Os avós ensinam muitas coisas, como a calma e a alegria de apanhar uma papoila e construir uma boneca. Ensinam que os doces se podem comer mesmo que os dentes doam, porque já sabem que o corpo não é assim muito feliz, só com cuidados em excesso. Sabem que o sol acorda cedo e que não se pode ficar na cama até tarde, e sabem que os meninos precisam sempre de uma história para adormecer. E de um copo de leite e de umas bolachas. Sabem que o tempo afinal existe e fazem questão de o mostrar. O tempo dos avós é diferente do tempo dos pais, o tempo dos avós tem umas horas compridas que ficam lá para o lado do jardim, aquele onde se corre atrás de uma bola e onde se esfolam os joelhos (que se curam num instante). E tem gelados e garrafas de sumo de laranja doce. Os avós têm rios e mares e castelos de areia que se fazem sempre mais uma vez, porque os avós nunca se cansam de repetir. Os avós têm ouvidos que entendem e palavras que contam verdades que não magoam, e ainda ensinam a sonhar. E a acreditar que o mundo é um local de bem e uma casa de brinquedos inventados, onde tudo pode acontecer. Os avós não falam rápido, gesticulam devagar. Não compram comida feita, cozinham em lume brando na cozinha e fazem compotas de frutas que guardam em frascos para o ano inteiro. E deixam as crianças ajudar, porque só eles sabem a sua verdadeira utilidade. Os avós percebem que quando as crianças estão doentes precisam de aconchego e alegria, e procuram tudo quanto possa sossega-las e confortá-las, nem que para isso tenham de mover o mundo. Sim, os avós movem o mundo, e ensinam as crianças que para isso é preciso querer muito, trabalhar outro tanto, saber escutar e saber dar e ajustar. Os avós apesar de moverem o mundo sabem que ele não muda, e que será sempre um sítio duro de se viver. Mas enquanto podem, enquanto duram, enquanto são e enquanto se dão, fazem-nos crer nessa ambição. Depois, tudo muda. Percebemos que envelhecem, que morrem, e que afinal o tempo que nos davam era o bem mais precioso, mas ainda assim limitado. Melhor do que ele só mesmo o amor que nos dedicavam e que não acaba nunca, a não ser quando nós, netos, velhos e cansados, deixemos de o poder guardar no corpo. Até lá estão sempre vivos cá dentro, na Primavera, no cozido à portuguesa, no prato de feijões com azeite, na máquina da costura, nas lengalengas repetidas, na força, no fracasso.
sexta-feira, 14 de março de 2014
quinta-feira, 13 de março de 2014
revolta
Resido num País significativamente oportunista, mas ainda assim indignado. Não costumo dizê-lo muitas vezes, há quem não goste e de imediato se insurja na defesa patriótica, tenho o capricho de criticar as origens, um vício, uma imperfeição, um defeito de gente com a mania de ser importante. Não me conhecem, é um facto, a única mania que encerro no corpo é a dos princípios que me regulamentam a existência e pelos quais tenho o maior respeito do mundo, até porque preciso deles para ser e viver. É por isso que eu condeno e não utilizo determinados compadrios, motivo pelo qual também assumo o que faço e o que entendo, o que defendo e o que represento. Quando olho à minha volta já não me assusto nem me indigno, estou habituada, mas este costume não me apaga a inquietação de conhecer o pobre cada vez mais abandonado, e o rico cada vez mais governado. E fico-me por aqui, fraco sítio, já lá vai o tempo em que eu mudava o mundo (grande tempo esse). Esse tempo morreu na adolescência, início da adultez, juntamente com uma réstia de ingenuidade já desanimada pelos percursos, mas ainda assim um tanto ou quanto resistente. A simplicidade, confesso, sempre foi a minha maior inimiga. Não rebusco vontades, não tenho por hábito polir pessoas, não pego ao colo os grandes nem costumo lustrar estandartes, uma maçada para quem convive comigo à espera de retribuições. No final de tudo e em sentido prático, o único mérito que me reconheço é a fidelidade e a capacidade cada vez mais suprema da "não indignação". Resumindo: constato, analiso, encaixo, preocupo-me, denuncio ou pronuncio-me de acordo com a circunstância, passo à frente e deixo o País e o mundo iguais, a brilhar por mãos empenhadas. A revolta, acabo por concluir, é o preço a pagar por quem utiliza a astúcia e expira ultrapassado.
quarta-feira, 12 de março de 2014
silêncio
Entupi-me de lágrimas em frente ao espelho. Assoei o nariz vermelho e deitei cá para fora os dias medonhos que quase me engoliram o corpo de golada, quando isso acontece costumo recitar o mantra que diz que todos os dias de manhã deveremos sorrir para nós. A maldita da frase só não me elucida sobre o que deverei fazer aos olhos vencidos, como poderei delinear a boca cerzida, como conseguirei enfeitar as maçãs do rosto, quase retiradas, para sítio nenhum. Nessas alturas tenho vontade de silenciar a cabeça que insiste no dito até ao infinito. Apetece-me ainda matar as teorias bonitas que encostam sofrimentos a percursos, que juntam dor com crescimento, que ligam a dificuldade com a vitória e a posterior serenidade. É isso e calar o mundo de voz e de vez. Aborrecem-me as palavras vãs que trilham os percursos vácuos de coisa alguma, que dão a volta ao achado erudito da imponente sapiência, que escorregam na execução como quem resvala num monte frágil de areia, que voa com o vento e que se dissipa com o tempo. As palavras sem sentido aborrecem-me a alma, mas vale-me o sol que me enrija o corpo. As mulheres, e perdoem-me a insistência, precisam de força.
(Emudecer o mundo é remédio impossível, o mundo que não sabe jamais se calará. É como a mota que perigosamente ameaçava os tímpanos dos ouvidos do meu filho, hoje pela manhã: Não anda nada mãe, mas faz tanto barulho... Ele ainda não sabe, mas a vida a sério não é só das palavras, é também dos silêncios. Muitas vezes as ditas servem só para embelezar, para enaltecer, para resumir, para atrapalhar, para perigosamente reduzir.)
sábado, 8 de março de 2014
quinta-feira, 6 de março de 2014
o mundo às escondidas
Conheço perfeitamente a angústia que sente uma criança diagnosticada com hiperactividade. Sei ponto por ponto a inquietude que a desassossega quando o mundo lhe foge com as respostas sensatas, quando a regra exige que se sente, quando o procedimento, impaciente, lhe tenta agarrar as mãos. Nessas alturas ataca-se com o milagre anti agitação. Ministra-se de manhã cedo antes da escola abrir, vigia-se de tarde, à noite qualquer outra substância há-de permitir ao mundo dormir sossegado (a ele, essencialmente ao mundo). Durante esse tempo é possível viver perto. A criança estagna, a professora ensina, os pais trabalham, o mundo acontece no seu devido lugar (qual é o devido lugar do mundo?). Quando mais nada se faz, e já no desmame, encontramos o inverso assistido: a criança aparece enquanto gira, desordenada, em busca do baú perdido. O baú perdido não é um fármaco, e nós adultos sabemos bem disso. O baú perdido é um local que não existe na vida de muitas crianças pequenas e de muitas crianças grandes. Nós sabemos bem disso, mas por vezes esquecemos, quando o corpo se cansa e só quer saber dele. Não, não é egoísmo, é ter mais do que pensar. Só não podemos estranhar que elas (as crianças), tenham mais do que fazer.
Por vezes estabeleço um paralelo com a ansiedade adulta, embora esta seja mal de outras origens, com variadíssimas curas e distintas soluções. Mas deveremos matá-la, ou deveremos senti-la? A dúvida assiste-me com elevada frequência, mas acabo muitas vezes por considerar melhor vivê-la. É claro que com tal provação a arrumação excessiva pode tomar-nos de assalto, o estado depressivo pode-se instalar de mansinho nas travessias do corpo, a obsessão pode tornar-se severa ao ponto da verificação constante ser uma impositiva ordem interna, e não uma mera necessidade externa. Ó diabo, temos um problema danado, mas ainda assim possível de reduzir. No mínimo significativamente mais fértil do que a alienação forçada, semi vida ou semi morte, um estrondo de pouca dura, nenhum proveito e falsa harmonia. Depois de se esgotar um sentir, é possível vencê-lo. Mas jamais iremos tão longe, ao ponto de nos escondermos.
quarta-feira, 5 de março de 2014
artur e a rainha manuela
Diz quem lembra que eu tremia perante tão farta cabeleira, e a minha memória, prodigiosa, recorda qualquer coisa. Ou isso ou constrói, o fenomenal acontecimento que internamente se torna possível: ouvimos, edificamos, fazemos realidade no lugar inexistente da subjectividade ideada, o local onde tudo acontece. Mas a verdade verdadinha é que tenho presente os seus olhos verdes e ligeiramente aflitos, a minha vontade em trepar-lhe os caracóis, a minha mãe a segurar-me e eu a crescer, tão rápido quanto as minhas mãos conseguiam alcançar o farfalhudo e farto cabelo. A minha mãe conta ainda que se apaixonou de morte por Manuela, a irmã mais velha de um conjunto de três, aventureiras e muito precoces. Conta também a perdição confessada por meia dúzia de palavras proferidas amiúde por Artur, sabem lá, é só passar-lhe a mão no pêlo, sabia lá eu também, a abrangência da afirmação. O certo é que as mãos de Artur não foram bastantes para que ela sossegasse, soube-se num dia quente de Agosto, aquele em que Manuela resolveu entregar-se a António, seu futuro marido por uns bons anos, durante os quais Artur se ficou na espera. Dizem que para saber viver é preciso saber esperar. Dizem que a calma é amiga do povo, e que só através dela conseguimos alcançar prazeres e objectivos impossíveis de atingir num permanente cenário de expectativa acelerada, e eu acredito.
Artur entendeu que a mulher que amava se aprimoraria com o tempo. Se lembraria das suas mãos atrevidas, dos seus caracóis loiros, dos seus olhos verdes e do seu bigode farto, e a verdade é que estava certo, pois passado um tempo Manuela voltou. Mais mulher, também mãe, e continuava acesa como uma candeia em noite de trovoada, ouvia dizer. Artur deu asas às calmas guardadas, transformou-as em actos e constituiu família, primeiro mais um, depois mais dois de uma assentada, e ficaram ao todo mais três. Nos tempos mortos esculpia pedra como ninguém, dedicando-se aos anjos e aos santos, ao pai e à mãe, às mulheres no geral, umas deusas que ele considerava muito acima do panorama terreno. Tudo isso até ao dia em que Manuela fugiu. Apaixonou-se por umas novas mãos, esqueceu caracóis e olhos da cor do mar, preferiu levar a prole para um local onde não se esculpia pedra noite adentro, com frio e com calor, sempre e sem ocasião.
Foi a partir desse dia que Artur decidiu esculpir o pecado. Das mãos dele nascem agora verdadeiras obras de arte alusivas à mulher pecadora, que se expõe, que se despe, que se toca, que se dá. Continua com a nobreza da expressão impressa, a única e verdadeira forma de fazer chegar a quem vê, a grandeza do que se sente. Gosto de lhe admirar a obra, aprecio sentir a evolução da crença, admiro acima de tudo a carga afectiva que esculpe nas pedras, minuto a minuto, sem pressas e com vagar: a crença no amor, depois a crença na vida e no divino, logo a seguir a crença no pecado. Não ouso afiançar ordens criteriosas para o caminho percorrido, é lá com ele. Não ouso sequer acreditar naquela, cada um tem a sua, é com cada qual. Gosto simplesmente de apreciar a expressão estampada nas peças que cria. E a calma na espera e na feitura, uma arte muito mais nobre do que a perfeição ambicionada.
domingo, 2 de março de 2014
laranjas
O senhor Ernesto polia os dentes enquanto Guilhermina bordava paninhos da loiça. Havia uma telefonia a tocar na Rádio Renascença, e na mesa umas laranjas mandavam um cheiro forte. No portal da vizinha havia uma rampa construída não sei porquê, no tempo em que as acessibilidades não existiam no papel, mas eram precisas e importantes para quem se lembrava delas. Em frente um portão de rede encarnado guardava dos olhos do mundo uma casa pequenina, onde Violeta criava gatos. Eu gostava de espreitar Violeta. Era quase cega e vestia-se de preto, descascava maçãs com a mestria de quem tem olhos e comia-as com a habilidade de quem tem dentes, enquanto os gatos passeavam de rabo eriçado por entre as cascas e o colo dela, excessivamente reduzido para tanta bicharada. Ninguém me deixava bater na porta, ela era uma bruxa má. Por causa disso eu imaginava-a a reunir os gatos pretos e a lançar feitiços cabeludos que um dia me acertariam, estivesse eu na janela, estivesse ela na mesa, houvesse um gato preto por perto, e ela desse conta de mim. Mas mesmo assim eu não arredava. Era assustadora, a velha, e feia de meter dó. O filho tinha morrido há muito e deixara-a entregue ao mundo e à doença, na época em que retaguarda social era a misericórdia alheia que não fosse batida pelo medo. Por tudo isto apenas Dona Lurdes lhe dava algum zelo, a mesma que guardava a igreja, o salão de festas, as campas floridas e os mortos do cemitério. Uma mulher daquelas, que tinha as chaves da morte, jamais poderia ter medo. Eu tinha muito, mas um dia segui-a e entrei lá dentro, à revelia do povo. A casa cheirava a vestes bafientas e a gatos, e a velha mal falava. Lurdes esclareceu-me que a pobre senhora só necessitava de cuidados. Que o mundo a banira por fealdade, por tristeza, por viuvez e mau palavreado, complexo suficiente para exilar por desconsideração e desmérito, criaturas sem préstimo real. - Pouco mais precisa, dizia-me, do que umas palavras que amenizem o que o corpo não consegue ter.
Lurdes nunca dizia à minha avó que eu entrava, mas disse-lhe muitas vezes que ela tinha uma neta afoita. Afoita era para mim nome de um homem que tinha andado na guerra, no masculino. Nome de nascimento, de baptizado, de bilhete de identidade, de sociedade, o nome de sempre ali na aldeia. Na altura não percebia o porquê de Lurdes me chamar daquela forma, mas gostava muito. Era realmente sinónimo de braveza e dureza, e nada era melhor do que sentir-me valente, no fundo qualquer coisa próxima do significado aplicado. Quase sempre, na saída, Ernesto oferecia-me uma laranja, nas pausas da polição. Fingia que não via de onde eu vinha, e gostava muito de mim (talvez porque soubesse exactamente de onde eu vinha). Desde essa altura, devem existir poucas coisas no mundo que me cheirem melhor do que laranjas. Não sei se pela fruta, se pelo sumo, se pelo facto de ter vencido um medo importante: nada é mais limitativo do que o medo entranhado num povo.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O reflexo do espelho é tolo
Há muitos anos, ainda adolescente, sucedia-me uma coisa bizarra que à altura não sabia explicar. Na casa de banho, no quarto, na sala, nas vitrines das lojas, nos elevadores públicos, enfim, onde houvesse um espelho que me reflectisse, por vezes, não identificava a minha cara. Aproximava-me e olhava os meus olhos reflectidos e não os reconhecia. Como os cães e os gatos e a maioria dos animais. O teste do espelho, baseado no orangotango de Darwin e posteriormente desenvolvido por Gordon G. Gallup como medida de autoconhecimento, era então para mim um paradoxo. O fenómeno chegava a ser aterrador – Eu sou aquele? Aquele? Quem é aquele indivíduo? Eu? – e começava a suar, chegava mesmo a sentir-me mal. Não se tratava de uma questão de vaidade, tão comum àquelas idades; não achava que fosse feio ou bonito, nada disso, o que não admitia e me assustava era conceber que aquele vulto fosse eu. Coisa de tolo, uma tolaria que passou.
Ontem, diante um espelho da casa de banho de um restaurante, olhei os meus olhos e cara reflectidos e aconteceu-me o mesmo – Quem é aquele indivíduo de quarenta e tal anos, pá? É outro cliente? Um empregado? Um orangotango…? –, acabei por secar as mãos e voltei para a minha mesa.
Quando andamos ensimesmados, muito voltados para nós, para os nossos pensamentos e problemas, não vemos nada. O foco é tão persistente em nós, julgamos ser tão importantes e únicos que nem sequer vemos os outros. E quem não vê o seu semelhante, e as semelhanças do seu semelhante às suas, jamais se reconhece em que sítio for. Quanto mais num pífio espelho. Explicado.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
os préstimos de Rosalina
Lá em cima é o local escolhido, cá em baixo a senda que inquieta os quereres que vivem sem pensar. As tentações imprevistas nascem obtusas, mais ou menos como os amores, sem olhar a hora ou a lugar, e sem rigor de apuramento. Prendem-se antes em pedaços de corpo que se envergonha exaurido nas horas matutinas, como se os minutos da noite lhe fossem os únicos dirigidos e o restante dia, de olhos abertos, pudesse apenas (pobremente) pensar. Vedado aos requintes do desejo enamorado, os dias abrigam o decoro e a decência, conservando as perdições para o pardacento da noite, nos leitos dos casais benditos e com vista ao fabrico de gente, o efectivo propósito da sua existência. Ali também havia hora do dia. Planava um cheiro a incenso forte, uma aura enfeitiçada, uns adornos de seda selvagem e um vislumbre de mulher, à espreita, na soleira da porta. Os canudos loiros enterneciam-lhe os ombros, a cintura era afinada por entre um espartilho florido, a boca era desenhada a vermelho escarlate, a cor da desonra. O chá sabia a tília com açúcar mascavado, os bolos a limão verde e a pouco doce, a mesinha encontrava-se no centro da sala e na senhorinha pérola, Rosalina bordava. Logo após as cinco saíam para a rua e sentavam-se nas mantas colocadas ao redor da figueira, sempre sob o olhar atento da guarda da dignidade. Ainda assim ele espreitava-lhe para dentro dos olhos fundos, espiava-lhe de perto as mãos delicadas, encontrava-lhe a língua a correr embaraçada, enquanto a boca sorria.
Rosalina ausentava-se sempre ao pôr-do-sol. O pôr-do-sol era a hora sombria, altura em que a luz se pousava e a luminosidade artificial se confundia com os móveis, com as janelas, com os óculos e com as rendas, todas iguais. Era hora do descanso e eles ficavam. Sempre ao Domingo, dia santo, a oração deveria ser suficiente para acautelar os corpos, a casa mantinha as portadas abertas e arejadas, os cães ladravam no quintal, a cozinha fumegava a panela da sopa, e a escada vivia sempre no mesmíssimo lugar. Os passos eram mansos pela placidez da madeira, o piso de cima abria-se em regaço, nunca havia ali ninguém. A consumação era no dia sagrado do sermão no altar, o namoro era abençoado pelo patriarca, o desaforo era em cima de uma cama quente, de Verão e de Inverno, em silêncio e sem demora. Sempre em silêncio e sem demora.
Rosalina voltava antes da noite escura. As mantas estendidas no chão, imaculadas, por baixo de dois corpos já sossegados. O vestido de flores severamente amachucado, era do assento, os canudos mais ou menos descompostos, era do vento. A boca escarlate, pequenina, tremia quase apagada. Os olhos, pretos e vivos, olhavam muito abertos para o gato. Estamos aqui, Rosalina, vou já, dizia ela na hora do recolher. Rosalina sorria fixada no desenho da boca. Para a semana querida, sou eu que a desenho outra vez.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
ainda o cuidado
Cuidado implica também um beijo quando ele é preciso. Exige uma festa na cara, a mais pessoal das nossas partes, ou um afago na cabeça. Respira de palavras de afecto, que vive ao lado dele (do cuidado). Envolve uma preocupação desmedida, não é dado a moderações. Embrulha-se de vontade de zelo, de sentires para dar, de olhos que podem nem ver-se, estão cá dentro, implantados na presença de espírito. É claro que o cuidado ao perto pode ser soberano, mas não é o único cuidado. Já me senti cuidada por uma amiga a quilómetros de distância, ou por uma irmã tão longe. E já me senti descuidada pela pessoa ao lado, tempos sem fim. Cuidado é como o amor, não implica presença. Implica bem-querer.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
cuidado
Na minha secretária encontra-se uma flor morta por mim. Alguém achou por bem deixar-me um post it colado na pobre, onde se pode ler: “ morri de tristeza, não cuidaram de mim”. Quem escreveu o dito por certo não pensou a fundo a exactidão de tão descomplicadas palavras. A frase é de construção simples, sem grandes artefactos ou pontuações, mas carregada de intenções. Toda a ciência pura está efectivamente no acto de cuidar.
Costumava dizer em tom irónico que Silvino tinha morrido em vida, porque a vida o deixou. Morava intrometido num ramal de silvas bravias, frequentado por animalejos diversos que lhe comiam as paredes da casa, quase invisíveis. Atendia-me sempre por uma frincha da porta, não queria de forma alguma o meu cuidado (pleno de direitos). Era por lá que entrava a comida na marmita, que ficava guardada até que o corpo a engolisse, tinha de ser, não fosse mingar ao ponto da ida ao hospital ser uma inevitabilidade. Nunca tinha sido preciso… Houve porém o dia em que a doença chegou. A minha vontade era entrar e ficar ao lado, destemida dos bichos, ignorante que estava na força da vida, crente na da morte, que chegara ali. Que desconhecedora que eu estava. Teimei na abertura da porta, por trás de mim uns bombeiros amontoavam-se sem tempo para a paciência, o esgotamento do dia já era demais. Silvino abriu as portadas por minha insistência, e lá dentro tossia. Da porta para lá, inúmeros sacos enxovalhados, roupas velhas estofavam um chão de terra batida, ventos entravam pela janelinha que espiava o sol por entre o folhado. Num recanto da divisão interna, parei pasmada. Na estante da parede respiravam livros, obras primas da literatura, antologias poéticas e enciclopédias diversas, todos devidamente ordenados, limpos, luminosos. É a minha vida, dizia Silvino, não me levem daqui…
Naquele dia consciencializei contingências. É claro que o cuidado externo é a vida, mas o nosso connosco também nos pode valer. E fazer viver.
(Infelizmente as flores são limitadas. À minha mercê ficam sempre dadas à sorte e a regas alheias que se concedam a comparecer. Nem sempre sucede, não compreendo como não prevêem a debilitação primária dos meus gestos. E assim secam em escadinha, as infelizes, sem palavras de atenção, nem escritas nem faladas. É demais, posso crer.)
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Lua de Fevereiro (e outras cenas)
Como muitos infantis de oito-dez anos, ficava no alpendre da casa da minha avó até elevadas horas da noite (nove e meia) de queixo estendido ao alto e olhos esbugalhados quase vidrados a olhar o céu. Concentrado e dramático pensava um dia revelar ao mundo todos os seus mistérios. Em noites de Lua nova, com o estridular dos grilos e o fogo de artifício cerce dos vaga-lumes, perdia-me nas estrelas que pareciam multiplicar-se mais e mais até já não existir um único ponto negro celeste. Aí, comovia-me e tentava não pestanejar. Guardar toda a luz de um céu estrelado no brilho de uma lágrima não é fácil - ó tarefa inglória, como eu não a queria deixar escapar! -, sobretudo quando o Tejo ladrava às danças malucas dos coleópteros. Na maior parte das outras noites de Verão lá surgia a Lua e eu não apreciava nada, era como uma lanterna apontada à cara que me impedia ver todos os pontinhos muito mais cobiçados, como um Sol nocturno sem serventia que espantava a caça.
A Lua é um amor recente, tem dois anos, mais coisa menos mês. Conheço-lhe as voltas, as formas bojudas e pontiagudas, as manhas e as manias. A Lua é presente e não sei se lhe antevejo futuro. Estável e duradoiro, com final feliz.
Esta, de Fevereiro, revela um fenómeno. Não obstante a fotografia ter sido tirada ao lado de um cemitério, por acaso alguém sabe o que aconteceu...?
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
sempre mais qualquer coisa
Gosto de incrementar a proximidade com a escola e com os professores. Sou mãe interveniente na comunidade educativa, dentro do que me parece prudente e sem exagerar. Conheço os professores de nome, figura e método de acção, e mesmo quando divirjo com este último, faço questão de tentar perceber e jamais opinar contra, sei bem o que isso significa em consequência no processo educativo. Mas às vezes deparo-me com imprudências e discursos a rasar o insensato, ditos aos alunos e devidamente comprovados, como pormenores extremamente pessoais da vida privada do professor. Pormenores esses que os mesmos não tinham nem como nem porque saber, mas sabem. Isto entre outras manifestações de inabilidade que não vou por ora dissecar. O que me pasma é o conjunto de alterações e avaliações feitas nos últimos anos. O que me pasma ainda mais são os exageros que certificam a competência técnica de quem ensina crianças (que deverá e muito bem tê-la), quando comparada com o desnorteio com que se deixa ao Deus dará as competências sociais e educacionais dos professores. É claro que as vozes se levantarão a dizer que educar é em casa e a escola serve mesmo é para ensinar. Serve, claro que serve fundamentalmente para isso, mas a verdade é que há realidades que não emparelham nem à lei da força e uma delas é o ensino e a insensatez, porque implica uma exigência de rigor imposta por alguém que não sabe a noção do limite. Eu sei que não é produtivo, mas ensinar limites deveria fazer parte do programa escolar. Poderia ser que no mínimo se cuidasse mais o assunto e o carácter de normalidade deixasse de entrar ligeiro e subtil no meio de atrocidades significativas e de diversas ordens, que invadem certos deveres. Não, nem tudo é normal, e a situação seguinte que se colocaria em relação ao posto de trabalho do professor é um facto que nada tem a ver com escola nem com os alunos, mas que deveria ter apenas a ver com o sistema e a pessoa em questão. Assim, de olhos bem fechados, o problema não é do professor que mantém o seu posto de trabalho, mas sim dos alunos que ele deveria ensinar e da escola onde ele lecciona de forma desadequada. Avaliar competências é muito mais do que calcular conhecimento técnico. Um professor, e por muito que deva ensinar, tem de ser muito mais do que matemática. Tal como um médico tem de ser muito mais do que uma ciência, um advogado tem de ser muito mais do que uma lei, um filósofo tem de ser muito mais do que um pensamento e um padre tem de ser muito mais do que uma religião.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Luzia
Lembro-me melhor de sorrisos do que dos choros, contrariando as estatísticas. É dos livros que as experiências más marcam a vida, mas eu é que sei (os livros ensinam-me muito, mas não deixo que me desmintam só porque sim). Havia um beijo e uma flor e eu nunca percebi muito bem porquê. Era o hábito, dizia, o ritual. E o Homem é animal de hábitos, claro. De manhã abria a janela, de noite fechava, sempre antes de dormir. Ao Domingo ia à missa, a seguir almoçava carne com bom vinho tinto, não se comia mais naquele dia. Os cães tratavam-se pela fresca e a rega fazia-se já tarde. Matavam-se coelhos uma vez por mês, os frangos era lá com ela. Saía-se sempre à segunda, levava-se a boina, vestia-se um casaco melhor. A professorinha Lurdes gostava muito de homens de bom porte, a outra, a enfermeira que alugava o quarto lá de casa, era atiradiça e não se incomodava com a camisa desfraldada nem com a lassidão do nó da gravata. Luzia espreitava pela fechadura, também estava habituada. Ia acenando com a cabeça para cima e para baixo, e raramente lhe escorriam lágrimas. Era do hábito. Quando escorriam, não sei o que se passava lá dentro, só sei que nessas alturas ela fugia. Mas voltava e depois tudo passava. Os dias corriam iguais, ao Domingo a missa, à noite a rega, uma vez por mês os coelhos, saídas à segunda, buracos de fechadura quando tinha de ser. Um certo dia estávamos sentadas debaixo da árvore onde o cão ladrava, como sempre. Chamava-se Camões, era cego de um olho. As ameixas eram doces e juntas inundávamos o colo de pingos que escorriam pelas mãos afora, em direcção à cambraia colorida do meu vestido primaveril. Não havia dia sem fruta, também. Ele chegou altivo e estendeu-lhe uma flor, o pinga amor, só falta o retrato para o posteridade, dizia. Luzia sorria enternecida e completamente pingada (era das ameixas). Deixa-te disso querido, eu faço anos todos os anos, e sorria mais ainda. Era Maio, houve de facto muitos, na primavera. Às vezes ia-se à praia comemorar, levava-se a cesta, comia-se no pinhal com manta e outras pessoas de bom porte e de bom nome. Sempre pessoas de bom porte e de bom nome.
Agora sim, morreram os hábitos todos. E estarão felizes para sempre? No dia de hoje juraria que já não há flores, tal como não haverá em Maio, já na próxima Primavera. Amor mais firme sempre houve e sempre haverá, mas só de um dos lados. Nunca apreciei este tipo de dedicação, guardo antes as boas memórias, e por conseguinte já quase esqueci as lágrimas de Luzia. Só nunca cheguei a saber se algum dia as flores lhe deram felicidade.
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