Somos um número indiferenciado na matemática do mundo. Representamos uma ínfima parte de uma totalidade que se gere em torno de dinheiro, interesse, objectivos criteriosos e definidos a medidores exactos de satisfação e qualidade de vida, um mísero indicador vazio de conteúdo e consistência. A nossa função é mantermos o significado produtivo da eficiência no bem comum, competentes no emprego, complacentes na amizade, infalíveis na sociedade. Nas épocas de prova tudo se mede em unidades de avaliação, e no caso de excessos ou desleixos somos preteridos em prol de um outro número mais favorável, na relação qualidade preço. A fronteira entre sermos gente ou só gestores mora aqui, na vertente emocional que consigamos impelir aos actos. Curiosamente, exactamente a mesma que nos torna vulneráveis à acção conjunta da administração mundial.
terça-feira, 8 de abril de 2014
sábado, 5 de abril de 2014
amor tardio
Morreu devagarinho numa tarde fresca de Primavera. Despediu-se do mundo com as palavras certas, pediu os zelos pretendidos, elegeu vestes, adornos e fotografia que acompanharia o corpo. Não pretendia reduzi-lo a cinzas, jamais lhe praticaria tamanha atrocidade, nem mesmo depois de morto. A imagem do caixão a arder na Praça de São João remexia-lhe o estômago fraco, repugnava-lhe as entranhas, assustava-lhe a alma que viveria para sempre apoiada ao retrato que levava consigo. José Maria nunca a tinha a desposado. Deitara-lhe um olho em novo, uma mão furtiva pouco depois, tomara-a numa tarde de soalheiro na eira da terra, por entre o milho seco na tarde da desfolhada. Nessa noite os jovens e os menos jovens cantaram na monotonia do compasso, mas na hora do caldo verde, Maria sorria feliz. O moço partiu em ofício pouco depois, num dia de tempestade, nunca mais se viu. Ninguém da aldeia soube do sucedido, casou bem casada com a preferência da família e rumou para longe, honrou o nome e a vida, tocava piano como ninguém.
No dia da morte socorreu-se de quem se abeirou dela e pediu auxílio: - salve-me desta vida, não posso mais com ela. Cole-me ao corpo o retrato de José Maria e deixe-nos secar juntos no cemitério. O vento abençoará na morte, o que em tempos me levou. Nunca mais o largarei.
(Às vezes é preciso morrer para querer ser feliz.)
sexta-feira, 4 de abril de 2014
Lua de Abril (... e mais uma perguntinha básica)
Contrariamente ao que se pensa, não é na Lua Cheia que melhor se observa a superfície lunar. É em todas as outras fases (excluindo a Lua Nova). Acontece exactamente o mesmo com quem observa a Terra do céu, apesar das nuvens. A razão é simples: quando o Sol incide em toda a superfície visível, este encontra-se quase no Zénite, ou seja, a pique, e assim praticamente não há sombras reveladoras dos montes, cordilheiras e vales - no caso da Terra - e picos, crateras, abatimentos e outros relevos - no caso da Lua. Por falar em Lua Nova, pergunto: que fase é essa em que não vemos a nossa amiga? Será que nesses dois ou três dias não passa por cima de nós? Será que não é iluminada pelo Sol? Estará escondida pela mão invisível dos mercados? Hum? Digam o que acham. Sem medos.
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terça-feira, 1 de abril de 2014
sábado, 29 de março de 2014
causas nossas
Não aprecio a expressão que afirma em força andarmos todos aqui para o mesmo. Não andamos, cada um anda para e por
determinadas coisas, muito além das básicas necessárias à subsistência. As
primárias sim, são comuns, mas a vida individual é a excepção, não a
generalidade, o mediano, a moda, o hábito exagerado. Descobrir as próprias
causas talvez seja um dos nossos maiores desafios. Porque as causas dos outros
desenham-se à légua, à distância de um Oceano, ao intervalo de uma vida, à
rapidez de um segundo. Depois à noite, nas horas de vazio, surgem os nossos porquês. O
quase sono tem destas coisas, entrega-nos à mercê da dúvida e abandona-nos ao ritmo certo do respirar continuado que se escuta, junto ao
bater do coração (odeio sentir a funcionalidade precisa do meu corpo. Repulso o
vazio exagerado que me permite a atenção focalizada nos batimentos cardíacos,
nas entranhas revoltadas, nas palpitações descontroladas). Ainda assim e mesmo à noite, concluir coisas nossas nem sempre é fácil nem certo. Fácil
fácil, dizia eu, é o móbil distante. Invejável
invejável, são os sonhos cor de rosa dos outros. Condenável condenável, é a vida alheia, fácil e escorreita, sem entraves ou barreiras, alçadas ou embaraços.
Quanto a nós, é certinho e direitinho, não há como enganar: seguimos sempre em
frente e sem olhar para a retaguarda, atravessamos estradas sem espreitar os autocarros,
não perdemos tempo em acelerar na direcção dos sonhos nem das ambições
momentâneas, mesmo que para isso atropelemos os princípios e os cuidados. E por vezes, tantas vezes, sabemos lá para onde vamos, desde que o bem estar se assome, mesmo
sem olhar a meios.
Deveríamos instaurar uns minutos de reflexão por dia para
pensar nisso, a iniciar na escola durante a hora do lanche, que a mesa, quanto a mim, sempre foi boa conselheira. Entre o pacote de leite e o papo-seco, todos os jovens deveriam
pensar no porquê de estarem cá, no caminho que querem escolher, nos ossos que
escolhem roer. Deveríamos falar, pensar e sentir desde cedo, sobre quanto custa uma empreitada,
de quantos cestos se faz uma vindima, do número de passos que são precisos para
chegar ao topo da cidade, dos livros que
precisamos de ler para conhecermos alguma (pouca) verdade. Mas não se pensa muito nisso. Apostamos o mundo e o apuramento dos sentidos na direcção da sapiência monitorizada, enchem-se as cabecinhas de experiências feitas sem necessidade de
comprovação, dotam-se os jovens de fins comuns e desvalorizam-se muitas vezes as diferenças individuais. Ensina-se que mais depressa se chega ao cimo com o compadrio do que com a subida
a pulso, que perdeu na escalada do oportunismo, o individualismo sobrepôs-se ao
social e o aprumo morreu ressequido, na berma da estrada de um baldio qualquer.
Um dia, bem perto,
andaremos quase todos para o mesmo sim,
o que é de uma tristeza tremenda. Exceptuando talvez um conjunto magro de
excepções à regra, aquele número que olha ao contrário e que usualmente está a
caminhar para o lado inverso de tudo o que parece fazer sentido. E o que será que faz sentido?
terça-feira, 25 de março de 2014
estima
Freud dizia coisas condenáveis que batiam certo. O que nos define pode efectivamente soar a estranho, basta que para isso nos debrucemos com afinco no complexo de édipo, uma improbablilidade inesperadamente presumível, percam uns minutos do vosso tempo a pensar o assunto. Percebemos também que podem existir outras causas mais objectivas a tentar explicar estas e outras questões, para quem não apreciar os devaneios do inconsciente, o local do mundo onde tudo acontece se a censura não nos matar caminhos. Aprecio a censura, contudo, o que seria de nós sem ela? Ficaríamos uns seres presumidamente isolados e de regra imprecisa, subjugados ao principio do prazer, principio este também possível por sermos sociais. Confuso? Não diria. Tal como não me confundem algumas outras teorias proferidas pelo mesmo médico (génio) neurologista, como aquela em que me diz que tememos nos outros a nossas próprias falhas, os nossos próprios medos, as nossas próprias realidades, as nossas próprias frustrações. Facílimo de perceber, o que mais nos assusta é o que de alguma forma conhecemos bem, cá dentro. Ou que já sentimos vindo na nossa direcção, e aqui admitindo a ligação perfeita exterior/interior, e a capacidade de aprendizagem. Explico melhor: jamais posso ter o verdadeiro medo da injustiça se nunca fui injustiçado ou se nunca cometi uma iniquidade, e trata este um mero exemplo, inserido numa universalidade de muitos outros. É claro que os sentires intermédios e meramente idealizados podem ser o morno da existência, uma ambição extravagante do sossego porventura jamais alcançado, que a exponencialidade séria da vida não se coaduna com ideias preconcebidas e vazias de conteúdo.
Ocorre-me sempre e neste contexto o agradável educador Daniel, um pequeno moço que a vida largou para a morte cedo de mais. Tratava as senhoras com uma delicadeza persistente, reunia sabedoria farta num corpo novo, a prova de que os anos não são os únicos indicadores válidos de crescimento, e exaltava tranquilidade na frase mágica que dizia com a constância de um respirar: quem não confia, não é de confiar. Ele sabia o que dizia e de quem falava. Sabia que a segurança nasce primeiro em nós e só depois do outro lado, sabia ainda que se a dita não se assomar dentro do corpo, jamais nos aparece envolvida por um outro além do nosso.
Gosto destas doutrinas que me fazem todo o sentido, aprecio as verificações sentidas frequentemente em cada passo que dou, estimo a ciência inconveniente do comportamento, aquela que sem medo me justifica a ira, o desejo, a revolta e a maioria dos pecados. O ser humano não é puro por natureza e tudo o que reme ao contrário é coragem e persistência. É exactamente por isto, que nos tenho em tanta estima. Pelo menos a alguns.
domingo, 23 de março de 2014
Os monges também vêem estrelas
As que já se foram e as que ainda estão por vir. Que isto do hábito é coisa presente, caleja a pele, a polpa e o caroço; mas uma vez ausente, ausente para sempre. Não deixa semente nem alguém crente. Sei do que falo: já fui monge, já vi estrelas e sorvi mel. Sei exactamente como se faz. Contudo, a mais elevada das magnificências não está em ensinar por onde se vai e como se chega. O sumo da liberdade não é o destino, não é o caminho, não é a razão que nos enleva - tudo isso seria magnicídio. Nada disso. Magnanimidade é outra coisa bem mais simples. É caminhar sem questionar e sem desistir de nós e dos nossos, porque até na morte, sobretudo no exemplo da morte, não deve escassear dignidade. Como as árvores, morreremos de pé; como as estrelas, ao alto, pereceremos no céu. Nós, os vivos que caminhamos sobre areias incertas, sabemos: os nossos mortos nunca desistem nem desistirão de nós. Como eles, honremos a ordem natural do nosso coração, ademais, enquanto quente pulsa, caminha e transige. Como o Universo, que passa e fica.
sexta-feira, 21 de março de 2014
o desnorteio do incerto
Ela estava perdida de amores. Respirava os afrontamentos do
corpo, falava com os calores das palavras, olhava o mundo pincelado a magenta
quente, num cruzamento fugaz entre a vontade e o medo. Espreitava todos os dias
pela escada subida, miradouro para o dilúvio que se estendia em frente, sem fim
à vista, quer o sol nascesse quer o sol morresse, numa improbabilidade qualquer
que ninguém explicaria. Há realidades sem explicação. Há factos ininteligíveis mais fortes do que a ira da natureza, do que as coordenadas célicas, do que os
bichos que alombam com cargas pesadas encosta acima, tudo observável, tudo
audível, tudo perceptível. O que não se
vê pesa tanto porque se acomoda na ideia. Ganha forma na construção interna da constância,
não conhece a impossibilidade e não verga com a contramão. Não há escolhas, há
caminhos com direcção, há mãos que agarram sem freio que as sustenha, há passos
que marcham sem barreira que os pare, há bocas que tocam na fome farta da noite.
Quando assim é perde-se a força real. Perde-se o mando e a luta instala-se no
corpo, entre o que parece ser e se pode comprovar, e o fundamental invisível
desenhado a tinta chinesa, preta e circunspecta, precisa e concluída, na
incorrecção do perfeito.
O catavento do
topo e perante isto, olha inerte para o horizonte. Vira-se sempre para o mesmo
lugar, aponta o bico para o vácuo do destino, despreza as sujidades da frente
fria e avança sem vacilar. Na torre da igreja o sino toca. A melodia é da hora
certa, nunca falha. Ela desce, perdida de amores, senta-se no muro de pedra
fria e pensa-se descoberta: perdido é o mundo, que não sabe para onde vai (o desnorteio do incerto, é infinitamente mais fácil).
quarta-feira, 19 de março de 2014
como se fabricam crianças loucas,
aqui, escrito por Eliane Brum, com estudos de Flávia Blikstein.
(Convido-vos a lerem até ao fim e a beberem as palavras todas, uma por uma.)
(Convido-vos a lerem até ao fim e a beberem as palavras todas, uma por uma.)
terça-feira, 18 de março de 2014
bem-querer?
O bem-querer e o afecto nascem em doses grandes por corpos pequenos. Direccionam-se com facilidade à fragilidade engraçada, ao bilúbilú debaixo do queixinho e do pescocinho, no colo onde ainda se cabe. Com animais e com pessoas, até porque tudo quanto é pequeno tem graça e cheira bem. Depois com o tempo a devoção pode abrandar. A vida dá-nos tanto que fazer, as responsabilidades são mais do que muitas, as prioridades assumem-se com a imponência de quem olha para o próprio umbigo e não vê o resto do mundo. Não há muitos sítios maiores do que o nosso umbigo, a não ser, claro está, o dos amores incondicionais, mas esses estão assentes no divino e não discorro por ora sobre tal enormidade. Por ora centro-me em quem está perto, em quem assume isto ou aquilo sem empenho próprio de acção, a única grandeza que nos pode realmente regulamentar a vontade. Dar de nós dá trabalho. Dar de nós custa ao corpo e custa à voluntariedade, custa ao empenho e ao nosso tempo, aquele que teima sempre em morrer antes de chegar. Dar de nós a quem precisa exige-nos compromisso, e para isso é necessário que cá dentro saibamos que os seres vivos crescem e podem adoecer, e podem até perder a graça. E é aqui que o compromisso em vez de morrer deveria encastrar, tornar-se ainda mais valioso, ainda mais forte, ainda mais real. Mas temos um mundo que gira francamente ao contrário. Temos um mundo que venera a beleza e a saúde, o vigor e a fragilidade agradável, a forma encantadora dos primeiros anos e a deliciosa leveza do ser, enquanto despreza a necessidade, foge da doença e da velhice, usa distâncias de segurança para o salvaguardar do resto e do fim, ao mesmo tempo que se mascara de um lugar perfeito. É isto o ano inteiro, o entrudo veio para ficar: que siga a música, dancemos todos.
domingo, 16 de março de 2014
a saúde
A questão da utilização do Serviço Nacional de Saúde versus serviços privados, impõe-se cada vez mais. Se por um lado no público encontramos respostas mais eficientes, mormente em situações de maior importância, por outro, e em questões de gravidade relativa, o serviço privado responde com uma prontidão significativamente mais célere, o que significa muitas vezes uma melhoria da qualidade de vida do paciente em questão. Muito embora conheça os meandros de ambas e tenha serviços que utilizo em cada um dos lados, há situações que me fazem pensar, como por exemplo as relacionadas com intervenções cirúrgicas que poderiam (ou não) ser evitadas. A questão é delicada porque é na maioria das vezes relativa. Senão vejamos: o que salvaguarda o médico particular, acusado com frequência de querer ganhar dinheiro à custa dos doentes? O que lhe legitima a acção, o que o enquadra na ética e no profissionalismos, o que o defende da imagem de oportunista? Por outro lado, que lei protege o médico do serviço nacional de saúde, que tem os exames auxiliares de diagnósticos controlados, as consultas cheias até ao próximo ano, e uma carteira de utentes que ultrapassa o desejável em muitas dezenas? Será que a ganância do particular rouba a competência e o discernimento, apetece perguntar? Será ainda que a falta de recursos pode deixar arrastar problemas que se solucionariam em meia dúzia de semanas, se a pessoa pudesse pagar, urge questionar?
A visão parece-me ir numa outra direcção, e centra-se mais no médico do que no sistema. Talvez por isso, relego por completo opiniões extremistas que se encaixam em um ou em outro, e não admitem a existência de técnicos capazes em cada um dos lados da barricada. Já encontrei excelentes profissionais em ambos os serviços, e já encontrei profissionais péssimos. Já houve desleixo e competência em cada um deles, e continuo a usar os dois, dependendo do contexto e da circunstância. Mas confesso que me preocupa quem não pode de todo usufruir de uma consulta mais pronta de alguma especialidade, quando dela necessita. Quem espera muitos meses para ser atendido num problema que limita o dia a dia e que faz o paciente desesperar, e muitas vezes piorar. É aqui que o sistema público resvala sem salvação. Não é no serviço de urgência, não é sequer nas doenças mais graves, a não ser em algum caso de carácter mais excepcional, que também os há. É na demora da resposta do que não é grave. E é aqui que o privado entra, recebe de quem pode pagar, e actua em conformidade.
No seguimento haverá de tudo um pouco, e considero o abuso de entidades com fins lucrativos, tal como considero a limitação das outras, por questões diversas, por ventura difíceis de solucionar. Em ambas, como refiro, haverá zelo e competência, bem como o contrário. Usar com cuidado, moderação e alguma inteligência, será o que se recomenda, para além de olhar sempre tudo com muita atenção. Acredito que quem não pode de todo pagar, como sempre, fique limitado. Tal como acredito que quem fala de mais e sem critério, como sempre, é exagerado.
sexta-feira, 14 de março de 2014
avó
Os avós ensinam muitas coisas, como a calma e a alegria de apanhar uma papoila e construir uma boneca. Ensinam que os doces se podem comer mesmo que os dentes doam, porque já sabem que o corpo não é assim muito feliz, só com cuidados em excesso. Sabem que o sol acorda cedo e que não se pode ficar na cama até tarde, e sabem que os meninos precisam sempre de uma história para adormecer. E de um copo de leite e de umas bolachas. Sabem que o tempo afinal existe e fazem questão de o mostrar. O tempo dos avós é diferente do tempo dos pais, o tempo dos avós tem umas horas compridas que ficam lá para o lado do jardim, aquele onde se corre atrás de uma bola e onde se esfolam os joelhos (que se curam num instante). E tem gelados e garrafas de sumo de laranja doce. Os avós têm rios e mares e castelos de areia que se fazem sempre mais uma vez, porque os avós nunca se cansam de repetir. Os avós têm ouvidos que entendem e palavras que contam verdades que não magoam, e ainda ensinam a sonhar. E a acreditar que o mundo é um local de bem e uma casa de brinquedos inventados, onde tudo pode acontecer. Os avós não falam rápido, gesticulam devagar. Não compram comida feita, cozinham em lume brando na cozinha e fazem compotas de frutas que guardam em frascos para o ano inteiro. E deixam as crianças ajudar, porque só eles sabem a sua verdadeira utilidade. Os avós percebem que quando as crianças estão doentes precisam de aconchego e alegria, e procuram tudo quanto possa sossega-las e confortá-las, nem que para isso tenham de mover o mundo. Sim, os avós movem o mundo, e ensinam as crianças que para isso é preciso querer muito, trabalhar outro tanto, saber escutar e saber dar e ajustar. Os avós apesar de moverem o mundo sabem que ele não muda, e que será sempre um sítio duro de se viver. Mas enquanto podem, enquanto duram, enquanto são e enquanto se dão, fazem-nos crer nessa ambição. Depois, tudo muda. Percebemos que envelhecem, que morrem, e que afinal o tempo que nos davam era o bem mais precioso, mas ainda assim limitado. Melhor do que ele só mesmo o amor que nos dedicavam e que não acaba nunca, a não ser quando nós, netos, velhos e cansados, deixemos de o poder guardar no corpo. Até lá estão sempre vivos cá dentro, na Primavera, no cozido à portuguesa, no prato de feijões com azeite, na máquina da costura, nas lengalengas repetidas, na força, no fracasso.
quinta-feira, 13 de março de 2014
revolta
Resido num País significativamente oportunista, mas ainda assim indignado. Não costumo dizê-lo muitas vezes, há quem não goste e de imediato se insurja na defesa patriótica, tenho o capricho de criticar as origens, um vício, uma imperfeição, um defeito de gente com a mania de ser importante. Não me conhecem, é um facto, a única mania que encerro no corpo é a dos princípios que me regulamentam a existência e pelos quais tenho o maior respeito do mundo, até porque preciso deles para ser e viver. É por isso que eu condeno e não utilizo determinados compadrios, motivo pelo qual também assumo o que faço e o que entendo, o que defendo e o que represento. Quando olho à minha volta já não me assusto nem me indigno, estou habituada, mas este costume não me apaga a inquietação de conhecer o pobre cada vez mais abandonado, e o rico cada vez mais governado. E fico-me por aqui, fraco sítio, já lá vai o tempo em que eu mudava o mundo (grande tempo esse). Esse tempo morreu na adolescência, início da adultez, juntamente com uma réstia de ingenuidade já desanimada pelos percursos, mas ainda assim um tanto ou quanto resistente. A simplicidade, confesso, sempre foi a minha maior inimiga. Não rebusco vontades, não tenho por hábito polir pessoas, não pego ao colo os grandes nem costumo lustrar estandartes, uma maçada para quem convive comigo à espera de retribuições. No final de tudo e em sentido prático, o único mérito que me reconheço é a fidelidade e a capacidade cada vez mais suprema da "não indignação". Resumindo: constato, analiso, encaixo, preocupo-me, denuncio ou pronuncio-me de acordo com a circunstância, passo à frente e deixo o País e o mundo iguais, a brilhar por mãos empenhadas. A revolta, acabo por concluir, é o preço a pagar por quem utiliza a astúcia e expira ultrapassado.
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