© Paulo Abreu e Lima

sábado, 29 de março de 2014

causas nossas

Não aprecio a expressão que afirma em força andarmos todos aqui para o mesmo. Não andamos, cada um anda para e por determinadas coisas, muito além das básicas necessárias à subsistência. As primárias sim, são comuns, mas a vida individual é a excepção, não a generalidade, o mediano, a moda, o hábito exagerado. Descobrir as próprias causas talvez seja um dos nossos maiores desafios. Porque as causas dos outros desenham-se à légua, à distância de um Oceano, ao intervalo de uma vida, à rapidez de um segundo. Depois à noite, nas horas de vazio, surgem os nossos porquês. O quase sono tem destas coisas, entrega-nos à mercê da dúvida e abandona-nos ao ritmo certo do respirar continuado que se escuta, junto ao bater do coração (odeio sentir a funcionalidade precisa do meu corpo. Repulso o vazio exagerado que me permite a atenção focalizada nos batimentos cardíacos, nas entranhas revoltadas, nas palpitações descontroladas). Ainda assim e mesmo à noite, concluir coisas nossas nem sempre é fácil nem certo. Fácil fácil, dizia eu,  é o móbil distante. Invejável invejável, são os sonhos cor de rosa dos outros. Condenável condenável, é a vida alheia, fácil e escorreita, sem entraves ou barreiras, alçadas ou embaraços. Quanto a nós, é certinho e direitinho, não há como enganar: seguimos sempre em frente e sem olhar para a retaguarda, atravessamos estradas sem espreitar os autocarros, não perdemos tempo em acelerar na direcção dos sonhos nem das ambições momentâneas, mesmo que para isso atropelemos os princípios e os cuidados. E por vezes, tantas vezes, sabemos lá para onde vamos, desde que o bem estar se assome, mesmo sem olhar a meios. 

Deveríamos instaurar uns minutos de reflexão por dia para pensar nisso, a iniciar na escola durante a hora do lanche, que a mesa, quanto a mim, sempre foi boa conselheira. Entre o pacote de leite e o papo-seco, todos os jovens deveriam pensar no porquê de estarem cá, no caminho que querem escolher, nos ossos que escolhem roer. Deveríamos falar, pensar e sentir desde cedo, sobre quanto custa uma empreitada, de quantos cestos se faz uma vindima, do número de passos que são precisos para chegar ao topo da cidade, dos livros que precisamos de ler para conhecermos alguma (pouca) verdade. Mas não se pensa muito nisso. Apostamos o mundo e o apuramento dos sentidos na direcção da sapiência monitorizada, enchem-se as cabecinhas de experiências feitas sem necessidade de comprovação, dotam-se os jovens de fins comuns e desvalorizam-se muitas vezes as diferenças individuais. Ensina-se que mais depressa se chega ao cimo com o compadrio do que com a subida a pulso, que perdeu na escalada do oportunismo, o individualismo sobrepôs-se ao social e o aprumo morreu ressequido, na berma da estrada de um baldio qualquer. 

Um dia, bem perto, andaremos quase todos para o mesmo sim,  o que é de uma tristeza tremenda. Exceptuando talvez um conjunto magro de excepções à regra, aquele número que olha ao contrário e que usualmente está a caminhar para o lado inverso de tudo o que parece fazer sentido. E o que será que faz sentido? 

terça-feira, 25 de março de 2014

estima

Freud dizia coisas condenáveis que batiam certo. O que nos define pode efectivamente soar a estranho, basta que para isso nos debrucemos com afinco no complexo de édipo, uma improbablilidade inesperadamente presumível, percam uns minutos do vosso tempo a pensar o assunto. Percebemos também que podem existir outras causas mais objectivas a tentar explicar estas e outras questões, para quem não apreciar os devaneios do inconsciente, o local do mundo onde tudo acontece se a censura não nos matar caminhos. Aprecio a censura, contudo, o que seria de nós sem ela? Ficaríamos uns seres presumidamente isolados e de regra imprecisa, subjugados ao principio do prazer, principio este também possível por sermos sociais. Confuso? Não diria. Tal como não me confundem algumas outras teorias proferidas pelo mesmo médico (génio) neurologista, como aquela em que me diz que tememos nos outros a nossas próprias falhas, os nossos próprios medos, as nossas próprias realidades, as nossas próprias frustrações. Facílimo de perceber, o que mais nos assusta é o que de alguma forma conhecemos bem, cá dentro. Ou que já sentimos vindo na nossa direcção, e aqui admitindo a ligação perfeita exterior/interior, e a capacidade de aprendizagem. Explico melhor: jamais posso ter o verdadeiro medo da injustiça se nunca fui injustiçado ou se nunca cometi uma iniquidade, e trata este um mero exemplo, inserido numa universalidade de muitos outros. É claro que os sentires intermédios e meramente idealizados podem ser o morno da existência, uma ambição extravagante do sossego porventura jamais alcançado, que a exponencialidade séria da vida não se coaduna com ideias preconcebidas e vazias de conteúdo.

Ocorre-me sempre e neste contexto o agradável educador Daniel, um pequeno moço que a vida largou para a morte cedo de mais. Tratava as senhoras com uma delicadeza persistente, reunia sabedoria farta num corpo novo, a prova de que os anos não são os únicos indicadores válidos de crescimento, e exaltava tranquilidade na frase mágica que dizia com a constância de um respirar: quem não confia, não é de confiar. Ele sabia o que dizia e de quem falava. Sabia que a segurança nasce primeiro em nós e só depois do outro lado, sabia ainda que se a dita não se assomar dentro do corpo, jamais nos aparece envolvida por um outro além do nosso. 

Gosto destas doutrinas que me fazem todo o sentido, aprecio as verificações sentidas frequentemente em cada passo que dou, estimo a ciência inconveniente do comportamento, aquela que sem medo me justifica a ira, o desejo, a revolta e a maioria dos pecados. O ser humano não é puro por natureza e tudo o que reme ao contrário é coragem e persistência. É exactamente por isto, que nos tenho em tanta estima. Pelo menos a alguns.

domingo, 23 de março de 2014

Os monges também vêem estrelas


 

As que já se foram e as que ainda estão por vir. Que isto do hábito é coisa presente, caleja a pele, a polpa e o caroço; mas uma vez ausente, ausente para sempre. Não deixa semente nem alguém crente. Sei do que falo: já fui monge, já vi estrelas e sorvi mel. Sei exactamente como se faz. Contudo, a mais elevada das magnificências não está em ensinar por onde se vai e como se chega. O sumo da liberdade não é o destino, não é o caminho, não é a razão que nos enleva - tudo isso seria magnicídio. Nada disso. Magnanimidade é outra coisa bem mais simples. É caminhar sem questionar e sem desistir de nós e dos nossos, porque até na morte, sobretudo no exemplo da morte, não deve escassear dignidade. Como as árvores, morreremos de pé; como as estrelas, ao alto, pereceremos no céu. Nós, os vivos que caminhamos sobre areias incertas, sabemos: os nossos mortos nunca desistem nem desistirão de nós. Como eles, honremos a ordem natural do nosso coração, ademais, enquanto quente pulsa, caminha e transige. Como o Universo,  que passa e fica.

sexta-feira, 21 de março de 2014

o desnorteio do incerto

Ela estava perdida de amores. Respirava os afrontamentos do corpo, falava com os calores das palavras, olhava o mundo pincelado a magenta quente, num cruzamento fugaz entre a vontade e o medo. Espreitava todos os dias pela escada subida, miradouro para o dilúvio que se estendia em frente, sem fim à vista, quer o sol nascesse quer o sol morresse, numa improbabilidade qualquer que ninguém explicaria. Há realidades sem explicação. Há factos ininteligíveis mais fortes do que a ira da natureza, do que as coordenadas célicas, do que os bichos que alombam com cargas pesadas encosta acima, tudo observável, tudo audível, tudo perceptível.  O que não se vê pesa tanto porque se acomoda na ideia. Ganha forma na construção interna da constância, não conhece a impossibilidade e não verga com a contramão. Não há escolhas, há caminhos com direcção, há mãos que agarram sem freio que as sustenha, há passos que marcham sem barreira que os pare, há bocas que tocam na fome farta da noite. Quando assim é perde-se a força real. Perde-se o mando e a luta instala-se no corpo, entre o que parece ser e se pode comprovar, e o fundamental invisível desenhado a tinta chinesa, preta e circunspecta, precisa e concluída, na incorrecção do perfeito. 

O catavento do topo e perante isto, olha inerte para o horizonte. Vira-se sempre para o mesmo lugar, aponta o bico para o vácuo do destino, despreza as sujidades da frente fria e avança sem vacilar. Na torre da igreja o sino toca. A melodia é da hora certa, nunca falha. Ela desce, perdida de amores, senta-se no muro de pedra fria e pensa-se descoberta: perdido é o mundo, que não sabe para onde vai (o desnorteio do incerto, é infinitamente mais fácil).

terça-feira, 18 de março de 2014

bem-querer?

O bem-querer e o afecto nascem em doses grandes por corpos pequenos. Direccionam-se com facilidade à fragilidade engraçada, ao bilúbilú debaixo do queixinho e do pescocinho, no colo onde ainda se cabe. Com animais e com pessoas, até porque tudo quanto é pequeno tem graça e cheira bem. Depois com o tempo a devoção pode abrandar. A vida dá-nos tanto que fazer, as responsabilidades são mais do que muitas, as prioridades assumem-se com a imponência de quem olha para o próprio umbigo e não vê o resto do mundo. Não há muitos sítios maiores do que o nosso umbigo, a não ser, claro está, o dos amores incondicionais, mas esses estão assentes no divino e não discorro por ora sobre tal enormidade. Por ora centro-me em quem está perto, em quem assume isto ou aquilo sem empenho próprio de acção, a única grandeza que nos pode realmente regulamentar a vontade. Dar de nós dá trabalho. Dar de nós custa ao corpo e custa à voluntariedade, custa ao empenho e ao nosso tempo, aquele que teima sempre em morrer antes de chegar. Dar de nós a quem precisa exige-nos compromisso, e para isso é necessário que cá dentro saibamos que os seres vivos crescem e podem adoecer, e podem até perder a graça. E é aqui que o compromisso em vez de morrer deveria encastrar, tornar-se ainda mais valioso, ainda mais forte, ainda mais real. Mas temos um mundo que gira francamente ao contrário. Temos um mundo que venera a beleza e a saúde, o vigor e a fragilidade agradável, a forma encantadora dos primeiros anos e a deliciosa leveza do ser, enquanto despreza a necessidade, foge da doença e da velhice, usa distâncias de segurança para o salvaguardar do resto e do fim, ao mesmo tempo que se mascara de um lugar perfeito. É isto o ano inteiro, o entrudo veio para ficar: que siga a música, dancemos todos. 

domingo, 16 de março de 2014

a saúde

A questão da utilização do Serviço Nacional de Saúde versus serviços privados, impõe-se cada vez mais. Se por um lado no público encontramos respostas mais eficientes, mormente em situações de maior importância, por outro, e em questões de gravidade relativa, o serviço privado responde com uma prontidão significativamente mais célere, o que significa muitas vezes uma melhoria da qualidade de vida do paciente em questão. Muito embora conheça os meandros de ambas e tenha serviços que utilizo em cada um dos lados, há situações que me fazem pensar, como por exemplo as relacionadas com intervenções cirúrgicas que poderiam (ou não) ser evitadas. A questão é delicada porque é na maioria das vezes relativa. Senão vejamos: o que salvaguarda o médico particular, acusado com frequência de querer ganhar dinheiro à custa dos doentes? O que lhe legitima a acção, o que o enquadra na ética e no profissionalismos, o que o defende da imagem de oportunista? Por outro lado, que lei protege o médico do serviço nacional de saúde, que tem os exames auxiliares de diagnósticos controlados, as consultas cheias até ao próximo ano, e uma carteira de utentes que ultrapassa o desejável em muitas dezenas? Será que a ganância do particular rouba a competência e o discernimento, apetece perguntar? Será ainda que a falta de recursos pode deixar arrastar problemas que se solucionariam em meia dúzia de semanas, se a pessoa pudesse pagar, urge questionar? 

A visão parece-me ir numa outra direcção, e centra-se mais no médico do que no sistema. Talvez por isso, relego por completo opiniões extremistas que se encaixam em um ou em outro, e não admitem a existência de técnicos capazes em cada um dos lados da barricada. Já encontrei excelentes profissionais em ambos os serviços, e já encontrei profissionais péssimos. Já houve desleixo e competência em cada um deles, e continuo a usar os dois, dependendo do contexto e da circunstância. Mas confesso que me preocupa quem não pode de todo usufruir de uma consulta mais pronta de alguma especialidade, quando dela necessita. Quem espera muitos meses para ser atendido num problema que limita o dia a dia e que faz o paciente desesperar, e muitas vezes piorar. É aqui que o sistema público resvala sem salvação. Não é no serviço de urgência, não é sequer nas doenças mais graves, a não ser em algum caso de carácter mais excepcional, que também os há. É na demora da resposta do que não é grave. E é aqui que o privado entra, recebe de quem pode pagar, e actua em conformidade.

No seguimento haverá de tudo um pouco, e considero o abuso de entidades com fins lucrativos, tal como considero a limitação das outras, por questões diversas, por ventura difíceis de solucionar. Em ambas, como refiro, haverá zelo e competência, bem como o contrário. Usar com cuidado, moderação e alguma inteligência, será o que se recomenda, para além de olhar sempre tudo com muita atenção. Acredito que quem não pode de todo pagar, como sempre, fique limitado. Tal como acredito que quem fala de mais e sem critério, como sempre, é exagerado.     

sexta-feira, 14 de março de 2014

avó

Os avós ensinam muitas coisas, como a calma e a alegria de apanhar uma papoila e construir uma boneca. Ensinam que os doces se podem comer mesmo que os dentes doam, porque já sabem que o corpo não é assim muito feliz, só com cuidados em excesso. Sabem que o sol acorda cedo e que não se pode ficar na cama até tarde, e sabem que os meninos precisam sempre de uma história para adormecer. E de um copo de leite e de umas bolachas. Sabem que o tempo afinal existe e fazem questão de o mostrar. O tempo dos avós é diferente do tempo dos pais, o tempo dos avós tem umas horas compridas que ficam lá para o lado do jardim, aquele onde se corre atrás de uma bola e onde se esfolam os joelhos (que se curam num instante). E tem gelados e garrafas de sumo de laranja doce. Os avós têm rios e mares e castelos de areia que se fazem sempre mais uma vez, porque os avós nunca se cansam de repetir. Os avós têm ouvidos que entendem e palavras que contam verdades que não magoam, e ainda ensinam a sonhar. E a acreditar que o mundo é um local de bem e uma casa de brinquedos inventados, onde tudo pode acontecer. Os avós não falam rápido, gesticulam devagar. Não compram comida feita, cozinham em lume brando na cozinha e fazem compotas de frutas que guardam em frascos para o ano inteiro. E deixam as crianças ajudar, porque só eles sabem a sua verdadeira utilidade. Os avós percebem que quando as crianças estão doentes precisam de aconchego e alegria, e procuram tudo quanto possa sossega-las e confortá-las, nem que para isso tenham de mover o mundo. Sim, os avós movem o mundo, e ensinam as crianças que para isso é preciso querer muito, trabalhar outro tanto, saber escutar e saber dar e ajustar. Os avós apesar de moverem o mundo sabem que ele não muda, e que será sempre um sítio duro de se viver. Mas enquanto podem, enquanto duram, enquanto são e enquanto se dão, fazem-nos crer nessa ambição. Depois, tudo muda. Percebemos que envelhecem, que morrem, e que afinal o tempo que nos davam era o bem mais precioso, mas ainda assim limitado. Melhor do que ele só mesmo o amor que nos dedicavam e que não acaba nunca, a não ser quando nós, netos, velhos e cansados, deixemos de o poder guardar no corpo. Até lá estão sempre vivos cá dentro, na Primavera, no cozido à portuguesa, no prato de feijões com azeite, na máquina da costura, nas lengalengas repetidas, na força, no fracasso. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

revolta

Resido num País significativamente oportunista, mas ainda assim indignado. Não costumo dizê-lo muitas vezes, há quem não goste e de imediato se insurja na defesa patriótica, tenho o capricho de criticar as origens, um vício, uma imperfeição, um defeito de gente com a mania de ser importante. Não me conhecem, é um facto, a única mania que encerro no corpo é a dos princípios que me regulamentam a existência e pelos quais tenho o maior respeito do mundo, até porque preciso deles para ser e viver. É por isso que eu condeno e não utilizo determinados compadrios, motivo pelo qual também assumo o que faço e o que entendo, o que defendo e o que represento. Quando olho à minha volta já não me assusto nem me indigno, estou habituada, mas este costume não me apaga a inquietação de conhecer o pobre cada vez mais abandonado, e o rico cada vez mais governado. E fico-me por aqui, fraco sítio, já lá vai o tempo em que eu mudava o mundo (grande tempo esse). Esse tempo morreu na adolescência, início da adultez, juntamente com uma réstia de ingenuidade já desanimada pelos percursos, mas ainda assim um tanto ou quanto resistente. A simplicidade, confesso, sempre foi a minha maior inimiga. Não rebusco vontades, não tenho por hábito polir pessoas, não pego ao colo os grandes nem costumo lustrar estandartes, uma maçada para quem convive comigo à espera de retribuições. No final de tudo e em sentido prático, o único mérito que me reconheço é a fidelidade e a capacidade cada vez mais suprema da "não indignação". Resumindo: constato, analiso, encaixo, preocupo-me, denuncio ou pronuncio-me de acordo com a circunstância, passo à frente e deixo o País e o mundo iguais, a brilhar por mãos empenhadas. A revolta, acabo por concluir, é o preço a pagar por quem utiliza a astúcia e expira ultrapassado. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

silêncio

Entupi-me de lágrimas em frente ao espelho. Assoei o nariz vermelho e deitei cá para fora os dias medonhos que quase me engoliram o corpo de golada, quando isso acontece costumo recitar o mantra que diz que todos os dias de manhã deveremos sorrir para nós. A maldita da frase só não me elucida sobre o que deverei fazer aos olhos vencidos, como poderei delinear a boca cerzida, como conseguirei enfeitar as maçãs do rosto, quase retiradas, para sítio nenhum. Nessas alturas tenho vontade de silenciar a cabeça que insiste no dito até ao infinito. Apetece-me ainda matar as teorias bonitas que encostam sofrimentos a percursos, que juntam dor com crescimento, que ligam a dificuldade com a vitória e a posterior serenidade. É isso e calar o mundo de voz e de vez. Aborrecem-me as palavras vãs que trilham os percursos vácuos de coisa alguma, que dão a volta ao achado erudito da imponente sapiência, que escorregam na execução como quem resvala num monte frágil de areia, que voa com o vento e que se dissipa com o tempo. As palavras sem sentido aborrecem-me a alma, mas vale-me o sol que me enrija o corpo. As mulheres, e perdoem-me a insistência, precisam de força.

(Emudecer o mundo é remédio impossível, o mundo que não sabe jamais se calará. É como a mota que perigosamente ameaçava os tímpanos dos ouvidos do meu filho, hoje pela manhã: Não anda nada mãe, mas faz tanto barulho... Ele ainda não sabe, mas a vida a sério não é só das palavras, é também dos silêncios. Muitas vezes as ditas servem só para embelezar, para enaltecer, para resumir, para atrapalhar, para perigosamente reduzir.)

quinta-feira, 6 de março de 2014

o mundo às escondidas

Conheço perfeitamente a angústia que sente uma criança diagnosticada com hiperactividade. Sei ponto por ponto a inquietude que a desassossega quando o mundo lhe foge com as respostas sensatas, quando a regra exige que se sente, quando o procedimento, impaciente, lhe tenta agarrar as mãos. Nessas alturas ataca-se com o milagre anti agitação. Ministra-se de manhã cedo antes da escola abrir, vigia-se de tarde, à noite qualquer outra substância há-de permitir ao mundo dormir sossegado (a ele, essencialmente ao mundo). Durante esse tempo é possível viver perto. A criança estagna, a professora ensina, os pais trabalham, o mundo  acontece no seu devido lugar (qual é o devido lugar do mundo?). Quando mais nada se faz, e já no desmame, encontramos o inverso assistido: a criança aparece enquanto gira, desordenada, em busca do baú perdido. O baú perdido não é um fármaco, e nós adultos sabemos bem disso. O baú perdido é um local que não existe na vida de muitas crianças pequenas e de muitas crianças grandes. Nós sabemos bem disso, mas por vezes esquecemos, quando o corpo se cansa e só quer saber dele. Não, não é egoísmo, é ter mais do que pensar. Só não podemos estranhar que elas (as crianças), tenham mais do que fazer. 

Por vezes estabeleço um paralelo com a ansiedade adulta, embora esta seja mal de outras origens, com variadíssimas curas e distintas soluções. Mas deveremos matá-la, ou deveremos senti-la? A dúvida assiste-me com elevada frequência, mas acabo muitas vezes por considerar melhor vivê-la. É claro que com tal provação a arrumação excessiva pode tomar-nos de assalto, o estado depressivo pode-se instalar de mansinho nas travessias do corpo, a obsessão pode tornar-se severa ao ponto da verificação constante ser uma impositiva ordem interna, e não uma mera necessidade externa. Ó diabo, temos um problema danado, mas ainda assim possível de reduzir. No mínimo significativamente mais fértil do que a alienação forçada, semi vida ou semi morte, um estrondo de pouca dura, nenhum proveito e falsa harmonia. Depois de se esgotar um sentir, é possível vencê-lo. Mas jamais iremos tão longe, ao ponto de nos escondermos.  

quarta-feira, 5 de março de 2014

artur e a rainha manuela

Diz quem lembra que eu tremia perante tão farta cabeleira, e a minha memória, prodigiosa, recorda qualquer coisa. Ou isso ou constrói, o fenomenal acontecimento que internamente se torna possível: ouvimos, edificamos, fazemos realidade no lugar inexistente da subjectividade ideada, o local onde tudo acontece. Mas a verdade verdadinha é que tenho presente os seus olhos verdes e ligeiramente aflitos, a minha vontade em trepar-lhe os caracóis, a minha mãe a segurar-me e eu a crescer, tão rápido quanto as minhas mãos conseguiam alcançar o farfalhudo e farto cabelo. A minha mãe conta ainda que se apaixonou de morte por Manuela, a irmã mais velha de um conjunto de três, aventureiras e muito precoces. Conta também a perdição confessada por meia dúzia de palavras proferidas amiúde por Artur, sabem lá, é só passar-lhe a mão no pêlo, sabia lá eu também, a abrangência da afirmação. O certo é que as mãos de Artur não foram bastantes para que ela sossegasse, soube-se num dia quente de Agosto, aquele em que Manuela resolveu entregar-se a António, seu futuro marido por uns bons anos, durante os quais Artur se ficou na espera. Dizem que para saber viver é preciso saber esperar. Dizem que a calma é amiga do povo, e que só através dela conseguimos alcançar prazeres e objectivos impossíveis de atingir num permanente cenário de expectativa acelerada, e eu acredito. 

Artur entendeu que a mulher que amava se aprimoraria com o tempo. Se lembraria das suas mãos atrevidas, dos seus caracóis loiros, dos seus olhos verdes e do seu bigode farto, e a verdade é que estava certo, pois passado um tempo Manuela voltou. Mais mulher, também mãe, e continuava acesa como uma candeia em noite de trovoada, ouvia dizer. Artur deu asas às calmas guardadas, transformou-as em actos e constituiu família, primeiro mais um, depois mais dois de uma assentada, e ficaram ao todo mais três. Nos tempos mortos esculpia pedra como ninguém, dedicando-se aos anjos e aos santos, ao pai e à mãe, às mulheres no geral, umas deusas que ele considerava muito acima do panorama terreno. Tudo isso até ao dia em que Manuela fugiu. Apaixonou-se por umas novas mãos, esqueceu caracóis e olhos da cor do mar, preferiu levar a prole para um local onde não se esculpia pedra noite adentro, com frio e com calor, sempre e sem ocasião. 

Foi a partir desse dia que Artur decidiu esculpir o pecado. Das mãos dele nascem agora verdadeiras obras de arte alusivas à mulher pecadora, que se expõe, que se despe, que se toca, que se dá. Continua com a nobreza da expressão impressa, a única e verdadeira forma de fazer chegar a quem vê, a grandeza do que se sente. Gosto de lhe admirar a obra, aprecio sentir a evolução da crença, admiro acima de tudo a carga afectiva que esculpe nas pedras, minuto a minuto, sem pressas e com vagar: a crença no amor, depois a crença na vida e no divino, logo a seguir a crença no pecado. Não ouso afiançar ordens criteriosas para o caminho percorrido, é lá com ele. Não ouso sequer acreditar naquela, cada um tem a sua, é com cada qual. Gosto simplesmente de apreciar a expressão estampada nas peças que cria. E a calma na espera e na feitura, uma arte muito mais nobre do que a perfeição ambicionada.