© Paulo Abreu e Lima

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Idade (i)

Uma pessoa apercebe-se que já não vai para nova quando antes sonhava que voava sobre montanhas, telhados e falésias e agora sonha que acabou de correr os cem metros como uma flecha sobre uma pista de tartan.

Vida Selvagem em Portugal (2)

Flamingo - Phoenicopterus roseus

domingo, 1 de junho de 2014

os suspeitos do costume

(imagem retirada de Psicopatos)

Faz-me lembrar umas tantas coisas que oiço outras tantas vezes. Não sei bem onde fica o lugar que nos pertence, a nós, pessoas, ainda que possamos ser pais. O enfoque aqui vai para o masculino, mas o cerne da questão é mais abrangente e ultrapassa géneros, cada um com os seus motivos distintos ligados à evolução da sociedade, como o texto tão bem explica. E agora, onde fica o nosso espaço para além da paternidade e da maternidade? Permanece algures num sítio onde a culpa é dominante como a de um gene castanho e teimoso, onde o tempo que se rouba a um lado para se dar a outro adopta o castigo da falha, e onde o centro da vida passa ser um lugar externo para além do nosso corpo, mas que ao mesmo tempo, pela dimensão do sentimento, ocupa o lugar todo do interior. 

A maternidade e a paternidade são um papel ingrato por excelência. São a exigência de um contrabalanço permanente e rigoroso, são a lei do amor e da subsistência, são uma harmonia entre ser uno e dual, ao mesmo tempo e por tempos permanentes. E quem se preocupa com os adultos nestas exigente função? Pouca gente, muito pouca gente, até porque a vergonha de se pensar em si próprio quando se é pai ou mãe é demasiado pesada para a sociedade admitir, pelo que seremos sempre o fim inexistente de qualquer contenda. A questão central é a consequente (in)sanidade mental decorrente. É a conservação de uma identidade capaz de fazer chegar aos filhos o equilíbrio ideal, aquilo que tanto queremos e onde tantas vezes falhamos. 

Como tal, e quando me solicitam parecer no que confere ao assunto, recomendo sempre poucas leituras cientificas. Aconselho antes uma vivência alicerçada ao saber brilhante do senso comum, das mãos e dos olhos, sem balizas rigorosas impostas por especialistas empenhados no rigor da matemática, porque educar, felizmente, não tem compêndio de preceitos (muito embora haja inúmeras instruções). Indico sempre a preponderância do bom e do médio em detrimento da ambição do correcto, até porque a perseguição do perfeito acarta distúrbios gástricos impertinentes, más disposições e enxaquecas, excessivas preocupações neuróticas e destemperadas, eventualmente actos impróprios de tamanha condição. Toda a gente sabe que o equilíbrio de quem sustenta é parte considerável da estabilidade de quem recebe, é um reflexo importante, é uma continuidade principal. Daí que os pais e as mães devam, também eles, ser alvos de tolerância, e não sacos de pancada do mundo só porque ainda se acham gente, porque precisam de ver a bola ou de passar uma tarde de piscina e de sol, sem berros, gelados derretidos, e muitas bombas ensurdecedoras.

Os pais e as mães da evolução assumiram uma tarefa marcante. Resolveram centrar a sua acção nos filhos e na carreira, mas precisam ainda de ser pessoas, ou seja, necessitam de manter a sua importância e a da relação, querem a restante estabilidade familiar, servir jantares a amigos e ter cuidado com o corpo e com a alma. Para nossa salvação, sinto-me à vontade para vos dizer que têm direito a isso. As crianças crescem bem num ambiente normal, e não precisam de tudo. Precisam só de um quanto basta.

Winnicott sabia e dizia, aqui em favor dos filhos: sejam apenas suficientemente bons. Eu diria o mesmo, mas também a favor dos pais. 

sexta-feira, 30 de maio de 2014

o estafermo do caminho

Trabalho desde que me lembro de ser gente. Cumpro os meus imposto, pago as minhas prestações, liquido antecipadamente contribuições autárquicas e outras incumbências impostas pelo Estado. Ralho, ralho de forma acesa com quem não aprecia trabalhar, com quem vive à conta das fontes quase secas do País, critico quem me foge do trabalho que proponho porque o horário obriga a fins-de-semana, valha-me-Deus que jamais trabalharei ao Domingo. Irrita-me quem espera que a vida passe, quem julga que é no ócio que se encontra a virtude, quem espera em vez de procurar, e por conseguinte esforço-me na maioria dos dias da minha vida. Saio quase sempre cedo e chego por vezes tarde, aguento com ansiedades até horas tardias, escuto o drama do Parkinson precoce em tardes de Domingo soalheiro e por vezes, quase sempre, fico para trás no ranking das minhas prioridades. Depois, num fraco momento em que a realidade liga a minha vida, com um cabo directo, às finanças e ao País, descubro que o fraco excedente, o que apartei com jeito e paciência, o que poupei em devaneios por mero cansaço ou por rigor de responsabilidade, marcha directamente para os cofres do Estado! Não, não vou mudar de lado, e certamente também não mudarei de País. Mas devagarinho, a pouco e pouco, vou compreendendo melhor o povo que prefere ficar a ver, em vez de participar. Valha-nos isto, tudo tem um lado bom, e eu sou uma pessoa que precisa de entender a realidade circundante para poder viver nela. Acabei de dar um passo significativo nesse percurso importante. O caminho, esse estafermo de uma figa, faz-se sempre caminhando. 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

etapas

O dia da criança que se aproxima serve para celebrar a meninice e deveria servir para colocar a pensar quem se esquece que a vida tem um percurso. O trajecto começa quando nascemos e acaba quando morremos, e no interregno devem haver as fases dirigidas a cada ciclo que definiram por e para cada um de nós, algures num território superior ao intelecto. O meu, de fraca existência mas um tanto ou quanto ávido, apela-me para a atenção a dispensar aos cursos na sua amplitude, e começando por elas, as crianças, avalio da seguinte forma: todas deviam ter direito à infância. E direito à infância não é só direito a comida e a necessidades básicas, mas também a educação e a colo, a erros e a sucessos, a frustrações ultrapassadas e a brinquedos. E a tempo, especialmente a tempo, à perfeita autonomia de tudo quanto pertença aos adultos (isso é para os adultos). Quando olho para os olhos de uma criança atarefada ou mazelada por algum tipo de violência, sinto que lhe roubam o que de mais precioso a criancice pode ter. Ser criança é poder brincar só porque apetece, é comer gulodices mesmo quando não se pode, é ajoelhar as pernas na terra suja e saltar para dentro de poças com lama, e é, no fim disso tudo, ter um lugar para regressar.  É escolher que o céu é laranja e que o mar é cor-de-rosa, que os peixes falam e que as vacas, para além de leite, dançam nas quintas das avós, de manhã e ao entardecer, nos dias que não têm fim. 

Quando uma criança é sujeita a muitas obrigações cedo de mais, formata o cérebro pequenino em linhas rectas e direitas. Constrói uma realidade certa e plana, habitua-se a regras que não se podem quebrar, cria um interior rígido e estereotipado, tem dificuldade em gerir a diferença, a alternativa, a escolha acertada (se é que pode optar). A criança privada de amor pode escolher morar por dentro. Pode encontrar nos ninhos do próprio sangue o colo que nunca vem, pode encontrar no ar que respira a razão do seu viver, pode escolher estar sozinha à companhia alternada, de alguém a quem não dói. A criança violentada pode desistir de ser. Pode optar por respirar baixinho na ânsia do cantinho, pode falar para dentro na tentativa do esconderijo, ou pode em vez disso mostrar que está ali, que é gente, que cresceu e apareceu e que entretanto, com o tamanho dos anos e a força da vida, pode mudar o mundo. E pode ser alguém que se veja e que se sinta, pelo melhor ou pelo pior, desde que a vejam em papel de acção.


Acho que em plena actualidade ainda se pensa pouco na consequência. Ainda se age sem pensar no passo seguinte, ainda se imputam aos jovens e às criancinhas culpas que não são delas mas de um assalto à mão armada, cometido pelo povo, atarefado a atrapalhado em triunfar na vida e em vencer contendas.

Dai em diante, também sem grandes debruces, é sempre a andar vida afora. Não se quebram ciclos e como tal ninguém perde tempo a pensar  na importância da etapa. Quase todos nos centramos, mais ou menos, no jorro estabelecido (a algum local chegaremos). Lá, na beira da morte, a dependência e a doença também se encaixam numa etapa sem vida própria, um terreno baldio, um local  bafiento e formatado ao fim. Aquele onde se escolhe, dias antes e já sem dedicação, a mortalha adequada à situação. Lisa, sem tons garridos, correcta, a roçar a perfeição.

terça-feira, 27 de maio de 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

como as cerejas

A minha bisavó vendia cerejas. Sempre poucas caixas - dizia-me -, caixas a mais dá um ar de fartura, fartura a mais é demasia. Pousava a caixa na berma da estrada, retornava à pobre casinha que existia ao alto, sentava-se a tecer tapetes entrançados e levantava a vista quando alguém afrouxava, de carro ou apeado. - São frescas senhores. Só tenho essas, é de aproveitar. Rosalina de baptismo e Francisca por minha manifesta vontade (em virtude do casamento com Francisco), era mulher de negócios. Mais magra do que uma Olívia Palito, maior do que a aldeia toda junta, uma enormidade, um avanço na era dos homens, uma matriarca, uma autêntica excepção (não lhe herdei coisa nenhuma).

Vou falar delas, de mulheres. O facto insignificante de eu ser uma delas não me tira nem me dá direitos, permite-me unicamente uma visão ampla vista de um dos lados, o lado de cá, inserido num mundo de outros locais, a minha ideia do mundo, e ainda de outros géneros, o lado de lá.

A analogia à cereja, será por vós perdoada, julgo eu, caras senhoras. É claro que não se vendem mulheres em caixas de madeira, nem mesmo as mais maduras, as grandes, as que se denominam de gente da séria e da boa. É certo, tenho cá as minhas cismas, é um caso pertinente, passível de avaliação. E por isso não estimo superioridades ideadas, baseadas na idade e na suposta consistência e aparência, não aprecio postos apenas ligados aos anos passados, ao local onde se julgou chegar. Uma limitação minha, pode ser o facto. Mas é que surge-me ainda, não raras vezes e no seguimento, a questão da elegância. Um termo abrangente que pressupõe descrição, não há distinção sem o tal do saber estar e do saber ser, são requisitos subsequentes. Neste campo a noção de valor excessivo e de oferta excessiva, e voltando à cereja, pode ser um problema maior. Pode entregar a mulher a um burlesco absurdo e desapropriado, capaz de tolher bons sapatos de salto, saias travadinhas, pérolas verdadeiras e casacos de bom corte (para além das palavras caras misturadas com um jeito perspicaz e sapiente de gamar a gíria adolescente). As mulheres que julgam que é assim que são muito grandes, podem até estar enganadas. O tamanho da grandeza é coisa relativa, mais ou menos como o peso da beleza, o poder da fama, o valor do dinheiro e a força da atracção.

A inteligência emocional é neste seguimento uma verdadeira questão iminente, que invoca consideração. A excessiva auto-confiança, conjuntamente com a entrega em modo de urgência, sem despacho, requerimento, selo ou envelope fechado, pode ser um caso de análise, quase tão grave como a falta de estima própria. Pode fazer com que a abastança da pompa aniquile a genuinidade e o outro lado da vontade. Tenho para mim que não há no mundo maiores enganos do que este: o da presunção de se ser bom, fantasioso e construído, consciente, muito mais do que aspirante, do que se é e do que se pensa ser. Dá vontade de dizer a essas mulheres, que não se devem medir aos palmos. Nem aos anos, nem aos quilos, nem à formação académica ou a devaneios de altivez. Não há unidades de medida exacta quando se avalia gente, senhoras, há um conjunto de variáveis intervenientes, há quem dá e há quem recebe, há quem queira e há quem não queira, legitimamente e sem recurso a construção. O resto é pura imaginação.


Só para terminar, e voltando às cerejas: muita oferta baixa o preço e a vontade do comprador. Muito pregão e o povo não pega, não aprecia, cheira a barato, sabe a oferecimento à-toa, parece pouca procura e sobejo, sente-se congestão. No fundo o que se consegue, vai no sentido oposto ao pretendido (parece-me, claro, longe de mim querer ensinar).

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eleições Europeias: Qual é a pressa?

Todos nós temos uma costela masoquista – há quem a tenha exuberante e quem a tenha bem escondida. Ora, o que é que a minha me diz? Que quem devia ter ganhado as últimas legislativas era o PS mai-lo seu timoneiro feroz. É uma questão de princípio: quem estraga e suja tem o dever de consertar e limpar. Neste sentido, Sócrates foi muito mais coerente e corajoso do que Guterres ao decidir recandidatar-se. Para masoquismo do meu masoquismo, perdeu. E foi aprender umas cenas em Paris exalando aos seus indefectíveis um promissor Je t’aime. Não tenho a menor dúvida porém que, se tivesse ganhado com maioria absoluta, as suas medidas não seriam muito diferentes das do actual PM. Com uma não despicienda diferença: não ficava careca – o Luís compunha-lhe o capachinho. E à semelhança dos "PEC em PEC", teríamos um chorrilho de "resgate em resgate", ou "chumbo em chumbo", mesmo ao Domingo.

Este governo tem muitos defeitos, mas é preciso lembrar que o que muitos dos insuspeitos ex-governantes, que muito contribuíram para este estado de desgraça, chamam de copiosa incompetência,  não foi mais do que a aplicação duramente negociada das medidas exigidas pelos credores para libertarem as respectivas tranches de carcanhol a cada avaliação. E, ainda não esquecer, que se hoje os impostos são pornográficos, em grande parte deve-se às interpretações arqui-executivas do Tribunal Constitucional.

O que é que isto tem a ver com as eleições europeias? Tudo. Se querem castigar esta Europa insensível e se não têm memória curta, votem! Em branco, no Marinho e Pinto ou no José Manuel Coelho, o taralhouco da Madeira, tanto faz; todas estas opções são as mais consentâneas com as nossas participações de excelência no Festival da Eurovisão. Ah, mas vós quereis vencer, mostrar a Conchita que há em vós, e empunhar o encarniçado cartão amarelo ao governo. Porreiro pá, votem no PS. Mas porque sois mais masoquistas do que eu e quereis mesmo um novo resgate, certo? Certo. Contudo, qual é a pressa?


quinta-feira, 22 de maio de 2014

doce limão


A vida é feita de pequenos nadas? A vida é feita de pequenos nadas que valem tudo. Um dia bem cedo descobriu, quando a cortina da janela deixou entrar o pequeno bichinho que voava sem direcção e lhe encontrou o nariz. Ele sacudiu-lho ao de leve, ao de leve é a expressão certa para explicar carícias, se é que se explicam. Era a segunda ou a terceira noite, sabe lá. Era uma das primeiras, isso sabe. Poderia ter sido outra tanto tempo depois, é o ar que se respira sempre pelo peito que engrandece o sentimento (tempos depois). O peito cheio de pequenos nadas, como a carícia que cuida a ligação exacta entre a pele e o coração ( a pele vazia de tudo é um lugar sem dono). Ela sorriu com os dois olhos e deixou que o bicho voasse para longe ao som fresco da cortina aberta. Encostou a cara no travesseiro e adormeceu outra vez devagarinho, não há pressa quando se respiram pequenos nadas. A manhã não acabou naquele dia, era sempre princípio até ao fim do entardecer. As conversas, soltas, eram simples e desconexas. – Que estranho, dizia ele, ainda agora te espreitei de madrugada e o tempo já passou. Olha, que lindo pássaro, respondia ela. Voa para longe do mar, amanhã deve chover.Vamos a pé? perguntou ele. – Gostaria de ir de mão dada e devagar. Se pudesse ser apanhávamos limões pelo caminho, responde. - Limões? - Sim, limões. Gosto tanto do sabor acre e doce da limonada... 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Lua de Maio (como os nossos olhos a vêem)


Já me confrontaram algumas vezes sobre o facto de as fotografias da Lua que aqui publico não corresponderem à imagem que se vê a olho nu. Indagam se faço alguma alteração na câmara por forma a ver-se com mais detalhe e sem aquele brilho todo. Respondo que a máquina fotográfica tem um sistema óptico muito idêntico à visão humana; e passo a explicar: quando olhamos para o Céu, tendemos a focar para o infinito. Aqui, a Lua surge muito luminosa e nem sequer vemos os seus mares e crateras – sem falar na auréola difusa que a circunda. Esta imagem está estampada na foto acima. A partir do momento em que apenas focamos a Lua, esta já aparece mais definida; até conseguimos ver algumas manchas e a coroa luminosa desaparece – foto seguinte:

 
Experimentem, ainda assim, continuar a olhá-la fixamente durante um a dois minutos… Passado algum tempo vemos muitos mais detalhes e constatamos que a bola branca que antes parecia quase um sol está cheia de manchas mais escuras e outras mais luzentes – terceira foto:


 
Afinal o que aconteceu? Uma adaptação à luz durante a convergência. Ou seja, no escuro as nossas pupilas (as bolinhas escuras dos nossos olhos) estão mais abertas, mais dilatadas, por forma a captar toda a luz possível. Quando fixamos a Lua, de brilho intenso, elas vão progressivamente diminuindo na exacta medida em que para focarem aquele corpo luminoso têm de captar menos luz. Neste sentido, as pupilas são o diafragma da lente da máquina fotográfica. E a fantástica diferença é que a visualização onde é produzida a imagem é captada no sensor, no caso da câmara; e no nosso cérebro, no caso dos nossos olhos.

Esta divergência leva-nos a uma outra questão, muito debatida no mundo fotográfico: sendo a fotografia, antes de mais, uma forma de comunicação e de expressão, deverá ser o mais fiel ao que realmente vemos e queremos transmitir ou deverá ir muito além e revelar o que sentimos? Dito de outra forma, deverá figurar no âmbito do jornalismo ou no da arte…? Fica para a próxima.

terça-feira, 20 de maio de 2014

the end

Acredito na harmonia como base da construção e autorizo os números, os meus principais inimigos, a comprovarem-no: mais com mais dá mais, menos com menos dá mais, menos com mais, depende.  Na construção da natureza existem princípios básicos que permitem a continuidade, sempre indexados à concordância e complementaridade da diferença, as mulheres amparam os homens, por exemplo, e os homens amparam as mulheres. As mulheres amparam no sentido de cuidar, os homens amparam no sentido de proteger. Não acredito na indefinição de papeis, na eficácia omnipotente independente do género, em capacidades genéticas que se aprimoram a despropósito. Acredito no ajustamento, no crescimento e na resiliência, e por isso creio na adaptação necessária ou evolutiva em sentidos dispersos. É a vida, a individualidade, o carácter, a resignação. Ainda assim, e além caminhos, não podemos nunca abdicar da harmonia indispensável à coexistência. É por isto (e por muito mais) que a violência doméstica me assusta. É por isto que não consigo olhá-la de frente e tratá-la por tu, dar-lhe um soco e derrubá-la, matá-la com teorias e enterrá-la, e prefiro manter-me na incredulidade quando me falam em recomposição. A partir do momento em que se destrói o respeito e a perda de consciência de papéis se assoma, não há retorno. Não há frase que acalme, não há esperança que valha, não há regresso possível ao papel principal. The end. 

(O sonho, esse, pode não morrer nunca. Nem sei se o venere pela maravilha da fantasia, se o amaldiçoe pela pobreza da limitação.)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

a dor


(Escultura de Alexandre Farto, imagem retirada do google)

Maria, o nome de todas as mulheres, vive com medo. Vive com medo de que os dois filhos precisem de viver sem ela, a sensação de não ser substituível é tremenda ao ponto de doer. Dizem os entendidos que a dor é o que nos salva das coisas ruis. Que é o sinal de alerta por excelência, o indicador de que a continuidade poderá não ser viável por si só, a prova de que o recobro é preciso para prosseguir. Maria sabe disso. Foi-lhe dito em tempos, como se os milagres não se resumissem à ressurreição, à cura e à salvação, e a dor constituísse um prodígio que se dá em prol da vida, do crescimento, da evolução. Concordo com Maria. Concordo com o facto de que as mães são insubstituíveis aos filhos, concordo também que a dor é a maravilha que nos pode salvar das circunstâncias, o símbolo, o sinal. Sei porém que quando é mental temos tendência a desprezá-la como quem despreza o lixo, a morte, a ruína e a desgraça. Gostamos de apagá-la do rosto, de pintá-la de cores, ousamos esconder dela o que pudermos e socorrer os olhos, as palavras, as ligações sinápticas que nos autorizam a pensar, os risos que nascem sem saber. É normalmente aqui que a toda-poderosa se desforra, se imiscui na sua autoridade e transparece sem que se queira em cada bocado de corpo, em cada lágrima escorrida, em cada lábio trémulo, em cada gesto vazio. 

Tratar a dor mental com desrespeito é uma profunda manifestação de cegueira. Essa dor é para ser atendida, acarinhada, sentida e acomodada. Só assim cumpre a resolução a que se propõe, e antes disso é impossível progredir. Depois não sabemos, mas isso não saberemos nunca.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A entropia da sobrevivência



Precisava com urgência de lhe descobrir defeitos e pouco importava de que espécie ou género fossem. A ideia era: célere e qualquer um. De carácter, de moralidade, de sentimentos.
 
Em 15 de Outubro foi asquerosamente injusta comigo, recordou. Quando chegamos a casa deu primeiro comida ao cão e só depois de se desmaquilhar perguntou quem ia fazer o jantar. Um desmazelo imperdoável, sabia que eu não tinha almoçado nem ingerido nada durante todo o santo dia. O descuido era letal? Não, as bananas e os peros no cesto olhavam-me com salutar apetite. Então, seguiu para o dia 11 de Dezembro. Nesse fatídico dia, ela insinuou que eu desprezava as criancinhas dos outros. Uma infâmia, um disparate, uma sentença maldosa, recordou. O Duarte, filho da Cristina, bateu com a bengala de pau-santo e encastres de marfim no pug, meu cãozinho, uma doçura-de-morrer. Quando vi aquilo, fulo, dei um grito tão forte ao puto que este inverteu os beicinhos sorridentes e, em lágrimas grossas a jacto, se enrolou nos cortinados. Pouco depois, ao almoço, enchi o meu copo com a última Coca-cola da garrafa e perguntei se ele, o puto charila, não queria aguinha da torneira. OK, concedo: primeiro as criancinhas e depois os cães. Mas… calma, e no referido dia 15 de Outubro? Primeiro os cãezinhos doçuras-de-morrer e depois os namoradinhos sem comer o dia inteiro…? Pois, mas havia as safadas das bananas e os imbecis dos peros que me fitaram gulosos em pirâmide.
 
Uma chatice. Seguiu então consecutivamente em busca de mais dias e de outros desapontamentos. Aliás, os desaires averbados em sua memória pareciam sortidos e, certamente, um seria suficiente. Suficiente e necessário, que ela era uma insensível, uma déspota dos afectos, uma tirana que lhe visitava as noites em branco. Precisamente numa dessas noites, em profunda apneia de ideias, saltou da cama: eureka!, defeitos físicos, é isso. Com uns sorrisinhos à Mutley, foi ao extenso arquivo de fotos da sua mais-que-tudo e começou a vasculhar. Ansiava encontrar uma em que ela surgisse com um olho meio fechado, uma madeixa de cabelo virada ao alto pelo vento, um herpes labial, uma borbulha encarniçada purulenta no meio, qualquer coisa que a enfeasse duma forma atroz, repugnante, bruxuleante. Depois, memorizava-a visualmente, melhor, inseria-a na galeria de imagens do smartphone, ou ainda melhor, fazia-a ecrã de fundo… Eheheh, um chaço ao toque de uma chamada, pensava com os olhos raiados de rábia.
 
Em vão. Susana nunca lhe surgiu suficientemente desengraçada para que constasse na engenhoca. Em boa verdade aparecia-lhe sempre linda de morrer; em grande verdade, era mesmo linda de morrer. Ao vivo e no ecrã, Pedro estava condenado a viver com a figura de uma estampa e a justeza, a inteligência e a doçura de uma Mulher. Da sua mulher. Que lhe havia de dar finalmente a tranquilidade das noites. Até porque se não podes com ela, junta-te a ela. Cogitou ainda, ardiloso.

questões de importância

A canção vencedora do Eurofestival tem sido alvo de celeuma, tudo pelo facto de ser cantada por uma pessoa supostamente estranha. Não sei o nome dela, em que género se define, sei apenas que é uma pessoa que canta, que é o quanto me basta para a respeitar enquanto isso mesmo, pelo menos até que me provem que possui características de uma criminosa ou algo semelhante. - Fim do mundo! bradam uns. - Aberração! vociferam outros, do alto do seu estatuto perfeito e irrepreensível. - Anormalidade! gritam ainda alguns normais, tão exemplares quanto a diferença lhes permite que sejam. Fico extremamente calma com estas reacções, devo dizê-lo, todos deveríamos ficar, mostram claramente a natureza humana na sua essência, no seu âmago, na sua estupidez, sem fabulações e sem desculpas. Tudo quanto usualmente costumamos dizer em sentido contrário é que é puro engano, uma construção enredada, uma mentira, uma dissimulação. 

(Pestanas falsas incomodam os púdicos, palavras falsas não. É tudo uma questão de importância)