© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

a colega do blogue sabe (ou devia saber) que para mim o trabalho está em primeiro lugar, e os afazeres e as reuniões profissionais são muitas...





Nota: denodadamente eficaz, Maria do Rosário Mattos e Associados - Sociedade de Advogados RL retirou o vídeo do youtube, mas o mesmo pode ser visto no website da sociedade, aqui.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

a escola é um sítio fantástico

Entrar numa escola sempre foi um privilégio. Já fui aluna, já trabalhei lá dentro, agora, e no que toca a ela, sou acima de tudo mãe. Perco-me nos espaços dos corredores enfeitados com árvores de Natal realizadas em material reciclado, com as mochilas desarrumadas e espalhadas pelo chão, com o cheiro intenso do crescimento e de um futuro que me dá uma esperança renovada numa vida em movimento, que saltita sem cansaço por entre olhos pequenos, ávidos de tudo o que possam guardar. Gosto particularmente do crescimento, porque ele guarda muito. Guarda os professores de referência que ensinam a ser e a saber, guarda o amigo que partilha o pão no recreio e a borracha na aula de matemática, o que ensina o que é um verso e uma figura de estilo, e o que aceita a diferença mais do que os adultos. Aprecio quem consegue entrar no espírito real da educação, e sabe que sonhar utopias também faz crescer. Estimo, estimo muito todos os professores que conhecem e empreendem que não há crianças de primeira e crianças de segunda, e a esses tiro o meu melhor chapéu e faço a minha maior vénia. Por outro lado, fico ligeiramente angustiada com algumas conversas de esquina, usualmente externas à comunidade educativa. Pais que queriam uma escola perfeita num mundo imperfeito, que ambicionam espaços primorosos para os seus filhos notáveis, como se os menos perfeitos, os imperfeitos e os mal educados, pudessem frequentar outro lugar que não fosse a escola. 

Há dias como este, perto do Natal, quando me passeio por entre as mesas do lanche, os " meninos bons" e os " meninos maus", entre o esforço e a dedicação de quem quer fazer vingar, em que me apetece abeirar-me destas pessoas e questioná-las educadamente, sobre qual a brilhante solução que apresentariam para os tais meninos que não deveriam estar ali. Gostaria que me dissessem qual o local onde poderiam aprender, crescer, ler e brincar, errar e ultrapassar, viver e ser, que não a escola. Apetece-me ainda perguntar, muito embora eu até julgue saber, se é essa descriminação que influem aos filhos na hora do jantar e nos passeios repetitivos de Domingo, em vez de os dotarem de meios para lidarem com a diferença, e com algum problema que possa surgir.

Não o fiz, claro, até porque não obteria respostas concretas e plausíveis, e não me apeteciam percas de tempo, estava numa escola que também é minha. Em vez disso, cheguei-me às mesas enfeitadas e comi uma fatia de bolo de laranja, acompanhada com um copo de sumo doce e vários encontrões descontrolados e esquivos. A escola é realmente um sitio fantástico. Se fosse perfeito, nunca seria uma escola. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

é simples

Gosto da simplicidade de um copo de água, de uma camisola quente, de um abraço apertado, de um pacote de arroz. Gosto de a sentir em cada passo que dou na direcção de coisa nenhuma, ou na direcção determinada de um lugar escolhido, depende, a vida é sempre tão complicada ( e direccionada). Gosto da voz do meu filho, límpida, e gosto do pêlo da minha gata, macio e simples. Gosto da genuinidade da infância, da gratidão da velhice, do amor ao próximo, tudo coisas fáceis, assim nós sejamos fáceis também. Gosto dos dias claros e dos dias escuros, ambos são casa para mim, pode até chover e o vento zangar-se comigo, só porque sim. Eu deixo, e espero que passe (isso também é ser simples). Gosto de café com leite e torradas com manteiga quando é Inverno, e se for Natal, torro bolo rei e como-o tostado com chá de cidreira, à lareira. Gosto, gosto muito de uma lareira. Uma lareira faz-me companhia, mesmo se não houver ninguém, e pode ser um local onde a simplicidade da vida assume um esplendor ainda maior (que magnífica antítese). Para isso preciso apenas de uma manta de retalhos e de troncos, para a ir compondo. Os meus olhos conseguem olhá-la horas a fio sem se cansarem, e isso só é possível com as coisas simples, que não exigem de nós para além dos sentidos práticos. 

É claro que esta minha clara visão nos reduziria ao fastio, sem a complexidade da existência, a morrermos em escadinha como uns bichos esfomeados à procura de alimento, num precipício qualquer. Não viveríamos facilmente sem o tabuleiro de xadrez que é a vida, carregado de caminhos, de peões, de Reis e de Rainhas, de torres, bispos e cavalos ( e o que eu gosto dos cavalos, num jogo de xadrez).  Mas penso sempre, e perdoem-me a franqueza, que deveríamos de alguma forma cultivar o culto da simplicidade, uns dias por mês, uma vez por semana, na loucura, umas horas por dia (o rigor da matemática, por vezes, também habita em mim). Aquelas em que olhamos uma parede branca que nos ocupa, em que sentimos uma almofada macia que nos dá o merecido colo, em que nuns olhos olhamos tudo, e o que sobra é conversa (que nem se escuta mais). Sim sim, há paredes brancas, almofadas com braços e olhos com mundo. É apagar o resto, e deixar acontecer (ali, numas certas bandas da pele).

sábado, 14 de dezembro de 2013

harmonias

Considero a diferença uma razão principal à qual o mundo deve uma existência possível, tenho-lhe portanto um inestimável apreço. Estimo quem me expõe aos pormenores da harmonia, ainda que os mesmos possam surgir em pequenas minuciosidades triviais como a que encontro no cabeleireiro apressado que me cruza o caminho todos os dias, de cabelo azul e elevado, num perfeito amor ao céu. Também admiro os passos de Ofélia, a senhora que gosta a valer de saias curtinhas, uma permissão para que as pernas vejam o mundo com olhos de ver, a pele dela precisa desse humilde contacto. Não aprecio por aí além o dealer que habita certas portas, não porque tenha alguma questão pessoal contra ele, apenas porque me desconforta saber que usa a dependência em proveito próprio, sem qualquer mérito louvável na prática que executa. Às vezes creio que esta obrigação coerente se encontra abrigada senão no mundo, ao menos nos corpos jovens, presumidamente mais aptos pela abrangência que a vida atingiu neste século, capaz de nos levar da terra à lua, da paz à guerra, do mar à terra e da pobreza à riqueza, numa fracção de segundos. 

Influencio-me, claro que me influencio, perante um jovem exacto que aprecia o rigor da física e da química, e que me informa em primeira mão que o destino dele são as naves da NASA, os projectos de vencer no espaço, o ânimo de vestir um fato de astronauta e voar até Marte, quem sabe até para mais longe, não há limites reais aos catorze anos. Começa depois a contar-me que o único problema vai ser o programa de Português, as leituras abstractas da filosofia, as ideias subjectivas de Kant, o esforço físico necessário para que a bola de andebol lhe salte do corpo, nas aulas de desporto. Escuto-o com uma esmerada atenção, explico-lhe que a nossa aptidão é um critério cultivado em anos e anos a fio, ao longo do crescimento, reforço-lhe as diferenças, as tendências, as circunstâncias e as próprias limitações, e olho-o, à espera da concordância. Em vez disso, sacode o cabelo para trás, ajeita os óculos na pontinha do nariz, eleva-se da cadeira sem mexer o corpo e profere um satisfeito e grande: "As pessoas da subjectividade não fazem falta ao mundo. Viveríamos perfeitamente sem poesia." 

Sorri, não consegui deixar de sorrir, não pela declaração de ignorância dele, mas mais pela minha. É claro que vai haver para sempre gente que vive sem poesia, tal como haverá para sempre quem viva sem amor, sem generosidade, sem apreço e sem bondade. É exactamente desta harmonia que falo desde o inicio do texto, uma espécie de liberdade, um certo respeito por ela, uma consciencialização das pessoas tal e qual elas são. 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

lideranças


Há muito deixei de achar a capacidade de liderança um dom. Não me apraz que me sigam, que me admirem, que me rodeiem, que dependam de mim em tudo o que ultrapasse o limite do aceitável. Houve tempos em que as fileiras de meninas me engrandeciam o ego, em que os elogios da roupa me desfaziam em graça, em que a solicitação de uma ideia me deixava detentora de um lugar maior, devidamente premiado a medalhinha de mérito, no pódio da popularidade. Com o tempo percebi que em grande parte das vezes a autoridade social é o resultado de uma fraqueza de quem segue, e não a consequência de uma supremacia de quem guia. Bem vistas as coisas, e o nível será mais ou menos o mesmo, só mudam as sequências de destaque: na ausência de direcção, o sectário procura outra; na falta de seguidores, o guia pode, por inquietação, desmoronar.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

etc...

Há palavras que acolhem um sem número de sentires tão díspares, que uns podem ser verdade enquanto outros são mentira. Também nenhuma delas existe isolada do mundo, havendo portanto alturas em que se juntam e encostam ao de leve, aumentando a imprecisão. Muito mais do que o que o que elas dizem é o que eu sinto, e esbarro inúmeras vezes num dicionário incompleto demais para mim, uma exigente assumida, aqui, nas horas de sono, nos sapatos de salto, entre outras minuciosidades. Socorro-me dele quando procuro catalogar as formiguinhas do medo que me calcorreiam o corpo, para enquadrar o desconforto que me come as entranhas nos dias inseguros, para arrumar as sensações enormes que me atravessam de dentro para fora, dado que as outras, as de fora para dentro, são sempre muito mais classificáveis. A não ser quando entram e esbarram no feitiço do inconsciente, claro, um mago virtuoso e capaz de manipular a vontade do mundo, quanto mais a de uma pequena e humilde mulherzinha. Entro em guerrilha inúmeras vezes, armo espingardas, bazucas, caçadeiras e metralhadoras, coloco-me em posição de ataque, atiro a matar e caio para o lado, mortinha, consciente de que a dureza do que acarto dentro, precisa é de jeitinho e paciência. Para além de competência, obviamente. 

(Oiço dizer que a inteligência é superior, devendo então ser a única capaz de acabar com receios, ansiedades, ciúmes e outros males que minam o Homem; só não consigo é perceber a frouxidão da digna, perante os vómitos do id. Bem o sei dono de um esguicho poderoso, análogo ao da doninha, capaz de nos cegar durante dias e dias a fio. Leviana, eventualmente, ignorante, certamente, e quase concluo que superioridade não é isto (ou será então mais uma questão de dicionário, imprecisões e etc, que outra vez se me atravessam no caminho...).

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

clandestinidades


Houve o dia em que encontramos uma igreja abandonada e quase nos apetecia saltar o arame farpado que a guarda dos olhares curiosos. Os meus entram numa classe apuradíssima dentro do género, são capazes de cometer delitos pelo prazer de olharem, mais ou menos como os meus  ouvidos, que se propõem a atravessar distâncias pelo de escutarem. Seguimos caminho que a sensatez proibiu-me de arriscar, não fora aparecer alguma guarda encarregada de zelar pelos supremos interesses do proprietário. Ficou-me atravessada, a bendita. Isolada num campo quase vazio, batida por sol, arrefecida por uns dez graus centígrados ensolarados, o melhor dos dias de Inverno ( Outono, claro). O montado ( relembrou-me ele, que fraca memória) guardava uns ninhos de cegonha altíssimos, mas as aves nem vê-las, devem estar longe. Os sobreiros recordam-me sempre um coração que eu desenhara num do meu avô, o gigante gigantão que me livrava o quarto do sol e o deixava gelado. Nessa altura eu desenhava por sugestão, achava bonito e delicado, coisas de menina que não sabia de nada. Não arrisquei pedir-lhe que parássemos, já não sou hábil nem persistente, para tal proeza é preciso tempo. O dia estava frio, mas juro que quando voltamos o meu corpo procurava a igreja outra vez, desejo totalmente condizente com a minha paixão por monumentos religiosos. Gosto de tudo no silêncio dos locais sagrados, desde as portadas aos santos, se ou houver, passando pelo cheiro da devoção e da sacristia, dando a volta pelos altares e pela fé, se tiverem gente. Se não tiverem, tanto melhor, fica a tua, a minha, a nossa. No aqui, no agora, no depois e no para sempre. Não saímos porque não entramos, mas se o tivéssemos feito viríamos na mesma tão perto. Nem queria saber o que estava lá fora, quereria apenas sentir o que está cá dentro. Um dia levo-te lá mesmo a sério, prometo, e se me tentares chamar à seriedade, faço orelhas moucas, há momentos clandestinos que merecem ser. Na ausência deles ganha a razão, sensata, prudente, fria, sozinha. Uma ilustre vitória desapaixonada.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Muitos Parabéns, Helena

É conhecida pela sua gargalhada contagiante, pelo seu humor inteligente, pelo seu pragmatismo ante a vida, pelo seu carácter impoluto, pela sua frontalidade desconcertante, pela sua afectuosidade dulcíssima, pela resposta pronta à mais descarada pergunta. Para mim pode ser isso tudo – e é! –, mas nela vejo primeiro que mais um imenso Coração. E isto é muito mais do que tudo o resto. Não tem valor.
 
Obrigado, Helena.
 






 

homenagens

Gosto de homenagens post mortem como quem gosta de chocolates. Alimentam-me um conhecimento selecto da pessoa em questão, inteiram-me da grandeza por vezes desconhecida, dão-me a conhecer vida e obra de pessoas importantes que o mundo acolhe de braços abertos, faz-lhe muita falta personalidades respeitáveis, de pequenas está tudo cheio. Aprecio-as um bocadinho mais quando sentidas e ditas com frases que podem ser simples mas que acolhem na vastidão das palavras um sentir de admiração, que vale a pena ler, porque é sempre bonito ler palavras bonitas. As declamadas no preceito do politicamente correcto soam-me a livrinhos de venda fácil, agendas de ditos milagrosos, fracas figuras, não me servem para nada. É que uma coisa é escutar sentires, outra é ouvir compilações de palavras que estão soltas do corpo, só para inglês ver. Mas o que não suporto mesmo são as sensações egoístas de perdas irremediáveis, quando o que aconteceu, e na presença de pessoas realmente valiosas, foi um ganho inenarrável. A verdadeira homenagem seriamos nós, pessoas normais, tentarmos chegar perto do ideal, que afinal é possível ser. O resto, e se for só, morre nos dias que passam, definhado nos corpos que apreciam o belo, mas que estão demasiado ocupados para procurarem o bom. Ser bom, deve difícil. Digo eu na ignorância, claro.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

da mercadoria barata

Lena sabe tudo. Do alto do seu metro e cinquenta mal medido, dilui-se em soluções alicerçadas na sua certeza medíocre, enquanto o redor se redime, impressionado, com tão notável inteligência. Os desenlaces nascem-lhe do corpo sem critério ou objecção, espalham-se pelos dedos que agarram tudo, pelas palavras que espargem  saber, pelos olhos que emitem umas bolinhas recheadas de uma razão acordadíssima a um mundo diminuto e precisado de ordem, que só o número pode dar. Primeiro obstáculo, não são os números que governam o mundo. O mundo governa-se quando muito em pequeninas equações quase aritméticas, que se expandem e se transformam em outras muito maiores, mas que perdem o rigor numérico num segundo, é haver gente. E eu cá, não conheço outro, o dos bichos está-me de certa forma vedado. Ouvi-a em silêncio, apurei os ouvidos, sacudi os cabelos, coloquei os óculos, não fosse escapar-me alguma meditação corpórea merecedora da minha atenção, e parei muito quieta, verbalizando umas míseras interjeições encorajadoras, quando era caso disso. A pessoa animou-se, e eu continuei passiva, bem vistas as coisas só sou boa a incentivar o interlocutor, ossos do ofício. "Ensinou-me" como se gerem mulheres e homens, como se controla uma casa desgovernada, como se fiscalizam os números que permitem a existência regulamentada, como se motiva uma equipa de trabalho, onde se arranjam pessoas que valem a pena. Segundo obstáculo, acabei por perguntar-lhe o que é isso de pessoas que valem a pena. Não soube bem dizer-me, espantem-se, iniciou apenas um processo de seriação de competências consideradas importantes, todas devidamente encaixadas no rigor matemático que a rege à exaustão da existência, como se o tempo pudesse ser vivido ao segundo, apenas e só, sem a maleabilidade interna da construção do pensamento. A certa altura tirei os óculos. Olhei-a de perto e levantei-me, precisei de ir beber um copo com água, estava angustiadíssima. Perguntei-lhe quantas coisas ela não sabia, dado que me parecia saber tanto. Fiquei pasmada de não obter uma resposta concisa, algures entre um bilião e o outro, mas conseguiu apenas dizer-me que não sabe algumas coisas. Não gostei da ausência de rigor, pois claro que não, apeteceu-me até exercer a temida função de professora do antigamente e utilizar a janela e as orelhas de burro, sentá-la virada para a rua, à vista de todos, chamar uma notável assistência e bater palminhas. Em vez disso, disse-lhe apenas que assim ficava mais satisfeita, pois na arte de uma certa sabedoria, ganhava eu um a zero: ela não consegue quantificar a burrice que a ataca, eu, sem a numerar, topei-a toda desde que me entrou à porta do escritório para dentro. 

(Ela também não sabe, mas quem é mesmo bom não se vende ao desbarato.) 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

às vezes...


 


Ele, experiente, buscava a felicidade, ou lá o que isso era; ela, mais inocente, a realidade, certíssima do que esta seria. Ambos, por prudência, arreigavam cautelas, caldos e mazelas de uma certa moralidade assimétrica na inexactidão de costumes.
 
Ele, pachola, era um romântico por cartilha; tudo se pautava por uma primeira vez mesmo se desfeita em mil outras, prosseguindo avisado por degraus sinuosos com alvedrio e fervor. Sabedor da inevitabilidade que lhe sucumbia a têmpera e o coração, jamais se desviava um milímetro do seu desígnio. Imparável, o insolúvel.
 
Ela, mais insolente e cheia de si, só almejava auscultar a vida. Sentir-lhe a força de supetão sem amarras ou grilhetas; beijá-la na estranheza e enamorá-la pela certeza. Nunca pelo consolo ou descoberta, mas pela incerteza da queda certa. Insensata, a solúvel.
 
Volvidos anos, conhecem-se. Precisamente quando ele até já tinha renunciado à propalada felicidade e ela já se esquecera da tal da realidade. Sós, um diante do outro, sem palavras ou preceitos, moralismos ou preconceitos. Afinal, a nenhum dos dois foi dito que uma e outra, realidade e felicidade, não mais abundam por aí. São arremedos de torpedos inventados, às vezes, por aqui. Pelo lado de fora da paixão, exactamente por esse, pelo lado de dentro da comoção.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

agora, escolha.

 
Quase tão difícil como a não opção, é a escolha sem saber para onde. Se da não opção surge uma prisão, da outra pode surgir uma indecisão presa a realidades viáveis, sem que saibamos qual delas é melhor. Nunca gostei de decisões fortes, muito embora a vida seja feita delas em qualquer momento. Seleccionamos empregos, zonas, destinos e caminhos, locais e viagens, pessoas ou bens. Todas elas podem ter uma carga significativa de ansiedade envolvida, basta que para isso projectemos o futuro nas possíveis decisões. Mas mais do que isso, muito mais do que isso, é se das escolhas depender de forma directa, a possibilidade de vida ou de não vida. Nos tratamentos do cancro, por exemplo. E agora? Será preferível sujeitar a possível cura ao conhecido e cientificamente validado, muito embora as hipóteses de sobrevivência sejam escassas? Ou, por outro lado, será melhor a incerteza de estudos em progressão, ainda sem resultados comprovados, mas com alguns casos de cura considerados perdidos na medicina mais convencional? E se a decisão, mais do que nossa, for com um dos nossos? A culpa é um dos maiores pesos que podemos encontrar, mesmo que em pleno estado de isenção da mesma. Olho, leio, inteiro-me, questiono-me, e no seguimento acabo por concluir, num ciclo sem fim, uma fraca constatação: nem sempre a liberdade de escolha é uma boa opção; algumas, muitas vezes, uma direcção indicada é tudo o que precisamos. É que quando há medo, a crença no outro é maior do que qualquer outra realidade. 

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Qual Cultura...?

Sem qualquer dúvida quanto aos nefastos e catastróficos efeitos da crise na Cultura, em nada me apraz dizer que esta, como em outros pilares do Estado de Direito – Educação Pública, Serviço Nacional de Saúde, Defesa Nacional, entre mais – foi (e ainda é) um rico negócio para alguns e um muito bom sustento para outros. Por outro lado, se me quiserem falar da penúria financeira pela qual a Cultura em Portugal atravessa, não se esqueçam, igualmente, de mencionar o tecido fértil de egos inflados, de compadrios, intrigas e demais habilidades com que esta se foi cosendo ao longo dos últimos anos. É que há muita lebre escondida com igual quantidade de rabo de gato de fora. E por falar em bicharada, não se esqueçam ainda do mundo canino onde autores, produtores, comunicadores e, principalmente, outros "actores" se vão movendo. Reptilineamente, claro.