Existe uma pequena aldeia nas funduras do distrito de Coimbra, ali pelo sopé da Serra do Açor, entre a Estrela e a Lousã, onde até há bem pouco tempo não havia estrada ou trilho que guiasse uma junta de bois, quanto mais uma carroça. O caminho em terra batida mais próximo finava a doze quilómetros; de resto, só mesmo a pé, esgardunhados pelo mato e picados pelas abelhas. Local perfeito para os foragidos da lei, para os eremitas do ânimo e para uma outra espécie de gente. Os indígenas.
Ao largo da aldeia, sempre iluminada pelo sol como uma auréola envolta por nesgas de nuvens, uma lenda hórrida pairava no negrume da serra. Diogo Lopes Pacheco, um dos três assassinos de D. Inês, logrou fugir à morte certa e acabou os seus dias por aquelas paragens. Os dois mui nobres comparsas, Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves, não foram muito longe, tombaram quentes para os lados de Santarém sob as ordens de D. Pedro. Hoje em dia, ainda constam alguns Lopes Pachecos pela pequena aldeia, descendentes do mandatado de D. Afonso IV. Gente de bem, presumo, que o ano de 1355 vai longe e as mesmas máculas não perduram por tantas gerações.
Quis conhecer um.
Vindo de Coimbra, atravessei inúmeras vezes o Mondego, margem a margem, ao longo de Vila Nova de Poiares. Já no interior, começavam a surgir povoações com nomes estranhos: Cerdeira, Avô, Côja, Benfeita, Pardieiros. E por fim, Piódão!

Ao longe, parece uma aldeia-presépio, com casinhas de xisto e telhados de lousa. Todas as janelas e portas são azuis – ao que dizem, a única cor de tinta que primeiro chegou ao lugarejo. As ruas são sinuosas e estreitas, medievas; as escadas, íngremes; tudo em pedra, tudo impecavelmente limpo. À excepção da praça, onde confluíam turistas em busca de artesanato, queijadas, mel e licores de castanha, medronho e zimbro, as ruelas interiores permanecem desertas. As pouquíssimas pessoas que encontrei eram esquivas, ariscas, viravam costas aos forasteiros, e refugiavam-se nos lares. Encontrei uma anciã de casaco azul-bebé (ficava mais convincente se usasse xaile preto, mas dessas não havia) e perguntei alto: "Conhece o Lopes Pacheco, minha senhora…?". Fugiu. Ainda fui atrás dela, mas desaparecia em cada esquina, em cada ruazinha, em cada beco. "Diabo, será que o mui nobre não era varão viril e não deixara visível descendência?", cogitei baixinho.



Cansado de tanto subir e descer, de tanto espreitar e ver nada, surge ao longe outro ancião – bem-apessoado, o homem! – e perguntei: "Posso fotografá-lo…?". Respondeu "depende, quanto me dá?". Sorri e perguntei como se chamava.
– Chamo-me José Lopes Pacheco, tenho oitenta anos e sou de Piódão! E o senhor donde vem?
– Chamo-me Paulo e venho de Lisboa…
– De Lisboa? Lamento profundamente.
Voltei a sorrir, falava com um piodonense (ou lá como se chama um habitante de Piódão) mas, muito mais, falava, com uma considerável margem de segurança, com um verdadeiro Lopes Pacheco, com um pentaneto dum tetraneto dum trineto dum hexaneto(?) do mui nobre assassino Diogo Lopes Pacheco.
Decorrida a amena cavaqueira, despedi-me, desci para a praça e bebi um delicioso licor de castanha – soube-me pela vida.
Entretanto escureceu, "ala que se faz tarde"! Mas não sem antes voltar a avistar a aldeia: os Lopes Pachecos vivem num presépio.