© Paulo Abreu e Lima

terça-feira, 29 de abril de 2014

sabe do que fala

quem já encastrou no corpo a realidade que aplica nas palavras, quem já viveu o sentir aclamado, o medo ajuizado, a paleta de cores negras de uma morte anunciada. Sabe do desgosto do amor quem já o amargou, o vazio da noite quem já a transitou, o oco do dia quem já o dirigiu na proa de um barco solto, no colo de um temporal. Sabe do desapego quem já nadou na estranheza do incerto, quem já naufragou numa praia vazia, quem já se encontrou errante no meio de um deserto de areias finas e quentes que teimam no escalda-pés. Minto, minto várias vezes quando olho nos olhos de quem me procura e juro a pés juntos que sei exactamente do que falam, que conheço o meandro do que sentem na pele, que conjecturo perfeitamente os sentires nefastos que se acomodam nos corpos esgotados. Minto, minto com os dentes todos da minha boca quando tento adormecer sentimentos com base na experiência arquitectada, quando ouso catalogar ausências que não contenho, quando anseio apagar os traços fortes de um abandono que não habitei. Não sei o que é, na maioria das vezes não sei do que me falam. Porque só sabe o sentimento quem o atravessa ao meio, quem o respira sôfrego por todos os poros da pele, quem o transpira cansado pelos olhos, pela boca, pelas entranhas revoltas de uma desilusão. Só quem entranha a vida sabe o que vem com ela. O resto são meras suposições, tão frágeis como a previsão incerta de um destino escrito em linhas de mão. Mais ou menos coisa nenhuma. 

domingo, 27 de abril de 2014

morrer de amor

Morre-se de amor nos livros, nos filmes, nos contos e na vida real. Morre-se de amor quando o corpo resolve expirar devagarinho, primeiro os olhos, depois as mãos, de seguida a boca, logo depois o resto. Morre-se de amor em vida quando a direcção se encontra vazia de companhia, quando o objectivo se retira, lesto, dos dias vividos para lugar nenhum. O meu avô morreu em vida, pé-ante-pé, a caminho do cemitério. Mais depressa quando o vento arrastava os ciprestes altos e bamboleantes, mais devagar quando netos e bisnetos apareciam no portão encarnado do quintal, aos Domingos de verão, para a apanha das ameixas vermelhas e verdes, da árvore enxertada do jardim. Este de agora esperou pouco tempo. Deixou que a morta fosse a sua vida e hoje beijou-a, bem cedo, na manhã fresca de Primavera. Diz a filha que lhe faltava o sossego das mãos dela, diz a neta que ele sentia saudades, eu digo que ele morreu de amor. Morre-se de amor. Morre-se de amor nos livros, nos filmes, nos contos e na vida real. 

(Não, não considero uma vitória do amor, mas uma derrota da vida, sendo aqui que o romantismo eventualmente impresso à história, se extingue também. Não morre de amor quem ama muito, morre de amor quem não aprendeu a sofrer.)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

vaidade

 
 
A fragilidade da aparência é coisa capaz de assustar até um santo, os seres omnipotentes e omnipresentes que se difundem no ar que respiramos, nas orações que rezamos, nos pensamentos que almejamos na hora do bom sonhar. Mede-se em caracteres imprecisos de arabescos frágeis, findos com qualquer borrachinha de circunstância, muito rapidamente se a dita for exigente. As belas pessoas andam por aí aos pontapés, plasmadas nas revistas que enfeitam os quiosques redondinhos onde se espreita a perfeição, em pastelarias apinhadas de modas correctas, vestidas com camisas brancas e golas de pêlo, luvas altas e botas irrepreensíveis, carteiras de bom-tom e casacos de bom corte. Fico estupidamente boquiaberta com a (improvável?) velocidade com que se desfazem. Com a pressa com que se desmontam, com a fluidez com que se desmancham, com a rapidez com que perdem a compostura e arruínam a pose sem que disso se apercebam. Para tal, só é preciso que a vida, sábia, pregue umas partidas, acontecimentos de pouca envergadura, na maioria das vezes. Nessas alturas, quando a corda afina e a estabilidade balança, é vê-las tremelicas sem vara que as equilibre, sempre à espera que a rede de segurança não tenha sido engolida pela espontaneidade dos dias incertos. Dá-me sempre vontade de representar a figura que abandona o navio na hora da asfixia, de me sentar em alto na plateia e ficar a admirar a pose a ser comida pelas jóias,  pelas finuras, pelas prosápias, pelos requintes, enquanto o mundo, tranquilamente, recupera um fraco equilíbrio que lhe permite prosseguir.
 
(O universo, necessita de constante compensação, numa perfeita harmonia de forças antagónicas. Tenho de aceitá-los, repito para mim em constante solilóquio. O mundo jamais sobreviveria sem cúmulos de vaidade.)

domingo, 20 de abril de 2014

Caxinas

Caxinas é um sítio onde se pesca não só com rede, mas também com a tradição e o coração. O sustento vem do mar que galga a costa, as casas, os barcos e tudo quanto se aproxime, mas a subsistência atida ao peixe fazem com a força não esmoreça, na terra onde os pescadores são devorados pelo oceano. O que me espanta não é a precisão entendível, é a vocação que encontro nas palavras de quem sabe o perigo. Nos homens que conhecem o mar que os pode matar em segundos, mas que ainda assim afirmam que o dia de hoje acolhe quem morreu, e os de amanhã servirão para entrar de novo na imensidão. Como se a vasteza da água fosse uma casa onde diariamente recebem o ar que respiram, e como se nenhuma outra lho pudesse dar. Não sei se é coragem, dedicação ou simples necessidade, nem julgo muito relevante catalogar sentires no que toca à lida em questão. Mas parece-me muito importante sentir que a terra vive e respira o mar que lhe leva os homens, e que as mulheres, desde sempre, rezam na praia a chorar. Amanhã é outro dia, cada um com o seu fado. O barco, a rede, as ondas, o mar, a memória, a recordação, a força, a fé. 

quinta-feira, 17 de abril de 2014

quando muito, mas quase nunca

Tenho muito mais medo da loucura do que de um toiro bravo. A questão de supostamente a tratar por tu é secundária, simplesmente porque não corresponde à verdade. Ninguém trata por tu o desconhecido, e por conseguinte ninguém entende a fundo os meandros de uma vida interior vivida ao limite do sentir desfasado, do patamar do que se considera são, do lado de dentro do que se ignora. Engraçado como a generalidade da população me afirma um medo terrível das doenças do corpo, como se as mesmas nos retirassem o dom da qualidade de vida, se por azar se estabelecerem. Compreendo, como qualquer mortal também eu tenho receio das doenças que nos comem aos bocadinhos, dolorosas, sanguessugas, nefastas. Não entendo porém o desleixo das preces quanto à doença mental e a ausência final, cada vez mais a realidade dos nossos dias. Joaquina, por exemplo, não sabe que se chama assim. Não conhece Maria, sua filha, esqueceu demasiado cedo o rosto velho de Aurora, sua mãe, mais lúcida do que eu. Vagueia durante o dia com uma boneca de pano ao colo, levanta-se de noite e deita-se em cama alheia, olha para o vazio do jardim como quem nada procura. É este, é este o vazio que me assusta, quase tanto como a insanidade de quem encontra lá dentro vozes a mais, por qualquer desaire cerebral incompreendido. Não elejo, ninguém me dá esse direito, mas a poder escolheria a sanidade até ao momento final. 

(Tenho muito mais medo da loucura do que de um toiro bravo. Talvez por isso em tempos, tenha julgado que a trataria por tu. Passou-me depressa, nos bancos da faculdade, em frente ao Professor de Psicopatologia Geral. Ele foi claro e disse: Respeitem a insanidade! Não há palavra que a mate, nem remédio que a extermine. Quando muito, mas quase nunca, há um mundo que a aceita.)

domingo, 13 de abril de 2014

liberdade

 
No mês em que só se fala de liberdade, talvez seja importante pensarmos que a mesma não é fazer o que bem entendermos, isso apenas seria possível no limite do isolamento social. Liberdade implica acima de tudo respeito a nós e ao próximo (como de resto o dicionário refere), caso contrário será irrealizável falar num mundo livre. Prezo a minha acima de um patamar elevado, considero-a a base da minha forma de ser e de estar, mas somente porque efectivamente me rejo sobre ela de forma direccionada ao bem estar comum. Gosto porém de ouvir os pregões que afirmam ditos como, sou livre, e por isso faço o que eu bem entender. Isso, apetece-me dizer, não é liberdade, pode mesmo ser egoísmo. Ou pode ainda ser uma ignorância suprema de considerar que livre é quem toma as opções isoladas da realidade circundante, é quem proclama a vontade acima do custo alheio, é quem se esquece que o mundo entraria em colapso se todos nós celebrássemos esse género de independência. Não encaro como prisão a consideração pelo próximo, o cuidado com a cultura, o respeito pela personalidade. Não me incomoda ponderar o meu mundo encaixado numa realidade abrangente, onde outras pessoas detêm outras vontades, outras verdades, outras certezas. Quem serei eu perante os outros? Apenas um ser que conhece o seu ponto de vista, livre de pensar e de agir em conformidade com a humanidade e as suas precisões. Maior liberdade seria utópica, ou melhor, seria um lugar sem rumo onde tudo quanto é relacional perderia o sentido da existência. Um preço demasiado alto, diria eu.

(É claro que aprecio a revolução do cravos e outras manifestações de liberdade. É claro que prezo as opções de escolha sadias, as análises continuadas dos caminhos, as persistências por convicção. Só julgo ser provável que na euforia desses sentimentos, tenhamos esquecido os limites a partir dos quais a mesma se torna invasão. O excesso é inevitavelmente uma doença.)

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Fantasias sexuais



Depois de passar por um blogue de uma senhora que fala mal dos políticos consoante o seu aspecto físico (cada um argumenta com as razões e a espessura com que foi apetrechado), constatei, entre outras pretensões que visam disfarçar todo um terroir fértil em vacuidade, que a dita exercita onanismo à razão de três por cada quatro posts. Nada contra, a hora e o local do recreio são quando e onde um indivíduo quiser. E se cada um o tem à medida das suas satisfações e das suas possibilidades, a mais não é obrigado. Ademais, há quem retire mais prazer dos dedos nas teclas, que rato em queijaria alheia. Pois bem, entramos no opaco mundo da fantasia.
 
Depois de aturada e exaustiva análise sobre os estudos publicados nas revistas mais emblemáticas, com base em inquéritos (é sempre assim), as fantasias sexuais femininas são tudo menos mansas. Ora, sigamos para o checkpoint:
 
1- Fazer sexo com um estranho;
2- Fazer sexo com dois homens ao mesmo tempo;
3- Ser amarrada e dominada viril e veementemente;
4- Passar por prostituta;
5- Fazer sexo com outra mulher.
 
Estas cinco fantasias são as que mais vezes surgem nos lugares cimeiros do imaginário feminino, muitas outras haverá (que as há, a Mulher é profícua em inventar divertimentos, mas o meu já escasso pundonor impede-me de mencionar), mas fiquemos por aqui que o sortido é tudo menos fino.
 
Penso ser incontestável que o sexo é sobretudo cosa mentale, construção cerebral libidinosa tout court, onde a fantasia, enquanto instrumento desencadeador, constitui plat de résistance. Mas não mais do que isso. Tal como o segredo – que deixa de o ser se dito –, a fantasia sexual deixa de a ser se realizada. Não sou de opinião que não se concretize nenhuma, mas que se pondere muito bem nas consequências, pois, lá está, o prazer advém sobretudo da imaginação e parcas vezes da realização. Fundamental, numa conjugalidade sólida e evoluída, poderá ser então outra coisa: assumir a fantasia perante o companheiro e, em conjunto, brincar em toda a sua plenitude. Afinal, entre quatro paredes, ou entre o céu e a terra, tudo pode ser feito. Pelos vistos, mesmo que o companheiro seja um ecrã com teclas.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

umas para as outras

A pergunta básica era o porquê. Claro, os porquês invadem-nos a meninice curiosa e perseguem-nos porventura até ao lugar final, porque somos assim, porque queremos de tal forma, de onde provimos, para onde vamos, será que voltamos, porque fazemos muito além do que é básico à sobrevivência, e adiante. Fico feliz com curiosidades, revelam-me sempre uma busca continuada de justificações que não surgem, como uma eterna procura, um remédio sem efeito, uma incessante insistência, um móbil disfarçado. A ideia era entender a culpa, por inútil que pareça, acaba sempre por ser um caminho. - Minha ou dele?, pergunta-me de olhos arregalados, os delas nos meus, os meus no vazio da pesquisa de explicações que por vezes encontro na janela aberta à rotunda da cidade (o movimento revela-me sempre lucidez de consciência). Ela afirma-me com certeza quase absoluta que o avanço se encontra nela e na sua própria valorização. Ele por sua vez afiança-lhe que a segurança está nele, que soube fabricar o casulo onde ela hoje se aninha, sem ventos, sem tempestades. É importante, a indagação da culpa é de extrema importância e faz toda a diferença na decomposição da situação: ou estamos perante uma mulher que recuperou de uma lesão forte, ou perante um engenhoso construtor (ainda que benfeitor). Ele que me perdoe, mas para o caso não aprecio obras de arquitectura, creio antes no empenho árduo da evolução. 

(Mas é claro, é claro que a finura do engenho poderia funcionar, e sendo assim apeteceu-me indicar-lhe que o fizesse. Um simples – Meu querido, és um artista, fica sempre bem no topo do bolo de qualquer paixão. Faz com que o alvéolo se torne ainda mais apetecível, é tudo uma questão de subtileza emocional, a mais nobre das artes dominadas pelo sexo feminino. Não deixei que a minha vertente mulher me invadisse o espírito ao ponto de inquietar o meu desempenho profissional, pois claro, ponderei com ela a verdade, centrei-me na perspectiva da evolução coerente que me mostra semanalmente, brindamos juntas ao valor do progresso. Saí feliz com a minha competência, e ao mesmo tempo infeliz com a minha complacência: deveríamos sempre ser umas para as outras, sempre!)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

vácuo ou semelhante

Gostam muito de se embrulhar em papelotes coloridos, é o que é. O laçarote farfalhudo serve de graça no topo de tudo, mira-se ao longe e procura-se um retoque, compõe-se a indumentária final e lança-se ao mundo. Não interessa o que é, importa lá isso para gente que se preze. Relevante é o acabamento final, divulgado por sinais razoavelmente percetíveis. A cruel verdade fica lá dentro, pois. Abafada, morta, acabada por uma pele que não a deixa transladar do corpo para fora. 

(Admito sonhos impossíveis, vontades incontroláveis, miragens irrealizáveis, ilusões fortes e desejos censuráveis. Gosto pouco, muito pouco, de necessidades persecutórias de transmissão de estados falsos. Perdoem-me lá qualquer coisinha, andem. É mania de profissão.)

terça-feira, 8 de abril de 2014

(não se iludam) somos um número

Somos um número indiferenciado na matemática do mundo. Representamos uma ínfima parte de uma totalidade que se gere em torno de dinheiro, interesse, objectivos criteriosos e definidos a medidores exactos de satisfação e qualidade de vida, um mísero indicador vazio de conteúdo e consistência. A nossa função é mantermos o significado produtivo da eficiência no bem comum, competentes no emprego, complacentes na amizade, infalíveis na sociedade. Nas épocas de prova tudo se mede em unidades de avaliação, e no caso de excessos ou desleixos somos preteridos em prol de um outro número mais favorável, na relação qualidade preço. A fronteira entre sermos gente ou só gestores mora aqui, na vertente emocional que consigamos impelir aos actos. Curiosamente, exactamente a mesma que nos torna vulneráveis à acção conjunta da administração mundial. 

sábado, 5 de abril de 2014

amor tardio

Morreu devagarinho numa tarde fresca de Primavera. Despediu-se do mundo com as palavras certas, pediu os zelos pretendidos, elegeu vestes, adornos e fotografia que acompanharia o corpo. Não pretendia reduzi-lo a cinzas, jamais lhe praticaria tamanha atrocidade, nem mesmo depois de morto. A imagem do caixão a arder na Praça de São João remexia-lhe o estômago fraco, repugnava-lhe as entranhas, assustava-lhe a alma que viveria para sempre apoiada ao retrato que levava consigo. José Maria nunca a tinha a desposado. Deitara-lhe um olho em novo, uma mão furtiva pouco depois, tomara-a numa tarde de soalheiro na eira da terra, por entre o milho seco na tarde da desfolhada. Nessa noite os jovens e os menos jovens cantaram na monotonia do compasso, mas na hora do caldo verde, Maria sorria feliz. O moço partiu em ofício pouco depois, num dia de tempestade, nunca mais se viu. Ninguém da aldeia soube do sucedido, casou bem casada com a preferência da família e rumou para longe, honrou o nome e a vida, tocava piano como ninguém. 

No dia da morte socorreu-se de quem se abeirou dela e pediu auxílio: - salve-me desta vida, não posso mais com ela. Cole-me ao corpo o retrato de José Maria e deixe-nos secar juntos no cemitério. O vento abençoará na morte, o que em tempos me levou. Nunca mais o largarei. 

(Às vezes é preciso morrer para querer ser feliz.)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Lua de Abril (... e mais uma perguntinha básica)



Contrariamente ao que se pensa, não é na Lua Cheia que melhor se observa a superfície lunar. É em todas as outras fases (excluindo a Lua Nova). Acontece exactamente o mesmo com quem observa a Terra do céu, apesar das nuvens. A razão é simples: quando o Sol incide em toda a superfície visível, este encontra-se quase no Zénite, ou seja, a pique, e assim praticamente não há sombras reveladoras dos montes, cordilheiras e vales - no caso da Terra - e picos, crateras, abatimentos e outros relevos - no caso da Lua. Por falar em Lua Nova, pergunto: que fase é essa em que não vemos a nossa amiga? Será que nesses dois ou três dias não passa por cima de nós? Será que não é iluminada pelo Sol? Estará escondida pela mão invisível dos mercados?  Hum? Digam o que acham. Sem medos.

sábado, 29 de março de 2014

causas nossas

Não aprecio a expressão que afirma em força andarmos todos aqui para o mesmo. Não andamos, cada um anda para e por determinadas coisas, muito além das básicas necessárias à subsistência. As primárias sim, são comuns, mas a vida individual é a excepção, não a generalidade, o mediano, a moda, o hábito exagerado. Descobrir as próprias causas talvez seja um dos nossos maiores desafios. Porque as causas dos outros desenham-se à légua, à distância de um Oceano, ao intervalo de uma vida, à rapidez de um segundo. Depois à noite, nas horas de vazio, surgem os nossos porquês. O quase sono tem destas coisas, entrega-nos à mercê da dúvida e abandona-nos ao ritmo certo do respirar continuado que se escuta, junto ao bater do coração (odeio sentir a funcionalidade precisa do meu corpo. Repulso o vazio exagerado que me permite a atenção focalizada nos batimentos cardíacos, nas entranhas revoltadas, nas palpitações descontroladas). Ainda assim e mesmo à noite, concluir coisas nossas nem sempre é fácil nem certo. Fácil fácil, dizia eu,  é o móbil distante. Invejável invejável, são os sonhos cor de rosa dos outros. Condenável condenável, é a vida alheia, fácil e escorreita, sem entraves ou barreiras, alçadas ou embaraços. Quanto a nós, é certinho e direitinho, não há como enganar: seguimos sempre em frente e sem olhar para a retaguarda, atravessamos estradas sem espreitar os autocarros, não perdemos tempo em acelerar na direcção dos sonhos nem das ambições momentâneas, mesmo que para isso atropelemos os princípios e os cuidados. E por vezes, tantas vezes, sabemos lá para onde vamos, desde que o bem estar se assome, mesmo sem olhar a meios. 

Deveríamos instaurar uns minutos de reflexão por dia para pensar nisso, a iniciar na escola durante a hora do lanche, que a mesa, quanto a mim, sempre foi boa conselheira. Entre o pacote de leite e o papo-seco, todos os jovens deveriam pensar no porquê de estarem cá, no caminho que querem escolher, nos ossos que escolhem roer. Deveríamos falar, pensar e sentir desde cedo, sobre quanto custa uma empreitada, de quantos cestos se faz uma vindima, do número de passos que são precisos para chegar ao topo da cidade, dos livros que precisamos de ler para conhecermos alguma (pouca) verdade. Mas não se pensa muito nisso. Apostamos o mundo e o apuramento dos sentidos na direcção da sapiência monitorizada, enchem-se as cabecinhas de experiências feitas sem necessidade de comprovação, dotam-se os jovens de fins comuns e desvalorizam-se muitas vezes as diferenças individuais. Ensina-se que mais depressa se chega ao cimo com o compadrio do que com a subida a pulso, que perdeu na escalada do oportunismo, o individualismo sobrepôs-se ao social e o aprumo morreu ressequido, na berma da estrada de um baldio qualquer. 

Um dia, bem perto, andaremos quase todos para o mesmo sim,  o que é de uma tristeza tremenda. Exceptuando talvez um conjunto magro de excepções à regra, aquele número que olha ao contrário e que usualmente está a caminhar para o lado inverso de tudo o que parece fazer sentido. E o que será que faz sentido?