Nunca outrora a Estética foi tão valorizada como na Grécia Antiga, emergindo mesmo como um ramo autónomo da Filosofia:
"… a beleza não está na simetria dos elementos, mas na adequada proporção entre as partes, como por exemplo dos dedos uns para com os outros, estes para com a mão, esta para com o punho, este para com o antebraço, este para com o braço, e de tudo para com tudo, como está escrito no Cânone de Policleto. Tendo-nos ensinado nesta obra todas as proporções do corpo, Policleto corroborou seu tratado com uma estátua, feita de acordo com os princípios de seu tratado, e ele chamou a estátua, assim como o tratado, de Cânone"
(in De Placitis Hippocratis et Platonis, Galeno)
No Renascimento, com Michelangelo e Bernini, ao cânone das proporções, evoluiu-se para o
contrapposto, isto é, abandonou-se a pose majestosa e estática das obras esculpidas representando o corpo humano, impregnando-as de movimento e de naturalidade.
David é o expoente máximo desta mudança, em que à harmonia do corpo junta-se a beleza da alma.
Passados mais de trezentos anos, surge (na opinião de muitos críticos) o maior escultor de todos os tempos, Auguste Rodin.
À perfeição da representação do corpo (Rodin foi um fervoroso estudioso da Anatomia Humana) e à cadência da vivacidade e do movimento, imprimiu sentimentos e emoções, fazendo com que as suas obras interagissem com o observador, alterando sistematicamente a sua observação, incitando-o mesmo à reacção. Muitas vezes, deixava as suas obras inacabadas (non finito), não por mero capricho de marca própria, mas com o intuito de convidar o observador a participar na sua criação. Obviamente, rompeu com as regras da Academia da época, foi marginalizado e não foi aceite pelo seus pares. Mas continuou em condições especialmente difíceis.
Em 1884, o Presidente da Câmara de Calais escreveu a Rodin "Nossos burgueses sempre se ergueram imperiosos e insensíveis às injúrias do tempo e aos comentários idiotas. Há-de vir o dia que serão compreendidos". Assim, o Município convidou Rodin para esculpir um monumento que "deve comemorar o episódio da Guerra dos 100 Anos no qual, a cidade, cercada pelo rei de Inglaterra, foi poupada graças ao sacrifício de seis eminências que se ofereceram como reféns de corda ao pescoço com a chave da cidade nas mãos", como descreve o cronista Froissart. Rodin elaborou um monumento com seis pessoas, todas ao mesmo nível térreo e em tamanho natural, em que cada uma delas expressa um sentimento e uma atitude diferentes, com individualidades físicas e psicológicas diversas, através das suas expressões faciais, corporais e vestes ante a proximidade breve da morte: o cansaço do mais velho, a solidez e determinação do portador da chave da cidade, o desespero e a tormenta do mais frágil, o dramatismo do mais ansioso, a aceitação estupefacta do mais novo e a coragem do mais destemido. Perante tanta diversidade, emerge uma imensa expressão de solidariedade e de sacrifício colectivo. Em toda esta multiplicidade surge uma incontestável harmonia à qual devemos chamar Arte.
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| Os seis "Burgueses de Calais" |
Quatro anos antes, em 1880, Rodin tinha sido chamado a construir "As portas do Inferno" para o futuro Museu de Artes Decorativas. Inspirado pela primeira parte da Divina Comédia de Dante, O Inferno, esculpiu nelas quase duzentas figuras até à sua morte. Deste monumento colossal, com mais de seis metros de altura, surgiram as suas obras mais emblemáticas, através de réplicas maiores retiradas do portão. Dele saiu "O Pensador, "As três sombras", "Ugolino", "O filho pródigo", "Fugit Amor", "A Danaide" e a célebre "O Beijo", entre muitas outras.
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| O enorme "Portão do Inferno" (no cimo "As três sombras" e logo abaixo "O Pensador") |
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| "O Pensador" (antes, "O Poeta") |
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| "As três sombras" (antes de entrarem no Inferno) |
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| A morte de "Ugolino" com os seus filhos e netos famintos agarrados ao seu corpo |
Cada uma delas tem uma narrativa muito própria e rica. Vejamos “O Pensador”. Enquanto personagem que compõe o Portão do Inferno, não passa do próprio Dante observando de cima o seu Inferno. Mas fora deste, ampliado, simboliza a força do pensamento poético e filosófico sobre a natureza e condição humana. Reparem bem no corpo representado, parece em harmonia total, em perfeito equilíbrio, e contudo… tentem imitar a posição daquele corpo sentado: pulso esquerdo sobre o joelho esquerdo e cotovelo do braço direito sobre a coxa esquerda… experimentem sentir aquela posição! Quanto tempo permanecem confortáveis nela? Voltem a olhar para a escultura abaixo:
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| Não se esqueçam: pulso esquerdo sobre joelho esquerdo e cotovelo direito sobre coxa esquerda... |
Tudo tão sensato e equilibrado… Este é apenas um exemplo, mas a razão pela qual o corpo parece estar completamente descansado é o alongamento dos braços e do tronco, aliás, as mãos das esculturas são todas maiores que o "normal" e, contudo, imperceptíveis.
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| Escultura de Balzac com o seu hábito de monge usado enquanto escrevia: foi um escândalo à época... |
Como disse, todas as obras têm uma história e um propósito muito próprios e ricos. Rodin é um expressionista e um impressionista, um romântico e um realista, um classicista e um pós-modernista. Rodin é um Artista Maior, o maior escultor de toda a História.
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| O Jardim do Museu Rodin |
Podia acabar aqui este já extenso post: uma pequena mostra do génio de Rodin e algumas explicações sobre a proveniência de algumas das suas obras. Mas seria justo? Não. E porquê? Porque omitiria o maior "mistério em plena luz do dia": Camille Claudel.
Camille, depois de estudar na Escola de Belas Artes de Paris, foi admitida como aprendiz-estagiária de Rodin por volta de 1884. Extremamente talentosa, mesmo genial, colaborou activamente em todos os trabalhos atrás mencionados conjuntamente com ele. Muita da genialidade destes deveu-se a Camille, de tal forma que a fusão no acto criativo era completa. Mal se distinguia a mão de um da do outro, como o Amor de um pelo outro… "
Danaide" é ela e o famoso “
Beijo” (que nas “Portas do Inferno” representava o amor proibido de Paolo e Francesca – personagens de Dante) são eles os dois. Rodin não era casado, mas namorava Rose e nunca prescindiu dessa relação em nome de um passado sofrido no começo da carreira. A relação com Camille foi profundamente intensa durante dezasseis anos (um aborto e muito sofrimento pelo meio). Intensa, doentia e cruel: diz-se que Rodin ter-lhe-á dito que "ela emanava dele e que nada era verdadeiramente dela". Surge a inevitável ruptura. Camille, inacreditavelmente criativa e talentosa, constituía um escândalo para a sociedade e uma ameaça em cascata para o talento de Rodin. Consumou o desenlace primeiro com “
La Valse” e depois, definitivamente, com "
A Idade Madura". Entretanto agudizaram-se os episódios neurótico-obsessivos e a depressão, tendo sido mais tarde internada compulsivamente num manicómio, isolado do mundo. Morre, muito doente, pouco tempo depois da morte do seu pai, o seu maior protector.
Agora acabo: cada vez que virem uma inacreditável obra de Rodin, nunca se esqueçam que sobre ela passou a fraqueza de um homem e a força e a paixão das mãos de uma Mulher. Camille, "um mistério em plena luz do dia"*.
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| (fotografia retirada do Google) |
* Expressão do irmão, o poeta e embaixador Paul Claudel