seu espelho, vê um homme du monde. Influente, abastado, movendo-se nas rodinhas certas. Um connoisseur de restaurantes, vinhos, máquinas potentes, "gajas" e essoutros adornos que lhe enfeitam o aplomb. Tem convicções, claro: a sua geração produziu mais convictos por milímetro quadrado que ratos o navio. Todos francófonos, por defeito. Excessivement ennuyeux, à Steinbroken. Chatos que nem hóstias, à moi.

Um tipo perfeitamente tolerável, em doses profiláticas, por efeito vacina. Em certos domínios e em particulares coutadas, quase inevitável: vem com a mobília. Sobretudo com a cadeira magistral. O que hoje me caiu em penitência, no entanto, é um híbrido: foi cruzado com porteira. Sabe rigorosamente tudo sobre toda a gente, do primeiro ministro ao último moicano. Tudo, no caso, é o pormenor insalubre, o mexerico fica-entre-nós, o guloso não-devia-contar-isto, o impante ninguém-sabe-mas. Seguro em fontes credíveis, fontes em primeiro ou segundo grau de proximidade, que o biltre conhece meio mundo e a outra metade não tem que conhecer.

O prazer que retira da bisbilhotice é quase físico. Estremece na gargalhadinha púbere, os olhos reluzentes de gozo, enquanto pela boca móbil de garoupa lhe escorre sumo de malícia, com um soupçon (hélas! a francesice é altamente contagiosa) de peçonha. Vibrante de picaresco revisteiro, invade o interlocutor com palmadinhas nas costas inundadas de cumplicidade balofa enquanto debita adultérios sem graça e intrigas rascas. É constitucionalmente impossível fazer-lhe entender que a maledicência não é a oitava arte. Plus ça devient vieux plus ça devient con...

reeditado

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Alesandra

Devia ter uns 20 anos, acabara a licenciatura e preparava-me para o MBA. Precisava de fazer uns testes de inglês, o TOEFL, e entusiasmava-me a ideia de prepará-los com uma londrina, nascida em Johannesburg, que não falava um olaré de Português. Talvez já tenha escrito, mas sempre me seduziram mulheres maduras (nem todas, muitas expiram verdes), experientes e tolerantes para com meninos petulantes e convencidos. Como eu era. Aliás, se há idade para ser-se convencido, impiedoso e, lá está, petulante, será por aí, pelos 20 – antes disso passaríamos por parvos e depois,  por estúpidos.

Alesandra tinha 25 anos de corpo e 35 de cabeça. Loirinha, branquinha, olhos castanho-clarinhos hazel, era uma activa contestatária do regime do apartheid e, sempre que surtia ensejo durante a docência, arrasava o malfadado regime segregativo, atentatório dos direitos humanos, encabeçado à altura por Pieter Botha. Já eu, sempre que surtia ensejo (convencido, impiedoso e petulante), permanecia mais militante no fervor da curvatura da barriga da sua perna por debaixo da mesa, desafiando o frenesim do toque fortuito.

Tínhamos quatro semanas para preparar os testes e à terceira, já balanceados, Alesandra interrompe abruptamente a explicação. Tudo certo, esperava mais uma dissertação sobre a distribuição geográfica das tribos Zulus e da sua influência nos bantustões:
- Paulo!
- Sim…
- Se uma pessoa está interessada em alguém, não perde nada em lho dizer, não achas?

Era Verão, uma vaga de calor tinha baixado sobre a cidade. Ora, um ataque de rubor na face de um bantu seria coisa despicienda, quando muito dilataria os vasos oculares e o semblante manter-se-ia impávido ou pouco mais vivo. Já se seguido de suores em cascata pela testa e fronte, era a morte do preto. Claro que estou a ser politicamente incorrecto: Alesandra estimava bantus, logo, quem se viu a titubear gaguejos foi aqui o caucasiano:
- Sim, claro, claro… não se perde nada em dizer…

Alesandra era uma mulher madura, sensata e tolerante. Há uns meses encontrei-a no FB (zero amigos em comum), mas nunca a perdi da memória. Ensinou-me muitas coisas. Uma das mais importantes foi que não existe frontalidade sem condescendência. Outra, que não se perde alguém que nunca tenha sido nosso. Ela foi minha. E, como na maioria das minhas memórias, orgulho-me disso.
La valse d'Amélie (piano) by Yann Tiersen on Grooveshark


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Euro 2012 (iv)

Está tudo bem. Vá, agora andor, 'bora fazer pela vida e... bazar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

mãe solteira que amanhece

De manhã, cedinho, burocracias inadiáveis várias levaram-me à baixa pombalina. Avisado, esperava ruas, passeios e esquinas imundas, uma meia dúzia de horas após os festejos da selecção. Cegos pedintes a tocar concertina, homens-estátua a pintar rostos à pressa, seculares engraxadores na rua a polir trompetes – os turistas do norte da europa são madrugadores, os seus pequenos-almoços continentais são servidos às sete e as moedas gordas podem começar a telintar pelas nove. Esperava, mas não encontrei. Toda a gente sabe que as ruas encardidas e os graffiti garridos ficam mais brancos com o reflexo das águas salobras do Tejo; que multidões vindas do Cais do Sodré varrem as calçadas e espelham as vitrines; que o sol saído das muralhas do castelo entumece os verdes das árvores da avenida. Lisboa permanece mãe solteira, alegre e viçosa, à espera dos seus filhos.


Lisboa que Amanhece by Sérgio Godinho on Grooveshark


terça-feira, 19 de junho de 2012

das argoladas

Às vezes falamos muito mal de nós próprios apenas para que do outro lado alguém nos infirme ou adverse. Na maior parte das vezes resulta, e caridosas vozes ecoam em uníssono exactamente o que pretendemos ouvir: «disparate, não és nada disso…». Outras, nem por isso, e até o mais tímido recalcado capta o ensejo para confirmar o que há muito lhe aportava na mente: «às vezes és fatigante, és, és…». Pior? Ora, pior é quando o nosso espertalhão e premeditado autoflagelo é concisamente correspondido com um eloquente silêncio. É que até dói.