A minha bisavó vendia cerejas. Sempre poucas caixas - dizia-me -, caixas a mais dá um ar de fartura, fartura a mais é demasia. Pousava a
caixa na berma da estrada, retornava à pobre casinha que existia ao alto,
sentava-se a tecer tapetes entrançados e levantava a vista quando alguém
afrouxava, de carro ou apeado. - São
frescas senhores. Só tenho essas, é de aproveitar. Rosalina de
baptismo e Francisca por minha manifesta vontade (em virtude do casamento com
Francisco), era mulher de negócios. Mais magra do que uma Olívia Palito, maior
do que a aldeia toda junta, uma enormidade, um avanço na era dos homens, uma
matriarca, uma autêntica excepção (não lhe herdei coisa nenhuma).
Vou falar delas, de mulheres. O facto
insignificante de eu ser uma delas não me tira nem me dá direitos, permite-me unicamente
uma visão ampla vista de um dos lados, o lado de cá, inserido num mundo de
outros locais, a minha ideia do mundo, e ainda de outros géneros, o lado de lá.
A analogia à cereja, será por vós perdoada, julgo
eu, caras senhoras. É claro que não se vendem mulheres em caixas de madeira, nem mesmo as mais
maduras, as grandes, as que se denominam de gente da séria e da boa. É certo, tenho
cá as minhas cismas, é um caso pertinente, passível de avaliação. E por isso não estimo superioridades
ideadas, baseadas na idade e na suposta consistência e aparência, não aprecio
postos apenas ligados aos anos passados, ao local onde se julgou chegar. Uma limitação
minha, pode ser o facto. Mas é que surge-me ainda, não raras vezes e no
seguimento, a questão da elegância. Um termo abrangente que pressupõe descrição, não há distinção sem o tal do saber estar e do saber ser, são requisitos
subsequentes. Neste campo a noção de valor excessivo e de oferta excessiva, e
voltando à cereja, pode ser um problema maior. Pode entregar a mulher a um burlesco
absurdo e desapropriado, capaz de tolher bons sapatos de salto, saias
travadinhas, pérolas verdadeiras e casacos de bom corte (para além das palavras
caras misturadas com um jeito perspicaz e sapiente de gamar a gíria adolescente). As mulheres que julgam que é assim que são muito grandes, podem
até estar enganadas. O tamanho da grandeza é coisa relativa, mais ou menos como
o peso da beleza, o poder da fama, o valor do dinheiro e a força da atracção.
A inteligência emocional é neste seguimento uma verdadeira questão
iminente, que invoca consideração. A excessiva auto-confiança, conjuntamente
com a entrega em modo de urgência, sem despacho, requerimento, selo ou envelope fechado, pode ser um caso de análise, quase tão grave como a falta de estima
própria. Pode fazer com que a abastança da pompa aniquile a genuinidade e o
outro lado da vontade. Tenho para mim que não há no mundo maiores enganos do
que este: o da presunção de se ser bom,
fantasioso e construído, consciente, muito mais do que aspirante, do que se é e
do que se pensa ser. Dá vontade de dizer a essas mulheres, que não se devem
medir aos palmos. Nem aos anos, nem aos quilos, nem à formação académica ou a
devaneios de altivez. Não há unidades de medida exacta quando se avalia gente,
senhoras, há um conjunto de variáveis intervenientes, há quem dá e há quem recebe,
há quem queira e há quem não queira, legitimamente e sem recurso a construção.
O resto é pura imaginação.
Só para terminar, e voltando às cerejas: muita oferta baixa
o preço e a vontade do comprador. Muito pregão e o povo não pega, não aprecia, cheira
a barato, sabe a oferecimento à-toa, parece pouca procura e sobejo, sente-se congestão. No
fundo o que se consegue, vai no sentido oposto ao pretendido (parece-me,
claro, longe de mim querer ensinar).