Por convicção, não sou chegado a premonições. Por natureza, trago-as comigo. Começava a ficar preocupado com a última, era mázinha, arrastava consigo um assombro, adornado de receio, não muito comum na palete de sombras com que tinjo inabilmente pecados adâmicos.
Chegado à terriola, encosto à berma e pergunto a um pequeno grupo de convivas onde se encontra a cascata da Pedra da Ferida:
– Se fosse a si não ia… – aprontou-se o mais festivo.
– Porquê…? É perigoso? Há assaltos por lá…? – Indaguei inquieto.
– Assaltos? Isto é tudo gente de família! Mas se fosse a si não ia…
Ainda fiquei à espera de um "mas o senhor é que sabe…". Em vão. Indicaram-me, visivelmente incomodados onde ficava a dita, e repetiram sequencialmente um a um: "eu não ia, eu não ia, eu não ia…"
Posso perder-me numa categórica premonição, mas nunca fui homem para virar costas a vontades. Sobretudo às intrigantes.
Sabia que grande parte do trajecto era um trilho pedestre ao longo da Ribeira da Azenha e nos primeiros trezentos metros tudo parecia fácil. Um caminho estreito, mas bem definido; uma flora exuberante, muito verde; passarinhos a cantar e trutas selvagens a chapiscar, viçosas e enérgicas, águas acima. Os safados dos velhotes não me queriam mostrar o seu tesouro, pensei lampeiro.

Decorridas aquelas três centenas de metros, senti os pés molhados, as pedras de musgo mais viscosas e escorregadias, a ribeira muito mais abaixo, em que qualquer pedrinha que se desprendesse a cada meu passo demorava uns bons segundos a cair na água. Mais: o barulho das trutas viçosas passou a assemelhar-se ao de um imenso réptil que me acompanhava silencioso e paciente lá do fundo. A própria paisagem, agora mais densa, deixou paulatinamente o verde vivo e emergiu parda, agreste a fugir para o azul-cinza, surgindo escarpas de difícil escalada, aqui e ali deixando abrir pequenas frestas donde saíam frágeis arbustos que em nada ajudavam a ascensão abrupta. Não fora a placa rachada com a indicação de 150 metros e tinha desistido. Desistir não é bem o termo, havia toda uma subida que tinha de ser descida e, ao contrário do provérbio, a descer todos os demónios empurram… Teimoso, cheguei. Avistei duas cascatas gémeas, uma em cima da outra, cada uma com mais de vinte metros. Despenhavam-se sobre uma grande bacia de água escura e gélida, donde por instantes surgiam do fundo enormes bolhas de ar: só podia ser o medonho bicho que me acompanhou, o verdadeiro protegido dos aldeãos. Ou a minha premonição...
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| Cascata da Pedra da Ferida, Espinhal, Penela |
De resto, a descida foi pacífica e calma, sem pressas, contemplativa, muito suave e, principalmente, sem medos.