© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

férias em conta, tudo incluído

Mas por que carga de água alguém de bom senso, e bom gosto, iria prescindir de navegar pelo Mar da Serenidade ou pelo Mar da Tranquilidade? Ou afoitar-se pelos Mares da Fertilidade e da Humidade? Parece-lhe demasiado telúrico? Não seja por isso, voltamos já para o Mar das Crises e outro tipo de Tempestades. Quereis o calor da emoção e o enregelo da expectativa?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

silly season? (ii)






Se fosse vimaranense, com calma, com alma, era eu que lhe enfiava um dióspiro pela instalação, inspiração, inalação, adentro. Apre!

sábado, 11 de agosto de 2012

silly season? (i)



«Quero lá saber se a gaja é boa ou má. Quem é o português que não gostaria de poder dizer: já "afiambrei" a presidente da assembleia da républica. Fica bem no currículo de qualquer macho. Às vezes estas são as mais malucas na cama,  e o que têm no corpo a menos  têm em imaginação a mais. Até provar, ninguém pode dizer que não vale a pena»

Este comentário, de extremo mau gosto, não deixa de compaginar o ideário de muito português de aparente e insuspeita sofisticação. Por mim, Assunção Esteves continua perseguida por uma elegância ímpar neste pequeno e esticado panorama nacional.

Foto e comentário vistos aqui.

domingo, 29 de julho de 2012


Fake Plastic Trees by Radiohead on Grooveshark 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fica bem mal

Há mais de vinte e cinco anos, surgiu uma expressão, entre gente dos vinte, trinta, que rápido pegou moda: "Fica bem!". A primeira vez que a ouvi foi à saída do velhinho Kremlin, dita pelo segurança conhecido. A coisa soou mal; conjugava três presunções em apenas duas palavras. Primeiro, a forma imperativa: ele mandava-me ficar bem, uma ordem que pretendia vir de cima, de quem pode decidir por mim e em que registo pessoal deveria eu ficar. Segundo, segunda pessoa do singular: tu. O que pressupõe, ou vindica, proximidade, enfatizando a ordem. Terceiro, subliminarmente, parte do princípio de que não nos encontramos bem, estamos mal, logo há que mudar o termo das coisas, ordenando, sob comando, que alteremos estados de alma.

Como já disse, a petulância naquela idade é – e deverá sempre ser – consentida. Acredito mesmo que acresce charme à menina alta, bonita e descomplexada que sopra um "fica bem...". Dá-lhe piada, atrevimento, entre outras coisas que me abstenho de escrever. Ao menino gingão, porventura, também. Ao grande Raul Solnado, a variante «Façam o favor de ser felizes» traduz a estatura de grande ser humano que foi e, aqui, a introdução d’«o favor» anula a ordem e liquefaz-se em pedido e em desejo. É um querer bem pela nossa saudinha. Por todos nós.

Depois foi o descalabro. Foi toda a gente a parafraseá-lo ou, muito pior, a perifraseá-lo, enovelando-se em vetustas concordâncias be happy! Pela Santinha, eu ainda não sei se quero ter um fim-de-semana descansado, feliz, licoroso ou espalhafatoso! Hoje, por exemplo, quero estar triste. E ai de quem me indicar o caminho da felicidade. Ficaria bem mal. E mau.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Ribatejo, fim de tarde 8:45pm, 86º Fahrenheit

 «Se houver alguém que não goste, não gaste, deixe ficar»


Menina dos Olhos de Água by Pedro Barroso on Grooveshark 


quarta-feira, 18 de julho de 2012

Ribatejo, madrugada 1:45am - 3:15am, 86º Fahrenheit

«O tempo adormeceu sobre o sol da tarde»

Dead Things by Philip Glass on Grooveshark 


terça-feira, 10 de julho de 2012

adenda ao post anterior

O meu post anterior incomodou muita gente. Não escrevo - não tenho, nem nunca terei pretensões de escrever - em nenhum meio de comunicação social; a minha vida é outra. Mas nada do que escrevi me cauciona  legitimidade de dizer o que vi, o que sei e o que constatei junto das organizações competentes. Aquela realidade não é exclusiva da zona metropolitana do Porto, bem sei. Mas não deixa de ser desigual por todo o país. Censurei comentários, claro. Como disse o reitor da Universidade do Porto, o silêncio é bom conselheiro.

 Será...?

Porto abandonado, Porto ferido

[Esta música e as fotos que se seguem transmitem bem melhor o que venho aqui dizer]

Porto Sentido by Rui Veloso on Grooveshark
O que mais me marcou nestes últimos quatro dias no Porto não foi o estado de extrema degradação das belíssimas fachadas dos pequenos e antigos prédios da baixa histórica; não foi a sujidade generalizada que encarde passeios, ruas, vielas e quelhas; não foi a quantidade obscena de pedintes que imploram moedas escuras, da cor dos seus rostos encarvoados pelos escapes de sucatas possantes e desusados carburadores. Tudo isto fica, impressiona, mas infelizmente não distingue esta bela cidade das demais grandes do resto do litoral. As gentes do Porto vão à luta rija, são empreendedoras, dão a cara, compram as maiores brigas, são valentes, invictas. Gente que combateu e venceu invasões napoleónicas; que nunca se subjugou ao poder central retrógrado miguelista; gente que teve como grandes guardiões Alexandre Herculano, António de Aguiar e Almeida Garrett. Gente de coragem, gente do Norte.
O que mais me marcou foi constatar uma crescente emergência de novos pobres pelas ruas. Pessoas envergonhadas pedindo baixinho uma sopa quente, um prato de carne, um chocolate para os filhos, um chupa para o bébé. Gente da minha idade, com a minha cara,  porventura qualificada, que se vê sem mais esperança para subsistir. Que não antecipou uma partida para o estrangeiro e que agora, sem meios, não tem por onde e como fugir. Já nem falo dos velhos enfermos escondidos atrás das persianas semi-abertas de dia e batidas à noite, dos que há muito lhes azulou o tempo da desesperança e, quedos, vão-se deixando ficar – um tecto podre sempre pode cair a qualquer hora. Escrevo de gente que, no auge da sua idade e no cume do desespero, não encontra nesta cidade apoios nas exíguas redes de assistência social existentes, já sem vazão face tão negra e súbita avalanche de pobreza. De pobreza extrema.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Porto: Extreme Sailing Series

[Este fim-de-semana estive no Porto e assisti a estas regatas (em Lisboa não perdi a Ocean Volvo Race). Quem me conhece sabe que um dos meus sonhos é fazer a circum-navegação num imenso veleiro - sozinho, ou quase. Arriscado...? Arriscado é não concretizar um só único grande sonho. Ainda mais perigoso...? Ora, é não ser enooorme e estranho.]




(A menina acima concorda comigo. As pequeninas acreditam sempre nos primos mais velhos)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Malèna

Muitas vezes dou por mim na pele de Renato, o imberbe adolescente do conto de Luciano Vincenzoni, teimando queimar etapas; almejando chegar mais próximo do que ainda não lhe é devido, nem merecido, ou ajustado - dizem. Aí, cairei da bicicleta, deixarei de ser mais um timorato e sairei livre. De mim.

Malena (End Titles) by Ennio Morricone on Grooveshark

domingo, 1 de julho de 2012

tarefa fátua

Ontem encontrei-me com os meus catorze anos. Apareceram-me lampeiros a meio do dia de trabalho, e eu que já não me lembrava deles. Apareceram-me pela mão da minha memorável colega de carteira, a Ana Clara, e eu que já não me lembrava dela.

A Ana Clara tinha dezassete anos numa turma de miúdos de catorze ou quinze. A turma era gaiata, estudiosa e competitiva. A Ana Clara era bonita e namoradeira. A turma vestia desportivo e jogava voleibol. A Ana Clara vestia sensual e jogava aos amores. A mãe estava no negócio da beleza e ela era uma excelente montra: longa madeixa loira, pele mate, perfeita de fond et de teint, malares esculpidos e olhos de tísica, com uma expressão ligeiramente bovina, que a rapariga era burrinha e com poucos entusiasmos para além da aparência e das lacerações do coração.

O seu universo estava cheio de paixões, protestos de amor eterno, crises sentimentais, rupturas encharcadas em lágrimas, ameaças de suicídio, num permanente novelo. Precisava, naturalmente, de um confidente, papel bem difícil de preencher em casting de catraios. Coube-me a mim por mor de três qualificações essenciais: altura, talento para primeiros socorros e a superior experiência de vida conferida pela leitura precoce de romances oitocentistas. Que a Ana Clara nada devia a Eugénie Grandet.

E assim o ano dos meus catorze anos correu dramático e instrutivo. Entretanto, a vida fluiu e a singularidade que nos aproximara perdeu-se em percursos oblíquos. Restava-me apenas a impressão de que casara cedo, obviamente grávida, e teria mudado para os subúrbios.

Até hoje, que me entrou pela porta. Sucessivos e avassaladores amores depois, com bastas traições de faca e alguidar, depressões e químicos a granel, a morte várias vezes próxima, uma miríade de intervenções e internamentos, esta Ana Clara é um embrulho vazio. Já não mora ninguém dentro do olhar vago da poupée de cire em que se tornou. Curiosamente, a degradação mental não foi acompanhada pelo degenerar físico. Talvez com a idade. Agora, é uma concha bonita e perfeitamente maquilhada, que, à saída, se insinua ao nosso velho porteiro gordalhufo. Ele encolhe a barriga e impa pressuroso e mesureiro, enquanto, ao lado, a companheira comprime a beiça e ajeita mentalmente a adaga na liga. Em segundos, compôs-se um triângulo de ardores. Há coisas que nunca mudam. Malheureuse Eugénie, do alto dos meus catorze anos te digo: há mais na vida do que sentir e o destino não existe.

reeditado