© Paulo Abreu e Lima

domingo, 2 de março de 2014

laranjas

O senhor Ernesto polia os dentes enquanto Guilhermina bordava paninhos da loiça. Havia uma telefonia a tocar na Rádio Renascença, e na mesa umas laranjas mandavam um cheiro forte. No portal da vizinha havia uma rampa construída não sei porquê, no tempo em que as acessibilidades não existiam no papel, mas eram precisas e importantes para quem se lembrava delas. Em frente um portão de rede encarnado guardava dos olhos do mundo uma casa pequenina, onde Violeta criava gatos. Eu gostava de espreitar Violeta. Era quase cega e vestia-se de preto, descascava maçãs com a mestria de quem tem olhos e comia-as com a habilidade de quem tem dentes, enquanto os gatos passeavam de rabo eriçado por entre as cascas e o colo dela, excessivamente reduzido para tanta bicharada. Ninguém me deixava bater na porta, ela era uma bruxa má. Por causa disso eu imaginava-a a reunir os gatos pretos e a lançar feitiços cabeludos que um dia me acertariam, estivesse eu na janela, estivesse ela na mesa, houvesse um gato preto por perto, e ela desse conta de mim. Mas mesmo assim eu não arredava. Era assustadora, a velha, e feia de meter dó. O filho tinha morrido há muito e deixara-a entregue ao mundo e à doença, na época em que retaguarda social era a misericórdia alheia que não fosse batida pelo medo. Por tudo isto apenas Dona Lurdes lhe dava algum zelo, a mesma que guardava a igreja, o salão de festas, as campas floridas e os mortos do cemitério. Uma mulher daquelas, que tinha as chaves da morte, jamais poderia ter medo. Eu tinha muito, mas um dia segui-a e entrei lá dentro, à revelia do povo. A casa cheirava a vestes bafientas e a gatos, e a velha mal falava. Lurdes esclareceu-me que a pobre senhora só necessitava de cuidados. Que o mundo a banira por fealdade, por tristeza, por viuvez e mau palavreado, complexo suficiente para exilar por desconsideração e desmérito, criaturas sem préstimo real. - Pouco mais precisa, dizia-me,  do que umas palavras que amenizem o que o corpo não consegue ter.

Lurdes nunca dizia à minha avó que eu entrava, mas disse-lhe muitas vezes que ela tinha uma neta afoita. Afoita era para mim nome de um homem que tinha andado na guerra, no masculino. Nome de nascimento, de baptizado, de bilhete de identidade, de sociedade, o nome de sempre ali na aldeia. Na altura não percebia o porquê de Lurdes me chamar daquela forma, mas gostava muito. Era realmente sinónimo de braveza e dureza, e nada era melhor do que sentir-me valente, no fundo qualquer coisa próxima do significado aplicado. Quase sempre, na saída, Ernesto oferecia-me uma laranja, nas pausas da polição. Fingia que não via de onde eu vinha, e gostava muito de mim (talvez porque soubesse exactamente de onde eu vinha). Desde essa altura, devem existir poucas coisas no mundo que me cheirem melhor do que laranjas. Não sei se pela fruta, se pelo sumo, se pelo facto de ter vencido um medo importante: nada é mais limitativo do que o medo entranhado num povo. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O reflexo do espelho é tolo

 
Há muitos anos, ainda adolescente, sucedia-me uma coisa bizarra que à altura não sabia explicar. Na casa de banho, no quarto, na sala, nas vitrines das lojas, nos elevadores públicos, enfim, onde houvesse um espelho que me reflectisse, por vezes, não identificava a minha cara. Aproximava-me e olhava os meus olhos reflectidos e não os reconhecia. Como os cães e os gatos e a maioria dos animais. O teste do espelho, baseado no orangotango de Darwin e posteriormente desenvolvido por Gordon G. Gallup como medida de autoconhecimento, era então para mim um paradoxo. O fenómeno chegava a ser aterrador – Eu sou aquele? Aquele? Quem é aquele indivíduo? Eu? – e começava a suar, chegava mesmo a sentir-me mal. Não se tratava de uma questão de vaidade, tão comum àquelas idades; não achava que fosse feio ou bonito, nada disso, o que não admitia e me assustava era conceber que aquele vulto fosse eu. Coisa de tolo, uma tolaria que passou.

Ontem, diante um espelho da casa de banho de um restaurante, olhei os meus olhos e cara reflectidos e aconteceu-me o mesmo – Quem é aquele indivíduo de quarenta e tal anos, pá? É outro cliente? Um empregado? Um orangotango…? –, acabei por secar as mãos e voltei para a minha mesa.

Quando andamos ensimesmados, muito voltados para nós, para os nossos pensamentos e problemas, não vemos nada. O foco é tão persistente em nós, julgamos ser tão importantes e únicos que nem sequer vemos os outros. E quem não vê o seu semelhante, e as semelhanças do seu semelhante às suas, jamais se reconhece em que sítio for. Quanto mais num pífio espelho. Explicado.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

os préstimos de Rosalina


Lá em cima é o local escolhido, cá em baixo a senda que inquieta os quereres que vivem sem pensar. As tentações imprevistas nascem obtusas, mais ou menos como os amores, sem olhar a hora ou a lugar, e sem rigor de apuramento. Prendem-se antes em pedaços de corpo que se envergonha exaurido nas horas matutinas, como se os minutos da noite lhe fossem os únicos dirigidos e o restante dia, de olhos abertos, pudesse apenas (pobremente) pensar. Vedado aos requintes do desejo enamorado, os dias abrigam o decoro e a decência, conservando as perdições para o pardacento da noite, nos leitos dos casais benditos e com vista ao fabrico de gente, o efectivo propósito da sua existência. Ali também havia hora do dia. Planava um cheiro a incenso forte, uma aura enfeitiçada, uns adornos de seda selvagem e um vislumbre de mulher, à espreita, na soleira da porta. Os canudos loiros enterneciam-lhe os ombros, a cintura era afinada por entre um espartilho florido, a boca era desenhada a vermelho escarlate, a cor da desonra. O chá sabia a tília com açúcar mascavado, os bolos a limão verde e a pouco doce, a mesinha encontrava-se no centro da sala e na senhorinha pérola, Rosalina bordava. Logo após as cinco saíam para a rua e sentavam-se nas mantas colocadas ao redor da figueira, sempre sob o olhar atento da guarda da dignidade. Ainda assim ele espreitava-lhe para dentro dos olhos fundos, espiava-lhe de perto as mãos delicadas, encontrava-lhe a língua a correr embaraçada, enquanto a boca sorria.

Rosalina ausentava-se sempre ao pôr-do-sol. O pôr-do-sol era a hora sombria, altura em que a luz se pousava e a luminosidade artificial se confundia com os móveis, com as janelas, com os óculos e com as rendas, todas iguais. Era hora do descanso e eles ficavam. Sempre ao Domingo, dia santo, a oração deveria ser suficiente para acautelar os corpos, a casa mantinha as portadas abertas e arejadas, os cães ladravam no quintal, a cozinha fumegava a panela da sopa, e a escada vivia sempre no mesmíssimo lugar. Os passos eram mansos pela placidez da madeira, o piso de cima abria-se em regaço, nunca havia ali ninguém. A consumação era no dia sagrado do sermão no altar, o namoro era abençoado pelo patriarca, o desaforo era em cima de uma cama quente, de Verão e de Inverno, em silêncio e sem demora. Sempre em silêncio e sem demora.

Rosalina voltava antes da noite escura. As mantas estendidas no chão, imaculadas, por baixo de dois corpos já sossegados. O vestido de flores severamente amachucado, era do assento, os canudos mais ou menos descompostos, era do vento. A boca escarlate, pequenina, tremia quase apagada. Os olhos, pretos e vivos, olhavam muito abertos para o gato. Estamos aqui, Rosalina, vou já, dizia ela na hora do recolherRosalina sorria fixada no desenho da boca. Para a semana querida, sou eu que a desenho outra vez.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

ainda o cuidado


Cuidado implica também um beijo quando ele é preciso. Exige uma festa na cara, a mais pessoal das nossas partes, ou um afago na cabeça. Respira de palavras de afecto, que vive ao lado dele (do cuidado). Envolve uma preocupação desmedida, não é dado a moderações. Embrulha-se de vontade de zelo, de sentires para dar, de olhos que podem nem ver-se, estão cá dentro, implantados na presença  de espírito. É claro que o cuidado ao perto pode ser soberano, mas não é o único cuidado. Já me senti cuidada por uma amiga a quilómetros de distância, ou por uma irmã tão longe. E já me senti descuidada pela pessoa ao lado, tempos sem fim. Cuidado é como o amor, não implica presença. Implica bem-querer.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

cuidado

Na minha secretária encontra-se uma flor morta por mim. Alguém achou por bem deixar-me um post it colado na pobre, onde se pode ler:  “ morri de tristeza, não cuidaram de mim”. Quem escreveu o dito por certo não pensou a fundo a exactidão de tão descomplicadas palavras. A frase é de construção simples, sem grandes artefactos ou pontuações, mas carregada de intenções. Toda a ciência pura está efectivamente no acto de cuidar. 

Costumava dizer em tom irónico que Silvino tinha morrido em vida, porque a vida o deixou. Morava intrometido num ramal de silvas bravias, frequentado por animalejos diversos que lhe comiam as paredes da casa, quase invisíveis. Atendia-me sempre por uma frincha da porta, não queria de forma alguma o meu cuidado (pleno de direitos). Era por lá que entrava a comida na marmita, que ficava guardada até que o corpo a engolisse, tinha de ser, não fosse mingar ao ponto da ida ao hospital ser uma inevitabilidade. Nunca tinha sido preciso… Houve porém o dia em que a doença chegou. A minha vontade era entrar e ficar ao lado, destemida dos bichos, ignorante que estava na força da vida, crente na da morte, que chegara ali. Que desconhecedora que eu estava. Teimei na abertura da porta, por trás de mim uns bombeiros amontoavam-se sem tempo para a paciência, o esgotamento do dia já era demais. Silvino abriu as portadas por minha insistência, e lá dentro tossia. Da porta para lá, inúmeros sacos enxovalhados, roupas velhas estofavam um chão de terra batida, ventos entravam pela janelinha que espiava o sol por entre o folhado. Num recanto da divisão interna, parei pasmada. Na estante da parede respiravam livros, obras primas da literatura, antologias poéticas e enciclopédias diversas, todos devidamente ordenados, limpos, luminosos. É a minha vida, dizia Silvino, não me levem daqui… 

Naquele dia consciencializei contingências. É claro que o cuidado externo é a vida, mas o nosso connosco também nos pode valer. E fazer viver.

(Infelizmente as flores são limitadas. À minha mercê ficam sempre dadas à sorte e a regas alheias que se concedam a comparecer. Nem sempre sucede, não compreendo como não prevêem a debilitação primária dos meus gestos. E assim secam em escadinha, as infelizes, sem palavras de atenção, nem escritas nem faladas. É demais, posso crer.)

Não mais chorarei assim

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Lua de Fevereiro (e outras cenas)

 

Como muitos infantis de oito-dez anos, ficava no alpendre da casa da minha avó até elevadas horas da noite (nove e meia) de queixo estendido ao alto e olhos esbugalhados quase vidrados a olhar o céu. Concentrado e dramático pensava um dia revelar ao mundo todos os seus mistérios. Em noites de Lua nova, com o estridular dos grilos e o fogo de artifício cerce dos vaga-lumes, perdia-me nas estrelas que pareciam multiplicar-se mais e mais até já não existir um único ponto negro celeste. Aí, comovia-me e tentava não pestanejar. Guardar toda a luz de um céu estrelado no brilho de uma lágrima não é fácil - ó tarefa inglória, como eu não a queria deixar escapar! -, sobretudo quando o Tejo ladrava às danças malucas dos coleópteros. Na maior parte das outras noites de Verão lá surgia a Lua e eu não apreciava nada, era como uma lanterna apontada à cara que me impedia ver todos os pontinhos muito mais cobiçados, como um Sol nocturno sem serventia que espantava a caça.


A Lua é um amor recente, tem dois anos, mais coisa menos mês. Conheço-lhe as voltas, as formas bojudas e pontiagudas, as manhas e as manias. A Lua é presente e não sei se lhe antevejo futuro. Estável e duradoiro, com final feliz. 
Esta, de Fevereiro, revela um fenómeno. Não obstante a fotografia ter sido tirada ao lado de um cemitério, por acaso alguém sabe o que aconteceu...?


 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

sempre mais qualquer coisa

Gosto de incrementar a proximidade com a escola e com os professores. Sou mãe interveniente na comunidade educativa, dentro do que me parece prudente e sem exagerar. Conheço os professores de nome, figura e método de acção, e mesmo quando divirjo com este último, faço questão de tentar perceber e jamais opinar contra, sei bem o que isso significa em consequência no processo educativo. Mas às vezes deparo-me com imprudências e discursos a rasar o insensato, ditos aos alunos e devidamente comprovados, como pormenores extremamente pessoais da vida privada do professor. Pormenores esses que os mesmos não tinham nem como nem porque saber, mas sabem. Isto entre outras manifestações de inabilidade que não vou por ora dissecar. O que me pasma é o conjunto de alterações e avaliações feitas nos últimos anos. O que me pasma ainda mais são os exageros que certificam a competência técnica de quem ensina crianças (que deverá e muito bem tê-la), quando comparada com o desnorteio com que se deixa ao Deus dará as competências sociais e educacionais dos professores. É claro que as vozes se levantarão a dizer que educar é em casa e a escola serve mesmo é para ensinar. Serve, claro que serve fundamentalmente para isso, mas a verdade é que há realidades que não emparelham nem à lei da força e uma delas é o ensino e a insensatez, porque implica uma exigência de rigor imposta por alguém que não sabe a noção do limite. Eu sei que não é produtivo, mas ensinar limites deveria fazer parte do programa escolar. Poderia ser que no mínimo se cuidasse mais o assunto e o carácter de normalidade deixasse de entrar ligeiro e subtil no meio de atrocidades significativas e de diversas ordens, que invadem certos deveres. Não, nem tudo é normal, e a situação seguinte que se colocaria em relação ao posto de trabalho do professor é um facto que nada tem a ver com escola nem com os alunos, mas que deveria ter apenas a ver com o sistema e a pessoa em questão. Assim, de olhos bem fechados, o problema não é do professor que mantém o seu posto de trabalho, mas sim dos alunos que ele deveria ensinar e da escola onde ele lecciona de forma desadequada. Avaliar competências é muito mais do que calcular conhecimento técnico. Um professor, e por muito que deva ensinar, tem de ser muito mais do que matemática. Tal como um médico tem de ser muito mais do que uma ciência, um advogado tem de ser muito mais do que uma lei, um filósofo tem de ser muito mais do que um pensamento e um padre tem de ser muito mais do que uma religião.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Luzia

Lembro-me melhor de sorrisos do que dos choros, contrariando as estatísticas. É dos livros que as experiências más marcam a vida, mas eu é que sei (os livros ensinam-me muito, mas não deixo que me desmintam só porque sim). Havia um beijo e uma flor e eu nunca percebi muito bem porquê. Era o hábito, dizia, o ritual. E o Homem é animal de hábitos, claro. De manhã abria a janela, de noite fechava, sempre antes de dormir. Ao Domingo ia à missa, a seguir almoçava carne com bom vinho tinto, não se comia mais naquele dia. Os cães tratavam-se pela fresca e a rega fazia-se já tarde. Matavam-se coelhos uma vez por mês, os frangos era lá com ela. Saía-se sempre à segunda, levava-se a boina, vestia-se um casaco melhor. A professorinha Lurdes gostava muito de homens de bom porte, a outra, a enfermeira que alugava o quarto lá de casa, era atiradiça e não se incomodava com a camisa desfraldada nem com a lassidão do nó da gravata. Luzia espreitava pela fechadura, também estava habituada. Ia acenando com a cabeça para cima e para baixo, e raramente lhe escorriam lágrimas. Era do hábito. Quando escorriam, não sei o que se passava lá dentro, só sei que nessas alturas ela fugia. Mas voltava e depois tudo passava. Os dias corriam iguais, ao Domingo a missa, à noite a rega, uma vez por mês os coelhos, saídas à segunda, buracos de fechadura quando tinha de ser. Um certo dia estávamos sentadas debaixo da árvore onde o cão ladrava, como sempre. Chamava-se Camões, era cego de um olho. As ameixas eram doces e juntas inundávamos o colo de pingos que escorriam pelas mãos afora, em direcção à cambraia colorida do meu vestido primaveril. Não havia dia sem fruta, também. Ele chegou altivo e estendeu-lhe uma flor, o pinga amor, só falta o retrato para o posteridade, dizia. Luzia sorria enternecida e completamente pingada (era das ameixas). Deixa-te disso querido, eu faço anos todos os anos, e sorria mais ainda. Era Maio, houve de facto muitos, na primavera. Às vezes ia-se à praia comemorar, levava-se a cesta, comia-se no pinhal com manta e outras pessoas de bom porte e de bom nome. Sempre pessoas de bom porte e de bom nome. 

Agora sim, morreram os hábitos todos. E estarão felizes para sempre? No dia de hoje juraria que já não há flores, tal como não haverá em Maio, já na próxima Primavera. Amor mais firme sempre houve e sempre haverá, mas só de um dos lados. Nunca apreciei este tipo de dedicação, guardo antes as boas memórias, e por conseguinte já quase esqueci as lágrimas de Luzia. Só nunca cheguei a saber se algum dia as flores lhe deram felicidade.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ilusão

A honestidade não nos dá o direito a dizer toda a verdade. A honestidade e a franqueza são uma obrigação à qual nos sujeitamos enquanto seres morais, mas não é por sermos francos que deveremos dizer tudo o que nos aprouver. Ao sermos francos deveremos ser verdadeiros, não invasivos. Há uma linha ténue a partir da qual a frontalidade pode ser um excesso. Oiço com frequência que devo aguentar a verdade, somente a verdade e nada mais do que a verdade. Mas e então pergunto eu, será que não tenho o direito a recusar-me a ela? Mais, qual é a quantidade de verdade incómoda que eu sou obrigada a ouvir da boca de outra pessoa, sem me queixar? Partindo do pressuposto, claro, que aquela verdade não contribui em influência exequível para nenhuma situação da minha vida pessoal ou social, caso contrário serão outras questões. Não sou apologista da ignorância como forma de protecção, nada disso, sou somente crente na teoria do limite com a mesmíssima função, tenho direito a ela. Há muito que defendo as técnicas de defesa mental, e como tal em nada me incomodam negações, racionalizações ou outras estratégias de adaptação, desde que vividas de forma minimamente saudável e em consciência. Esta forma particular de egoísmo vale-me tanto como qualquer uma das outras. No dia em que eu deixar de lado as resistências, é sinal que perdi a minha construção interna e entrei na vacuidade da existência, e sinceramente não me apraz tal sossego, sem pertença, sem incómodo, sem emoção. 

(É claro que ressalvo as perguntas, se as fazemos deveremos estar preparados para ouvir as respostas às mesmas. Como tal há questões que eu não coloco, ponto. Se sou mais ignorante por isso, não sei, sei só que o estado plenamente consciente da estrutura mental nem sempre é o mais feliz de todos. Mais, vem muitas vezes acompanhado de desalento e desesperança. Nem sempre a linearidade é a solução, convenhamos: todos sabemos que não é possível viver sem compartimentos de ilusão.)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

num segundo

Vi-te no comboio é um novo local de amor. O amor acontece em vários lugares do mundo, e o comboio citadino que liga Lisboa a Setúbal pode bem ser um deles. O amor pode ter várias leituras e eu gosto de lê-lo, de perto, de longe, depende da situação. Depende se é meu ou se pertence a alguém que me rodeia, dado ser de posse determinada, com registo de propriedade (muito embora às vezes seja ambicionado por proprietários que anseiam por direitos perdidos ou nuca tidos). Não há folha notarial a não ser em caso de casamento, mas a verdade é que a pertença é mais do que regulamentada pela sociedade. Os corações reclamam o amor perto, ao alcance das duas mãos, várias vezes por dia, mas por vezes o amor fica longe. O amor que fica longe não é por isso menos amor, é apenas um amor que precisa de uma dose especial de atenção, de mais cuidado em palavras de letra ou de voz, e de mais ternura quando se está perto. A esse acresce a saudade, uma das mais belas palavras portuguesas. 

Há os amores adolescentes, que nascem de fora para dentro, como muitos outros amores: apaixonam-se os olhos pelos olhos e o resto do corpo acompanha. Podem não ser ao vivo e a cores, basta por exemplo que se cante ao coração. No meu tempo esses amores viviam num poster gigante na parede do quarto, para o qual se olhava horas a fio, e que, lá está, estava sempre ao alcance de uma mão imaginada (a imaginação é a melhor amiga da adolescência). Os amores de dentro para fora são talvez mais complicados e demorados. Demora muito mais tempo criar amor por uma generosidade do que por um olhar intenso. Este amor é invisível, mas a verdade é que quando nasce pode vencer muitas das coisas que se podem apenas olhar. O amor mesmo, o verdadeiro, não vive só dos olhos. O que vive só dos olhos é o amor poético, como o que se lê nas linhas de Pablo Neruda ou se escuta numa música pintada ao luar. Mas gostamos, gostamos muito de imaginar esse amor. Gostamos de imaginar esse amor porque é perfeito e belo e rima com o nosso interior mais recôndito, aquele que é capaz de matar o mundo em nome da pessoa amada. Ou de morrer por ela, o que constitui uma visão ainda mais limite, ainda mais romântica, ainda mais sublime.

O amor à primeira vista, e regressando ao comboio, é quase um tipo de amor. Pode aparecer muitas vezes ou uma única vez, mas é legítimo como qualquer um outro, e talvez por isso eu não tenha nada contra ele. Se dele advier uma história, não me cabe a mim decifrá-la, nem em juízo, nem em conteúdo. A mim o que me cabe é gostar da crença e do romantismo bastante para que duas pessoas se aproximem de alguém ao lado, que na próxima estação pode sair para nunca mais entrar. Se a fragilidade invade o gesto, pois que o faça, a vida é feita de momentos que construímos em tempos únicos e inesperados, logo, frágeis. Se por qualquer obra do destino dali nascer um amor mais a sério, é sinal de que o mundo pode também ser feito de instantes. Ou no mínimo, começar num segundo.

Adenda: Aproveito o tema para louvar São Valentim, o Santo mais amado e odiado do mundo. Está na hora, vem aí, sente-se o cheiro dele no ar que se respira. A exposição da partilha do amor nunca me incomodou, e como tal aceito de bom grado, desde que com o devido decoro, beijos na porta do restaurante, abraços no banco do jardim, olhares no comboio ou encontros furtivos na esquina da rua, com ou sem rosas a acompanhar. Há outros excessos que me incomodam bem mais, como o do amor próprio, por exemplo, esse sim capaz de me causar uma ânsia estomacal considerável. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

parece brasileira você...

Manuela tinha uns caracóis loiros e umas pernas altas. Vestia umas saias curtas e rodadas que deixavam a santa terrinha alvoraçada, ou não fora a moça jeitosa de corpo, de cara, de vestes e de calçado alto, o maior aliado de uma mulher. Nunca faltava à verdade, a sensata, nunca se imiscuía no engenho do engano, nunca se chafurdava no pecado da mentira, nem na pose, nem nas falas, nem nos gestos, nem nos amores. Amava de perdição um Zé de nome mas ninguém de condição, que a usava como um troféu conquistado numa luta de galos bem vencida, ganhas tu ou ganho eu. Ganhou ele, com uns olhos verdes de meter inveja, uma lábia triunfal, uma figura espadaúda e encorpada, apenas sustentada pelos encantos da sedução. Uma verdadeira mentira. Um dia passeávamos ambas pela estrada da aldeia, Verão quente, fim da tarde, a espampanante saia vermelha a contrastar com um meu humilde calção, o meu cabelito preso em rabichas, as minhas pernas engolidas pelo mulherão, eu uns cinco anos franganitos, ela uns vinte bem bonitos. Abeira-se uma viatura ligeira, uma cabeça de homem espreita, e o sorriso nasce de uma boca que lhe solta um atrevido - parece brasileira você. Sorrimos e prosseguimos, a saia esvoaçante, os caracóis desgrenhados, os passos envergonhados, eu, saltitante, repetindo o dito ao infinito, som que se alojou no meu corpo até nunca mais ter fim. 

Há pouco soube dela, encontrei-a numa celebração obrigatória, daquelas que reúnem numa igreja várias pessoas dos arredores. Os caracóis já morreram, as pernas ganharam tamanho, as saias desceram abaixo do joelho, os saltos mingaram até ao centímetro só, os olhos estão tristes porque o Zé Ninguém desapareceu com uma moça esbelta, o eterno sedutor. Perguntou-me por aquela tarde, inquiriu-me sobre o trajecto, sobre as vestes, sobre a expressão que se alojou no meu corpo e sobre o ar jovial dela, comido pela ilusão (a malvada esfomeada). É claro que me lembro, lembrar-me-ei sempre. A juventude da vida, nunca envelhece na nossa memória.

(Recordamos ainda, como não fazê-lo, o dia em que a verdade se alojou ainda mais no seu corpo. A condução fazia-se sem carta, tinham havido apenas lições. A guarda manda parar, e perante o riso dela e a minha pobre aflição, pergunta o que raio se passa ali. - Passa-se muito senhor guarda, sou eu que não tenho a carta, responde em gargalhada... Ora minha menina, siga, siga... Deixe-se de brincadeiras, e vá-se mas é embora... Prosseguimos claro, e a mim persegue-me ainda uma eterna e pertinente questão: terão sido os caracóis, as pernas, o riso ou a verdade? Por via das dúvidas e para quem possa, é usar em conjunção. Pelo sim, pelo não...)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

o humor pode não ser culto, mas convém, no mínimo, ser informado...

... caso contrário, não só não tem graça como cai em desgraça.

Sou contra o Acordo Ortográfico (AO), mas só depois de ter lido o documento que lhe dá corpo. Já muita gente é sumariamente contra algo que desconhece ou que "ouviu falar". Depois dá nisto:


Com o novo AO, "cágado", sendo uma palavra esdrúxula, mantém o acento gráfico na sílaba tónica, no primeiro "a", e "facto" passa a ter dupla grafia conforme o falante (uma barafunda, portanto), ou seja, com ou sem "c".
 
Não sendo propriamente um desconfiado, procuro ser avisado e, muitas vezes, desconfio qual das partes (a favor ou contra o AO) se dá ao trabalho de difundir estas baboseiras.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Nazaré, 2 de Fevereiro de 2014: as ondas que McNamara não cavalgou

«No extremo do Promontório do Sítio, que cai a pique sobre o mar, mandou D. Sebastião construir, em 1577, a Fortaleza de S. Miguel, destinada a defender a enseada dos ataques dos piratas argelinos, marroquinos e normandos. Filipe II, cerca de 1600, mandou reconstruir a primeira fortaleza de acordo com a planta do arquitecto florentino João Vicente Casale. Após a restauração da monarquia, D. João IV ordenou a sua remodelação e ampliação, dando-lhe o traçado que ainda hoje conserva. É um notável monumento militar maneirista, característico da defesa da costa, com planta longitudinal irregular adaptada ao promontório sobre o qual assenta. Possui um baluarte em cada ângulo, grossas muralhas diversas vezes restauradas, com contrafortes, ameias e frestas, dispondo de uma original Praça de Armas no 2º piso. Por cima da porta de entrada, sob um lintel, uma imagem em baixo-relevo de S. Miguel Arcanjo e a legenda “El-Rey Dom Joam o Quarto – 1644. Durante a 1ª Invasão Francesa (Junot – 1807/1808), esteve ocupado por soldados de Napoleão I, que a população do Sítio e da Pederneira ajudou a expulsar, tornando-se assim num símbolo da resistência popular. Desde 1903 está aqui instalado um Farol de auxílio à navegação que, actualmente, tem um alcance luminoso de 15 milhas, sendo completado por um sinal sonoro de aviso em dias de nevoeiro intenso.»  
 * Pesquisa, compilação e adaptação de TEIXEIRA DA SILVA, AJ.

O farol da Nazaré situa-se 50 metros acima do nível do mar e as fotografias foram tiradas "a pique", isto é, de cima para baixo, fazendo parecer as ondas menores.

Sobre o famoso "Canhão da Nazaré": «Em poucas palavras, os canhões submarinos como o Canhão da Nazaré, modificam o modo como a ondulação se propaga, permitindo a existência de zonas na proximidade do canhão onde a onda converge e se amplifica. Ao largo da Praia do Norte, este processo parece ser reforçado por correntes costeiras que se opõem às ondas e pela diminuição rápida do fundo que a onda sente ao passar do canhão para a plataforma próximo.» [Daqui]

Ou seja, as maiores ondas não são "surfáveis", propagando-se muitas vezes perpendiculares à costa com cristas e cavas anómalas. Mas sempre espectaculares.

 



Reparem naquele "portão de Neptuno" entre a espuma

Garrett McNamara, muito simpático, depois de eu lhe dizer que era seguramente o havaiano mais popular em Portugal, a significativa distância de Obama.
Ei-lo em acção. Uma ondinha de 15 metros para experimentar a prancha nova...
 
Nota final: peço desculpa pela assinatura das fotos posicionar-se quase a meio destas, mas, como calculam, são facilmente transaccionáveis, digamos assim.

azul

( Imagem retirada do google)

Às vezes não sei de que cor é o mundo. Não sei de que tons se pintam as lágrimas, de que pinceladas se tinge o amor, de que salpicos se contornam os dias, de que tinta se cobre a vida. Quando tal acontece o norte não prescinde de si e regula-me os caminhos que subitamente se molham de azul, uma cor que muito mais do que o verde me traz a esperança (pormenores...). Dizem amiúde que é a última a morrer e eu acho que a razão tem um propósito divino. É vã de conteúdo mas plena de intenção, e a verdade verdadinha é que nos movimenta em torno do séquito estonteado, mesmo que o desnorteio venha nascido de uma força maior. É válido na saúde e na doença, na sanidade e na loucura, no medo e na certeza, na vitória e na derrota. Não é exactamente por isso que eu gosto do mar, mas é exactamente por isso que eu amo o céu e a incerteza do que se encontra para o lado de lá. A razão chega-me com planetas e vias lácteas, enfarta-me com a plenitude do Sol e a beleza da Lua, tenta sossegar-me com o rigor da gravidade que dimensiona o mundo num local impossível de explicar, mas possível de existir. Mas não sei, fico com dúvidas. Preciso delas, até, porque me socorro da ausência de respostas para me enquadrar o indizível da vida, me sossegar dos terrores da noite, me situar as vontades inexplicáveis e impossíveis, me nortear o inconsciente da existência. 

Mas apesar desta entrega obscura busco sempre a explicação numa incessante viagem sem fim e sem rumo, vire-me para a direita ou para a esquerda, para a frente ou para a retaguarda, para o chão ou para o céu. Sempre ciente de que no dia em que o sentido me invadir o corpo chegarei à lógica pura, à razão absoluta, ao local sagrado (certamente, ao fim do caminho). Lá, não deve haver forma de prosseguir.