Entupi-me de lágrimas em frente ao espelho. Assoei o nariz vermelho e deitei cá para fora os dias medonhos que quase me engoliram o corpo de golada, quando isso acontece costumo recitar o mantra que diz que todos os dias de manhã deveremos sorrir para nós. A maldita da frase só não me elucida sobre o que deverei fazer aos olhos vencidos, como poderei delinear a boca cerzida, como conseguirei enfeitar as maçãs do rosto, quase retiradas, para sítio nenhum. Nessas alturas tenho vontade de silenciar a cabeça que insiste no dito até ao infinito. Apetece-me ainda matar as teorias bonitas que encostam sofrimentos a percursos, que juntam dor com crescimento, que ligam a dificuldade com a vitória e a posterior serenidade. É isso e calar o mundo de voz e de vez. Aborrecem-me as palavras vãs que trilham os percursos vácuos de coisa alguma, que dão a volta ao achado erudito da imponente sapiência, que escorregam na execução como quem resvala num monte frágil de areia, que voa com o vento e que se dissipa com o tempo. As palavras sem sentido aborrecem-me a alma, mas vale-me o sol que me enrija o corpo. As mulheres, e perdoem-me a insistência, precisam de força.
(Emudecer o mundo é remédio impossível, o mundo que não sabe jamais se calará. É como a mota que perigosamente ameaçava os tímpanos dos ouvidos do meu filho, hoje pela manhã: Não anda nada mãe, mas faz tanto barulho... Ele ainda não sabe, mas a vida a sério não é só das palavras, é também dos silêncios. Muitas vezes as ditas servem só para embelezar, para enaltecer, para resumir, para atrapalhar, para perigosamente reduzir.)



