Vi-te no comboio é um novo local de amor. O amor acontece em vários lugares do mundo, e o comboio citadino que liga Lisboa a Setúbal pode bem ser um deles. O amor pode ter várias leituras e eu gosto de lê-lo, de perto, de longe, depende da situação. Depende se é meu ou se pertence a alguém que me rodeia, dado ser de posse determinada, com registo de propriedade (muito embora às vezes seja ambicionado por proprietários que anseiam por direitos perdidos ou nuca tidos). Não há folha notarial a não ser em caso de casamento, mas a verdade é que a pertença é mais do que regulamentada pela sociedade. Os corações reclamam o amor perto, ao alcance das duas mãos, várias vezes por dia, mas por vezes o amor fica longe. O amor que fica longe não é por isso menos amor, é apenas um amor que precisa de uma dose especial de atenção, de mais cuidado em palavras de letra ou de voz, e de mais ternura quando se está perto. A esse acresce a saudade, uma das mais belas palavras portuguesas.
Há os amores adolescentes, que nascem de fora para dentro, como muitos outros amores: apaixonam-se os olhos pelos olhos e o resto do corpo acompanha. Podem não ser ao vivo e a cores, basta por exemplo que se cante ao coração. No meu tempo esses amores viviam num poster gigante na parede do quarto, para o qual se olhava horas a fio, e que, lá está, estava sempre ao alcance de uma mão imaginada (a imaginação é a melhor amiga da adolescência). Os amores de dentro para fora são talvez mais complicados e demorados. Demora muito mais tempo criar amor por uma generosidade do que por um olhar intenso. Este amor é invisível, mas a verdade é que quando nasce pode vencer muitas das coisas que se podem apenas olhar. O amor mesmo, o verdadeiro, não vive só dos olhos. O que vive só dos olhos é o amor poético, como o que se lê nas linhas de Pablo Neruda ou se escuta numa música pintada ao luar. Mas gostamos, gostamos muito de imaginar esse amor. Gostamos de imaginar esse amor porque é perfeito e belo e rima com o nosso interior mais recôndito, aquele que é capaz de matar o mundo em nome da pessoa amada. Ou de morrer por ela, o que constitui uma visão ainda mais limite, ainda mais romântica, ainda mais sublime.
O amor à primeira vista, e regressando ao comboio, é quase um tipo de amor. Pode aparecer muitas vezes ou uma única vez, mas é legítimo como qualquer um outro, e talvez por isso eu não tenha nada contra ele. Se dele advier uma história, não me cabe a mim decifrá-la, nem em juízo, nem em conteúdo. A mim o que me cabe é gostar da crença e do romantismo bastante para que duas pessoas se aproximem de alguém ao lado, que na próxima estação pode sair para nunca mais entrar. Se a fragilidade invade o gesto, pois que o faça, a vida é feita de momentos que construímos em tempos únicos e inesperados, logo, frágeis. Se por qualquer obra do destino dali nascer um amor mais a sério, é sinal de que o mundo pode também ser feito de instantes. Ou no mínimo, começar num segundo.
Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável.
Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável.






