© Paulo Abreu e Lima

domingo, 2 de fevereiro de 2014

o direito ao egoísmo

Dentro de um limite razoável, temos o direito ao egoísmo. A palavra pode parecer soberba, detentora de culpa, é de resto um termo conotado com uma negativa conduta individual, suprema a qualquer outra realidade. É originalmente contrária à convivência social proactiva, indicando uma vontade e uma razão muito própria ao indivíduo, pouco válido por si só. Eu própria a condeno, em caso de exagero declarado, mas não posso deixar de lhe prestar um merecido louvor em tempo certo. Há uma estreita ligação entre a mesma e uma adequada auto-estima, há uma precisão dos seus serviços para a edificação concreta e completa de uma estrutura mental alinhada, demasiadamente frágil se der tudo de si, há um caminho paralelo entre uma evolução social e uma evolução individual, em que o foco no próprio constitui uma condição sin ne qua non, para que depois do amor próprio nasça o amor social. Parente pobre dos vocábulos apreciados pelo Homem, ocupa um local religiosamente censurado e sobejamente criticado.

E agora pergunto: e os nossos tempos e as nossas vontades? Mais: onde moraremos, se no percurso do bem comum relegarmos demais o individual, em prol do social? Se o risco do exagerado interesse próprio pode ser elevado em questões internas e de convivência, o inverso também pode ser dramático em dimensões individuais, e por conseguinte sociais. O peso da questão insiste e subsiste pela carga da palavra, nada nobre em condição. 

(Em caso de dúvida persistente é aproveitar o embalo e referendar a questão.)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

sexto sentido

Não conheço a vida das mulheres de sempre. Sei a minha de cor, desde os vagares da alma às pressas do corpo que se esgueira trilho afora, numa amálgama de afazeres seguidinhos e ritmados. Pudesse e dedicava-me só a elas, sem desprimor do inverso, claro, nada tenho contra tão nobre condição. Mas é que cada vez mais me interessam as farçadas obscuras dos corpos femininos, as fragilidades maquilhadas na cor que disfarça as crises, as ânsias circunspectas de compreender o impossível e de encontrar nos sentidos a justificação para a lógica, parece-me tão mas tão bem, afinal temos mais um. O meu não é muito nem é pouco, acompanha-me do lado de fora da vida, cheiro-o nos olhos do mundo, apreendo-o nas palmas das mãos e permito que se aloje como uma pequena sabedoria sensata que faz mais por mim do que muitas grandiosidades. Todas o temos e nunca morre, guia-nos sem falhas por caminhos certos ou errados, que sabemos mas teimamos, por escadinhas negras que nos levam ao cume dos montes, por momentos que guardamos num local acessível, ao lado dos olhos, por onde espreitamos a nossa vocação. Esta capacidade faz com que nos emane do corpo uma névoa harmoniosa, uma áurea prudente e amena que sossega os desaire do mundos, uma mística envolvente e pertinente que acalenta ou desassossega a dureza do sexo oposto. Porém, não é essa a nossa função. Não trata aqui qualquer presunção sedativa, qualquer verdade caprichosa, qualquer valor terminante. Trata apenas e só a nossa humilde crença na força interna, como um caminho a escolher.

(A mulher que me ensinou isto morreu há muito, e hoje é o dia da saudade. Não lhe herdei a abrangência da força, seria impossível, guardei-lhe somente a admiração por ela. Um dia ainda me dedico mesmo a sério ao assunto. Imiscuo-me no universo das matriarcas e disseco-lhe os poderes do corpo, o vigor das palavras e o sossego dos colos. Analiso ao pormenor o tamanho do amor, percebo por onde lhes escorre a ordem, concluo de que maneira fabricam a paz, interiorizo por que meandros acalmam os sofrimentos. Tudo isto apenas para poder explicar ao mundo o segredo da fragilidade interna do processo. Pela consistência do resto, aposto que ninguém acredita.)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

prémios

O que mais me assusta nos olhos de alguns jovens é a falta de objectivos. Isto porque ninguém caminha sem o rumo de uma estrela guia, na direcção do que se pretende alcançar. Importuna-me especialmente sentir que do lado de fora não encontram o rigor que procuram internamente, demasiado insustentado para que tudo faça sentido (a dicotomia interno-externo é uma realidade irrefutável). Deixar os jovens na mercê do percurso desorientado pode ser uma entrega cruel. Pode sujeitar quem avança a uma incongruência capaz de desconfortar o interior, que para segurança se socorre do tédio (um sossego), como forma de ocupação (chamam-lhe provavelmente preguiça). Usualmente é nesta fase que o redor percebe a inércia e se desassossega. Une-se em debandada e é vê-lo vaguear, ciente de que a solução miraculosa irá emergir algures de um local inerte e vazio, incumbido de momentaneamente nortear novos e velhos no percurso a seguir (pelo destino, sempre pelo destino). No discurso percebem-se pequenas fragilidades maquilhadas de palavras correctas, erros camuflados de circunstância impossível, limites balizados nas máximas correctas do bom senso que afinal se conhece (ninguém diria), apesar do desmazelo. O desmazelo pode ser um estado de espírito quase permanente. Uma negligência exercida sem intento próprio, como se a tarefa de encontrar caminhos na infinitude do mundo fosse um jogo de sorte, sem azar. Depois, mais para o final da catarse, surge o ex libris apoteótico: o destino final é sobejamente conhecido e escolhido de todos, só não interessa como lá chegar. Nestas alturas, quando a emoção galga pais acima e deixa a nu toda a vaidade extrema e ditadora, apetece-me perguntar se pretendem que os filhos só corram a maratona da vida e mais nada. Vistam o fato uniforme no inicio da distância, bebam água só quando for preciso, sigam o trilho e concentrem as energias na meta, sem olhar a percursos, dificuldades, limitações ou necessidades. No final de tudo, e após chegarem cegos à linha que os levou ao ouro, já podem desfalecer: o filho é deles, mas a medalha também. 

Como as tuas


 
Nem sempre há palavras que nos mostrem luz,
Escassas almas cristalinas, no cimo enterradas,
Invisíveis de dia e de noite que se aninham em bruma.
Nem sempre há palavras onde todos os males abismem
Pelos sete palmos de terra, tácteis do centro ao céu;
Que se alimentem de nuvens, restolho, sopro e trovão.
Palavras precisas, urgentes, antónimas e dissidentes.
Como as tuas.
 
 
 

domingo, 26 de janeiro de 2014

a diferença


No fundo, não amamos todos igual. Não precisamos todos da mesma realidade, é um facto, mas a verdade é que nem sempre se aceitam as diversidades de ânimo suficientemente leve. Ao contrário do que se pode crer, não há necessidade de extrema semelhança para permitir complementaridade. Deixo um simples exemplo. Um ansioso pauta a sua acção subjugado ao controlo da atenção. Insurge-se o medo da perca, claro, comum às neuroses, já há uma perfeita noção e consciência de que o outro pode desaparecer por autodeterminação. O obsessivo, num outro passo neurótico da afectologia genética, mantém o medo: precisa do outro, mas socorre-se da lógica para mantê-lo por perto. Se por um lado o ansioso necessita do controlo, o obsessivo reclama o rigor. O ansioso tenta a todo o custo controlar a proximidade ao nível da atenção, dedica-se, precisa de dedicação. O obsessivo exige que tudo lhe faça sentido, carece de perceber e explicar-se ao infinito por forma a envolver a realidade num casulo controlável, pouco aberto a deambulações. A um falta lógica, ao outro emoção. 

Uma ideia plausível de terminar os desconfortos seria a troca de papéis. Parecia-me extremamente conveniente a possibilidade de inversão, o ansioso perceberia a necessidade do obsessivo, que por sua vez compreenderia a urgência controladora do primeiro. Assim, hipóteses descartadas por comedimentos existenciais, resta-nos imaginar e perceber as alheias precisões. O busílis pode dar-se se em ambos existir desconhecimento verdadeiro do âmago essencial do outro membro do casal. Vencidas essas ignorâncias, resta a fusão: o ansioso dá-se, e recebe o rigoroso sossego do obsessivo. O obsessivo tranquiliza com a rigidez da atenção. 

É coisa para a vida, posso afiançar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

a esfera leve

Parece constructo, frase feita, mas quantas não há que quando sentidas na pele se assumem como verdade absoluta na práxis comum? O peso pesa do corpo para dentro e do corpo para fora. Pesa de manhã cedo, quando a noite ainda existe real, pesa no pão com manteiga que trava na garganta, nos relacionamentos de carácter diverso, na voz que não ecoa e nos olhos que se arredam, nos passos que tremelicam do alto de um corpo que passa, nu ou vestido, sente-se lá. Mas pesa, pesa mais a sério quando é preciso sair e soltar. Quando a tarefa é ânsia que nos olha e não se pode falhar, nessa hora é preciso estar leve. É pelo excesso que a nossa verdade se assume sempre como única, que andamos todos depressa demais, ar vazio, palavras mortas, que o mundo segue a desoras imiscuído em corpos cheios de tudo e disponíveis para quase nada. Saltar para a esfera externa exige leveza, exige um espaço interno capaz de abraçar, exige a faculdade de sair depois de libertar. É este um dos motivos pelos quais eu julgo fundamental dotar as cirancinhas de liberdade e abstracção, quanto mais cedo melhor. É por isso que eu abomino pais que castram vocações e impingem ocupações, mundos que acabam com sonhos, professores que insistem que o céu tem de ser azul e as flores precisam de nascer do chão, que não permitem uma evasão, que apenas valorizam o rigor do manual. É por isso que eu considero que disciplinas como a filosofia deveriam vigorar, devidamente adaptadas e eventualmente remodeladas, bem mais cedo no programa escolar. A abstracção nasce connosco, mas a estimulação orientada peca por tardia (surge demasiado tempo depois do brincar); o concreto agarra-nos todos os dias, o corpo enche cada vez mais cedo, os lugares de vazio existem menos, e em cada passo pesamos mais. O peso em excesso não nos mata, nada disso, isola-nos "só". Coloca-nos na esfera pesada, demasiada, para irmos além.

Ironicamente, não raras vezes, sigo a multidão: andamos todos em conjunto, iguais na diferença, muito mais do que a sensatez nos deveria permitir. No lago negro do fundo, ninguém nada. Na tona, mantém-se a ilusão.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

uma pena

Às vezes é só isso mesmo, uma pena. O trajectos não fazem o sentido esperado, a tolice agarra a espuma dos dias e deixa que nos entreguemos ao cansaço, é normal. E fácil, facílimo, demasiado fácil, porque pode matar. Costumo dizer que compreendo tudo sem qualquer tipo de modéstia. Compreendo mesmo, aliás, tenho para mim que não há tarefa no mundo que eu execute melhor. Oiço por vezes com algum custo, posso ter pouco ou nada para dizer, depende da carga esculpida a frases, gestos e choros, em certos casos reajo da forma errada, é a vida. Emociono-me com o sofrimento, revolto-me com a inércia, sou capaz de me intrigar com os erros desprovidos de razão consistente e justificativa, que me expliquem o porquê do ódio ultrapassar o amor. Mas depois, no final da jornada, não há vez que eu não entenda. Os acasos não existem, perdoem-me os crentes, existem causas, e os motivos espalham-se sem critério definido por forma a conseguirem encaixar indomáveis numa norma social, e só a título de exemplo. O problema surge quando temos pena, realmente. Quando sobeja o rancor do tempo e se esquece que a vida, essa que passa e não volta (perdoem-me os crentes, uma e outra vez), se constrói devagarinho e passo a passo. Mas preservar intacto pode ser difícil. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os locais, mudamos nós. E é aí que o mundo não faz o sentido que gostaríamos que ele fizesse, não acorda de manhã para dormir à noite, não aquece no Verão para arrefecer no Inverno, não se governa de bondade para matar a maldade. No fundo, o mundo não é mais do que um complexo desgoverno. O mundo a sério é muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar, e a pena maior é a nossa dificuldade em aceitá-lo, tal e qual ele é. Gosto muito de ouvir dizer que tudo está nas nossas mãos. Preciso, até, acalenta-me o espírito, consubstancia-me as vontades, orienta-me os caminhos, salva-me dos medos. Mas não está, é tudo uma grandessíssima mentira. O nosso poder termina exactamente quando a pena, o desgosto, a perca ou o que queiram chamar-lhe, se torna maior do que a nossa capacidade de acção. E aí, é senti-la e aceitá-la. Ponto.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lua de Janeiro (e uma perguntinha)



A Lua (sempre maiúscula) é o maior satélite natural do sistema solar em relação ao seu planeta - tem um quarto do tamanho da Terra. Acompanha-a na sua órbita à volta do Sol e percorre dois movimentos principais: translada (translação) uma elipse em torno da Terra durante cerca de 28,5 dias e gira à volta do seu próprio eixo (rotação) durante o mesmíssimo tempo. Deste facto infere-se que i) da Terra, só se observa uma única face e ii) um dia lunar corresponde sensivelmente a 14,25 dias terrestres. Em qualquer local da Terra, a Lua, como o Sol (aparentemente), nasce do Leste e põe-se no Oeste. Ponto.

As duas fotos supra foram tiradas exactamente do mesmo local terrestre, no mesmo dia (11 de Janeiro deste ano). Uma à tarde e outra à noite. Perguntinha: Por que razão a primeira tem a "barriga" virada para cima e a segunda virada para baixo, num aparente movimento no sentido dos ponteiros do relógio? Amanhem-se.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a culpa

As questões sociais que desembocam na violência escolar desmedida mereciam debruce sério. Pertenço à fasquia da população que acha que todas as pessoas do mundo deveriam ser obrigadas a parar para pensar. E pasmem-se, não há quem aprecie mais a liberdade do que eu. O foco centra-se no respeito, condição essencial para que a liberdade exista além corpo, o que é isso de uma maleabilidade única e intransmissível, se ao nosso lado um miúdo se suicida na sequência de um episódio de bullying? Parar para pensar nas consequências de uma sociedade centrada no progresso profissional, mas completamente desmarcada dos valores sociais, a única verdade que realmente nos sustenta com alguma dignidade, assume um carácter de urgência, se não quisermos ver descambar a camada mais jovem, ou seja, o mundo daqui a uns tempos. Apetece-me às vezes perguntar quanto dinheiro é preciso para que se tratem pessoas doentes com dignidade. Quanto custa um desabafo, por quanto fica um abraço, quantas horas de trabalho são necessárias para uma palavra de apreço. Queria ainda saber quantos computadores são precisos para ficarmos preenchidos por dentro, quantas televisões temos de ter em casa para sermos felizes, de quantas playstations se constrói uma criancinha. Não me agrada muito o retrocesso como única análise válida de uma sociedade em evolução, mas também não me consigo desmarcar da infância que me ensinou a generosidade e o respeito ao próximo como forma de ser. Hoje, e se conseguirmos a paragem que nos permite a racionalização, percebemos que ensinamos a liberdade como um progresso próprio, não como um progresso social. Aconselhamos a generosidade como processo terapêutico para sermos felizes, usamos a troca de valores como um mero meio para atingir um fim, aproveitamos as fraquezas alheia para atenuarmos as nossas e assim elevarmos o próprio Eu a um patamar muito mais satisfatório, não há forma mais prática de melhorar a auto-estima. No seguimento desinvestimos na nossa real evolução para centrarmos a acção na mácula externa. Não há baixeza maior e, como tal, não podemos espantar-nos com os resultados. A indignação é um direito real quando há deveres envolvidos e empenhados. Caso contrário, é uma das mais puras manifestações da ignorância humana.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

50

Do outro lado da linha afirma-me com uma calma serena que a conseguiu alcançar. À calma, um lugar que se consegue aos cinquenta, oiço dizer, e que fica num local que eu desconheço, mas do qual já ouvi falar. Invejo-a tanto no bom sentido... Ainda não tenho a idade mestra, e às vezes penso nos patamares da existência e dos desfasamentos do corpo em relação a eles. Ou nas vontade que podemos não concretizar, porque os anos não deixam. Ante determinados sonhos de crescimento somos novos, mas começamos a envelhecer mal atingimos a idade em que poderemos lutar por eles. Quando em crianças temos todo o tempo do mundo, por exemplo, a nossa mente não nos permite autonomia para viajar sozinhos, nem o dinheiro nos cai no colo para que possamos pagar devaneios. Quando a mente e a vida nos permitem, não há tempo, há umas férias rigorosas coladas num calendário de papel, que nos disponibiliza vinte e dois dias úteis num ano só para fazermos o que entendermos. Que bem vistas as coisas distribuímos por necessidades supremas que são sempre mais urgentes do que nós próprios e os nossos quereres, que diz-se, também se redimensionam com a idade. Ou seja, quando temos autonomia física e financeira, temos outras prioridades. Eu preciso delas, de resto, para manter alguma independência, porque a questão é toda ela cíclica e fracturante. Curiosamente tudo isto acontece ainda faseado, indexado a diversas fases dentro de um ano, aquele conjunto de números sobre os quais nos deveremos reger, ainda para além dos ditames das estações: eu por exemplo prefiro o Inverno, mas tenho muito mais tempo livre no Verão. 

Depois lá mais para a frente, tudo se relativiza, parece. Ganha-se a bendita tranquilidade, não se corre porque já não é preciso e as dependências são menores. Trabalha-se menos, respira-se mais, no fundo vive-se melhor, até porque o cansaço obriga a dispensar o que é dispensável e permite atrasos, quando não se consegue chegar mais cedo. O que me apraz de momento, a mim, no auge da capacidade de esforço e de produtividade, ainda verdadeiramente capacitada para aumentar os índices de produtividade deste humilde País, e de suportar as maquiavélicas obrigações (reais ou impostas por mim) às quais me sujeito todos os dias, é pedir aos santos e aos deuses que me permitam uma festança do género daqui a um tempo: uns anos abastados de vagar e de calma, com sapiência suficiente para não lutar contra o que não merece a minha preocupação, quando eu puder viver só porque sim. Viver só porque sim não é viver desprovido de sentido, nada disso. Viver só porque sim é viver de amor à vida, com tudo o que ela tem e que realmente nos importa. Que pode ser um filho, pode ser um amor, pode ser uma viagem, pode ser um livro, pode ser uma noite de sono ininterrupta, pode ser uma mesa farta, pode ser um cão, ou pode ainda ser uma folha seca que num dado momento encontramos no chão. Sim, no chão, aquele sítio que certamente só conseguiremos ver bem mais tarde, quando olharmos de perto os passos dos pés e tivermos tempo, se quisermos, para viver todas estas coisas em simultâneo, sem precisar de opção.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

até já

Está uma noite de ventos assassinos que perseguem roupas quentes e fortes, demasiado fracas para esta natureza. Insiste na saia curta e aparece cheia de si e com ele, numa esquina escondida por uns prédios altos que abrigam ruelas de calçada agreste e escorregadia. Lá dentro do bar está um calor afrodisíaco regado a absintos azuis que se alojam nos olhos de quem bebe à espera de um riso maior. A vida segue todos os dias desgovernada, é por isso que se despertam vértices de vontades bravias arrumadas em todas as horas de uma semana entregue ao pouco dinheiro, o vagabundo odioso que quase nos transformou em seres desprezíveis e desprovidos de coração verdadeiro. As senhoras envergam vestes justas que auxiliam o corpo a mostrar os encantos numa vénia fácil. Os senhores distraídos sentam-se e conversam dos negócios falidos, dos casamentos arrefecidos e dos amores feridos, nobres clandestinos capazes de manter a restante cadeia emparedada e guardada, sempre prestes a desmoronar. O barman atento distribui pratinhos com salgados que puxam conversa e bebida, e servem ainda o propósito de matar a ausência que acontece em momentos vazios de palavras vãs (os assuntos de interesse duram sempre pouco tempo). Há um senhor no palco que toca como se o mundo à volta tivesse parado. Insiste numas guitarradas acesas que parecem passar ao lado de quem precisa muito mais de dar do que de receber (estão enganados, estão redondamente enganados se pensam que é sempre ao contrário). Dá-se sem necessidade de retribuições forçadas e fantasiosas, e também ele se destila em força e gestos enquanto uns goles de gin lhe devolvem tudo o que precisa de ter. A noite está entrada quando se retiram para um sítio mesmo ao lado. Entram na hesitação do despique e percorrem um corredor sombrio e cinzento que se dirigia perigosamente para o fim resolvido. Olham-se de perto na ânsia da luta entre o pecado e a severa, e eu sei quem ganha, não há que enganar. Um a zero e na próxima jogada não há regras nem apostas. Há o frio da noite, há o corpo dos dois. Até já.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

o hábito


O hábito é um refúgio no qual repousamos a caminho de casa, quando sabemos que lá dentro nos espera o sempre igual. O inesperado adocica qualquer coisa a rotina que nos suporta, não fosse ele e o tédio faria com que a matemática tomasse conta de nós, cruzes canhoto. Ainda assim não descolamos da importância que a segurança tem para a nossa identidade, e quantas vezes não redimensionamos o universo só porque fora de nós surge uma outra realidade? Ou cá dentro, ou cá dentro e lá fora. Pela minha parte preciso assumidamente de quotidianos, como uma janela quase aberta de manhã, um perfume de flores na Primavera, um bâton forte no Inverno, um vestido leve no Verão. Ou uma cama lavada muitas, muitas vezes, um café todas as manhãs, uma mesa com cheiro a comida quente e substancial, todos os fins de semana do mundo.

Eckhart Tolle é um apologista inveterado do agora como a única realidade que temos. Quase mata o passado, guarda-o para os deprimidos, aquela fasquia da população que remói o que foi e não deveria ter sido, o que foi e não volta a ser, o que deveria ter acontecido e nunca aconteceu. Concordo com ele até certo ponto, não há verdade maior do que inutilidade prática do que já foi, mas não poderemos esquecer nuca o seu papel na construção do nosso eu e do nosso hábito. O futuro, pertença quase exclusiva dos ansiosos, ainda me sacode mais o espírito. Eventualmente porque me encaixo na faixa populacional que vive de anseios mal trabalhados, recalcados, rescaldados, entre outros adjectivos de carácter pouco abonatório em mente minimamente sã (toda a vida ouvir dizer que em casa de ferreiro os espetos são de pau). A verdade, e findas as explicações demasiadas, é que não alcanço focar o presente como a minha parca realidade. Não me consigo descolar do que me faz sentir em casa, desligar do que ambiciono, não imagino a corrida presente sem ponto de partida e pontos de chegada, locais que podem até mudar por forças anímicas do mundo, mas que serão sempre aqueles que eu quero. 

Esta minha leviandade de não crer em quem tão bem defende a lógica do presente, faz com que eu precise de uma rotina e de um caminho a seguir, dificulta-me a vida, claro está, exige de mim para além da lógica fácil do momento, mas não prescindo. O agora e para todos os efeitos, está sempre a morrer-me nas mãos: espalho-o tal e qual as migalhas da casa da bruxa e do chocolate, fica para trás, transforma-se em passado, diz-me para onde vou. Bem sei ser ele, esse agora, a constante realidade que me sustenta, mas nunca será só ele a única verdade que me guia.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Fernando Pessoa por Osmar Prado (A/C dos guiões novelescos nacionais)


uma má ideia




Salvo raras excepções, partilhar um imenso problema com os mais chegados pode não ser uma boa ideia. Claro que não se espera daí, da comunhão de afectos e da sintonia de afagos, solução ou cura milagrosa. Escrevo estritamente no âmbito da compartilha, do desabafo, do alívio de uma carga negativa que nos atormenta a alma e o juízo, e que muitas vezes se estende até ao corpo – mormente numa altura em que a depressão colectiva é sal em mar salgado e a hipersensibilidade irrompe em eriçados arrepios pelas epidermes. Hoje em dia, a dor quer-se tímida e cabisbaixa, encoberta por pensamentos introspectivos cujas vibrações se anseiam particularmente mudas. Sendo um mal que não escasseia, muito pelo contrário, formiga, quer-se oculto e longe, não vá surtir como uma pandemia e propague. Não é exactamente um mal das sociedades, é simplesmente uma má ideia.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

get off


Chegas-me por uma porta inesperada com nesga que te espreita ainda antes de entrares. Apressas os passos quando sentes que a abro no escurinho de uma noite chuvosa e fria, gosto do Inverno, tu sabes. Falas muito enquanto engoles um jantar apressado que te forra o estômago e a alma, é por isso que eu aprecio tanto chocolates. Partilhas com a Dona os sorrisos e com a fera umas lasquinhas de carne gorda e saborosa, sabes como ninguém conquistar o universo feminino, deverias ser obrigado a pagar por isso. Sentas-te pouco tempo, desesperas por uma cama quente e tardia que largas na madrugada seguinte, a chamada chega sempre muito cedo. Nunca te hei-de perdoar os abandonos antes do dia clarear, os de sol que te aquecem ao longe, os almoços sozinhos em vez de partilhados numa mesinha pequenina e azul situada lá para as bandas do Oeste, tal como nunca te perdoarei os momentos que respiras sem mim a respirar ao teu lado. Gosto, gosto muito de uma exclusividade impossível, improvável e certamente assassina, se transladasse o domínio do querer para o domínio do ser, mas a sabedoria disso não me faz mudar de ideias: é uma procura eterna que move as montanhas de mim. Da janela e quando me faltas espreito uns montes com moinhos de vento como os do antigamente, casinhas redondas com moagem pela força da natureza, mais ou menos como no amor. Mas o amor funciona com o tempo, não com o vento: rola e desfaz-nos em partículas pequeninas que nos deixam frágeis e capazes de construir, ele há com cada analogia engraçada.

Hoje de manhã tudo tinha, claro, menos encanto. A velhinha da direita perdeu um dente da placa, quer colá-lo, tem todo o direito. O da esquerda recuperou uns óculos sem mola ressuscitados, os objectos têm esta fantástica realidade do regresso à vida depois de mortos. A distância do telefonema é, lá está, muito maior do que a que queremos realmente considerar. O chocolate do pequeno almoço emagrecido por um corpos Danone foi-me dado por Prince, que me tinha desaparecido num Verão longínquo numa festa de adolescentes de pijama (sim, sim, também fiz dessas coisas). Oiçam-no, oiçam-no e expliquem-me como é que foi possível eu esquecer um génio desta maneira e por tanto tempo.

(Soubesse eu cantar e era bem capaz de te trautear isto ao ouvido, assim só corres o risco de eu me aventurar, o que não deixa de ter a sua certa piada.)