© Paulo Abreu e Lima

sábado, 22 de junho de 2013

Verão vago

 
(fotografia diurna de longa exposição, 30 seg.)

Ontem o solstício apareceu-me com o anti-histamínico, numa galra que mais parecia um sedativo para o nervo óptico do que uma reprimenda certa à estúpida da alergia. Vi paisagens estranhas, coisas estranhas, pessoas estranhíssimas. Logo ontem, o meu dia dilecto, detentor de mais de dezasseis horas de luzeiro celeste, onde o hábito antigo de degustar um jantar tardio, devoto à maresia de duas flutes de verde Minho esboroou-se numa penada. E que saudades, senhores, do pirilampear dos vaga-lumes junto aos chorões purpuríferos das dunas ao pé do estrado, do sol laranja a rolar pela linha esticada do horizonte até cair borda fora do mundo plano dos escritos medievais, e até da melga, da mesma parvalhona, que não me larga a orelha sã e irrigada. Logo ontem, no dia certo, não tinha olfacto, paladar ou tacto. As águas do mar não passavam de nuvens de fumos que encobriam seixos verdes e rochedos amarelos e o céu, cor de nada, só me enviava uivos de vento sem cânticos, sem algas nem murmúrios.
 
Hoje, dizem, está diferente, está azul quente e virá clarão lunar, mas o raio do anti-histamínico permanece voraz, varre tudo e diz nada. E, por enquanto, faz-me calar.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Greve: eficácia e responsabilidade

Em qualquer país democrata ocidental o direito à greve está consagrado nas Leis como um dos instrumentos disponíveis pelos trabalhadores nas negociações com as entidades patronais sob o intuito de obter melhores condições de trabalho, remunerações e/ou outras regalias. Pode ainda assumir um meio de combate preventivo contra tomadas de posição unilaterais pelos empregadores, inserindo-se assim no pacote dos direitos de um trabalhador na esfera do vínculo do contrato laboral. Deve, ainda, ser considerado último reduto após negociações falhadas, onde se esgrimiram cedências de parte a parte.
 
A eficácia de uma greve é substancialmente diversa consoante os sectores em que são perpetradas. No sector privado é eficaz quando atinge directamente a entidade patronal, na exacta medida em que esta vê diminuída a produtividade da sua empresa e, por consequência, o lucro. Os danos infligidos aos clientes e aos fornecedores são questionáveis num regime de concorrência aberta, pois estes dispõem sempre, por definição, alternativa. Já no sector público empresarial, dada a especificidade de alguns mercados, os danos acabam por ser muito mais abrangentes, afectando clientes, fornecedores e, em última análise, todo o país. No sector dos transportes, por exemplo.
 
Há contudo um outro sector à parte cuja função vai muito além da cousa pública; constitui o cerne basilar de toda a comunidade, confundindo-se com ela mesma; é força centrífuga da organização e coesão social e humana e sem o qual jamais existiria civilização. Nele está o médico, o juiz, o polícia e… o professor. Em todos eles há mais do que uma profissão, muito mais do que um estatuto e ainda mais do que uma missão. Salvaguardando todos os direitos, em todos eles coabita um dever. É que pode haver quem cure, quem decida, quem salvaguarde e quem ensine; mas não há médico sem paciente, juiz sem culpado ou inocente, polícia sem ladrão e professor sem aluno. Não se trata de relações de dependência, mas de muitas relações de existência. Neste sentido, fazer greve às avaliações e aos exames é subjugar deveres e direitos ao crivo de espúrias dependências. É sonegar o norte a quem não tem bússola. É não ser professor, mas colaborador a dias.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Às estrelas, deixem o Céu (iii)


 
Fotografia nocturna de longa exposição (duração 3:00h)
 
Não gosto de excessos. Particularmente de pessoas excessivas. Excesso de bondade, de solicitude, de agressividade, de frontalidade. Excesso de qualidades e excesso de defeitos. Não me suscitam repulsa, reparem – as únicas coisas neste mundo que me repugnam são a indiferença e a estupidez, esta atrás da outra –, mas desinteresse, e eu não gosto de desapegos. A minha atitude diante do excesso é singela: egresso. Dois exemplos diametralmente opostos. Uma zaragata comicieira com permuta de vitupérios e um assédio camuflado de cortesia. Em ambos viro as costas e tranco a porta. Há contudo excessos que me tiram do sério; o da superioridade do alheamento é o maior deles todos, uma espécie de desinteresse interessado onde predomina uma pontinha de esperteza rústica que me sulca a razoabilidade e me faz voltar atrás, abrir a porta e cravar dois berros. Depois de administrada, a coisa compõe-se. Em não havendo excessos. De resto, exulto-me com o equilíbrio mediano da harmonia meridional, tentando e deixando viver, pois tudo isto já é bastante curtinho e apertado para demasias (lá está), e os vírus, como os cometas, andam por aí.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Às estrelas, deixem o Céu (ii)

Fotografia nocturna de longa exposição (duração 1:45h)

Quando mais novo, no tempo dos namoros voragens, das paixões de sangue e dos amores que não cabem no peito, nem em parte alguma, judiciava para mim próprio que nada suplantava as dores comuns àqueles estados alma. Ou seja, aqui o menino não passava de um male drama queen. Ou de um egoísta leviano, em bom português. À medida que alguma experiência e maturidade emergiram com a idade, outros sofrimentos bem mais significativos povoaram o meu dia-a-dia. A azia de um campeonato perdido no último minuto, as cãs que se multiplicam por todo o corpo, a factura inesperada da oficina a meio do mês ou a eminência de poder ouvir de sobressalto na tv mais umas gracinhas do senhor Presidente constituem excepcionais exemplos. Mentira. À medida que envelhecemos, o nosso corpo subtrai prazer e multiplica mazelas. Até podia formular aqui uma função matemática que traduzisse a preponderância deste sofrimento. Em vão. A Natureza é mais fértil em analogias que o físico a fraccionar primitivas, com a vantagem de já estar tudo determinado. Numa noite de pez, virem-se para o ocaso e fixem as estrelas no céu. Umas caem e outras sobem. As primeiras são deleite e as segundas agrura. Como é que eu sei isto? Fácil, são muitos anos a olhar o céu com os pés bem assentes na Terra. Ou melhor, alguns amores que nunca couberam no peito.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Cascatas e cachoeiras portuguesas (v)

Quando se fala em Vila de Rei, vêm-me à memória três factos. Fica a dois quilómetros do marco geodésico de Portugal – grosso modo, fica geograficamente no centro do país, quer em latitude, quer em longitude. Esteve nas parangonas dos media há meia dúzia de anos, quando "recrutou" quinze brasileiros para repovoar a autarquia e combater a interioridade, acabando por se finar num fracasso retumbante – a atractividade de uma região requer mais do que incentivos avulsos (em 2011 voltou à carga, oferendo condições para que 25 alunos vindos de S. Tomé e Príncipe e de Cabo Verde acabassem o secundário na escola da vila). Por último, e sem embargo, o concelho está provido de excelentes equipamentos sociais, proporcionando aquilo a que poderemos denominar de magnífica "qualidade de vida" (e não consta que se encontre sobre-endividado...)
 
A dez minutos situa-se uma simpática aldeiazinha (Milreu) e a dois quilómetros desta uma bonita praia fluvial (finalista das sete melhores do país) e transparentes piscinas naturais. Pela abundância de peixes, preservação de trilhos pedestres e vegetação luxuriante, o local é muito procurado para desportos ao ar livre, como escalada, pesca desportiva, orientação e rapel. Subindo a Ribeira de Codes, encontramos inúmeras quedas de água límpida, cascatas e cachoeiras. De todas as que vi, são sem dúvida as mais seguras e relaxantes, sem contudo terem cedido às mãos do Homem o que é da Natureza. Como passeio, recomendo vivamente.





Cascatas de Penedo Furado, Vila de Rei
 
(uma das muitas piscinas naturais)
 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Às estrelas, deixem o Céu (i)


Fotografia nocturna de longa exposição (duração: 2:35 h)

Como no céu, na Terra há momentos únicos, praticamente irrepetíveis. Os crentes chamam-lhes milagres; os outros, coincidências. Os místicos vão pelo sortilégio e os pragmáticos ficam-se pela sorte. Contudo, nada é por acaso. Venham, digam-me que é a conjugação de Marte e Vénus na casa do Sol. Falem-me da combinação dos quatro elementos, da fortuna e da morte. Vá, convençam-me pelos bons e maus espíritos, quantos entraram e quantos penados de mim anseiam sair; mostrem-me ponteiros magnéticos e, por certo, seguirei justo caminho. Custa-me viver sob o jugo do acaso e da sorte, é coisa que me chateia, mas incerto mesmo é depender única e exclusivamente de mim e de todos os que me rodeiam. Porém, uma singela dissemelhança: aqui, entre nós pela Terra, as metades e os terços tendem a juntar-se; aglomeram-se pelas próprias naturezas e vontades, por causas que os movem e por dignidades que permanecem. Por aqui, o caminho mais próximo pode ser sinuoso e demorado, não vem com guias, mas, por mais doloroso que possa parecer, é único e irrepetível. Porque afinal é na grandeza Humana que se escondem os maiores milagres. Exactamente no epicentro da colisão de todos os cometas. Acreditem.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

locais fora do mundo (ii)


 
Há locais que nos acompanham por onde quer que os nossos olhos teimem descansar. Lugares que se juntam, percorrem caminhos e voltam, voltam sempre, onde quer que estejamos. Não importa se são feios ou bonitos, imensos ou apertados, luminosos ou penumbrosos. Quem nunca já sentiu nostalgia por um determinado beco imundo grafitado? Por um corredor escuro com uma porta ao fundo, alta, de verniz estalado e maçaneta de louça? Por um ermo descampado no meio de um caniçal? Os lugares são como os cheiros, uma vez entranhados, nunca mais saem da pele.
 
Neste, misturam-se águas de duas milenares ribeiras, pinturas rupestres da idade do bronze, pontes romanas e urzes violetas. Uma aldeia de três ou quatro casas, sete ou oito habitantes mais duas crianças. No Verão fecham a comporta e usufruem de uma praia privativa. Sofrem a "interioridade"…? Talvez, mas pelo primor com que conservam as suas casas e o espaço envolvente, não me parece que tédio algum os demova, rumo a um qualquer recreio comercial. A verdadeira cultura de subsistência reside noutro lugar. Algures pelas prateleiras de cimento da grande cidade.
 



Foz d'Égua

Um insignificante senão: só há um caminho para chegar à aldeia. Um bocadinho titubeante para quem carregue uma bilha de gás, ou... esqueçam.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Cascatas e cachoeiras portuguesas (iv)


 
 
Não é lá muito fotogénica – só é possível fotografar, em toda a sua extensão, de longe –, mas está inserida numa paisagem granítica ímpar, Serra da Freita, onde caprinos, ovinos e bovinos coabitam no remanso do alto, a 900 metros de altitude. É a maior de Portugal e de toda a Europa (exceptuando os três países escandinavos), de forma que não estamos perante uma cascata ou cachoeira padrão, mas de uma imponente catarata (75 metros em queda livre), mais alta que muitas do Iguaçu e do Niágara. O nosso país pode ser pequeno, mas tem de tudo.
 
Cascata da Frecha da Mizarela, Arouca

terça-feira, 7 de maio de 2013

Cascatas e cachoeiras portuguesas (iii)

Por convicção, não sou chegado a premonições. Por natureza, trago-as comigo. Começava a ficar preocupado com a última, era mázinha, arrastava consigo um assombro, adornado de receio, não muito comum na palete de sombras com que tinjo inabilmente pecados adâmicos.

Chegado à terriola, encosto à berma e pergunto a um pequeno grupo de convivas onde se encontra a cascata da Pedra da Ferida:
 
– Se fosse a si não ia… – aprontou-se o mais festivo.
– Porquê…? É perigoso? Há assaltos por lá…? – Indaguei inquieto.
– Assaltos? Isto é tudo gente de família! Mas se fosse a si não ia…
 
Ainda fiquei à espera de um "mas o senhor é que sabe…". Em vão. Indicaram-me, visivelmente incomodados onde ficava a dita, e repetiram sequencialmente um a um: "eu não ia, eu não ia, eu não ia…"

Posso perder-me numa categórica premonição, mas nunca fui homem para virar costas a vontades. Sobretudo às intrigantes. Sabia que grande parte do trajecto era um trilho pedestre ao longo da Ribeira da Azenha e nos primeiros trezentos metros tudo parecia fácil. Um caminho estreito, mas bem definido; uma flora exuberante, muito verde; passarinhos a cantar e trutas selvagens a chapiscar, viçosas e enérgicas, águas acima. Os safados dos velhotes não me queriam mostrar o seu tesouro, pensei lampeiro.


Decorridas aquelas três centenas de metros, senti os pés molhados, as pedras de musgo mais viscosas e escorregadias, a ribeira muito mais abaixo, em que qualquer pedrinha que se desprendesse a cada meu passo demorava uns bons segundos a cair na água. Mais: o barulho das trutas viçosas passou a assemelhar-se ao de um imenso réptil que me acompanhava silencioso e paciente lá do fundo. A própria paisagem, agora mais densa, deixou paulatinamente o verde vivo e emergiu parda, agreste a fugir para o azul-cinza, surgindo escarpas de difícil escalada, aqui e ali deixando abrir pequenas frestas donde saíam frágeis arbustos que em nada ajudavam a ascensão abrupta. Não fora a placa rachada com a indicação de 150 metros e tinha desistido. Desistir não é bem o termo, havia toda uma subida que tinha de ser descida e, ao contrário do provérbio, a descer todos os demónios empurram… Teimoso, cheguei. Avistei duas cascatas gémeas, uma em cima da outra, cada uma com mais de vinte metros. Despenhavam-se sobre uma grande bacia de água escura e gélida, donde por instantes surgiam do fundo enormes bolhas de ar: só podia ser o medonho bicho que me acompanhou, o verdadeiro protegido dos aldeãos. Ou a minha premonição...
 
Cascata da Pedra da Ferida, Espinhal, Penela

De resto, a descida foi pacífica e calma, sem pressas, contemplativa, muito suave e, principalmente, sem medos.