© Paulo Abreu e Lima

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

clandestinidades


Houve o dia em que encontramos uma igreja abandonada e quase nos apetecia saltar o arame farpado que a guarda dos olhares curiosos. Os meus entram numa classe apuradíssima dentro do género, são capazes de cometer delitos pelo prazer de olharem, mais ou menos como os meus  ouvidos, que se propõem a atravessar distâncias pelo de escutarem. Seguimos caminho que a sensatez proibiu-me de arriscar, não fora aparecer alguma guarda encarregada de zelar pelos supremos interesses do proprietário. Ficou-me atravessada, a bendita. Isolada num campo quase vazio, batida por sol, arrefecida por uns dez graus centígrados ensolarados, o melhor dos dias de Inverno ( Outono, claro). O montado ( relembrou-me ele, que fraca memória) guardava uns ninhos de cegonha altíssimos, mas as aves nem vê-las, devem estar longe. Os sobreiros recordam-me sempre um coração que eu desenhara num do meu avô, o gigante gigantão que me livrava o quarto do sol e o deixava gelado. Nessa altura eu desenhava por sugestão, achava bonito e delicado, coisas de menina que não sabia de nada. Não arrisquei pedir-lhe que parássemos, já não sou hábil nem persistente, para tal proeza é preciso tempo. O dia estava frio, mas juro que quando voltamos o meu corpo procurava a igreja outra vez, desejo totalmente condizente com a minha paixão por monumentos religiosos. Gosto de tudo no silêncio dos locais sagrados, desde as portadas aos santos, se ou houver, passando pelo cheiro da devoção e da sacristia, dando a volta pelos altares e pela fé, se tiverem gente. Se não tiverem, tanto melhor, fica a tua, a minha, a nossa. No aqui, no agora, no depois e no para sempre. Não saímos porque não entramos, mas se o tivéssemos feito viríamos na mesma tão perto. Nem queria saber o que estava lá fora, quereria apenas sentir o que está cá dentro. Um dia levo-te lá mesmo a sério, prometo, e se me tentares chamar à seriedade, faço orelhas moucas, há momentos clandestinos que merecem ser. Na ausência deles ganha a razão, sensata, prudente, fria, sozinha. Uma ilustre vitória desapaixonada.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Muitos Parabéns, Helena

É conhecida pela sua gargalhada contagiante, pelo seu humor inteligente, pelo seu pragmatismo ante a vida, pelo seu carácter impoluto, pela sua frontalidade desconcertante, pela sua afectuosidade dulcíssima, pela resposta pronta à mais descarada pergunta. Para mim pode ser isso tudo – e é! –, mas nela vejo primeiro que mais um imenso Coração. E isto é muito mais do que tudo o resto. Não tem valor.
 
Obrigado, Helena.
 






 

homenagens

Gosto de homenagens post mortem como quem gosta de chocolates. Alimentam-me um conhecimento selecto da pessoa em questão, inteiram-me da grandeza por vezes desconhecida, dão-me a conhecer vida e obra de pessoas importantes que o mundo acolhe de braços abertos, faz-lhe muita falta personalidades respeitáveis, de pequenas está tudo cheio. Aprecio-as um bocadinho mais quando sentidas e ditas com frases que podem ser simples mas que acolhem na vastidão das palavras um sentir de admiração, que vale a pena ler, porque é sempre bonito ler palavras bonitas. As declamadas no preceito do politicamente correcto soam-me a livrinhos de venda fácil, agendas de ditos milagrosos, fracas figuras, não me servem para nada. É que uma coisa é escutar sentires, outra é ouvir compilações de palavras que estão soltas do corpo, só para inglês ver. Mas o que não suporto mesmo são as sensações egoístas de perdas irremediáveis, quando o que aconteceu, e na presença de pessoas realmente valiosas, foi um ganho inenarrável. A verdadeira homenagem seriamos nós, pessoas normais, tentarmos chegar perto do ideal, que afinal é possível ser. O resto, e se for só, morre nos dias que passam, definhado nos corpos que apreciam o belo, mas que estão demasiado ocupados para procurarem o bom. Ser bom, deve difícil. Digo eu na ignorância, claro.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

da mercadoria barata

Lena sabe tudo. Do alto do seu metro e cinquenta mal medido, dilui-se em soluções alicerçadas na sua certeza medíocre, enquanto o redor se redime, impressionado, com tão notável inteligência. Os desenlaces nascem-lhe do corpo sem critério ou objecção, espalham-se pelos dedos que agarram tudo, pelas palavras que espargem  saber, pelos olhos que emitem umas bolinhas recheadas de uma razão acordadíssima a um mundo diminuto e precisado de ordem, que só o número pode dar. Primeiro obstáculo, não são os números que governam o mundo. O mundo governa-se quando muito em pequeninas equações quase aritméticas, que se expandem e se transformam em outras muito maiores, mas que perdem o rigor numérico num segundo, é haver gente. E eu cá, não conheço outro, o dos bichos está-me de certa forma vedado. Ouvi-a em silêncio, apurei os ouvidos, sacudi os cabelos, coloquei os óculos, não fosse escapar-me alguma meditação corpórea merecedora da minha atenção, e parei muito quieta, verbalizando umas míseras interjeições encorajadoras, quando era caso disso. A pessoa animou-se, e eu continuei passiva, bem vistas as coisas só sou boa a incentivar o interlocutor, ossos do ofício. "Ensinou-me" como se gerem mulheres e homens, como se controla uma casa desgovernada, como se fiscalizam os números que permitem a existência regulamentada, como se motiva uma equipa de trabalho, onde se arranjam pessoas que valem a pena. Segundo obstáculo, acabei por perguntar-lhe o que é isso de pessoas que valem a pena. Não soube bem dizer-me, espantem-se, iniciou apenas um processo de seriação de competências consideradas importantes, todas devidamente encaixadas no rigor matemático que a rege à exaustão da existência, como se o tempo pudesse ser vivido ao segundo, apenas e só, sem a maleabilidade interna da construção do pensamento. A certa altura tirei os óculos. Olhei-a de perto e levantei-me, precisei de ir beber um copo com água, estava angustiadíssima. Perguntei-lhe quantas coisas ela não sabia, dado que me parecia saber tanto. Fiquei pasmada de não obter uma resposta concisa, algures entre um bilião e o outro, mas conseguiu apenas dizer-me que não sabe algumas coisas. Não gostei da ausência de rigor, pois claro que não, apeteceu-me até exercer a temida função de professora do antigamente e utilizar a janela e as orelhas de burro, sentá-la virada para a rua, à vista de todos, chamar uma notável assistência e bater palminhas. Em vez disso, disse-lhe apenas que assim ficava mais satisfeita, pois na arte de uma certa sabedoria, ganhava eu um a zero: ela não consegue quantificar a burrice que a ataca, eu, sem a numerar, topei-a toda desde que me entrou à porta do escritório para dentro. 

(Ela também não sabe, mas quem é mesmo bom não se vende ao desbarato.) 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

às vezes...


 


Ele, experiente, buscava a felicidade, ou lá o que isso era; ela, mais inocente, a realidade, certíssima do que esta seria. Ambos, por prudência, arreigavam cautelas, caldos e mazelas de uma certa moralidade assimétrica na inexactidão de costumes.
 
Ele, pachola, era um romântico por cartilha; tudo se pautava por uma primeira vez mesmo se desfeita em mil outras, prosseguindo avisado por degraus sinuosos com alvedrio e fervor. Sabedor da inevitabilidade que lhe sucumbia a têmpera e o coração, jamais se desviava um milímetro do seu desígnio. Imparável, o insolúvel.
 
Ela, mais insolente e cheia de si, só almejava auscultar a vida. Sentir-lhe a força de supetão sem amarras ou grilhetas; beijá-la na estranheza e enamorá-la pela certeza. Nunca pelo consolo ou descoberta, mas pela incerteza da queda certa. Insensata, a solúvel.
 
Volvidos anos, conhecem-se. Precisamente quando ele até já tinha renunciado à propalada felicidade e ela já se esquecera da tal da realidade. Sós, um diante do outro, sem palavras ou preceitos, moralismos ou preconceitos. Afinal, a nenhum dos dois foi dito que uma e outra, realidade e felicidade, não mais abundam por aí. São arremedos de torpedos inventados, às vezes, por aqui. Pelo lado de fora da paixão, exactamente por esse, pelo lado de dentro da comoção.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

agora, escolha.

 
Quase tão difícil como a não opção, é a escolha sem saber para onde. Se da não opção surge uma prisão, da outra pode surgir uma indecisão presa a realidades viáveis, sem que saibamos qual delas é melhor. Nunca gostei de decisões fortes, muito embora a vida seja feita delas em qualquer momento. Seleccionamos empregos, zonas, destinos e caminhos, locais e viagens, pessoas ou bens. Todas elas podem ter uma carga significativa de ansiedade envolvida, basta que para isso projectemos o futuro nas possíveis decisões. Mas mais do que isso, muito mais do que isso, é se das escolhas depender de forma directa, a possibilidade de vida ou de não vida. Nos tratamentos do cancro, por exemplo. E agora? Será preferível sujeitar a possível cura ao conhecido e cientificamente validado, muito embora as hipóteses de sobrevivência sejam escassas? Ou, por outro lado, será melhor a incerteza de estudos em progressão, ainda sem resultados comprovados, mas com alguns casos de cura considerados perdidos na medicina mais convencional? E se a decisão, mais do que nossa, for com um dos nossos? A culpa é um dos maiores pesos que podemos encontrar, mesmo que em pleno estado de isenção da mesma. Olho, leio, inteiro-me, questiono-me, e no seguimento acabo por concluir, num ciclo sem fim, uma fraca constatação: nem sempre a liberdade de escolha é uma boa opção; algumas, muitas vezes, uma direcção indicada é tudo o que precisamos. É que quando há medo, a crença no outro é maior do que qualquer outra realidade. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Qual Cultura...?

Sem qualquer dúvida quanto aos nefastos e catastróficos efeitos da crise na Cultura, em nada me apraz dizer que esta, como em outros pilares do Estado de Direito – Educação Pública, Serviço Nacional de Saúde, Defesa Nacional, entre mais – foi (e ainda é) um rico negócio para alguns e um muito bom sustento para outros. Por outro lado, se me quiserem falar da penúria financeira pela qual a Cultura em Portugal atravessa, não se esqueçam, igualmente, de mencionar o tecido fértil de egos inflados, de compadrios, intrigas e demais habilidades com que esta se foi cosendo ao longo dos últimos anos. É que há muita lebre escondida com igual quantidade de rabo de gato de fora. E por falar em bicharada, não se esqueçam ainda do mundo canino onde autores, produtores, comunicadores e, principalmente, outros "actores" se vão movendo. Reptilineamente, claro.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

amor a mim


Os afectos e o amor são uma descoberta. O que recebemos é sempre, e antes de qualquer coisa, o que damos e o que o outro recebe. É claro que não entregamos tudo de bandeja, vai devagarinho, pelo menos do corpo para dentro. Numa entrega feita passo a passo, sem fim do caminho. 

No apogeu da existência, já devemos ter dado tudo, certo? Errado, nada mais errado. Enquanto formos, nunca o processo estará terminado. 

( A maior ânsia é invariavelmente fazer-nos chegar ao outro, para que ele nos descubra. Ou seja, nos ame sempre mais um bocadinho. Se não for essa, estaremos obviamente equivocados. A guardar o que somos para nós, deixando a possibilidade de sermos realmente encontrados reduzida a coisíssima nenhuma. Jamais aceitaria um amor que não fosse a mim.)

domingo, 24 de novembro de 2013

gelo



Desci a rua que ia directa ao elevador que me levaria ao cimo do sítio que eu queria. Descalcei-me, estava íngreme, a calçada tinha sido feita a preceito por calceteiros que a deixaram coladinha uma na outra, os pés das transeuntes tinham polido a pedra branca nos passos corridos em sapatinhos de salto. Segui num cuidado arrumado ao equilíbrio do fio que é a vida em cima do monte. O vento abanicava-me de um lado e do outro e eu fui-me firmando na manhã de Inverno frio (só de manhã deveremos subir muito alto). O elevador tinha um senhor que não falava a comandá-lo, não eram precisas palavras, o destino é sempre igual. Carregou no botão mal entrei e eu sentei-me e calcei os sapatos. Fiquei a sentir o meu corpo a subir devagar por entre as casas que se erguiam pequenas e sujas no enfiamento das ruas. Não havia gente (há dias vazios). Mal chegamos parei a olhar no mesmo tempo que o homem abria a porta para que eu saísse para o sítio sozinho, que apreciou companhia. Sentei-me e espreitei a cidade acolhida aos meus olhos, distantes de mim. Centrei-me nela e escutei-lhe os passos apressados que eu conheço ao pormenor da guitarra. Nisto talhou-me um vestido perfeito e florido (não há nada melhor para abrigar do frio corpos de mulher arrefecidos). Embrulhou-me depois numa coberta lisa que eu arredei e estendi aos pés. Sentei-me, precisei de sentir o chão que me agarrava. Não chegou e deitei-me, colei o nariz na calçada, os joelhos no pano ( era, era assim!). Levantei-me e ao fundo um barco passava no rio enquanto o fumo deixava um rasto ténue de trajecto passado, rumo ali ao lado. No cais as pessoas esperavam a embarcação que as levaria ao sítio escolhido. Pensei, ousei em descer rápido e em apanhá-lo (era muito tarde). Dei a volta e fugi do elevador que me faria um frio na barriga na descida acentuada, e do homem que não falava os amargos da boca velha. As escadas eram muito mais seguras e tinham sardinheiras. Cheguei no exacto momento em que a última pessoa saia no cais. Entrei e lá dentro espreitei a água que inundava o redor e me deixava tão segura de mim. Não foi preciso cheirá-la, era senti-la. O balanço intenso nunca mais sossegava, e eu, trémula, sentei-me num canto a esperar. Afaguei o corpo, estava muito frio, a manta tinha ficado no alto e estendida no chão. Gelei, é a vida ( shiuuu, o destino está aqui, já passa).

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

complexidades

O mundo é de centramentos e eu tenho dias. Há os que me apertam de manhã cedo, ainda na escada, numa correria que conheço ao pormenor do instintivo que já nem se pensa, só isso justifica as inúmeras coisas que faço sem saber, desligo sempre a luz, fecho sempre a água, tranco sempre a porta, e isto sem rigor obstinado da verificação patológica. Era o que mais me faltava. Não sei a cor dos vasos dos vizinhos, não decorei a marca dos carros, não conheço o que vestem e como se penteiam, a normalidade tem dessas coisas, e é por ela que eu reparo sempre na moça do primeiro andar, carregada de estilo e muito vestida de preto a lembrar o gótico quase morto, versão elegantíssima. Percebi entretanto que tatuou uma andorinha perto das mãos, que espreita por entre as camisolas de manga arregaçada e voa muito alto, mesmo à frente dos vizinhos do lado. Voar muito alto é um sonho de todos, e é por isso que eu aprecio a adolescência até ao infinito, interessa-me lá que ela mexa com os sistemas certinhos da adultez da sociedade. É dela em diante que se voa mais baixo, por ter de ser, por não mais se saber, também por querer. Troca-se com ligeireza a ambição pelo nexo, o vértice pela recta, o contingente pelo certo, e esquecemos, com o tempo esquecemos, de como é que se vê o mundo com olhos de cima. O problema maior surge quando queremos matar esses olhos nos que ainda sabem. Um acto vergonhoso, comparável a um homicídio complexo, que deveria como tal ser punido por lei. 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

da ilusão

Mais difícil do que parecer é ser e é por isso que todos parecemos tantas coisas que não somos. É muito fácil parecer educado aos olhos da distância, da casa para fora e do encontro para dentro, na protecção de um conjunto de artefactos que constroem capas intencionadas e talhadas com o rigor de um alfaiate, aqui um acerto, ali uma gola, acolá um botão que assenta que nem uma luva, no bolso uma pala, na lapela um lenço, na manga uma dobra, um corte irrepreensível. Todos apreciamos fatos de bom corte, o brio nasce connosco no berço, cresce e acontece com o tempo que passa, a genuinidade morre nos bancos da escola, num dia impreciso de uma intempérie esquecida. A partir dessa altura não passamos de constructos inacabados do que somos e do que queremos ser, nunca totalmente uns, jamais completamente os outros. Há uma tendência forte para sobressair, se não por ser, quiçá por parecer. É o que nos resta. Interessa muito mais uma farpela forçada do que um fato esburacado, bem vistas as coisas o que se vê é o que se encontra com os olhos em directo no vão da escada, na mesa da sociedade, na percepção da aparência e na fantasia do que se quer. Ser é muito mais complicado, é complicadíssimo. Para sermos, somos bons mas também maus, somos correctos e incorrectos, santos e pecadores, verdadeiras bombas de mau génio em dias estrangulados por uma manhã de olheiras, desconfianças e ódios de estimação. Ninguém quer gente assim, todos gostamos muito mais de ilusões. 

(Aqui deste lado virtual eu sou muito loira, ainda mais alta, inteligente e dedicada. Mas tenho dias em que sou desengonçada e chego a ter um mau humor insuportável. Sempre fugi à tendência da constância ideal. Não, não é por valor, esqueçam atribuições de mérito descabidas, é a excelência que me incomoda até às entranhas de mim. Preciso de terrenos de manobra, sentires censuráveis aos olhos do mundo, lugares de perdição. E a perfeição nunca me deu asas para isso, fujo dela como o diabo da cruz.) 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

carne fraca

Nunca percebi muito bem como separar a carne do espírito, não me ensinaram, não sei como se faz, nunca houve ninguém com um receituário concreto que me esboçasse um caminho. Em pouco tempo perdi o interesse, habituei-me à complementaridade, abafei a religião que propaga a infinitude de um e a morte do outro, esqueci a vida eterna e a lucidez do intelecto, construí o que sei. Mas o que eu sei, não é muito. Sei que o meu espírito obedece ao meu corpo vezes esquecidas, e que mesmo num resquício de ideia estruturada, é na carne que eu vivo todos os dias e todas as noites, todas as horas e todos os momentos, todos os prazeres e todas as dores. 

Talvez por isso tenha desistido de lutar contra ela, deixei-me disso. Oiço-a da ponta dos meus pés à ponta da minha cabeça, perco-me em cada poro visível e invisível, destaco os contornos e os trajectos, concretizo o que me possibilita viver, conheço-me no infinito. Desde essa altura nem me atrevo a esquecê-la. Não me permito ao desconcerto efectivo, dou-lhe os ouvidos e a boca, as mãos e o cheiro, olho-a de frente e de perto, sem medos ridículos. Até porque ninguém me conhece melhor do que ela: sabe exactamente onde começo e onde acabo, o que quero e o que não gosto, o que espero e onde me dirijo, o que me mata e o que me acorda. 

Irrita-me particularmente que a chamem de fraca, vejam, dizem-no dela porque se impõe. E por favor, analisem bem quem tem a razão. Eu, por exemplo, não sei o sítio exacto onde reside o meu amor. Se entre as ligações sinápticas e invisíveis que me percorrem o cérebro, ou se na pele externa que de fora o quer. Jamais o conceptualizaria apenas morador de rua, isso não seria amor. Mas faltar-me-ia à brava o concreto, se o reservasse e limitasse à inocência do intelecto. 

Há por aí quem me diga que o apuramento da razão não interessa, e sendo assim tem-na toda. E o certo é que sabe disso, local exacto onde a piada se esvai e o meu corpo estremece. Ou não fora a carne fraca, pois. E eu submissa a ela, claro. 

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Lua de Novembro (e algumas explicações sobre outras luas)

A Lua, como único satélite natural da Terra, é, a par do Sol, um dos astros mais fotografados. Salvo raras excepções, todos almejam os melhores enquadramentos - sobre os picos dos pinheiros da serra, entre os arranha-céus das grandes cidades, rente ao mar reflectindo fantásticos luares. Em todas as fotos que encontramos pela net há uma obsessão por colocar a maior lua, a super-lua, a lua de todas as luas. No entanto, no interstício entre o perigeu e o apogeu ela mantém um quarto do tamanho da Terra e, não despiciendo, orbita, em termos médios, a mais de 380.000 km desta. Azarinho! Se utilizarmos uma objectiva sobredimensionada, perde-se o encantatório enquadramento; caso contrário, aparece a dita toda pequenina perdida no meio da paisagem. Ó Paulo, mas eu já vi fotos de luas gigantes a rebolar pelos mares de Tavira, por entre os cactos do Novo México e, até, com um lobo a uivar dentro dela! Pois, acredito, também eu já vi uma caganita de pombo a escorregar pelas crateras de uma delas. Com o advento das câmaras digitais e respectivos softwares, a manipulação de imagens passou a ser tão comum como o raio que atingiu a cúpula da Basílica de São Pedro depois da renúncia de Bento XVI.
 
Voltando à Lua e às montagens: nunca acreditem na veracidade de uma fotografia de uma lua alva reluzente sobre o horizonte. É astronómica e fisicamente impossível. Se tiverem dúvidas, perguntem a vós próprios se já viram algo semelhante. Melhor: já viram algum nascer ou pôr-do-sol em que este se mantém com luz branca? Não são todos laranja-cor-de-fogo-quando-foge...? Pois são, e a razão prende-se tão só pela espessura de camada de atmosfera que os nossos olhos percorrem até ao sol - este caminho é tangente à Terra. Com a Lua passa-se o mesmo. Logo, é completamente impossível que a senhora Glaucia Menezes tenha fotografado sem recurso a montagem (ainda por cima, mal feita), a 22 de Junho passado, uma das super-luas mais vistas e apreciadas em toda a net:
 
Daqui
 
Porque qualquer Lua que se ponha no (ou nasça do) mar (zero hidrográfico) assemelha-se à luz produzida, em décimas de segundo, por uma lâmpada de tungsténio quando se apaga. E, então, o que se vê, goste-se ou não, é isto, é a minha Lua de Novembro:
 

 
Nota final: não quis com este post dizer que não se consegue fotografar uma lua próxima. Claro que sim. Mas só a lua. Aliás, fiz várias.