A pertença é anómala por defeito de existência, não pertenço sequer a mim própria mas sim à comunidade, e o afastamento que me permitiria o delírio da liberdade fariam de mim uma exclusão. Talvez por isso considere vazia de conteúdo a vontade de tomar posse de alguém, assumir propriedade de um corpo e de uma mente que não a minha, permanentemente, como se a realidade deixasse margem para abusos deste género fantasioso. A profundeza do amor não se mede em centímetros, apetece-me sempre dizer às dúvidas sobre o assunto. A riqueza da cumplicidade não se avalia em balanças de prato nem em escalas precisas de um manómetro digital, tal como a doçura da presença não se tabela em unidades concretas de horas de colo, ou em beijos distribuídos nas alturas de olhar para a felicidade (sim, por incrível que pareça podemos olhar para a felicidade). Ainda assim gostaria muito de saber da possibilidade de tal averbamento. Gostava de sentir o cheiro de me encostar como um bebé num regaço que me guiaria, numa mão que me direccionaria, numa mente que me organizaria à sua luz e semelhança ( que sossego...). Temo porém que as despesas inerentes ao processo fossem grandes demais. Num ápice chegaria ao vazio interno, não tenho dúvida, e à perca do que mais preciso se consegue com o tempo: a consistência. Não, não há outra coisa maior, ou pelo menos mais pura. É que só a partir dela crescem todas as divindades, incluindo sonhos, Deus, crenças e todos os santos, que moram ou não moram no nosso mundo interior de acordo com o que fazemos dele. Se estes seres, omnipresentes, são ainda assim dependentes, imaginemos o resto. Cresçam por, e para vós, chego a dizer, as pessoas entram quando houver lugar para elas. Cama, mesa, colo harmonioso e roupa lavada, com frescura primaveril. Fora disso, não há onde morar.
(O Paulo tem a mania que deixa o blog sem encanto. Sem charme masculino e sem fotografia. Aposto que já passa e que volta num instante...:))



