© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Assim na Terra como no Inferno

Desculpem-me a ausência. Este blogue vai, predominantemente, passar a abordar temas à margem dos que se propôs desde o início. Vai basicamente descambar para a Política e para a Economia. Mais do que o Horror, passará a constatar a Hipocrisia. Seja a menos visível, seja a mais encomendada. E tomará partido, sim. Nunca fui de meias tintas. Desculpem-me até aqui a ausência, pois.


fotograma retirado daqui

post cirurgicamente direccionado

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

hoje, no Conselho de Estado

Tenho a ligeira sensação de que quando Vitor Gaspar começar a explicar as razões da TSU, as opiniões dos eminentes conselheiros não serão muito diversas destas:




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

curiosidade (i)

Fala sobre a vida como quem constrói casinhas de lego meticulosamente alicerçadas no tabuleiro verde onde qualquer coisa pode crescer. Por lá, coloca pecinhas amarelas e brancas, umas sobre as outras, até ao telhado vermelho com águas furtadas. E, pelo meio, não se esquece das portas, das sancas, ombreiras e frestas, nem das portadas das janelas azuis. Porém, quando curiosa, fala ainda mais rápido, encaixando e sobrepondo muitas mais pecinhas num frémito sem se atrapalhar. As paredes ficam então mais altas, quase inacessíveis e, com elas, as janelas ultrapassam finalmente o cimo dos pinheiros sobre as margens do lago branco. O telhado, agora hexagonal, já faz cócegas ao céu, e ao meu ouvido. Na verdade, a sua curiosidade faz de singelas casinhas um sereno e imenso castelo, e das portas, um portão alto todo janota.

Não resisto. Vou até à entrada, toco à campainha, entro e espreito. Mas já não estava lá.

These Are The Days by Queen on Grooveshark

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O pico da paixão

«Esta ilha negra e disforme apoderou-se dos meus sentidos. Tudo o que a principio me repelia, o negrume, o fogo que a devora, o mistério, tudo me seduz agora. O Pico é a mais bela, a mais extraordinária ilha dos Açores, duma beleza que só a ela lhe pertence, duma cor admirável e com um estranho poder de atracção.
É mais que uma ilha – é uma estátua erguida até ao céu e amoldada pelo fogo – é outro Adamastor como o do Cabo das Tormentas.»

Raúl Brandão, Ilhas desconhecidas, 1926

Em boa verdade, o Pico é uma ilha à parte, no epicentro de um arquipélago também ele à parte, uma paixão que nasce muito antes de chegar a Madalena e que inturgesce pelo Atlântico afora, uma força alucinante pelo abismo negro temperada pela cândida certeza de que já dele fazemos parte. Melhor que o Pico, só os picarotos. Homens e mulheres que abraçaram lava e produzem vinho, arrebanharam novilhos e fazem queijo, burilaram pedra e oferecem casa.

Escalei até ao cume (2351 metros) e vi nada. Nada para além do mundo. Lá em cima, no piquinho, sentei-me em chão quente e vivo e me perdi muito acima do voo dos pássaros e da macieza das nuvens. Inspirei tanto ar virgem que por uma eternidade de momentos levitei ao centro dos anéis de Saturno.


Quatro tempos no canal

Há mais de uma semana percorrendo ilha a ilha, refastelo-me por fim na Horta, no Faial. Podia ser mauzinho e, depois de tudo o que já vi, afirmar que o melhor desta cidade é a sua vista sobre o Pico. Porém, não estaria só a ser mauzinho. Estaria sobretudo a ser parvinho. O que S. Jorge e o Pico me deram em esplendor e em deslumbrante bruteza, a Horta obsequeia-me merecido remanso. Não que se apresente calminha, muito pelo contrário: enquanto nas outras ilhas não vislumbrei um único semáforo, Faial tem um. Impante, viçoso e a duas cores (verde e vermelho), que isto do amarelo é invenção dos timoratos. Dissipadas as dúvidas, foi a loucura e o bulício na sua plenidão.

As fotos que se seguem da marina para o Pico correspondem a quatro momentos ao longo do dia e aos únicos quatro possíveis boletins meteorológicos: poucas nuvens, algumas nuvens, bastantes nuvens e só nuvens. A temperatura é sempre igual. Vinte e quatro graus.



terça-feira, 21 de agosto de 2012

Açores inacabado (ii)

Cumprindo longínquas promessas, voltei. Desta vez, mais a oeste, quero confirmar o cosmopolitismo da Horta mai-los seus lobos do mar, a rusticidade e a imponência do Pico (subirei lá cima se o tempo ajudar), a beleza e a gastronomia de S. Jorge, a ilha navio. Reconfirmar a graça da Graciosa e a vitória da Terceira. Cumprindo a mais certa parte de mim, vim para convencer a outra parte e, de alguma e de muitas outras formas, ficar.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

férias em conta, tudo incluído

Mas por que carga de água alguém de bom senso, e bom gosto, iria prescindir de navegar pelo Mar da Serenidade ou pelo Mar da Tranquilidade? Ou afoitar-se pelos Mares da Fertilidade e da Humidade? Parece-lhe demasiado telúrico? Não seja por isso, voltamos já para o Mar das Crises e outro tipo de Tempestades. Quereis o calor da emoção e o enregelo da expectativa?

terça-feira, 14 de agosto de 2012

silly season? (ii)






Se fosse vimaranense, com calma, com alma, era eu que lhe enfiava um dióspiro pela instalação, inspiração, inalação, adentro. Apre!

sábado, 11 de agosto de 2012

silly season? (i)



«Quero lá saber se a gaja é boa ou má. Quem é o português que não gostaria de poder dizer: já "afiambrei" a presidente da assembleia da républica. Fica bem no currículo de qualquer macho. Às vezes estas são as mais malucas na cama,  e o que têm no corpo a menos  têm em imaginação a mais. Até provar, ninguém pode dizer que não vale a pena»

Este comentário, de extremo mau gosto, não deixa de compaginar o ideário de muito português de aparente e insuspeita sofisticação. Por mim, Assunção Esteves continua perseguida por uma elegância ímpar neste pequeno e esticado panorama nacional.

Foto e comentário vistos aqui.

domingo, 29 de julho de 2012


Fake Plastic Trees by Radiohead on Grooveshark 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Fica bem mal

Há mais de vinte e cinco anos, surgiu uma expressão, entre gente dos vinte, trinta, que rápido pegou moda: "Fica bem!". A primeira vez que a ouvi foi à saída do velhinho Kremlin, dita pelo segurança conhecido. A coisa soou mal; conjugava três presunções em apenas duas palavras. Primeiro, a forma imperativa: ele mandava-me ficar bem, uma ordem que pretendia vir de cima, de quem pode decidir por mim e em que registo pessoal deveria eu ficar. Segundo, segunda pessoa do singular: tu. O que pressupõe, ou vindica, proximidade, enfatizando a ordem. Terceiro, subliminarmente, parte do princípio de que não nos encontramos bem, estamos mal, logo há que mudar o termo das coisas, ordenando, sob comando, que alteremos estados de alma.

Como já disse, a petulância naquela idade é – e deverá sempre ser – consentida. Acredito mesmo que acresce charme à menina alta, bonita e descomplexada que sopra um "fica bem...". Dá-lhe piada, atrevimento, entre outras coisas que me abstenho de escrever. Ao menino gingão, porventura, também. Ao grande Raul Solnado, a variante «Façam o favor de ser felizes» traduz a estatura de grande ser humano que foi e, aqui, a introdução d’«o favor» anula a ordem e liquefaz-se em pedido e em desejo. É um querer bem pela nossa saudinha. Por todos nós.

Depois foi o descalabro. Foi toda a gente a parafraseá-lo ou, muito pior, a perifraseá-lo, enovelando-se em vetustas concordâncias be happy! Pela Santinha, eu ainda não sei se quero ter um fim-de-semana descansado, feliz, licoroso ou espalhafatoso! Hoje, por exemplo, quero estar triste. E ai de quem me indicar o caminho da felicidade. Ficaria bem mal. E mau.

quinta-feira, 26 de julho de 2012