© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

50

Do outro lado da linha afirma-me com uma calma serena que a conseguiu alcançar. À calma, um lugar que se consegue aos cinquenta, oiço dizer, e que fica num local que eu desconheço, mas do qual já ouvi falar. Invejo-a tanto no bom sentido... Ainda não tenho a idade mestra, e às vezes penso nos patamares da existência e dos desfasamentos do corpo em relação a eles. Ou nas vontade que podemos não concretizar, porque os anos não deixam. Ante determinados sonhos de crescimento somos novos, mas começamos a envelhecer mal atingimos a idade em que poderemos lutar por eles. Quando em crianças temos todo o tempo do mundo, por exemplo, a nossa mente não nos permite autonomia para viajar sozinhos, nem o dinheiro nos cai no colo para que possamos pagar devaneios. Quando a mente e a vida nos permitem, não há tempo, há umas férias rigorosas coladas num calendário de papel, que nos disponibiliza vinte e dois dias úteis num ano só para fazermos o que entendermos. Que bem vistas as coisas distribuímos por necessidades supremas que são sempre mais urgentes do que nós próprios e os nossos quereres, que diz-se, também se redimensionam com a idade. Ou seja, quando temos autonomia física e financeira, temos outras prioridades. Eu preciso delas, de resto, para manter alguma independência, porque a questão é toda ela cíclica e fracturante. Curiosamente tudo isto acontece ainda faseado, indexado a diversas fases dentro de um ano, aquele conjunto de números sobre os quais nos deveremos reger, ainda para além dos ditames das estações: eu por exemplo prefiro o Inverno, mas tenho muito mais tempo livre no Verão. 

Depois lá mais para a frente, tudo se relativiza, parece. Ganha-se a bendita tranquilidade, não se corre porque já não é preciso e as dependências são menores. Trabalha-se menos, respira-se mais, no fundo vive-se melhor, até porque o cansaço obriga a dispensar o que é dispensável e permite atrasos, quando não se consegue chegar mais cedo. O que me apraz de momento, a mim, no auge da capacidade de esforço e de produtividade, ainda verdadeiramente capacitada para aumentar os índices de produtividade deste humilde País, e de suportar as maquiavélicas obrigações (reais ou impostas por mim) às quais me sujeito todos os dias, é pedir aos santos e aos deuses que me permitam uma festança do género daqui a um tempo: uns anos abastados de vagar e de calma, com sapiência suficiente para não lutar contra o que não merece a minha preocupação, quando eu puder viver só porque sim. Viver só porque sim não é viver desprovido de sentido, nada disso. Viver só porque sim é viver de amor à vida, com tudo o que ela tem e que realmente nos importa. Que pode ser um filho, pode ser um amor, pode ser uma viagem, pode ser um livro, pode ser uma noite de sono ininterrupta, pode ser uma mesa farta, pode ser um cão, ou pode ainda ser uma folha seca que num dado momento encontramos no chão. Sim, no chão, aquele sítio que certamente só conseguiremos ver bem mais tarde, quando olharmos de perto os passos dos pés e tivermos tempo, se quisermos, para viver todas estas coisas em simultâneo, sem precisar de opção.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

até já

Está uma noite de ventos assassinos que perseguem roupas quentes e fortes, demasiado fracas para esta natureza. Insiste na saia curta e aparece cheia de si e com ele, numa esquina escondida por uns prédios altos que abrigam ruelas de calçada agreste e escorregadia. Lá dentro do bar está um calor afrodisíaco regado a absintos azuis que se alojam nos olhos de quem bebe à espera de um riso maior. A vida segue todos os dias desgovernada, é por isso que se despertam vértices de vontades bravias arrumadas em todas as horas de uma semana entregue ao pouco dinheiro, o vagabundo odioso que quase nos transformou em seres desprezíveis e desprovidos de coração verdadeiro. As senhoras envergam vestes justas que auxiliam o corpo a mostrar os encantos numa vénia fácil. Os senhores distraídos sentam-se e conversam dos negócios falidos, dos casamentos arrefecidos e dos amores feridos, nobres clandestinos capazes de manter a restante cadeia emparedada e guardada, sempre prestes a desmoronar. O barman atento distribui pratinhos com salgados que puxam conversa e bebida, e servem ainda o propósito de matar a ausência que acontece em momentos vazios de palavras vãs (os assuntos de interesse duram sempre pouco tempo). Há um senhor no palco que toca como se o mundo à volta tivesse parado. Insiste numas guitarradas acesas que parecem passar ao lado de quem precisa muito mais de dar do que de receber (estão enganados, estão redondamente enganados se pensam que é sempre ao contrário). Dá-se sem necessidade de retribuições forçadas e fantasiosas, e também ele se destila em força e gestos enquanto uns goles de gin lhe devolvem tudo o que precisa de ter. A noite está entrada quando se retiram para um sítio mesmo ao lado. Entram na hesitação do despique e percorrem um corredor sombrio e cinzento que se dirigia perigosamente para o fim resolvido. Olham-se de perto na ânsia da luta entre o pecado e a severa, e eu sei quem ganha, não há que enganar. Um a zero e na próxima jogada não há regras nem apostas. Há o frio da noite, há o corpo dos dois. Até já.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

o hábito


O hábito é um refúgio no qual repousamos a caminho de casa, quando sabemos que lá dentro nos espera o sempre igual. O inesperado adocica qualquer coisa a rotina que nos suporta, não fosse ele e o tédio faria com que a matemática tomasse conta de nós, cruzes canhoto. Ainda assim não descolamos da importância que a segurança tem para a nossa identidade, e quantas vezes não redimensionamos o universo só porque fora de nós surge uma outra realidade? Ou cá dentro, ou cá dentro e lá fora. Pela minha parte preciso assumidamente de quotidianos, como uma janela quase aberta de manhã, um perfume de flores na Primavera, um bâton forte no Inverno, um vestido leve no Verão. Ou uma cama lavada muitas, muitas vezes, um café todas as manhãs, uma mesa com cheiro a comida quente e substancial, todos os fins de semana do mundo.

Eckhart Tolle é um apologista inveterado do agora como a única realidade que temos. Quase mata o passado, guarda-o para os deprimidos, aquela fasquia da população que remói o que foi e não deveria ter sido, o que foi e não volta a ser, o que deveria ter acontecido e nunca aconteceu. Concordo com ele até certo ponto, não há verdade maior do que inutilidade prática do que já foi, mas não poderemos esquecer nuca o seu papel na construção do nosso eu e do nosso hábito. O futuro, pertença quase exclusiva dos ansiosos, ainda me sacode mais o espírito. Eventualmente porque me encaixo na faixa populacional que vive de anseios mal trabalhados, recalcados, rescaldados, entre outros adjectivos de carácter pouco abonatório em mente minimamente sã (toda a vida ouvir dizer que em casa de ferreiro os espetos são de pau). A verdade, e findas as explicações demasiadas, é que não alcanço focar o presente como a minha parca realidade. Não me consigo descolar do que me faz sentir em casa, desligar do que ambiciono, não imagino a corrida presente sem ponto de partida e pontos de chegada, locais que podem até mudar por forças anímicas do mundo, mas que serão sempre aqueles que eu quero. 

Esta minha leviandade de não crer em quem tão bem defende a lógica do presente, faz com que eu precise de uma rotina e de um caminho a seguir, dificulta-me a vida, claro está, exige de mim para além da lógica fácil do momento, mas não prescindo. O agora e para todos os efeitos, está sempre a morrer-me nas mãos: espalho-o tal e qual as migalhas da casa da bruxa e do chocolate, fica para trás, transforma-se em passado, diz-me para onde vou. Bem sei ser ele, esse agora, a constante realidade que me sustenta, mas nunca será só ele a única verdade que me guia.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Fernando Pessoa por Osmar Prado (A/C dos guiões novelescos nacionais)


uma má ideia




Salvo raras excepções, partilhar um imenso problema com os mais chegados pode não ser uma boa ideia. Claro que não se espera daí, da comunhão de afectos e da sintonia de afagos, solução ou cura milagrosa. Escrevo estritamente no âmbito da compartilha, do desabafo, do alívio de uma carga negativa que nos atormenta a alma e o juízo, e que muitas vezes se estende até ao corpo – mormente numa altura em que a depressão colectiva é sal em mar salgado e a hipersensibilidade irrompe em eriçados arrepios pelas epidermes. Hoje em dia, a dor quer-se tímida e cabisbaixa, encoberta por pensamentos introspectivos cujas vibrações se anseiam particularmente mudas. Sendo um mal que não escasseia, muito pelo contrário, formiga, quer-se oculto e longe, não vá surtir como uma pandemia e propague. Não é exactamente um mal das sociedades, é simplesmente uma má ideia.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

get off


Chegas-me por uma porta inesperada com nesga que te espreita ainda antes de entrares. Apressas os passos quando sentes que a abro no escurinho de uma noite chuvosa e fria, gosto do Inverno, tu sabes. Falas muito enquanto engoles um jantar apressado que te forra o estômago e a alma, é por isso que eu aprecio tanto chocolates. Partilhas com a Dona os sorrisos e com a fera umas lasquinhas de carne gorda e saborosa, sabes como ninguém conquistar o universo feminino, deverias ser obrigado a pagar por isso. Sentas-te pouco tempo, desesperas por uma cama quente e tardia que largas na madrugada seguinte, a chamada chega sempre muito cedo. Nunca te hei-de perdoar os abandonos antes do dia clarear, os de sol que te aquecem ao longe, os almoços sozinhos em vez de partilhados numa mesinha pequenina e azul situada lá para as bandas do Oeste, tal como nunca te perdoarei os momentos que respiras sem mim a respirar ao teu lado. Gosto, gosto muito de uma exclusividade impossível, improvável e certamente assassina, se transladasse o domínio do querer para o domínio do ser, mas a sabedoria disso não me faz mudar de ideias: é uma procura eterna que move as montanhas de mim. Da janela e quando me faltas espreito uns montes com moinhos de vento como os do antigamente, casinhas redondas com moagem pela força da natureza, mais ou menos como no amor. Mas o amor funciona com o tempo, não com o vento: rola e desfaz-nos em partículas pequeninas que nos deixam frágeis e capazes de construir, ele há com cada analogia engraçada.

Hoje de manhã tudo tinha, claro, menos encanto. A velhinha da direita perdeu um dente da placa, quer colá-lo, tem todo o direito. O da esquerda recuperou uns óculos sem mola ressuscitados, os objectos têm esta fantástica realidade do regresso à vida depois de mortos. A distância do telefonema é, lá está, muito maior do que a que queremos realmente considerar. O chocolate do pequeno almoço emagrecido por um corpos Danone foi-me dado por Prince, que me tinha desaparecido num Verão longínquo numa festa de adolescentes de pijama (sim, sim, também fiz dessas coisas). Oiçam-no, oiçam-no e expliquem-me como é que foi possível eu esquecer um génio desta maneira e por tanto tempo.

(Soubesse eu cantar e era bem capaz de te trautear isto ao ouvido, assim só corres o risco de eu me aventurar, o que não deixa de ter a sua certa piada.)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

cuidar

Emília dá a sopa. Emília dá a sopa, uma seringada de cada vez, porque ama o marido e porque é preciso dar a sopa. Emília é umas das muitas cuidadoras com quem pouco cuidado se teve, como se o dever de cuidar o outro e de amar além limites fosse a sua obrigação enquanto for gente. E é, é uma obrigação moral, familiar, social, acima de tudo sentimental, e nos sentimentos não há excessos nem demasias. O cuidador é o pico de uma pirâmide invertida. É aquele que suporta a sopa rala, a fralda suja, a falta de ar repentina e a má disposição impertinente de quem vê a vida a fugir, mais depressa do que a vontade expressa nos olhos que dizem tudo ao contrário da boca. A mentirosa... É o que enfrenta todo o sistema enquanto andar, é quem acompanha ao hospital, é quem acorda quando é preciso acordar, porque há frio, dores ou mau estar daqueles de moer. É também quem vai receber a reforma e quem dá as noticias do estado aos familiares, se os houver. É a confiança de quem está à distância de um telefonema, como se isso também fosse estar perto. É ainda aquele que sabe que não pode vergar, porque se quebrar não há mais ninguém para poder estar. Mas apesar do sentimento profundo, pode haver cansaço, tanto cansaço. Podem existir horas fortes de desespero, quando a fraqueza aparece ao lado do medo de que o amor de uma vida possa partir. E às vezes pode, e às vezes parte. Nunca interessam as noites acordadas, a obrigação cumprida, a rua que dá lugar à beira da cama, quando se tem amor de cuidar. Até parece que quem cuida deixa de viver e quase deve morre num tempo igual. E deve, e às vezes morre. Quando se ama em velho e doente vive-se de amor, mesmo que seja um amor cansado. O amor cansado, acreditem, é um dos mais puros dos amores. Não lhe chamem hábito, é feio, chamem-lhe companhia, cuidado, zelo e afecto. É por isto tudo que quem cuida precisa de cuidados: essencialmente porque sai de si só para se dar.

domingo, 5 de janeiro de 2014

o treino


Existem aquelas pessoas que eu encontro sempre nos mesmos locais. Dizem-me sempre a mesma coisa, emanam sempre o mesmo cheiro, vestem sempre a mesma roupa, olham-me sempre com os mesmos olhos. Incomoda-me essa constância rectilínea de quem não expressa emoções indexadas à novidade de um ano novo, à euforia de uma festa, à celebração de uma vida que nasceu agora, à alegria de um dia de sol. Fecham-se em timbres iguais, defendem-se na ladainha habitual, embrulham o pescoço num cachecol cinzento rato sem pêlo e sem graça, vestem as mesmas calças que escondem o corpo para além da alma. Ouvem a mesma música e no posto habitual, lêem todos os dias o mesmo jornal, tomam o pequeno almoço ideal, e esquecem que do lado de fora da porta a vida corre inconstante e desconexa, rápida e lenta, ágil ou a desoras, depende, do dia e da noite, da vontade e da necessidade, do impulso ou da novidade. Nunca há convite que as acorde nem efeméride que as tire do local, como não há feitiço que lhes quebre a monotonia fixada em cada ossinho do corpo, em cada milímetro de pele, em cada segundo do vida. Ó diabo, assusto-me sempre. Olhem se a coisa se tornar pegadiça?! Entro e saio só para saber se há vida, espreito pela nesga da porta invariavelmente encostada, meto primeiro um pé e depois o outro, é claríssimo que está. Duas palavras e tudo na mesma, até o cheiro dos fritos velhos a amofinar o ar que se respira, lento, lentíssimo. Não, não quero o café do costume semanal, haja alguém que quebre a regra (sou tão dada a isso...), venho só mesmo pelos votos de um bom ano. Saio apressada que se fazia tarde, sacudo o casaco e os cabelos molhados, apuro o olfacto e não gosto do odor que os acompanha: cheiram a bafio, a humidade, a roupa com nódoas e a palavras insossas e constrangidas. Tudo porque a inércia é amiga da apatia, que rima com sensaboria, moradora ali para os lados do marasmo. Fico a imaginar para mim que estas pessoas quando morrerem, por força do treino, saberão como é. Não haverá estranheza que lhes invada o corpo, inquietação que lhes sacuda o espírito, visão ou gosto que lhes acorde os sentidos. Estão num permanente sossego, prévio e preparatório.
 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

I can see clearly now



Sabem aqueles poucos segundos que antecedem as doze badaladas da mudança de ano em que desejamos o melhor para os nossos e para nós? E aquele segundo que anuncia o bulício da chegada do novo ano? Este ano passei-os sozinho. Não me perdoo: os telefonemas anteriores e posteriores não contaram. Pior, acentuaram, um por um, a frequência da ausência. Diz-se que nascemos e morremos sozinhos. Quanta inexactidão, senhores... tudo de mais importante é clara e precisamente visto sozinho.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

flores

Marisa Liz conta no "Alta Definição" que um dia em criança ofereceu flores aos sem-abrigo. Afirma-o com um ar de indignação por ter cometido uma atrocidade sem tamanho, como se a oferenda tivesse sido uma ofensa para quem tem fome e frio. Aqui espelha-se a dicotomia entre a necessidade do básico e do belo e a sensação completamente falsa de que a beleza não é apreciada por quem precisa do essencial. Espelha ainda a diferença cabal entre a infância e a adultez, a ingenuidade e a sapiência, a espontaneidade e o pensamento. É claro que um sem-abrigo precisa de alimento e de calor. É claro, ainda, que a surpresa se deve ter feito sentir, até porque quem tem falta de tudo esquece a alegria que espreita de fugida nos olhos de quem passa, pouco preocupados em sobreviver ao Inverno. Mas também é claro que flores são uma dádiva celeste, uma autêntica selecção de sensações expressas que, tal como um perfume forte, podem fazer com que a vida tenha toques clandestinos de percepções prazerosas, quase mortas por realidades de pão, de água e de cobertores esfarrapados. Uma boa ideia para o novo ano seria fazer chegar o belo à necessidade. Seria dotar o mundo de afectos e de sensibilidades, o que pode bem passar por oferecer flores ou outras minuciosidades a quem também precisa de pão. Um dos problemas disto é que só as crianças o fazem. Outro é que quando chegam a adultas se sentem ridículas por isso.

domingo, 29 de dezembro de 2013

2014


Vejo a programação televisiva que analisa em retrospectiva os acontecimentos do ano e as personalidades influentes, ao mesmo tempo que prevê factos mais ou menos consistentes, mudanças prognosticadas num passado atribulado por uma crise que insiste em sobreviver. Num outro canal discursa uma ciência exacta e prelectora, a sapiência que supostamente governa o mundo dos vivos e ambiciosos que precisam da explicação da matéria para além de todas as coisas. Oiço ambas com atenção, afasto os ouvidos clandestinos da tarefa incumbida por um garoto de dez anos que acha que a solução do tabuleiro de monopoly é a compra do Rossio, e acabo distraída a cogitar sobre os males do mundo que não acabarão com o (im)possível final da guerra na Síria, com o terminus das longas travessias de Lampedusa ou com a descoberta da cura para a doença de Alzheimer. É claro que os finais de calendário se propõem a análises e projectos efusivos e supostamente inovadores, pelo que todos os anos nesta altura se projectam ambições engolidas por horas assassinas que não deixam espaço para que a vida ande devagar e sempre a tempo. É claro ainda que é com boa intenção que prevemos jogadas de mestre com potenciais soluções miraculosas, objectivos pessoais, profissionais e sociais, desejos retardados e um conjunto significativo de faixas atropeladas por elas mesmas, incapazes de se difundirem por falta de capacidade real, mas que jamais definham de vez: mantêm-se na vanguarda da linha de partida em direcção a 2014, quando na verdade o que muda é um número, e algumas eventualidades políticas por inerentes decisões. 

Eu também não perco muito tempo com utilidades, devo confessar. Folheio os jornais e centro-me nas crianças, na fome e na violência, nos animais abandonados e depois fecho o dito, enquanto mergulho no chá quente com tília, não vá o sono sumir-se-me para sempre na noite, prevejo que jamais o encontraria. Não sou má por isso, é somente a concreta incapacidade para a aspirada mudança. Mas uma coisa tenho por verdade absoluta (e tenho poucas, tão poucas): descobri que cada vez mais me ligo à generosidade. Nunca tinha dado tanto valor à dádiva sem esperar nada em troca, e estou até convicta de que talvez seja esta a liberdade que faz falta ao Homem, numa utopia muito maior do que ele. Se a dita coubesse em 2014, este seria um ano enorme. Senão é continuar a tentar, que o que parece não faltar ao mundo é tempo (é a maior inveja que lhe tenho).    

sábado, 28 de dezembro de 2013

bens de primeira necessidade

Especial por existência é o ar que respiramos todos os dias, entre outras importâncias que permitem vida, como a água e o globo terrestre. O resto é sempre uma criação, e até a sorte ordena o nosso lugar no centro ou na periferia do mundo ( cada um pode pensar qual é o seu, mas não aconselho vivamente). Quando saí outro dia percebi que o cão preto que me rondava a porta era especial, pode até ter a ver com o Natal. Um pobre animal de quatro patas, focinho enterrado na calçada, olhos tristes, pêlo curto e fugidiço. Ele não era importante, era um cão comum, fui eu que fiz com que fosse único para a minha pessoa, naquele exacto momento, muito mais dependente de mim do que dele: ele estava quieto, era eu que passava. Isto acontece desde que nascemos, iguais uns aos outros, feitos de sangue, pele, órgãos e ossos, vindos de um ventre inchado e distendido, cansado de nove meses de carga (não há nenhuma maior do que um filho, com tudo o que isso tem de  bom e de mau). A utopia da igualdade, e paradoxalmente, torna-se impossível pelos outros e não por nós. São eles que com os olhos nos dão e nos tiram mundo, e são eles que podem fazer com que passemos de simples mortais a seres especiais. Mas é a utopia da superioridade pura, enclausurada nas personalidades notáveis, construídas maioritariamente pelas mesmas, que realmente me enfada. Desponta de uma grandeza delas para elas, de uma dança ao espelho, de uma auto sedução: olham-se com admiração e tempo, passam o bâton devagarinho, escovam o cabelo a preceito e compõem o colar, tudo com a máxima atenção ao detalhe do fecho, da altura e da pérola perfeita. Dançam demoradamente, despem-se mas vestem-se depressa, que a crueza da nudez importuna a excelência, e voltam a recolocar os acessórios encaixados no devido lugar do corpo. Usualmente quase todos os dias à mesma hora dançam outra vez. E é exactamente esta repetição incessante no velho espelho apagado, que me causa um tédio de morte.

( Por vezes dá-me uma incontrolável vontade de virar a senhorinha. De vazar os pós soltos, jogar os ganchos aos bichos, depenar os visons, quebrar os saltos e as jarras pé alto. É que do lado de cá dos espelho estão ouvidos enfartados de fetiches estudados e claro, postiços. E há tanta música natalícia por estes dias, que a libertação prolongada da ignorância pode ser um bem de primeira necessidade.)
  

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Natal


Havia um senhora que não apreciava o Natal. Corria todos os dias da vida, dormia umas poucas horas, acordava muito cedo, existiam sempre dependências. As matriarcas não têm muito tempo para as festas e nem sempre têm muito tempo para os filhos, porque precisam de ter algum para todas as pessoas que esperam delas, só um bocadinho. Apesar disso nas vésperas fritava coscorões de massa lêveda, após horas de trabalho de braços fortes. O quarto dos fundos, que  era pobre e não tinha janela, servia de incubador para que a massa crescesse sem medo do Inverno e abençoada por um Deus que parece que não havia: que Deus te abençoe e te faça crescer. Tudo crescia sempre no Natal, muito embora a matriarca não tivesse espírito natalício. Não havia consoada sem bacalhau com couves, não havia dia de Natal sem borrego assado no forno, não havia festas sem família reunida numa mesa coroada com o bolo Rei, o melhor bolo de sempre. A matriarca também não tinha o coração aberto para todas as pessoas, tinha um coração dirigido à prol e afins, que governava e juntava em redor de uma vida. Ali para o final dela, desapareceu antes do tempo. Morreu a correr deitada numa cama fria de um hospital, do qual eu saí cedo demais. Ela não apreciava o Natal nem a transcendência. Não era crente na Virgem, acreditava nos pés que caminhavam incessantes num mundo que pouco lhe dizia para além dos próximos. Desde aí até agora que a falta dela me mora num sítio indefinido, que são todos os lugares por onde eu posso passar. O Natal não é igual, mas ela não gostava dele. Gostava de nós e nós dela, e bem vistas as coisas o Natal não é muito mais do que isso. A vida toda não é muito mais do que o amor. Hoje há três netas e três rolos prontos a tender a massa que ninguém amassa. Há bolo rei sem brinde, nunca mais os vi no meio das frutas secas e das cerejas cristalizadas. Há Natal e há amor, uma herança que perdurará para sempre enquanto olharmos umas para as outras e soubermos que a matriarca anda por aqui, no meio de nós (Amém).