(imagem retirada de Psicopatos)
Faz-me lembrar umas tantas coisas que oiço outras tantas vezes. Não sei bem onde fica o lugar que nos pertence, a nós, pessoas, ainda que possamos ser pais. O enfoque aqui vai para o masculino, mas o cerne da questão é mais abrangente e ultrapassa géneros, cada um com os seus motivos distintos ligados à evolução da sociedade, como o texto tão bem explica. E agora, onde fica o nosso espaço para além da paternidade e da maternidade? Permanece algures num sítio onde a culpa é dominante como a de um gene castanho e teimoso, onde o tempo que se rouba a um lado para se dar a outro adopta o castigo da falha, e onde o centro da vida passa ser um lugar externo para além do nosso corpo, mas que ao mesmo tempo, pela dimensão do sentimento, ocupa o lugar todo do interior.
A maternidade e a paternidade são um papel ingrato por excelência. São a exigência de um contrabalanço permanente e rigoroso, são a lei do amor e da subsistência, são uma harmonia entre ser uno e dual, ao mesmo tempo e por tempos permanentes. E quem se preocupa com os adultos nestas exigente função? Pouca gente, muito pouca gente, até porque a vergonha de se pensar em si próprio quando se é pai ou mãe é demasiado pesada para a sociedade admitir, pelo que seremos sempre o fim inexistente de qualquer contenda. A questão central é a consequente (in)sanidade mental decorrente. É a conservação de uma identidade capaz de fazer chegar aos filhos o equilíbrio ideal, aquilo que tanto queremos e onde tantas vezes falhamos.
Como tal, e quando me solicitam parecer no que confere ao assunto, recomendo sempre poucas leituras cientificas. Aconselho antes uma vivência alicerçada ao saber brilhante do senso comum, das mãos e dos olhos, sem balizas rigorosas impostas por especialistas empenhados no rigor da matemática, porque educar, felizmente, não tem compêndio de preceitos (muito embora haja inúmeras instruções). Indico sempre a preponderância do bom e do médio em detrimento da ambição do correcto, até porque a perseguição do perfeito acarta distúrbios gástricos impertinentes, más disposições e enxaquecas, excessivas preocupações neuróticas e destemperadas, eventualmente actos impróprios de tamanha condição. Toda a gente sabe que o equilíbrio de quem sustenta é parte considerável da estabilidade de quem recebe, é um reflexo importante, é uma continuidade principal. Daí que os pais e as mães devam, também eles, ser alvos de tolerância, e não sacos de pancada do mundo só porque ainda se acham gente, porque precisam de ver a bola ou de passar uma tarde de piscina e de sol, sem berros, gelados derretidos, e muitas bombas ensurdecedoras.
Os pais e as mães da evolução assumiram uma tarefa marcante. Resolveram centrar a sua acção nos filhos e na carreira, mas precisam ainda de ser pessoas, ou seja, necessitam de manter a sua importância e a da relação, querem a restante estabilidade familiar, servir jantares a amigos e ter cuidado com o corpo e com a alma. Para nossa salvação, sinto-me à vontade para vos dizer que têm direito a isso. As crianças crescem bem num ambiente normal, e não precisam de tudo. Precisam só de um quanto basta.
Winnicott sabia e dizia, aqui em favor dos filhos: sejam apenas suficientemente bons. Eu diria o mesmo, mas também a favor dos pais.
Os pais e as mães da evolução assumiram uma tarefa marcante. Resolveram centrar a sua acção nos filhos e na carreira, mas precisam ainda de ser pessoas, ou seja, necessitam de manter a sua importância e a da relação, querem a restante estabilidade familiar, servir jantares a amigos e ter cuidado com o corpo e com a alma. Para nossa salvação, sinto-me à vontade para vos dizer que têm direito a isso. As crianças crescem bem num ambiente normal, e não precisam de tudo. Precisam só de um quanto basta.
Winnicott sabia e dizia, aqui em favor dos filhos: sejam apenas suficientemente bons. Eu diria o mesmo, mas também a favor dos pais.





