quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Lua de Fevereiro (e outras cenas)
Como muitos infantis de oito-dez anos, ficava no alpendre da casa da minha avó até elevadas horas da noite (nove e meia) de queixo estendido ao alto e olhos esbugalhados quase vidrados a olhar o céu. Concentrado e dramático pensava um dia revelar ao mundo todos os seus mistérios. Em noites de Lua nova, com o estridular dos grilos e o fogo de artifício cerce dos vaga-lumes, perdia-me nas estrelas que pareciam multiplicar-se mais e mais até já não existir um único ponto negro celeste. Aí, comovia-me e tentava não pestanejar. Guardar toda a luz de um céu estrelado no brilho de uma lágrima não é fácil - ó tarefa inglória, como eu não a queria deixar escapar! -, sobretudo quando o Tejo ladrava às danças malucas dos coleópteros. Na maior parte das outras noites de Verão lá surgia a Lua e eu não apreciava nada, era como uma lanterna apontada à cara que me impedia ver todos os pontinhos muito mais cobiçados, como um Sol nocturno sem serventia que espantava a caça.
A Lua é um amor recente, tem dois anos, mais coisa menos mês. Conheço-lhe as voltas, as formas bojudas e pontiagudas, as manhas e as manias. A Lua é presente e não sei se lhe antevejo futuro. Estável e duradoiro, com final feliz.
Esta, de Fevereiro, revela um fenómeno. Não obstante a fotografia ter sido tirada ao lado de um cemitério, por acaso alguém sabe o que aconteceu...?
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lua
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
sempre mais qualquer coisa
Gosto de incrementar a proximidade com a escola e com os professores. Sou mãe interveniente na comunidade educativa, dentro do que me parece prudente e sem exagerar. Conheço os professores de nome, figura e método de acção, e mesmo quando divirjo com este último, faço questão de tentar perceber e jamais opinar contra, sei bem o que isso significa em consequência no processo educativo. Mas às vezes deparo-me com imprudências e discursos a rasar o insensato, ditos aos alunos e devidamente comprovados, como pormenores extremamente pessoais da vida privada do professor. Pormenores esses que os mesmos não tinham nem como nem porque saber, mas sabem. Isto entre outras manifestações de inabilidade que não vou por ora dissecar. O que me pasma é o conjunto de alterações e avaliações feitas nos últimos anos. O que me pasma ainda mais são os exageros que certificam a competência técnica de quem ensina crianças (que deverá e muito bem tê-la), quando comparada com o desnorteio com que se deixa ao Deus dará as competências sociais e educacionais dos professores. É claro que as vozes se levantarão a dizer que educar é em casa e a escola serve mesmo é para ensinar. Serve, claro que serve fundamentalmente para isso, mas a verdade é que há realidades que não emparelham nem à lei da força e uma delas é o ensino e a insensatez, porque implica uma exigência de rigor imposta por alguém que não sabe a noção do limite. Eu sei que não é produtivo, mas ensinar limites deveria fazer parte do programa escolar. Poderia ser que no mínimo se cuidasse mais o assunto e o carácter de normalidade deixasse de entrar ligeiro e subtil no meio de atrocidades significativas e de diversas ordens, que invadem certos deveres. Não, nem tudo é normal, e a situação seguinte que se colocaria em relação ao posto de trabalho do professor é um facto que nada tem a ver com escola nem com os alunos, mas que deveria ter apenas a ver com o sistema e a pessoa em questão. Assim, de olhos bem fechados, o problema não é do professor que mantém o seu posto de trabalho, mas sim dos alunos que ele deveria ensinar e da escola onde ele lecciona de forma desadequada. Avaliar competências é muito mais do que calcular conhecimento técnico. Um professor, e por muito que deva ensinar, tem de ser muito mais do que matemática. Tal como um médico tem de ser muito mais do que uma ciência, um advogado tem de ser muito mais do que uma lei, um filósofo tem de ser muito mais do que um pensamento e um padre tem de ser muito mais do que uma religião.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Luzia
Lembro-me melhor de sorrisos do que dos choros, contrariando as estatísticas. É dos livros que as experiências más marcam a vida, mas eu é que sei (os livros ensinam-me muito, mas não deixo que me desmintam só porque sim). Havia um beijo e uma flor e eu nunca percebi muito bem porquê. Era o hábito, dizia, o ritual. E o Homem é animal de hábitos, claro. De manhã abria a janela, de noite fechava, sempre antes de dormir. Ao Domingo ia à missa, a seguir almoçava carne com bom vinho tinto, não se comia mais naquele dia. Os cães tratavam-se pela fresca e a rega fazia-se já tarde. Matavam-se coelhos uma vez por mês, os frangos era lá com ela. Saía-se sempre à segunda, levava-se a boina, vestia-se um casaco melhor. A professorinha Lurdes gostava muito de homens de bom porte, a outra, a enfermeira que alugava o quarto lá de casa, era atiradiça e não se incomodava com a camisa desfraldada nem com a lassidão do nó da gravata. Luzia espreitava pela fechadura, também estava habituada. Ia acenando com a cabeça para cima e para baixo, e raramente lhe escorriam lágrimas. Era do hábito. Quando escorriam, não sei o que se passava lá dentro, só sei que nessas alturas ela fugia. Mas voltava e depois tudo passava. Os dias corriam iguais, ao Domingo a missa, à noite a rega, uma vez por mês os coelhos, saídas à segunda, buracos de fechadura quando tinha de ser. Um certo dia estávamos sentadas debaixo da árvore onde o cão ladrava, como sempre. Chamava-se Camões, era cego de um olho. As ameixas eram doces e juntas inundávamos o colo de pingos que escorriam pelas mãos afora, em direcção à cambraia colorida do meu vestido primaveril. Não havia dia sem fruta, também. Ele chegou altivo e estendeu-lhe uma flor, o pinga amor, só falta o retrato para o posteridade, dizia. Luzia sorria enternecida e completamente pingada (era das ameixas). Deixa-te disso querido, eu faço anos todos os anos, e sorria mais ainda. Era Maio, houve de facto muitos, na primavera. Às vezes ia-se à praia comemorar, levava-se a cesta, comia-se no pinhal com manta e outras pessoas de bom porte e de bom nome. Sempre pessoas de bom porte e de bom nome.
Agora sim, morreram os hábitos todos. E estarão felizes para sempre? No dia de hoje juraria que já não há flores, tal como não haverá em Maio, já na próxima Primavera. Amor mais firme sempre houve e sempre haverá, mas só de um dos lados. Nunca apreciei este tipo de dedicação, guardo antes as boas memórias, e por conseguinte já quase esqueci as lágrimas de Luzia. Só nunca cheguei a saber se algum dia as flores lhe deram felicidade.
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
ilusão
A honestidade não nos dá o direito a dizer toda a verdade. A honestidade e a franqueza são uma obrigação à qual nos sujeitamos enquanto seres morais, mas não é por sermos francos que deveremos dizer tudo o que nos aprouver. Ao sermos francos deveremos ser verdadeiros, não invasivos. Há uma linha ténue a partir da qual a frontalidade pode ser um excesso. Oiço com frequência que devo aguentar a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade. Mas e então pergunto eu, será que não tenho o direito a recusar-me a ela? Mais, qual é a quantidade de verdade incómoda que eu sou obrigada a ouvir da boca de outra pessoa, sem me queixar? Partindo do pressuposto, claro, que aquela verdade não contribui em influência exequível para nenhuma situação da minha vida pessoal ou social, caso contrário serão outras questões. Não sou apologista da ignorância como forma de protecção, nada disso, sou somente crente na teoria do limite com a mesmíssima função, tenho direito a ela. Há muito que defendo as técnicas de defesa mental, e como tal em nada me incomodam negações, racionalizações ou outras estratégias de adaptação, desde que vividas de forma minimamente saudável e em consciência. Esta forma particular de egoísmo vale-me tanto como qualquer uma das outras. No dia em que eu deixar de lado as resistências, é sinal que perdi a minha construção interna e entrei na vacuidade da existência, e sinceramente não me apraz tal sossego, sem pertença, sem incómodo, sem emoção.
(É claro que ressalvo as perguntas, se as fazemos deveremos estar preparados para ouvir as respostas às mesmas. Como tal há questões que eu não coloco, ponto. Se sou mais ignorante por isso, não sei, sei só que o estado plenamente consciente da estrutura mental nem sempre é o mais feliz de todos. Mais, vem muitas vezes acompanhado de desalento e desesperança. Nem sempre a linearidade é a solução, convenhamos: todos sabemos que não é possível viver sem compartimentos de ilusão.)
sábado, 8 de fevereiro de 2014
num segundo
Vi-te no comboio é um novo local de amor. O amor acontece em vários lugares do mundo, e o comboio citadino que liga Lisboa a Setúbal pode bem ser um deles. O amor pode ter várias leituras e eu gosto de lê-lo, de perto, de longe, depende da situação. Depende se é meu ou se pertence a alguém que me rodeia, dado ser de posse determinada, com registo de propriedade (muito embora às vezes seja ambicionado por proprietários que anseiam por direitos perdidos ou nuca tidos). Não há folha notarial a não ser em caso de casamento, mas a verdade é que a pertença é mais do que regulamentada pela sociedade. Os corações reclamam o amor perto, ao alcance das duas mãos, várias vezes por dia, mas por vezes o amor fica longe. O amor que fica longe não é por isso menos amor, é apenas um amor que precisa de uma dose especial de atenção, de mais cuidado em palavras de letra ou de voz, e de mais ternura quando se está perto. A esse acresce a saudade, uma das mais belas palavras portuguesas.
Há os amores adolescentes, que nascem de fora para dentro, como muitos outros amores: apaixonam-se os olhos pelos olhos e o resto do corpo acompanha. Podem não ser ao vivo e a cores, basta por exemplo que se cante ao coração. No meu tempo esses amores viviam num poster gigante na parede do quarto, para o qual se olhava horas a fio, e que, lá está, estava sempre ao alcance de uma mão imaginada (a imaginação é a melhor amiga da adolescência). Os amores de dentro para fora são talvez mais complicados e demorados. Demora muito mais tempo criar amor por uma generosidade do que por um olhar intenso. Este amor é invisível, mas a verdade é que quando nasce pode vencer muitas das coisas que se podem apenas olhar. O amor mesmo, o verdadeiro, não vive só dos olhos. O que vive só dos olhos é o amor poético, como o que se lê nas linhas de Pablo Neruda ou se escuta numa música pintada ao luar. Mas gostamos, gostamos muito de imaginar esse amor. Gostamos de imaginar esse amor porque é perfeito e belo e rima com o nosso interior mais recôndito, aquele que é capaz de matar o mundo em nome da pessoa amada. Ou de morrer por ela, o que constitui uma visão ainda mais limite, ainda mais romântica, ainda mais sublime.
O amor à primeira vista, e regressando ao comboio, é quase um tipo de amor. Pode aparecer muitas vezes ou uma única vez, mas é legítimo como qualquer um outro, e talvez por isso eu não tenha nada contra ele. Se dele advier uma história, não me cabe a mim decifrá-la, nem em juízo, nem em conteúdo. A mim o que me cabe é gostar da crença e do romantismo bastante para que duas pessoas se aproximem de alguém ao lado, que na próxima estação pode sair para nunca mais entrar. Se a fragilidade invade o gesto, pois que o faça, a vida é feita de momentos que construímos em tempos únicos e inesperados, logo, frágeis. Se por qualquer obra do destino dali nascer um amor mais a sério, é sinal de que o mundo pode também ser feito de instantes. Ou no mínimo, começar num segundo.
Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável.
Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
parece brasileira você...
Manuela tinha uns caracóis loiros e umas pernas altas. Vestia umas saias curtas e rodadas que deixavam a santa terrinha alvoraçada, ou não fora a moça jeitosa de corpo, de cara, de vestes e de calçado alto, o maior aliado de uma mulher. Nunca faltava à verdade, a sensata, nunca se imiscuía no engenho do engano, nunca se chafurdava no pecado da mentira, nem na pose, nem nas falas, nem nos gestos, nem nos amores. Amava de perdição um Zé de nome mas ninguém de condição, que a usava como um troféu conquistado numa luta de galos bem vencida, ganhas tu ou ganho eu. Ganhou ele, com uns olhos verdes de meter inveja, uma lábia triunfal, uma figura espadaúda e encorpada, apenas sustentada pelos encantos da sedução. Uma verdadeira mentira. Um dia passeávamos ambas pela estrada da aldeia, Verão quente, fim da tarde, a espampanante saia vermelha a contrastar com um meu humilde calção, o meu cabelito preso em rabichas, as minhas pernas engolidas pelo mulherão, eu uns cinco anos franganitos, ela uns vinte bem bonitos. Abeira-se uma viatura ligeira, uma cabeça de homem espreita, e o sorriso nasce de uma boca que lhe solta um atrevido - parece brasileira você. Sorrimos e prosseguimos, a saia esvoaçante, os caracóis desgrenhados, os passos envergonhados, eu, saltitante, repetindo o dito ao infinito, som que se alojou no meu corpo até nunca mais ter fim.
Há pouco soube dela, encontrei-a numa celebração obrigatória, daquelas que reúnem numa igreja várias pessoas dos arredores. Os caracóis já morreram, as pernas ganharam tamanho, as saias desceram abaixo do joelho, os saltos mingaram até ao centímetro só, os olhos estão tristes porque o Zé Ninguém desapareceu com uma moça esbelta, o eterno sedutor. Perguntou-me por aquela tarde, inquiriu-me sobre o trajecto, sobre as vestes, sobre a expressão que se alojou no meu corpo e sobre o ar jovial dela, comido pela ilusão (a malvada esfomeada). É claro que me lembro, lembrar-me-ei sempre. A juventude da vida, nunca envelhece na nossa memória.
(Recordamos ainda, como não fazê-lo, o dia em que a verdade se alojou ainda mais no seu corpo. A condução fazia-se sem carta, tinham havido apenas lições. A guarda manda parar, e perante o riso dela e a minha pobre aflição, pergunta o que raio se passa ali. - Passa-se muito senhor guarda, sou eu que não tenho a carta, responde em gargalhada... - Ora minha menina, siga, siga... Deixe-se de brincadeiras, e vá-se mas é embora... Prosseguimos claro, e a mim persegue-me ainda uma eterna e pertinente questão: terão sido os caracóis, as pernas, o riso ou a verdade? Por via das dúvidas e para quem possa, é usar em conjunção. Pelo sim, pelo não...)
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
o humor pode não ser culto, mas convém, no mínimo, ser informado...
... caso contrário, não só não tem graça como cai em desgraça.
Sou contra o Acordo Ortográfico (AO), mas só depois de ter lido o documento que lhe dá corpo. Já muita gente é sumariamente contra algo que desconhece ou que "ouviu falar". Depois dá nisto:
Com o novo AO, "cágado", sendo uma palavra esdrúxula, mantém o acento gráfico na sílaba tónica, no primeiro "a", e "facto" passa a ter dupla grafia conforme o falante (uma barafunda, portanto), ou seja, com ou sem "c".
Não sendo propriamente um desconfiado, procuro ser avisado e, muitas vezes, desconfio qual das partes (a favor ou contra o AO) se dá ao trabalho de difundir estas baboseiras.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Nazaré, 2 de Fevereiro de 2014: as ondas que McNamara não cavalgou
«No extremo do Promontório do Sítio, que cai a pique sobre o mar, mandou D. Sebastião construir, em 1577, a Fortaleza de S. Miguel, destinada a defender a enseada dos ataques dos piratas argelinos, marroquinos e normandos. Filipe II, cerca de 1600, mandou reconstruir a primeira fortaleza de acordo com a planta do arquitecto florentino João Vicente Casale. Após a restauração da monarquia, D. João IV ordenou a sua remodelação e ampliação, dando-lhe o traçado que ainda hoje conserva. É um notável monumento militar maneirista, característico da defesa da costa, com planta longitudinal irregular adaptada ao promontório sobre o qual assenta. Possui um baluarte em cada ângulo, grossas muralhas diversas vezes restauradas, com contrafortes, ameias e frestas, dispondo de uma original Praça de Armas no 2º piso. Por cima da porta de entrada, sob um lintel, uma imagem em baixo-relevo de S. Miguel Arcanjo e a legenda “El-Rey Dom Joam o Quarto – 1644. Durante a 1ª Invasão Francesa (Junot – 1807/1808), esteve ocupado por soldados de Napoleão I, que a população do Sítio e da Pederneira ajudou a expulsar, tornando-se assim num símbolo da resistência popular. Desde 1903 está aqui instalado um Farol de auxílio à navegação que, actualmente, tem um alcance luminoso de 15 milhas, sendo completado por um sinal sonoro de aviso em dias de nevoeiro intenso.»
* Pesquisa, compilação e adaptação de TEIXEIRA DA SILVA, AJ.
O farol da Nazaré situa-se 50 metros acima do nível do mar e as fotografias foram tiradas "a pique", isto é, de cima para baixo, fazendo parecer as ondas menores.
Sobre o famoso "Canhão da Nazaré": «Em poucas palavras, os canhões submarinos como o Canhão da Nazaré, modificam o modo como a ondulação se propaga, permitindo a existência de zonas na proximidade do canhão onde a onda converge e se amplifica. Ao largo da Praia do Norte, este processo parece ser reforçado por correntes costeiras que se opõem às ondas e pela diminuição rápida do fundo que a onda sente ao passar do canhão para a plataforma próximo.» [Daqui]
Ou seja, as maiores ondas não são "surfáveis", propagando-se muitas vezes perpendiculares à costa com cristas e cavas anómalas. Mas sempre espectaculares.
| Reparem naquele "portão de Neptuno" entre a espuma |
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| Garrett McNamara, muito simpático, depois de eu lhe dizer que era seguramente o havaiano mais popular em Portugal, a significativa distância de Obama. |
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| Ei-lo em acção. Uma ondinha de 15 metros para experimentar a prancha nova... |
Nota final: peço desculpa pela assinatura das fotos posicionar-se quase a meio destas, mas, como calculam, são facilmente transaccionáveis, digamos assim.
azul
( Imagem retirada do google)
Às vezes não sei de que cor é o mundo. Não sei de que tons se pintam as lágrimas, de que pinceladas se tinge o amor, de que salpicos se contornam os dias, de que tinta se cobre a vida. Quando tal acontece o norte não prescinde de si e regula-me os caminhos que subitamente se molham de azul, uma cor que muito mais do que o verde me traz a esperança (pormenores...). Dizem amiúde que é a última a morrer e eu acho que a razão tem um propósito divino. É vã de conteúdo mas plena de intenção, e a verdade verdadinha é que nos movimenta em torno do séquito estonteado, mesmo que o desnorteio venha nascido de uma força maior. É válido na saúde e na doença, na sanidade e na loucura, no medo e na certeza, na vitória e na derrota. Não é exactamente por isso que eu gosto do mar, mas é exactamente por isso que eu amo o céu e a incerteza do que se encontra para o lado de lá. A razão chega-me com planetas e vias lácteas, enfarta-me com a plenitude do Sol e a beleza da Lua, tenta sossegar-me com o rigor da gravidade que dimensiona o mundo num local impossível de explicar, mas possível de existir. Mas não sei, fico com dúvidas. Preciso delas, até, porque me socorro da ausência de respostas para me enquadrar o indizível da vida, me sossegar dos terrores da noite, me situar as vontades inexplicáveis e impossíveis, me nortear o inconsciente da existência.
Mas apesar desta entrega obscura busco sempre a explicação numa incessante viagem sem fim e sem rumo, vire-me para a direita ou para a esquerda, para a frente ou para a retaguarda, para o chão ou para o céu. Sempre ciente de que no dia em que o sentido me invadir o corpo chegarei à lógica pura, à razão absoluta, ao local sagrado (certamente, ao fim do caminho). Lá, não deve haver forma de prosseguir.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
o direito ao egoísmo
Dentro de um limite razoável, temos o direito ao egoísmo. A palavra pode parecer soberba, detentora de culpa, é de resto um termo conotado com uma negativa conduta individual, suprema a qualquer outra realidade. É originalmente contrária à convivência social proactiva, indicando uma vontade e uma razão muito própria ao indivíduo, pouco válido por si só. Eu própria a condeno, em caso de exagero declarado, mas não posso deixar de lhe prestar um merecido louvor em tempo certo. Há uma estreita ligação entre a mesma e uma adequada auto-estima, há uma precisão dos seus serviços para a edificação concreta e completa de uma estrutura mental alinhada, demasiadamente frágil se der tudo de si, há um caminho paralelo entre uma evolução social e uma evolução individual, em que o foco no próprio constitui uma condição sin ne qua non, para que depois do amor próprio nasça o amor social. Parente pobre dos vocábulos apreciados pelo Homem, ocupa um local religiosamente censurado e sobejamente criticado.
E agora pergunto: e os nossos tempos e as nossas vontades? Mais: onde moraremos, se no percurso do bem comum relegarmos demais o individual, em prol do social? Se o risco do exagerado interesse próprio pode ser elevado em questões internas e de convivência, o inverso também pode ser dramático em dimensões individuais, e por conseguinte sociais. O peso da questão insiste e subsiste pela carga da palavra, nada nobre em condição.
(Em caso de dúvida persistente é aproveitar o embalo e referendar a questão.)
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
sexto sentido
Não conheço a vida das mulheres de sempre. Sei a minha de cor, desde os vagares da alma às pressas do corpo que se esgueira trilho afora, numa amálgama de afazeres seguidinhos e ritmados. Pudesse e dedicava-me só a elas, sem desprimor do inverso, claro, nada tenho contra tão nobre condição. Mas é que cada vez mais me interessam as farçadas obscuras dos corpos femininos, as fragilidades maquilhadas na cor que disfarça as crises, as ânsias circunspectas de compreender o impossível e de encontrar nos sentidos a justificação para a lógica, parece-me tão mas tão bem, afinal temos mais um. O meu não é muito nem é pouco, acompanha-me do lado de fora da vida, cheiro-o nos olhos do mundo, apreendo-o nas palmas das mãos e permito que se aloje como uma pequena sabedoria sensata que faz mais por mim do que muitas grandiosidades. Todas o temos e nunca morre, guia-nos sem falhas por caminhos certos ou errados, que sabemos mas teimamos, por escadinhas negras que nos levam ao cume dos montes, por momentos que guardamos num local acessível, ao lado dos olhos, por onde espreitamos a nossa vocação. Esta capacidade faz com que nos emane do corpo uma névoa harmoniosa, uma áurea prudente e amena que sossega os desaire do mundos, uma mística envolvente e pertinente que acalenta ou desassossega a dureza do sexo oposto. Porém, não é essa a nossa função. Não trata aqui qualquer presunção sedativa, qualquer verdade caprichosa, qualquer valor terminante. Trata apenas e só a nossa humilde crença na força interna, como um caminho a escolher.
(A mulher que me ensinou isto morreu há muito, e hoje é o dia da saudade. Não lhe herdei a abrangência da força, seria impossível, guardei-lhe somente a admiração por ela. Um dia ainda me dedico mesmo a sério ao assunto. Imiscuo-me no universo das matriarcas e disseco-lhe os poderes do corpo, o vigor das palavras e o sossego dos colos. Analiso ao pormenor o tamanho do amor, percebo por onde lhes escorre a ordem, concluo de que maneira fabricam a paz, interiorizo por que meandros acalmam os sofrimentos. Tudo isto apenas para poder explicar ao mundo o segredo da fragilidade interna do processo. Pela consistência do resto, aposto que ninguém acredita.)
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
prémios
O que mais me assusta nos olhos de alguns jovens é a falta de objectivos. Isto porque ninguém caminha sem o rumo de uma estrela guia, na direcção do que se pretende alcançar. Importuna-me especialmente sentir que do lado de fora não encontram o rigor que procuram internamente, demasiado insustentado para que tudo faça sentido (a dicotomia interno-externo é uma realidade irrefutável). Deixar os jovens na mercê do percurso desorientado pode ser uma entrega cruel. Pode sujeitar quem avança a uma incongruência capaz de desconfortar o interior, que para segurança se socorre do tédio (um sossego), como forma de ocupação (chamam-lhe provavelmente preguiça). Usualmente é nesta fase que o redor percebe a inércia e se desassossega. Une-se em debandada e é vê-lo vaguear, ciente de que a solução miraculosa irá emergir algures de um local inerte e vazio, incumbido de momentaneamente nortear novos e velhos no percurso a seguir (pelo destino, sempre pelo destino). No discurso percebem-se pequenas fragilidades maquilhadas de palavras correctas, erros camuflados de circunstância impossível, limites balizados nas máximas correctas do bom senso que afinal se conhece (ninguém diria), apesar do desmazelo. O desmazelo pode ser um estado de espírito quase permanente. Uma negligência exercida sem intento próprio, como se a tarefa de encontrar caminhos na infinitude do mundo fosse um jogo de sorte, sem azar. Depois, mais para o final da catarse, surge o ex libris apoteótico: o destino final é sobejamente conhecido e escolhido de todos, só não interessa como lá chegar. Nestas alturas, quando a emoção galga pais acima e deixa a nu toda a vaidade extrema e ditadora, apetece-me perguntar se pretendem que os filhos só corram a maratona da vida e mais nada. Vistam o fato uniforme no inicio da distância, bebam água só quando for preciso, sigam o trilho e concentrem as energias na meta, sem olhar a percursos, dificuldades, limitações ou necessidades. No final de tudo, e após chegarem cegos à linha que os levou ao ouro, já podem desfalecer: o filho é deles, mas a medalha também.
Como as tuas
Nem sempre há palavras que nos mostrem luz,
Escassas almas cristalinas, no cimo enterradas,
Invisíveis de dia e de noite que se aninham em bruma.
Nem sempre há palavras onde todos os males abismem
Pelos sete palmos de terra, tácteis do centro ao céu;
Que se alimentem de nuvens, restolho, sopro e trovão.
Palavras precisas, urgentes, antónimas e dissidentes.
Como as tuas.
domingo, 26 de janeiro de 2014
a diferença
No fundo, não amamos todos igual. Não precisamos todos da mesma realidade, é um facto, mas a verdade é que nem sempre se aceitam as diversidades de ânimo suficientemente leve. Ao contrário do que se pode crer, não há necessidade de extrema semelhança para permitir complementaridade. Deixo um simples exemplo. Um ansioso pauta a sua acção subjugado ao controlo da atenção. Insurge-se o medo da perca, claro, comum às neuroses, já há uma perfeita noção e consciência de que o outro pode desaparecer por autodeterminação. O obsessivo, num outro passo neurótico da afectologia genética, mantém o medo: precisa do outro, mas socorre-se da lógica para mantê-lo por perto. Se por um lado o ansioso necessita do controlo, o obsessivo reclama o rigor. O ansioso tenta a todo o custo controlar a proximidade ao nível da atenção, dedica-se, precisa de dedicação. O obsessivo exige que tudo lhe faça sentido, carece de perceber e explicar-se ao infinito por forma a envolver a realidade num casulo controlável, pouco aberto a deambulações. A um falta lógica, ao outro emoção.
Uma ideia plausível de terminar os desconfortos seria a troca de papéis. Parecia-me extremamente conveniente a possibilidade de inversão, o ansioso perceberia a necessidade do obsessivo, que por sua vez compreenderia a urgência controladora do primeiro. Assim, hipóteses descartadas por comedimentos existenciais, resta-nos imaginar e perceber as alheias precisões. O busílis pode dar-se se em ambos existir desconhecimento verdadeiro do âmago essencial do outro membro do casal. Vencidas essas ignorâncias, resta a fusão: o ansioso dá-se, e recebe o rigoroso sossego do obsessivo. O obsessivo tranquiliza com a rigidez da atenção.
É coisa para a vida, posso afiançar.
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