quinta-feira, 1 de agosto de 2013
s/ título
Avistei-te por ali, pela corrente avulsa de gente que calcorreia diariamente as ruas da grande cidade. Cabelo já todo níveo assumido e descuidado, roupa três números acima, olhar desfocado e ausente. Por ali, sem saber ao que ias, quase vinte anos depois. Covarde, atalhei caminho, não te soube encarar nesse abismo, nem prolongar o meu olhar nas inúmeras rugas que te circundavam os olhos baços e sumidos, perguntando a maior de todas as imbecilidades: Olá, como estás? Não, não precisava de te falar e de te ouvir. Já mo tinham dito. Não há nada que se possa fazer para além de um olhar mutuamente contristado. Perder um anjinho deve matar muito mais do que nós próprios. Devemos morrer várias vezes e extinguirmo-nos em tudo o resto.
terça-feira, 30 de julho de 2013
porque é assim
Apaixonar não tem particípio decente, descura o pretérito, escarnece o futuro e carece de gerúndio. Aliás, apaixono-me, apaixonas-te, apaixona-se e parou. Tudo no presente do singular. Ninguém se apaixona no plural: nós os dois nunca nos apaixonámos ou nos apaixonaremos. Exortar paixão padece de uma singularidade muito própria e presente, jamais, a cada tempo, correspondida ou subordinada.
Paixão vem de um só canto, não é transmissível, não segue para além de mim, de ti, dele ou dela. É coisa de eremita, de hedonista estóico, de um único ser. É construção solitária. Faz-se e desfaz-se no âmago de cada um sem necessidade de consulta prévia. Devidamente cuidada e alimentada é produto da sua própria insistência, não está condicionada pela empatia ou antipatia alheia. Tudo o que se lhe reflecte detém-se impotente: é um outro mundo, à medida dos nossos anseios e acometimentos, que se faz inalcançável. E quando se esboroa, será sempre porque a ela se segue outra. Mais espectacular e repleta de desfaçatez. Porquê? Porque é assim.
Amor é outra coisa, é o pote cerrado no fim do arco-íris. É vírus estranho e externo, vem lá do norte, vem quando dele já estamos desprecavidos e esquecidos.
Amar conjuga-se de todas as formas e feitios, estira-se regalado pelo gerúndio, espraia-se pelo plural, percorre todos os tempos mais-que-perfeito e, brioso, avança para o imperativo. É sismo interno à pele e às entranhas; libertação incontrolável de energias opostas que nos predispõe bovinos contemplativos. É epicurista de berço, mas é sobre a dor que mais e melhor se alonga, mais e melhor se define extrínseco, surgindo como forma maior que reabre o Divino, onde o culto é lúbrico a nós dois, ao dístico das nossas identidades, tornado uno e indivisível.
Como qualquer ser inerte sem hospedeiro, não passa de prosa ou de vã filosofia crivada pelos tempos em papiros empoeirados já esquecidos, mas, como qualquer ácido nucleico, encontrando quentura e frequência cardíaca, se propaga em surtos ciclicamente pandémicos, exalando torrencial harmonia e felicidade.
Por isso mesmo, paixão pode ser só problema meu, mas amor será sempre um problema nosso.
domingo, 28 de julho de 2013
na dúvida
Confiar não é acreditar. Posso confiar o meu automóvel a alguém com o mesmo à-vontade com que não acredito tratar-se do melhor condutor do mundo. Nem sequer do mais cauteloso. Apenas sei, acredito, que fará o seu melhor para mo devolver intacto, lavado e, por gentileza, com o depósito atestado. Confiança não é a característica mais evoluída na escala de uma relação. É, com certeza, necessária, mas nunca suficiente. A determinada altura, dá lugar a outra, bem mais adaptada a todo o meio afectivo envolvente: à crença. Enquanto a confiança encontra lastro no elevado grau de probabilidade de alguém não falhar, não decepcionar, não a romper; acreditar acarreia bem mais precisão e convicção de que o outro fará sempre o seu melhor. Prefiro muito mais um prometedor acredito em ti, do que um chantagista confio em ti. Confiar apenas responsabiliza, e até pode intrometer desajustes estranhos e subsequentes culpabilidades sendo, por natureza, sobranceiro ao nomear quem confia em quem, subalternizando o objecto por magnânima confiança. Acreditar não só responsabiliza como valoriza ao mais alto nível. Há uma aposta, larga e quase cega, de alguém muito especial convicta em mim. Um toque de esperança que deveria caber sempre em sorte a cada um de nós ao longo do tempo. Depois, numa sociedade em que as confianças lavram-se por deprimentes contratos, cujos cumprimentos são dirimidos ao milímetro, haverá dádiva mais preciosa e quente do que um benfazejo e simples Acreditar? Não, não há nada mais nobre.
sábado, 27 de julho de 2013
clichés (i)
Nunca acreditem num homem que vos assevere não reparar na aparência dos outros homens. O mais certo é não reparar noutra coisa. Mas se, pelo contrário, vos disser que sim, que repara sem pruridos, e até avance com ulteriores considerações, desconfie na mesma. Não só quer conquistar a vossa confiança, como exibir e ostentar o seu pavilhão de caça.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
osmose
Precisava entendê-la, saber quantas mais línguas conhecia, se juntava a gestual à casual; saber que batimentos cardíacos mais lhe atormentavam, quantas gotas de suor expelia, quantos cabelos espigados deixava abrir ao sol. Precisava enumerar os poros mais dilatados, equacionar as pestanas longas e desenhar constelações nos sinais da pele alperce. Medir a tessitura dos seus bocejos, a graça dos seus rumorejos e a infantilidade dos seus soluços. Pois é, precisava entendê-la, pressentir o que sentia, suportar o que sofria, chorar e rir o que sorria e lamentava. Coisa aritmética, de régua e esquadro. No fundo, tomar-lhe as medidas e fazer-se, à sombra, uma cópia 3D.
Dizia não querer mais nada dela. Porém, não desdenharia ver pelos seus olhos, cheirar pelo seu nariz, sorver pela sua boca, ouvir pelos seus tímpanos, tactear pelas suas terminações nervosas e corar pelo seu rosto. Coisa pouca. Inabalavelmente crente, sabia que, fazendo-o, uma voz superior, ecoando um ponderoso temor reverencial, o condenaria feliz. Afinal a osmose ainda não constitui pecado mortal.
terça-feira, 23 de julho de 2013
noites de Verão em Lisboa (iii)
«Por una cabeza, metejón de un dia, de aquella coqueta y risueña mujer
que al jurar sonriendo, el amor que esta mintiendo quema en una hoguera todo mi querer.»
segunda-feira, 22 de julho de 2013
terça-feira, 16 de julho de 2013
Boa como o milho
Esta expressão, brega como a maçaroca, tem origem obscura – todas as explicações que encontrei são fantasiosas ou não convencem. Avancemos então para o domínio especulativo e comecemos pelo significado. No género contrário surge "ele é um pão" ou "[ele] é um gato", com a nuance de que o primeiro come-se à dentada, sendo ou não de milho, e o segundo contempla-se com a devida vénia (não vá arranhar ou ter dona). Sem grandes deduções, estamos nitidamente no domínio do palato mas, mesmo assim – sabe-se –, há estômagos para tudo; não sendo líquido (neste caso, sólido) que milho seja liminarmente apetecível para qualquer um, será todavia matéria-prima para muita e boa coisa. Quando aquece dá pipoca; quando moído, farinha. E desta faz-se bolo, broa e paparoca. O que pode ser um piparote de estalo. Sem sublime explicação plausível, "boa como milho" é uma expressão que se basta a si própria e, com sinceridade, contenta ou, pelo menos, enche a boca de apaniguada gente.
Segue-se foto ilustrativa:
sábado, 13 de julho de 2013
quinta-feira, 11 de julho de 2013
o verdadeiro inspirador presidencial
Depois de muitas horas desolado à janela, sem saber o que fazer e dizer ao país, Cavaco avistou mesmo à frente o agente Paixão: Eureka!
só há uma coisa mais idiota do que o comunicado do sr. presidente...
... é tentar tecer lucubrações sobre o seu conteúdo.
Por mim, "siga a Marinha!"
Por mim, "siga a Marinha!"
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Ui... Cavaco Silva acabou de convocar eleições antecipadas
Agora sim, fazia todo o sentido apresentarem as cartas de demissão. Afinal de contas, quem quer fazer todo o trabalho sujo sem um soupçon de promessa de viragem? Paulo Portas terá de fazer um flick flack encarpado à retaguarda. Passos Coelho vai assistir calado sem fazer coro. E daqui a um ano teremos a canalha socialista com Mário Soares em ombros. Entre outros resgates.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Tinha apenas 30 anos
Naturalmente, muita coisa muda em 22 anos, mas, para além do óbvio, o que permaneceu...? E o que pode voltar a mudar? Vamos ver.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






