Do outro lado da linha afirma-me com uma calma serena que a conseguiu alcançar. À calma, um lugar que se consegue aos cinquenta, oiço dizer, e que fica num local que eu desconheço, mas do qual já ouvi falar. Invejo-a tanto no bom sentido... Ainda não tenho a idade mestra, e às vezes penso nos patamares da existência e dos desfasamentos do corpo em relação a eles. Ou nas vontade que podemos não concretizar, porque os anos não deixam. Ante determinados sonhos de crescimento somos novos, mas começamos a envelhecer mal atingimos a idade em que poderemos lutar por eles. Quando em crianças temos todo o tempo do mundo, por exemplo, a nossa mente não nos permite autonomia para viajar sozinhos, nem o dinheiro nos cai no colo para que possamos pagar devaneios. Quando a mente e a vida nos permitem, não há tempo, há umas férias rigorosas coladas num calendário de papel, que nos disponibiliza vinte e dois dias úteis num ano só para fazermos o que entendermos. Que bem vistas as coisas distribuímos por necessidades supremas que são sempre mais urgentes do que nós próprios e os nossos quereres, que diz-se, também se redimensionam com a idade. Ou seja, quando temos autonomia física e financeira, temos outras prioridades. Eu preciso delas, de resto, para manter alguma independência, porque a questão é toda ela cíclica e fracturante. Curiosamente tudo isto acontece ainda faseado, indexado a diversas fases dentro de um ano, aquele conjunto de números sobre os quais nos deveremos reger, ainda para além dos ditames das estações: eu por exemplo prefiro o Inverno, mas tenho muito mais tempo livre no Verão.
Depois lá mais para a frente, tudo se relativiza, parece. Ganha-se a bendita tranquilidade, não se corre porque já não é preciso e as dependências são menores. Trabalha-se menos, respira-se mais, no fundo vive-se melhor, até porque o cansaço obriga a dispensar o que é dispensável e permite atrasos, quando não se consegue chegar mais cedo. O que me apraz de momento, a mim, no auge da capacidade de esforço e de produtividade, ainda verdadeiramente capacitada para aumentar os índices de produtividade deste humilde País, e de suportar as maquiavélicas obrigações (reais ou impostas por mim) às quais me sujeito todos os dias, é pedir aos santos e aos deuses que me permitam uma festança do género daqui a um tempo: uns anos abastados de vagar e de calma, com sapiência suficiente para não lutar contra o que não merece a minha preocupação, quando eu puder viver só porque sim. Viver só porque sim não é viver desprovido de sentido, nada disso. Viver só porque sim é viver de amor à vida, com tudo o que ela tem e que realmente nos importa. Que pode ser um filho, pode ser um amor, pode ser uma viagem, pode ser um livro, pode ser uma noite de sono ininterrupta, pode ser uma mesa farta, pode ser um cão, ou pode ainda ser uma folha seca que num dado momento encontramos no chão. Sim, no chão, aquele sítio que certamente só conseguiremos ver bem mais tarde, quando olharmos de perto os passos dos pés e tivermos tempo, se quisermos, para viver todas estas coisas em simultâneo, sem precisar de opção.