© Paulo Abreu e Lima

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

a esfera leve

Parece constructo, frase feita, mas quantas não há que quando sentidas na pele se assumem como verdade absoluta na práxis comum? O peso pesa do corpo para dentro e do corpo para fora. Pesa de manhã cedo, quando a noite ainda existe real, pesa no pão com manteiga que trava na garganta, nos relacionamentos de carácter diverso, na voz que não ecoa e nos olhos que se arredam, nos passos que tremelicam do alto de um corpo que passa, nu ou vestido, sente-se lá. Mas pesa, pesa mais a sério quando é preciso sair e soltar. Quando a tarefa é ânsia que nos olha e não se pode falhar, nessa hora é preciso estar leve. É pelo excesso que a nossa verdade se assume sempre como única, que andamos todos depressa demais, ar vazio, palavras mortas, que o mundo segue a desoras imiscuído em corpos cheios de tudo e disponíveis para quase nada. Saltar para a esfera externa exige leveza, exige um espaço interno capaz de abraçar, exige a faculdade de sair depois de libertar. É este um dos motivos pelos quais eu julgo fundamental dotar as cirancinhas de liberdade e abstracção, quanto mais cedo melhor. É por isso que eu abomino pais que castram vocações e impingem ocupações, mundos que acabam com sonhos, professores que insistem que o céu tem de ser azul e as flores precisam de nascer do chão, que não permitem uma evasão, que apenas valorizam o rigor do manual. É por isso que eu considero que disciplinas como a filosofia deveriam vigorar, devidamente adaptadas e eventualmente remodeladas, bem mais cedo no programa escolar. A abstracção nasce connosco, mas a estimulação orientada peca por tardia (surge demasiado tempo depois do brincar); o concreto agarra-nos todos os dias, o corpo enche cada vez mais cedo, os lugares de vazio existem menos, e em cada passo pesamos mais. O peso em excesso não nos mata, nada disso, isola-nos "só". Coloca-nos na esfera pesada, demasiada, para irmos além.

Ironicamente, não raras vezes, sigo a multidão: andamos todos em conjunto, iguais na diferença, muito mais do que a sensatez nos deveria permitir. No lago negro do fundo, ninguém nada. Na tona, mantém-se a ilusão.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

uma pena

Às vezes é só isso mesmo, uma pena. O trajectos não fazem o sentido esperado, a tolice agarra a espuma dos dias e deixa que nos entreguemos ao cansaço, é normal. E fácil, facílimo, demasiado fácil, porque pode matar. Costumo dizer que compreendo tudo sem qualquer tipo de modéstia. Compreendo mesmo, aliás, tenho para mim que não há tarefa no mundo que eu execute melhor. Oiço por vezes com algum custo, posso ter pouco ou nada para dizer, depende da carga esculpida a frases, gestos e choros, em certos casos reajo da forma errada, é a vida. Emociono-me com o sofrimento, revolto-me com a inércia, sou capaz de me intrigar com os erros desprovidos de razão consistente e justificativa, que me expliquem o porquê do ódio ultrapassar o amor. Mas depois, no final da jornada, não há vez que eu não entenda. Os acasos não existem, perdoem-me os crentes, existem causas, e os motivos espalham-se sem critério definido por forma a conseguirem encaixar indomáveis numa norma social, e só a título de exemplo. O problema surge quando temos pena, realmente. Quando sobeja o rancor do tempo e se esquece que a vida, essa que passa e não volta (perdoem-me os crentes, uma e outra vez), se constrói devagarinho e passo a passo. Mas preservar intacto pode ser difícil. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os locais, mudamos nós. E é aí que o mundo não faz o sentido que gostaríamos que ele fizesse, não acorda de manhã para dormir à noite, não aquece no Verão para arrefecer no Inverno, não se governa de bondade para matar a maldade. No fundo, o mundo não é mais do que um complexo desgoverno. O mundo a sério é muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar, e a pena maior é a nossa dificuldade em aceitá-lo, tal e qual ele é. Gosto muito de ouvir dizer que tudo está nas nossas mãos. Preciso, até, acalenta-me o espírito, consubstancia-me as vontades, orienta-me os caminhos, salva-me dos medos. Mas não está, é tudo uma grandessíssima mentira. O nosso poder termina exactamente quando a pena, o desgosto, a perca ou o que queiram chamar-lhe, se torna maior do que a nossa capacidade de acção. E aí, é senti-la e aceitá-la. Ponto.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lua de Janeiro (e uma perguntinha)



A Lua (sempre maiúscula) é o maior satélite natural do sistema solar em relação ao seu planeta - tem um quarto do tamanho da Terra. Acompanha-a na sua órbita à volta do Sol e percorre dois movimentos principais: translada (translação) uma elipse em torno da Terra durante cerca de 28,5 dias e gira à volta do seu próprio eixo (rotação) durante o mesmíssimo tempo. Deste facto infere-se que i) da Terra, só se observa uma única face e ii) um dia lunar corresponde sensivelmente a 14,25 dias terrestres. Em qualquer local da Terra, a Lua, como o Sol (aparentemente), nasce do Leste e põe-se no Oeste. Ponto.

As duas fotos supra foram tiradas exactamente do mesmo local terrestre, no mesmo dia (11 de Janeiro deste ano). Uma à tarde e outra à noite. Perguntinha: Por que razão a primeira tem a "barriga" virada para cima e a segunda virada para baixo, num aparente movimento no sentido dos ponteiros do relógio? Amanhem-se.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a culpa

As questões sociais que desembocam na violência escolar desmedida mereciam debruce sério. Pertenço à fasquia da população que acha que todas as pessoas do mundo deveriam ser obrigadas a parar para pensar. E pasmem-se, não há quem aprecie mais a liberdade do que eu. O foco centra-se no respeito, condição essencial para que a liberdade exista além corpo, o que é isso de uma maleabilidade única e intransmissível, se ao nosso lado um miúdo se suicida na sequência de um episódio de bullying? Parar para pensar nas consequências de uma sociedade centrada no progresso profissional, mas completamente desmarcada dos valores sociais, a única verdade que realmente nos sustenta com alguma dignidade, assume um carácter de urgência, se não quisermos ver descambar a camada mais jovem, ou seja, o mundo daqui a uns tempos. Apetece-me às vezes perguntar quanto dinheiro é preciso para que se tratem pessoas doentes com dignidade. Quanto custa um desabafo, por quanto fica um abraço, quantas horas de trabalho são necessárias para uma palavra de apreço. Queria ainda saber quantos computadores são precisos para ficarmos preenchidos por dentro, quantas televisões temos de ter em casa para sermos felizes, de quantas playstations se constrói uma criancinha. Não me agrada muito o retrocesso como única análise válida de uma sociedade em evolução, mas também não me consigo desmarcar da infância que me ensinou a generosidade e o respeito ao próximo como forma de ser. Hoje, e se conseguirmos a paragem que nos permite a racionalização, percebemos que ensinamos a liberdade como um progresso próprio, não como um progresso social. Aconselhamos a generosidade como processo terapêutico para sermos felizes, usamos a troca de valores como um mero meio para atingir um fim, aproveitamos as fraquezas alheia para atenuarmos as nossas e assim elevarmos o próprio Eu a um patamar muito mais satisfatório, não há forma mais prática de melhorar a auto-estima. No seguimento desinvestimos na nossa real evolução para centrarmos a acção na mácula externa. Não há baixeza maior e, como tal, não podemos espantar-nos com os resultados. A indignação é um direito real quando há deveres envolvidos e empenhados. Caso contrário, é uma das mais puras manifestações da ignorância humana.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

50

Do outro lado da linha afirma-me com uma calma serena que a conseguiu alcançar. À calma, um lugar que se consegue aos cinquenta, oiço dizer, e que fica num local que eu desconheço, mas do qual já ouvi falar. Invejo-a tanto no bom sentido... Ainda não tenho a idade mestra, e às vezes penso nos patamares da existência e dos desfasamentos do corpo em relação a eles. Ou nas vontade que podemos não concretizar, porque os anos não deixam. Ante determinados sonhos de crescimento somos novos, mas começamos a envelhecer mal atingimos a idade em que poderemos lutar por eles. Quando em crianças temos todo o tempo do mundo, por exemplo, a nossa mente não nos permite autonomia para viajar sozinhos, nem o dinheiro nos cai no colo para que possamos pagar devaneios. Quando a mente e a vida nos permitem, não há tempo, há umas férias rigorosas coladas num calendário de papel, que nos disponibiliza vinte e dois dias úteis num ano só para fazermos o que entendermos. Que bem vistas as coisas distribuímos por necessidades supremas que são sempre mais urgentes do que nós próprios e os nossos quereres, que diz-se, também se redimensionam com a idade. Ou seja, quando temos autonomia física e financeira, temos outras prioridades. Eu preciso delas, de resto, para manter alguma independência, porque a questão é toda ela cíclica e fracturante. Curiosamente tudo isto acontece ainda faseado, indexado a diversas fases dentro de um ano, aquele conjunto de números sobre os quais nos deveremos reger, ainda para além dos ditames das estações: eu por exemplo prefiro o Inverno, mas tenho muito mais tempo livre no Verão. 

Depois lá mais para a frente, tudo se relativiza, parece. Ganha-se a bendita tranquilidade, não se corre porque já não é preciso e as dependências são menores. Trabalha-se menos, respira-se mais, no fundo vive-se melhor, até porque o cansaço obriga a dispensar o que é dispensável e permite atrasos, quando não se consegue chegar mais cedo. O que me apraz de momento, a mim, no auge da capacidade de esforço e de produtividade, ainda verdadeiramente capacitada para aumentar os índices de produtividade deste humilde País, e de suportar as maquiavélicas obrigações (reais ou impostas por mim) às quais me sujeito todos os dias, é pedir aos santos e aos deuses que me permitam uma festança do género daqui a um tempo: uns anos abastados de vagar e de calma, com sapiência suficiente para não lutar contra o que não merece a minha preocupação, quando eu puder viver só porque sim. Viver só porque sim não é viver desprovido de sentido, nada disso. Viver só porque sim é viver de amor à vida, com tudo o que ela tem e que realmente nos importa. Que pode ser um filho, pode ser um amor, pode ser uma viagem, pode ser um livro, pode ser uma noite de sono ininterrupta, pode ser uma mesa farta, pode ser um cão, ou pode ainda ser uma folha seca que num dado momento encontramos no chão. Sim, no chão, aquele sítio que certamente só conseguiremos ver bem mais tarde, quando olharmos de perto os passos dos pés e tivermos tempo, se quisermos, para viver todas estas coisas em simultâneo, sem precisar de opção.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

até já

Está uma noite de ventos assassinos que perseguem roupas quentes e fortes, demasiado fracas para esta natureza. Insiste na saia curta e aparece cheia de si e com ele, numa esquina escondida por uns prédios altos que abrigam ruelas de calçada agreste e escorregadia. Lá dentro do bar está um calor afrodisíaco regado a absintos azuis que se alojam nos olhos de quem bebe à espera de um riso maior. A vida segue todos os dias desgovernada, é por isso que se despertam vértices de vontades bravias arrumadas em todas as horas de uma semana entregue ao pouco dinheiro, o vagabundo odioso que quase nos transformou em seres desprezíveis e desprovidos de coração verdadeiro. As senhoras envergam vestes justas que auxiliam o corpo a mostrar os encantos numa vénia fácil. Os senhores distraídos sentam-se e conversam dos negócios falidos, dos casamentos arrefecidos e dos amores feridos, nobres clandestinos capazes de manter a restante cadeia emparedada e guardada, sempre prestes a desmoronar. O barman atento distribui pratinhos com salgados que puxam conversa e bebida, e servem ainda o propósito de matar a ausência que acontece em momentos vazios de palavras vãs (os assuntos de interesse duram sempre pouco tempo). Há um senhor no palco que toca como se o mundo à volta tivesse parado. Insiste numas guitarradas acesas que parecem passar ao lado de quem precisa muito mais de dar do que de receber (estão enganados, estão redondamente enganados se pensam que é sempre ao contrário). Dá-se sem necessidade de retribuições forçadas e fantasiosas, e também ele se destila em força e gestos enquanto uns goles de gin lhe devolvem tudo o que precisa de ter. A noite está entrada quando se retiram para um sítio mesmo ao lado. Entram na hesitação do despique e percorrem um corredor sombrio e cinzento que se dirigia perigosamente para o fim resolvido. Olham-se de perto na ânsia da luta entre o pecado e a severa, e eu sei quem ganha, não há que enganar. Um a zero e na próxima jogada não há regras nem apostas. Há o frio da noite, há o corpo dos dois. Até já.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

o hábito


O hábito é um refúgio no qual repousamos a caminho de casa, quando sabemos que lá dentro nos espera o sempre igual. O inesperado adocica qualquer coisa a rotina que nos suporta, não fosse ele e o tédio faria com que a matemática tomasse conta de nós, cruzes canhoto. Ainda assim não descolamos da importância que a segurança tem para a nossa identidade, e quantas vezes não redimensionamos o universo só porque fora de nós surge uma outra realidade? Ou cá dentro, ou cá dentro e lá fora. Pela minha parte preciso assumidamente de quotidianos, como uma janela quase aberta de manhã, um perfume de flores na Primavera, um bâton forte no Inverno, um vestido leve no Verão. Ou uma cama lavada muitas, muitas vezes, um café todas as manhãs, uma mesa com cheiro a comida quente e substancial, todos os fins de semana do mundo.

Eckhart Tolle é um apologista inveterado do agora como a única realidade que temos. Quase mata o passado, guarda-o para os deprimidos, aquela fasquia da população que remói o que foi e não deveria ter sido, o que foi e não volta a ser, o que deveria ter acontecido e nunca aconteceu. Concordo com ele até certo ponto, não há verdade maior do que inutilidade prática do que já foi, mas não poderemos esquecer nuca o seu papel na construção do nosso eu e do nosso hábito. O futuro, pertença quase exclusiva dos ansiosos, ainda me sacode mais o espírito. Eventualmente porque me encaixo na faixa populacional que vive de anseios mal trabalhados, recalcados, rescaldados, entre outros adjectivos de carácter pouco abonatório em mente minimamente sã (toda a vida ouvir dizer que em casa de ferreiro os espetos são de pau). A verdade, e findas as explicações demasiadas, é que não alcanço focar o presente como a minha parca realidade. Não me consigo descolar do que me faz sentir em casa, desligar do que ambiciono, não imagino a corrida presente sem ponto de partida e pontos de chegada, locais que podem até mudar por forças anímicas do mundo, mas que serão sempre aqueles que eu quero. 

Esta minha leviandade de não crer em quem tão bem defende a lógica do presente, faz com que eu precise de uma rotina e de um caminho a seguir, dificulta-me a vida, claro está, exige de mim para além da lógica fácil do momento, mas não prescindo. O agora e para todos os efeitos, está sempre a morrer-me nas mãos: espalho-o tal e qual as migalhas da casa da bruxa e do chocolate, fica para trás, transforma-se em passado, diz-me para onde vou. Bem sei ser ele, esse agora, a constante realidade que me sustenta, mas nunca será só ele a única verdade que me guia.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Fernando Pessoa por Osmar Prado (A/C dos guiões novelescos nacionais)


uma má ideia




Salvo raras excepções, partilhar um imenso problema com os mais chegados pode não ser uma boa ideia. Claro que não se espera daí, da comunhão de afectos e da sintonia de afagos, solução ou cura milagrosa. Escrevo estritamente no âmbito da compartilha, do desabafo, do alívio de uma carga negativa que nos atormenta a alma e o juízo, e que muitas vezes se estende até ao corpo – mormente numa altura em que a depressão colectiva é sal em mar salgado e a hipersensibilidade irrompe em eriçados arrepios pelas epidermes. Hoje em dia, a dor quer-se tímida e cabisbaixa, encoberta por pensamentos introspectivos cujas vibrações se anseiam particularmente mudas. Sendo um mal que não escasseia, muito pelo contrário, formiga, quer-se oculto e longe, não vá surtir como uma pandemia e propague. Não é exactamente um mal das sociedades, é simplesmente uma má ideia.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

get off


Chegas-me por uma porta inesperada com nesga que te espreita ainda antes de entrares. Apressas os passos quando sentes que a abro no escurinho de uma noite chuvosa e fria, gosto do Inverno, tu sabes. Falas muito enquanto engoles um jantar apressado que te forra o estômago e a alma, é por isso que eu aprecio tanto chocolates. Partilhas com a Dona os sorrisos e com a fera umas lasquinhas de carne gorda e saborosa, sabes como ninguém conquistar o universo feminino, deverias ser obrigado a pagar por isso. Sentas-te pouco tempo, desesperas por uma cama quente e tardia que largas na madrugada seguinte, a chamada chega sempre muito cedo. Nunca te hei-de perdoar os abandonos antes do dia clarear, os de sol que te aquecem ao longe, os almoços sozinhos em vez de partilhados numa mesinha pequenina e azul situada lá para as bandas do Oeste, tal como nunca te perdoarei os momentos que respiras sem mim a respirar ao teu lado. Gosto, gosto muito de uma exclusividade impossível, improvável e certamente assassina, se transladasse o domínio do querer para o domínio do ser, mas a sabedoria disso não me faz mudar de ideias: é uma procura eterna que move as montanhas de mim. Da janela e quando me faltas espreito uns montes com moinhos de vento como os do antigamente, casinhas redondas com moagem pela força da natureza, mais ou menos como no amor. Mas o amor funciona com o tempo, não com o vento: rola e desfaz-nos em partículas pequeninas que nos deixam frágeis e capazes de construir, ele há com cada analogia engraçada.

Hoje de manhã tudo tinha, claro, menos encanto. A velhinha da direita perdeu um dente da placa, quer colá-lo, tem todo o direito. O da esquerda recuperou uns óculos sem mola ressuscitados, os objectos têm esta fantástica realidade do regresso à vida depois de mortos. A distância do telefonema é, lá está, muito maior do que a que queremos realmente considerar. O chocolate do pequeno almoço emagrecido por um corpos Danone foi-me dado por Prince, que me tinha desaparecido num Verão longínquo numa festa de adolescentes de pijama (sim, sim, também fiz dessas coisas). Oiçam-no, oiçam-no e expliquem-me como é que foi possível eu esquecer um génio desta maneira e por tanto tempo.

(Soubesse eu cantar e era bem capaz de te trautear isto ao ouvido, assim só corres o risco de eu me aventurar, o que não deixa de ter a sua certa piada.)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

cuidar

Emília dá a sopa. Emília dá a sopa, uma seringada de cada vez, porque ama o marido e porque é preciso dar a sopa. Emília é umas das muitas cuidadoras com quem pouco cuidado se teve, como se o dever de cuidar o outro e de amar além limites fosse a sua obrigação enquanto for gente. E é, é uma obrigação moral, familiar, social, acima de tudo sentimental, e nos sentimentos não há excessos nem demasias. O cuidador é o pico de uma pirâmide invertida. É aquele que suporta a sopa rala, a fralda suja, a falta de ar repentina e a má disposição impertinente de quem vê a vida a fugir, mais depressa do que a vontade expressa nos olhos que dizem tudo ao contrário da boca. A mentirosa... É o que enfrenta todo o sistema enquanto andar, é quem acompanha ao hospital, é quem acorda quando é preciso acordar, porque há frio, dores ou mau estar daqueles de moer. É também quem vai receber a reforma e quem dá as noticias do estado aos familiares, se os houver. É a confiança de quem está à distância de um telefonema, como se isso também fosse estar perto. É ainda aquele que sabe que não pode vergar, porque se quebrar não há mais ninguém para poder estar. Mas apesar do sentimento profundo, pode haver cansaço, tanto cansaço. Podem existir horas fortes de desespero, quando a fraqueza aparece ao lado do medo de que o amor de uma vida possa partir. E às vezes pode, e às vezes parte. Nunca interessam as noites acordadas, a obrigação cumprida, a rua que dá lugar à beira da cama, quando se tem amor de cuidar. Até parece que quem cuida deixa de viver e quase deve morre num tempo igual. E deve, e às vezes morre. Quando se ama em velho e doente vive-se de amor, mesmo que seja um amor cansado. O amor cansado, acreditem, é um dos mais puros dos amores. Não lhe chamem hábito, é feio, chamem-lhe companhia, cuidado, zelo e afecto. É por isto tudo que quem cuida precisa de cuidados: essencialmente porque sai de si só para se dar.

domingo, 5 de janeiro de 2014

o treino


Existem aquelas pessoas que eu encontro sempre nos mesmos locais. Dizem-me sempre a mesma coisa, emanam sempre o mesmo cheiro, vestem sempre a mesma roupa, olham-me sempre com os mesmos olhos. Incomoda-me essa constância rectilínea de quem não expressa emoções indexadas à novidade de um ano novo, à euforia de uma festa, à celebração de uma vida que nasceu agora, à alegria de um dia de sol. Fecham-se em timbres iguais, defendem-se na ladainha habitual, embrulham o pescoço num cachecol cinzento rato sem pêlo e sem graça, vestem as mesmas calças que escondem o corpo para além da alma. Ouvem a mesma música e no posto habitual, lêem todos os dias o mesmo jornal, tomam o pequeno almoço ideal, e esquecem que do lado de fora da porta a vida corre inconstante e desconexa, rápida e lenta, ágil ou a desoras, depende, do dia e da noite, da vontade e da necessidade, do impulso ou da novidade. Nunca há convite que as acorde nem efeméride que as tire do local, como não há feitiço que lhes quebre a monotonia fixada em cada ossinho do corpo, em cada milímetro de pele, em cada segundo do vida. Ó diabo, assusto-me sempre. Olhem se a coisa se tornar pegadiça?! Entro e saio só para saber se há vida, espreito pela nesga da porta invariavelmente encostada, meto primeiro um pé e depois o outro, é claríssimo que está. Duas palavras e tudo na mesma, até o cheiro dos fritos velhos a amofinar o ar que se respira, lento, lentíssimo. Não, não quero o café do costume semanal, haja alguém que quebre a regra (sou tão dada a isso...), venho só mesmo pelos votos de um bom ano. Saio apressada que se fazia tarde, sacudo o casaco e os cabelos molhados, apuro o olfacto e não gosto do odor que os acompanha: cheiram a bafio, a humidade, a roupa com nódoas e a palavras insossas e constrangidas. Tudo porque a inércia é amiga da apatia, que rima com sensaboria, moradora ali para os lados do marasmo. Fico a imaginar para mim que estas pessoas quando morrerem, por força do treino, saberão como é. Não haverá estranheza que lhes invada o corpo, inquietação que lhes sacuda o espírito, visão ou gosto que lhes acorde os sentidos. Estão num permanente sossego, prévio e preparatório.
 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

I can see clearly now



Sabem aqueles poucos segundos que antecedem as doze badaladas da mudança de ano em que desejamos o melhor para os nossos e para nós? E aquele segundo que anuncia o bulício da chegada do novo ano? Este ano passei-os sozinho. Não me perdoo: os telefonemas anteriores e posteriores não contaram. Pior, acentuaram, um por um, a frequência da ausência. Diz-se que nascemos e morremos sozinhos. Quanta inexactidão, senhores... tudo de mais importante é clara e precisamente visto sozinho.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

flores

Marisa Liz conta no "Alta Definição" que um dia em criança ofereceu flores aos sem-abrigo. Afirma-o com um ar de indignação por ter cometido uma atrocidade sem tamanho, como se a oferenda tivesse sido uma ofensa para quem tem fome e frio. Aqui espelha-se a dicotomia entre a necessidade do básico e do belo e a sensação completamente falsa de que a beleza não é apreciada por quem precisa do essencial. Espelha ainda a diferença cabal entre a infância e a adultez, a ingenuidade e a sapiência, a espontaneidade e o pensamento. É claro que um sem-abrigo precisa de alimento e de calor. É claro, ainda, que a surpresa se deve ter feito sentir, até porque quem tem falta de tudo esquece a alegria que espreita de fugida nos olhos de quem passa, pouco preocupados em sobreviver ao Inverno. Mas também é claro que flores são uma dádiva celeste, uma autêntica selecção de sensações expressas que, tal como um perfume forte, podem fazer com que a vida tenha toques clandestinos de percepções prazerosas, quase mortas por realidades de pão, de água e de cobertores esfarrapados. Uma boa ideia para o novo ano seria fazer chegar o belo à necessidade. Seria dotar o mundo de afectos e de sensibilidades, o que pode bem passar por oferecer flores ou outras minuciosidades a quem também precisa de pão. Um dos problemas disto é que só as crianças o fazem. Outro é que quando chegam a adultas se sentem ridículas por isso.