© Paulo Abreu e Lima

sábado, 8 de fevereiro de 2014

num segundo

Vi-te no comboio é um novo local de amor. O amor acontece em vários lugares do mundo, e o comboio citadino que liga Lisboa a Setúbal pode bem ser um deles. O amor pode ter várias leituras e eu gosto de lê-lo, de perto, de longe, depende da situação. Depende se é meu ou se pertence a alguém que me rodeia, dado ser de posse determinada, com registo de propriedade (muito embora às vezes seja ambicionado por proprietários que anseiam por direitos perdidos ou nuca tidos). Não há folha notarial a não ser em caso de casamento, mas a verdade é que a pertença é mais do que regulamentada pela sociedade. Os corações reclamam o amor perto, ao alcance das duas mãos, várias vezes por dia, mas por vezes o amor fica longe. O amor que fica longe não é por isso menos amor, é apenas um amor que precisa de uma dose especial de atenção, de mais cuidado em palavras de letra ou de voz, e de mais ternura quando se está perto. A esse acresce a saudade, uma das mais belas palavras portuguesas. 

Há os amores adolescentes, que nascem de fora para dentro, como muitos outros amores: apaixonam-se os olhos pelos olhos e o resto do corpo acompanha. Podem não ser ao vivo e a cores, basta por exemplo que se cante ao coração. No meu tempo esses amores viviam num poster gigante na parede do quarto, para o qual se olhava horas a fio, e que, lá está, estava sempre ao alcance de uma mão imaginada (a imaginação é a melhor amiga da adolescência). Os amores de dentro para fora são talvez mais complicados e demorados. Demora muito mais tempo criar amor por uma generosidade do que por um olhar intenso. Este amor é invisível, mas a verdade é que quando nasce pode vencer muitas das coisas que se podem apenas olhar. O amor mesmo, o verdadeiro, não vive só dos olhos. O que vive só dos olhos é o amor poético, como o que se lê nas linhas de Pablo Neruda ou se escuta numa música pintada ao luar. Mas gostamos, gostamos muito de imaginar esse amor. Gostamos de imaginar esse amor porque é perfeito e belo e rima com o nosso interior mais recôndito, aquele que é capaz de matar o mundo em nome da pessoa amada. Ou de morrer por ela, o que constitui uma visão ainda mais limite, ainda mais romântica, ainda mais sublime.

O amor à primeira vista, e regressando ao comboio, é quase um tipo de amor. Pode aparecer muitas vezes ou uma única vez, mas é legítimo como qualquer um outro, e talvez por isso eu não tenha nada contra ele. Se dele advier uma história, não me cabe a mim decifrá-la, nem em juízo, nem em conteúdo. A mim o que me cabe é gostar da crença e do romantismo bastante para que duas pessoas se aproximem de alguém ao lado, que na próxima estação pode sair para nunca mais entrar. Se a fragilidade invade o gesto, pois que o faça, a vida é feita de momentos que construímos em tempos únicos e inesperados, logo, frágeis. Se por qualquer obra do destino dali nascer um amor mais a sério, é sinal de que o mundo pode também ser feito de instantes. Ou no mínimo, começar num segundo.

Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

parece brasileira você...

Manuela tinha uns caracóis loiros e umas pernas altas. Vestia umas saias curtas e rodadas que deixavam a santa terrinha alvoraçada, ou não fora a moça jeitosa de corpo, de cara, de vestes e de calçado alto, o maior aliado de uma mulher. Nunca faltava à verdade, a sensata, nunca se imiscuía no engenho do engano, nunca se chafurdava no pecado da mentira, nem na pose, nem nas falas, nem nos gestos, nem nos amores. Amava de perdição um Zé de nome mas ninguém de condição, que a usava como um troféu conquistado numa luta de galos bem vencida, ganhas tu ou ganho eu. Ganhou ele, com uns olhos verdes de meter inveja, uma lábia triunfal, uma figura espadaúda e encorpada, apenas sustentada pelos encantos da sedução. Uma verdadeira mentira. Um dia passeávamos ambas pela estrada da aldeia, Verão quente, fim da tarde, a espampanante saia vermelha a contrastar com um meu humilde calção, o meu cabelito preso em rabichas, as minhas pernas engolidas pelo mulherão, eu uns cinco anos franganitos, ela uns vinte bem bonitos. Abeira-se uma viatura ligeira, uma cabeça de homem espreita, e o sorriso nasce de uma boca que lhe solta um atrevido - parece brasileira você. Sorrimos e prosseguimos, a saia esvoaçante, os caracóis desgrenhados, os passos envergonhados, eu, saltitante, repetindo o dito ao infinito, som que se alojou no meu corpo até nunca mais ter fim. 

Há pouco soube dela, encontrei-a numa celebração obrigatória, daquelas que reúnem numa igreja várias pessoas dos arredores. Os caracóis já morreram, as pernas ganharam tamanho, as saias desceram abaixo do joelho, os saltos mingaram até ao centímetro só, os olhos estão tristes porque o Zé Ninguém desapareceu com uma moça esbelta, o eterno sedutor. Perguntou-me por aquela tarde, inquiriu-me sobre o trajecto, sobre as vestes, sobre a expressão que se alojou no meu corpo e sobre o ar jovial dela, comido pela ilusão (a malvada esfomeada). É claro que me lembro, lembrar-me-ei sempre. A juventude da vida, nunca envelhece na nossa memória.

(Recordamos ainda, como não fazê-lo, o dia em que a verdade se alojou ainda mais no seu corpo. A condução fazia-se sem carta, tinham havido apenas lições. A guarda manda parar, e perante o riso dela e a minha pobre aflição, pergunta o que raio se passa ali. - Passa-se muito senhor guarda, sou eu que não tenho a carta, responde em gargalhada... Ora minha menina, siga, siga... Deixe-se de brincadeiras, e vá-se mas é embora... Prosseguimos claro, e a mim persegue-me ainda uma eterna e pertinente questão: terão sido os caracóis, as pernas, o riso ou a verdade? Por via das dúvidas e para quem possa, é usar em conjunção. Pelo sim, pelo não...)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

o humor pode não ser culto, mas convém, no mínimo, ser informado...

... caso contrário, não só não tem graça como cai em desgraça.

Sou contra o Acordo Ortográfico (AO), mas só depois de ter lido o documento que lhe dá corpo. Já muita gente é sumariamente contra algo que desconhece ou que "ouviu falar". Depois dá nisto:


Com o novo AO, "cágado", sendo uma palavra esdrúxula, mantém o acento gráfico na sílaba tónica, no primeiro "a", e "facto" passa a ter dupla grafia conforme o falante (uma barafunda, portanto), ou seja, com ou sem "c".
 
Não sendo propriamente um desconfiado, procuro ser avisado e, muitas vezes, desconfio qual das partes (a favor ou contra o AO) se dá ao trabalho de difundir estas baboseiras.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Nazaré, 2 de Fevereiro de 2014: as ondas que McNamara não cavalgou

«No extremo do Promontório do Sítio, que cai a pique sobre o mar, mandou D. Sebastião construir, em 1577, a Fortaleza de S. Miguel, destinada a defender a enseada dos ataques dos piratas argelinos, marroquinos e normandos. Filipe II, cerca de 1600, mandou reconstruir a primeira fortaleza de acordo com a planta do arquitecto florentino João Vicente Casale. Após a restauração da monarquia, D. João IV ordenou a sua remodelação e ampliação, dando-lhe o traçado que ainda hoje conserva. É um notável monumento militar maneirista, característico da defesa da costa, com planta longitudinal irregular adaptada ao promontório sobre o qual assenta. Possui um baluarte em cada ângulo, grossas muralhas diversas vezes restauradas, com contrafortes, ameias e frestas, dispondo de uma original Praça de Armas no 2º piso. Por cima da porta de entrada, sob um lintel, uma imagem em baixo-relevo de S. Miguel Arcanjo e a legenda “El-Rey Dom Joam o Quarto – 1644. Durante a 1ª Invasão Francesa (Junot – 1807/1808), esteve ocupado por soldados de Napoleão I, que a população do Sítio e da Pederneira ajudou a expulsar, tornando-se assim num símbolo da resistência popular. Desde 1903 está aqui instalado um Farol de auxílio à navegação que, actualmente, tem um alcance luminoso de 15 milhas, sendo completado por um sinal sonoro de aviso em dias de nevoeiro intenso.»  
 * Pesquisa, compilação e adaptação de TEIXEIRA DA SILVA, AJ.

O farol da Nazaré situa-se 50 metros acima do nível do mar e as fotografias foram tiradas "a pique", isto é, de cima para baixo, fazendo parecer as ondas menores.

Sobre o famoso "Canhão da Nazaré": «Em poucas palavras, os canhões submarinos como o Canhão da Nazaré, modificam o modo como a ondulação se propaga, permitindo a existência de zonas na proximidade do canhão onde a onda converge e se amplifica. Ao largo da Praia do Norte, este processo parece ser reforçado por correntes costeiras que se opõem às ondas e pela diminuição rápida do fundo que a onda sente ao passar do canhão para a plataforma próximo.» [Daqui]

Ou seja, as maiores ondas não são "surfáveis", propagando-se muitas vezes perpendiculares à costa com cristas e cavas anómalas. Mas sempre espectaculares.

 



Reparem naquele "portão de Neptuno" entre a espuma

Garrett McNamara, muito simpático, depois de eu lhe dizer que era seguramente o havaiano mais popular em Portugal, a significativa distância de Obama.
Ei-lo em acção. Uma ondinha de 15 metros para experimentar a prancha nova...
 
Nota final: peço desculpa pela assinatura das fotos posicionar-se quase a meio destas, mas, como calculam, são facilmente transaccionáveis, digamos assim.

azul

( Imagem retirada do google)

Às vezes não sei de que cor é o mundo. Não sei de que tons se pintam as lágrimas, de que pinceladas se tinge o amor, de que salpicos se contornam os dias, de que tinta se cobre a vida. Quando tal acontece o norte não prescinde de si e regula-me os caminhos que subitamente se molham de azul, uma cor que muito mais do que o verde me traz a esperança (pormenores...). Dizem amiúde que é a última a morrer e eu acho que a razão tem um propósito divino. É vã de conteúdo mas plena de intenção, e a verdade verdadinha é que nos movimenta em torno do séquito estonteado, mesmo que o desnorteio venha nascido de uma força maior. É válido na saúde e na doença, na sanidade e na loucura, no medo e na certeza, na vitória e na derrota. Não é exactamente por isso que eu gosto do mar, mas é exactamente por isso que eu amo o céu e a incerteza do que se encontra para o lado de lá. A razão chega-me com planetas e vias lácteas, enfarta-me com a plenitude do Sol e a beleza da Lua, tenta sossegar-me com o rigor da gravidade que dimensiona o mundo num local impossível de explicar, mas possível de existir. Mas não sei, fico com dúvidas. Preciso delas, até, porque me socorro da ausência de respostas para me enquadrar o indizível da vida, me sossegar dos terrores da noite, me situar as vontades inexplicáveis e impossíveis, me nortear o inconsciente da existência. 

Mas apesar desta entrega obscura busco sempre a explicação numa incessante viagem sem fim e sem rumo, vire-me para a direita ou para a esquerda, para a frente ou para a retaguarda, para o chão ou para o céu. Sempre ciente de que no dia em que o sentido me invadir o corpo chegarei à lógica pura, à razão absoluta, ao local sagrado (certamente, ao fim do caminho). Lá, não deve haver forma de prosseguir. 

domingo, 2 de fevereiro de 2014

o direito ao egoísmo

Dentro de um limite razoável, temos o direito ao egoísmo. A palavra pode parecer soberba, detentora de culpa, é de resto um termo conotado com uma negativa conduta individual, suprema a qualquer outra realidade. É originalmente contrária à convivência social proactiva, indicando uma vontade e uma razão muito própria ao indivíduo, pouco válido por si só. Eu própria a condeno, em caso de exagero declarado, mas não posso deixar de lhe prestar um merecido louvor em tempo certo. Há uma estreita ligação entre a mesma e uma adequada auto-estima, há uma precisão dos seus serviços para a edificação concreta e completa de uma estrutura mental alinhada, demasiadamente frágil se der tudo de si, há um caminho paralelo entre uma evolução social e uma evolução individual, em que o foco no próprio constitui uma condição sin ne qua non, para que depois do amor próprio nasça o amor social. Parente pobre dos vocábulos apreciados pelo Homem, ocupa um local religiosamente censurado e sobejamente criticado.

E agora pergunto: e os nossos tempos e as nossas vontades? Mais: onde moraremos, se no percurso do bem comum relegarmos demais o individual, em prol do social? Se o risco do exagerado interesse próprio pode ser elevado em questões internas e de convivência, o inverso também pode ser dramático em dimensões individuais, e por conseguinte sociais. O peso da questão insiste e subsiste pela carga da palavra, nada nobre em condição. 

(Em caso de dúvida persistente é aproveitar o embalo e referendar a questão.)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

sexto sentido

Não conheço a vida das mulheres de sempre. Sei a minha de cor, desde os vagares da alma às pressas do corpo que se esgueira trilho afora, numa amálgama de afazeres seguidinhos e ritmados. Pudesse e dedicava-me só a elas, sem desprimor do inverso, claro, nada tenho contra tão nobre condição. Mas é que cada vez mais me interessam as farçadas obscuras dos corpos femininos, as fragilidades maquilhadas na cor que disfarça as crises, as ânsias circunspectas de compreender o impossível e de encontrar nos sentidos a justificação para a lógica, parece-me tão mas tão bem, afinal temos mais um. O meu não é muito nem é pouco, acompanha-me do lado de fora da vida, cheiro-o nos olhos do mundo, apreendo-o nas palmas das mãos e permito que se aloje como uma pequena sabedoria sensata que faz mais por mim do que muitas grandiosidades. Todas o temos e nunca morre, guia-nos sem falhas por caminhos certos ou errados, que sabemos mas teimamos, por escadinhas negras que nos levam ao cume dos montes, por momentos que guardamos num local acessível, ao lado dos olhos, por onde espreitamos a nossa vocação. Esta capacidade faz com que nos emane do corpo uma névoa harmoniosa, uma áurea prudente e amena que sossega os desaire do mundos, uma mística envolvente e pertinente que acalenta ou desassossega a dureza do sexo oposto. Porém, não é essa a nossa função. Não trata aqui qualquer presunção sedativa, qualquer verdade caprichosa, qualquer valor terminante. Trata apenas e só a nossa humilde crença na força interna, como um caminho a escolher.

(A mulher que me ensinou isto morreu há muito, e hoje é o dia da saudade. Não lhe herdei a abrangência da força, seria impossível, guardei-lhe somente a admiração por ela. Um dia ainda me dedico mesmo a sério ao assunto. Imiscuo-me no universo das matriarcas e disseco-lhe os poderes do corpo, o vigor das palavras e o sossego dos colos. Analiso ao pormenor o tamanho do amor, percebo por onde lhes escorre a ordem, concluo de que maneira fabricam a paz, interiorizo por que meandros acalmam os sofrimentos. Tudo isto apenas para poder explicar ao mundo o segredo da fragilidade interna do processo. Pela consistência do resto, aposto que ninguém acredita.)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

prémios

O que mais me assusta nos olhos de alguns jovens é a falta de objectivos. Isto porque ninguém caminha sem o rumo de uma estrela guia, na direcção do que se pretende alcançar. Importuna-me especialmente sentir que do lado de fora não encontram o rigor que procuram internamente, demasiado insustentado para que tudo faça sentido (a dicotomia interno-externo é uma realidade irrefutável). Deixar os jovens na mercê do percurso desorientado pode ser uma entrega cruel. Pode sujeitar quem avança a uma incongruência capaz de desconfortar o interior, que para segurança se socorre do tédio (um sossego), como forma de ocupação (chamam-lhe provavelmente preguiça). Usualmente é nesta fase que o redor percebe a inércia e se desassossega. Une-se em debandada e é vê-lo vaguear, ciente de que a solução miraculosa irá emergir algures de um local inerte e vazio, incumbido de momentaneamente nortear novos e velhos no percurso a seguir (pelo destino, sempre pelo destino). No discurso percebem-se pequenas fragilidades maquilhadas de palavras correctas, erros camuflados de circunstância impossível, limites balizados nas máximas correctas do bom senso que afinal se conhece (ninguém diria), apesar do desmazelo. O desmazelo pode ser um estado de espírito quase permanente. Uma negligência exercida sem intento próprio, como se a tarefa de encontrar caminhos na infinitude do mundo fosse um jogo de sorte, sem azar. Depois, mais para o final da catarse, surge o ex libris apoteótico: o destino final é sobejamente conhecido e escolhido de todos, só não interessa como lá chegar. Nestas alturas, quando a emoção galga pais acima e deixa a nu toda a vaidade extrema e ditadora, apetece-me perguntar se pretendem que os filhos só corram a maratona da vida e mais nada. Vistam o fato uniforme no inicio da distância, bebam água só quando for preciso, sigam o trilho e concentrem as energias na meta, sem olhar a percursos, dificuldades, limitações ou necessidades. No final de tudo, e após chegarem cegos à linha que os levou ao ouro, já podem desfalecer: o filho é deles, mas a medalha também. 

Como as tuas


 
Nem sempre há palavras que nos mostrem luz,
Escassas almas cristalinas, no cimo enterradas,
Invisíveis de dia e de noite que se aninham em bruma.
Nem sempre há palavras onde todos os males abismem
Pelos sete palmos de terra, tácteis do centro ao céu;
Que se alimentem de nuvens, restolho, sopro e trovão.
Palavras precisas, urgentes, antónimas e dissidentes.
Como as tuas.
 
 
 

domingo, 26 de janeiro de 2014

a diferença


No fundo, não amamos todos igual. Não precisamos todos da mesma realidade, é um facto, mas a verdade é que nem sempre se aceitam as diversidades de ânimo suficientemente leve. Ao contrário do que se pode crer, não há necessidade de extrema semelhança para permitir complementaridade. Deixo um simples exemplo. Um ansioso pauta a sua acção subjugado ao controlo da atenção. Insurge-se o medo da perca, claro, comum às neuroses, já há uma perfeita noção e consciência de que o outro pode desaparecer por autodeterminação. O obsessivo, num outro passo neurótico da afectologia genética, mantém o medo: precisa do outro, mas socorre-se da lógica para mantê-lo por perto. Se por um lado o ansioso necessita do controlo, o obsessivo reclama o rigor. O ansioso tenta a todo o custo controlar a proximidade ao nível da atenção, dedica-se, precisa de dedicação. O obsessivo exige que tudo lhe faça sentido, carece de perceber e explicar-se ao infinito por forma a envolver a realidade num casulo controlável, pouco aberto a deambulações. A um falta lógica, ao outro emoção. 

Uma ideia plausível de terminar os desconfortos seria a troca de papéis. Parecia-me extremamente conveniente a possibilidade de inversão, o ansioso perceberia a necessidade do obsessivo, que por sua vez compreenderia a urgência controladora do primeiro. Assim, hipóteses descartadas por comedimentos existenciais, resta-nos imaginar e perceber as alheias precisões. O busílis pode dar-se se em ambos existir desconhecimento verdadeiro do âmago essencial do outro membro do casal. Vencidas essas ignorâncias, resta a fusão: o ansioso dá-se, e recebe o rigoroso sossego do obsessivo. O obsessivo tranquiliza com a rigidez da atenção. 

É coisa para a vida, posso afiançar.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

a esfera leve

Parece constructo, frase feita, mas quantas não há que quando sentidas na pele se assumem como verdade absoluta na práxis comum? O peso pesa do corpo para dentro e do corpo para fora. Pesa de manhã cedo, quando a noite ainda existe real, pesa no pão com manteiga que trava na garganta, nos relacionamentos de carácter diverso, na voz que não ecoa e nos olhos que se arredam, nos passos que tremelicam do alto de um corpo que passa, nu ou vestido, sente-se lá. Mas pesa, pesa mais a sério quando é preciso sair e soltar. Quando a tarefa é ânsia que nos olha e não se pode falhar, nessa hora é preciso estar leve. É pelo excesso que a nossa verdade se assume sempre como única, que andamos todos depressa demais, ar vazio, palavras mortas, que o mundo segue a desoras imiscuído em corpos cheios de tudo e disponíveis para quase nada. Saltar para a esfera externa exige leveza, exige um espaço interno capaz de abraçar, exige a faculdade de sair depois de libertar. É este um dos motivos pelos quais eu julgo fundamental dotar as cirancinhas de liberdade e abstracção, quanto mais cedo melhor. É por isso que eu abomino pais que castram vocações e impingem ocupações, mundos que acabam com sonhos, professores que insistem que o céu tem de ser azul e as flores precisam de nascer do chão, que não permitem uma evasão, que apenas valorizam o rigor do manual. É por isso que eu considero que disciplinas como a filosofia deveriam vigorar, devidamente adaptadas e eventualmente remodeladas, bem mais cedo no programa escolar. A abstracção nasce connosco, mas a estimulação orientada peca por tardia (surge demasiado tempo depois do brincar); o concreto agarra-nos todos os dias, o corpo enche cada vez mais cedo, os lugares de vazio existem menos, e em cada passo pesamos mais. O peso em excesso não nos mata, nada disso, isola-nos "só". Coloca-nos na esfera pesada, demasiada, para irmos além.

Ironicamente, não raras vezes, sigo a multidão: andamos todos em conjunto, iguais na diferença, muito mais do que a sensatez nos deveria permitir. No lago negro do fundo, ninguém nada. Na tona, mantém-se a ilusão.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

uma pena

Às vezes é só isso mesmo, uma pena. O trajectos não fazem o sentido esperado, a tolice agarra a espuma dos dias e deixa que nos entreguemos ao cansaço, é normal. E fácil, facílimo, demasiado fácil, porque pode matar. Costumo dizer que compreendo tudo sem qualquer tipo de modéstia. Compreendo mesmo, aliás, tenho para mim que não há tarefa no mundo que eu execute melhor. Oiço por vezes com algum custo, posso ter pouco ou nada para dizer, depende da carga esculpida a frases, gestos e choros, em certos casos reajo da forma errada, é a vida. Emociono-me com o sofrimento, revolto-me com a inércia, sou capaz de me intrigar com os erros desprovidos de razão consistente e justificativa, que me expliquem o porquê do ódio ultrapassar o amor. Mas depois, no final da jornada, não há vez que eu não entenda. Os acasos não existem, perdoem-me os crentes, existem causas, e os motivos espalham-se sem critério definido por forma a conseguirem encaixar indomáveis numa norma social, e só a título de exemplo. O problema surge quando temos pena, realmente. Quando sobeja o rancor do tempo e se esquece que a vida, essa que passa e não volta (perdoem-me os crentes, uma e outra vez), se constrói devagarinho e passo a passo. Mas preservar intacto pode ser difícil. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, mudam-se os locais, mudamos nós. E é aí que o mundo não faz o sentido que gostaríamos que ele fizesse, não acorda de manhã para dormir à noite, não aquece no Verão para arrefecer no Inverno, não se governa de bondade para matar a maldade. No fundo, o mundo não é mais do que um complexo desgoverno. O mundo a sério é muito mais do que tudo aquilo que se possa imaginar, e a pena maior é a nossa dificuldade em aceitá-lo, tal e qual ele é. Gosto muito de ouvir dizer que tudo está nas nossas mãos. Preciso, até, acalenta-me o espírito, consubstancia-me as vontades, orienta-me os caminhos, salva-me dos medos. Mas não está, é tudo uma grandessíssima mentira. O nosso poder termina exactamente quando a pena, o desgosto, a perca ou o que queiram chamar-lhe, se torna maior do que a nossa capacidade de acção. E aí, é senti-la e aceitá-la. Ponto.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Lua de Janeiro (e uma perguntinha)



A Lua (sempre maiúscula) é o maior satélite natural do sistema solar em relação ao seu planeta - tem um quarto do tamanho da Terra. Acompanha-a na sua órbita à volta do Sol e percorre dois movimentos principais: translada (translação) uma elipse em torno da Terra durante cerca de 28,5 dias e gira à volta do seu próprio eixo (rotação) durante o mesmíssimo tempo. Deste facto infere-se que i) da Terra, só se observa uma única face e ii) um dia lunar corresponde sensivelmente a 14,25 dias terrestres. Em qualquer local da Terra, a Lua, como o Sol (aparentemente), nasce do Leste e põe-se no Oeste. Ponto.

As duas fotos supra foram tiradas exactamente do mesmo local terrestre, no mesmo dia (11 de Janeiro deste ano). Uma à tarde e outra à noite. Perguntinha: Por que razão a primeira tem a "barriga" virada para cima e a segunda virada para baixo, num aparente movimento no sentido dos ponteiros do relógio? Amanhem-se.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

a culpa

As questões sociais que desembocam na violência escolar desmedida mereciam debruce sério. Pertenço à fasquia da população que acha que todas as pessoas do mundo deveriam ser obrigadas a parar para pensar. E pasmem-se, não há quem aprecie mais a liberdade do que eu. O foco centra-se no respeito, condição essencial para que a liberdade exista além corpo, o que é isso de uma maleabilidade única e intransmissível, se ao nosso lado um miúdo se suicida na sequência de um episódio de bullying? Parar para pensar nas consequências de uma sociedade centrada no progresso profissional, mas completamente desmarcada dos valores sociais, a única verdade que realmente nos sustenta com alguma dignidade, assume um carácter de urgência, se não quisermos ver descambar a camada mais jovem, ou seja, o mundo daqui a uns tempos. Apetece-me às vezes perguntar quanto dinheiro é preciso para que se tratem pessoas doentes com dignidade. Quanto custa um desabafo, por quanto fica um abraço, quantas horas de trabalho são necessárias para uma palavra de apreço. Queria ainda saber quantos computadores são precisos para ficarmos preenchidos por dentro, quantas televisões temos de ter em casa para sermos felizes, de quantas playstations se constrói uma criancinha. Não me agrada muito o retrocesso como única análise válida de uma sociedade em evolução, mas também não me consigo desmarcar da infância que me ensinou a generosidade e o respeito ao próximo como forma de ser. Hoje, e se conseguirmos a paragem que nos permite a racionalização, percebemos que ensinamos a liberdade como um progresso próprio, não como um progresso social. Aconselhamos a generosidade como processo terapêutico para sermos felizes, usamos a troca de valores como um mero meio para atingir um fim, aproveitamos as fraquezas alheia para atenuarmos as nossas e assim elevarmos o próprio Eu a um patamar muito mais satisfatório, não há forma mais prática de melhorar a auto-estima. No seguimento desinvestimos na nossa real evolução para centrarmos a acção na mácula externa. Não há baixeza maior e, como tal, não podemos espantar-nos com os resultados. A indignação é um direito real quando há deveres envolvidos e empenhados. Caso contrário, é uma das mais puras manifestações da ignorância humana.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

50

Do outro lado da linha afirma-me com uma calma serena que a conseguiu alcançar. À calma, um lugar que se consegue aos cinquenta, oiço dizer, e que fica num local que eu desconheço, mas do qual já ouvi falar. Invejo-a tanto no bom sentido... Ainda não tenho a idade mestra, e às vezes penso nos patamares da existência e dos desfasamentos do corpo em relação a eles. Ou nas vontade que podemos não concretizar, porque os anos não deixam. Ante determinados sonhos de crescimento somos novos, mas começamos a envelhecer mal atingimos a idade em que poderemos lutar por eles. Quando em crianças temos todo o tempo do mundo, por exemplo, a nossa mente não nos permite autonomia para viajar sozinhos, nem o dinheiro nos cai no colo para que possamos pagar devaneios. Quando a mente e a vida nos permitem, não há tempo, há umas férias rigorosas coladas num calendário de papel, que nos disponibiliza vinte e dois dias úteis num ano só para fazermos o que entendermos. Que bem vistas as coisas distribuímos por necessidades supremas que são sempre mais urgentes do que nós próprios e os nossos quereres, que diz-se, também se redimensionam com a idade. Ou seja, quando temos autonomia física e financeira, temos outras prioridades. Eu preciso delas, de resto, para manter alguma independência, porque a questão é toda ela cíclica e fracturante. Curiosamente tudo isto acontece ainda faseado, indexado a diversas fases dentro de um ano, aquele conjunto de números sobre os quais nos deveremos reger, ainda para além dos ditames das estações: eu por exemplo prefiro o Inverno, mas tenho muito mais tempo livre no Verão. 

Depois lá mais para a frente, tudo se relativiza, parece. Ganha-se a bendita tranquilidade, não se corre porque já não é preciso e as dependências são menores. Trabalha-se menos, respira-se mais, no fundo vive-se melhor, até porque o cansaço obriga a dispensar o que é dispensável e permite atrasos, quando não se consegue chegar mais cedo. O que me apraz de momento, a mim, no auge da capacidade de esforço e de produtividade, ainda verdadeiramente capacitada para aumentar os índices de produtividade deste humilde País, e de suportar as maquiavélicas obrigações (reais ou impostas por mim) às quais me sujeito todos os dias, é pedir aos santos e aos deuses que me permitam uma festança do género daqui a um tempo: uns anos abastados de vagar e de calma, com sapiência suficiente para não lutar contra o que não merece a minha preocupação, quando eu puder viver só porque sim. Viver só porque sim não é viver desprovido de sentido, nada disso. Viver só porque sim é viver de amor à vida, com tudo o que ela tem e que realmente nos importa. Que pode ser um filho, pode ser um amor, pode ser uma viagem, pode ser um livro, pode ser uma noite de sono ininterrupta, pode ser uma mesa farta, pode ser um cão, ou pode ainda ser uma folha seca que num dado momento encontramos no chão. Sim, no chão, aquele sítio que certamente só conseguiremos ver bem mais tarde, quando olharmos de perto os passos dos pés e tivermos tempo, se quisermos, para viver todas estas coisas em simultâneo, sem precisar de opção.