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| (Fotografia de Paulo Abreu e Lima) |
Há muito muito tempo nasci num conto de fadas Orianas que nada tinham a ver com
Shopia. Uma pena, os livros têm sempre um encanto escondido nas linhas mestras
dos textos, que intercepta as almas de pessoas a crescer no tempo que não
acaba, porque existem varinhas de condão. É mais ou menos o livro em cada inicio, há o
rigor do instinto, o colo da casa, a página que se segue, uma atrás da outra,
um, dois, três... Quando tudo começa, é relativo. Começa quando a concepção acontece,
no frio da noite, a meio de um Inverno, numa cama sem fim? Ou quando a cabeça
espreita um mundo sem forma e com vozes, que afinal existe para fora da mãe?
Que bem vistas as coisas não é mais do que um prolongamento do filho, mentalmente
analisando. Que por sua vez e curiosamente, é um prolongamento da mãe,
fisicamente falando.
Pode ainda começar mais tarde, quando o mundo
ganha corpo na nossa cabeça, pontos cardeais, directrizes
capazes de nos governar os instintos que afinal não pertencem só aos bichos.
Caramba, também nós vivemos de tendências e impulsos que diminuem a exactidão dos instantes, não fosse assim e a matemática tomaria conta de um mundo recto e banal, puro desperdício. Para mim, é exactamente aqui que tudo começa a sério, e se me permitem a leviandade de uma apaixonada do inconsciente. Mas não percamos excessivo tempo
com isto, a casa é essencialmente masculina, não há lugar para complicações. O objectivo é simples, calma, necessitei apenas de um enquadramento harmonioso: deixá-los acontecer espontâneos, aos instantes e aos acontecimentos, permitir que a livre vontade também nos construa, a par e passo com a razão da coerência. Esquecer o sumo exagerado de explicações e planeamentos, ainda um dia gostaria de saber para quê. Não esquecer as questões, claro, quem pergunta mesmo sem resposta elimina os trajectos inconvenientes, ainda que nem dê por por isso.
Haverá outros percursos, falaciosos, enganadoramente mais firmes, quase capazes de nos unificar na experiência, tudo o que queremos. Mas a nossa desenvoltura,
e por firme que seja, nunca abrange em plenitude a constante frustração. E por fim especialmente para as senhoras, é assunto maioritariamente nosso: gostamos de mandar o corpo e a alma em consonância com a vontade ideada a um ror de distância, até no vestido a usar no próximo acontecimento social, daqui a uns meses, em vez de confiarmos na casualidade de uma loja ao acaso, detentora de um assombroso modelo que nos assenta a matar.
O nosso mando, às vezes, tantas vezes, pode mandar contra nós. E nós, ufanos, deixamos, cientes na certeza que não há, deixando a harmonia do incerto a passear ao nosso lado.
Passeios bons lado a lado, são outra coisa e nada disto, e pasmem-se, começam sempre inesperados. E mesmo depois, já esperados, podem acontecer sem ser nada no rigor do dia certo, ou serem tudo quanto se quer, num acaso apenas fortuito.