Critico severamente a questão da crítica, vejam bem. O juízo de valor é uma tomada de posição concreta que não deixa margem para a aceitação de outro ponto de vista que não seja o nosso: nada mais errado, nada mais frequente. É simples, mas até parece não ser. Usamos e abusamos da impugnação com palavras brandas e impomos perspectivas, dizemos em entrelinhas arrumadas que não era assim que deveria acontecer, expomos com traços de quietude e com gestos doces uma calma que haveria de existir, uma serenidade que deveria de permanecer, uma postura exacta e precisa, a chave do sucesso, a demanda da existência humana. Fico sempre meia aturdida com a frequente ignorância neste campo. Com as pessoas que se julgam sapientes e por conseguinte omnipresentes e omnipotentes, sendo portanto, claro está, conhecedoras de estados alheios quase tanto como das próprias mãos. Lamento sempre desiludi-las, mas vejo-me obrigada a isso. Uso ser parca em palavras, poucas são o quanto me basta: a crítica construtiva pode existir, mas não é sempre; às vezes, muitas vezes, o que é realmente necessário é o acolhimento do que se sente, quer seja certo, errado, vergonhoso ou condenável. Ninguém manda em sentimentos, e a única diferença, em efeito e consequência, é a partilha ou a solidão. E a grandeza do interlocutor, claro, que bem vistas as coisas só sabe de si, e quando muito tem uma (boa) intenção.
segunda-feira, 7 de julho de 2014
sábado, 5 de julho de 2014
antes um choque eléctrico do que a sós com o pensamento,
é o que diz grande parte das pessoas de um estudo realizado por psicólogos das universidades da Virgínia e de Harvard. Não sendo novidade, não deixa de ser assustador. De facto, a crescente utilização das redes sociais e da permanente ligação ao mundo pode nem ser uma consequência da modernidade, mas sim (o que é muito mais profundo) um remedeio para uma necessidade constante de interacção e uma capacidade quase nula de introspecção, aliada ao medo da solidão. Dá que pensar (se não houver impaciência ou medo, ora pois)...
sexta-feira, 4 de julho de 2014
inveja
Um dos males do mundo é a inveja pura e dura. Gostamos de
baptizá-la de outro nomes mais brandos, juntamos-lhe "da boa" à descarada, mesmo em frente ao nome próprio, para que neste
formato perca a condição menos nobre de cobiça declarada. É como quem diz estou
contente por ti, quando na verdade o que se está é mesmo triste, por não se ter
ou por não se ser, por não se chegar ou por não se conseguir. Vejo por mim, não
é preciso ir longe, e deixo-vos um exemplo menor. Hoje invejei a serenidade do homem
que trabalhava na estrada enquanto eu esperava. Invejei-lhe, assumo,
invejei-lhe os gestos lentos, a demora na preparação dos materiais, o olhar
tranquilo para o vazio do nada enquanto os carros se acumulavam na estrada, à
espera. A tranquilidade dos outros é das minhas maiores invejas, um pecado capital reconhecido, sem limite e com algum pudor. Não a cobiçaria, é claro, se o tempo
para mim fosse um bem obtido, um empreendimento conseguido, um estado adquirido
por usucapião. Não é, o vagar a mim nunca me chega para coisa nenhuma, é sempre escasso, longínquo, insuficiente e diminuto. Se lhe roubaria a tranquilidade de esticão (facílimo, na placidez dos actos), e
o deixaria cercado pela minha urgência? Pois não sei, talvez não, por uma questão de respeito social. Mas não é por isso que não a queria para mim, à calma, toda ela,
desde a que lhe transparecia dos olhos à que lhe escorria das mãos. É inveja,
pura e dura. Ou "da boa" (que seja então).
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Preparado
Houve um tempo em que adormeci. Ninguém está livre deste perigo. Ninguém o consegue prever segundos antes – ao terceiro toque do relógio apago, ó pra mim. Nem segundos, nem horas, nem anos, nem vidas. O momento exacto de adormentar é o mais incerto da nossa existência. Pode ser no sofá, na cama ou no automóvel a duzentos à hora. Houve, dizia, um tempo em que adormeci sem saber que já sonhava num jardim de trevos brancos e cadeiras de madeira tisnada pelo sol dispostas em círculo junto a um riacho de águas doces. No centro, deitado, sentia o eflúvio das quatro folhas pelo nariz e a maciez da turfa negra pelas plantas dos pés descalços. Da ponte de xisto sobre o córrego mencionavas o contrato social de Hobbes: não és um bom selvagem, não estás só, há quem te queira, mau e organizado. Acordei, também há um tempo em que se acorda sem momento preciso, mas continuei a sonhar. Agora num pátio asséptico de betão com cadeiras de ferro. Do meu corpo esguichava sangue espesso e escuro sem odor para o ralo. Quando por fim senti o meu coração, deixei de sonhar. Todo organizado. E preparado.
perigos
Deram-mo de bandeja nas minhas mãos. Traçaram-me metas, coordenadas, tempos e direcções. Marcaram a trajectória inundada de vontades expressas e consagraram-me as palavras moldadas a uma vontade improvável, digo eu, dentro daquilo que nos é possível saber ao certo. A vida é imprevista, bem sei. No limite os sonhos podem ganhar rumo, erguerem-se com vida própria, contrariar a tendência definida à partida, e simplesmente acontecer. Raras vezes, muito poucas, naqueles que são realmente uma improbabilidade. E agora, pergunto eu? Reservo o espaço à razão, aniquilo a esperança, mato a vontade e restabeleço a verdade com base na realidade possível? Ou permito a existência de uma fantasia que transporta corpos parados pelo mundo afora, que os ergue do chão, que possibilita a existência de um desejo, quase extinto pela veracidade? Fico-me sempre por esta última, devo confessar, a não ser que a interposição se imponha interventiva ao ponto de ser necessária a clarificação. Caso contrário vou ainda mais longe, e chego a entrar no devaneio. Idealizar não mata ninguém. Deixar de acreditar é de longe bem mais perigoso.
( Matar sonhos é com a vida. Quem assume essa tarefa, de forma incauta e implacável, assume mal.)
terça-feira, 1 de julho de 2014
amigos
Estou para os meus amigos quando eles precisam de mim. Estou se me solicitam, claro, posso andar distraída, ocupada, ou simplesmente submersa, sem dar fé da precisão. Estou quando calha ou quando a ocasião justifica, estou aqui ou estou ali, e sou sempre toda eu, sem disfarce ou polimento. Não peço muito em troca. Não exijo disponibilidade desmedida, ouvidos sempre atentos ou braços sempre abertos, preciso de pouco, para não dizer de quase nada, poderia soar menos bem. A única coisa que lhes exijo é respeito por mim, e também pelos meus silêncios. A insistência à minha parca comunicação, é certo e sabido, vem sempre acrescida da devida justificação: preocupação, interesse, conhecimento pela minha veia mais reservada, tudo boas intenções. Não condeno, sinto-me honrada, agradeço até o cuidado extremo e dedicado. Porém guardo para mim o direito ao que é meu. Peçam-me tudo, ou perto disso. Não nego disponibilidade, interesse, partilha na festa ou na desilusão. Jamais fujo de um desgosto, nunca viro costas a uma ambição defraudada, não desleixo uma comemoração ou abandono uma confissão. Mas não me tentem arrancar palavras. Isso é que não.
domingo, 29 de junho de 2014
sorte
Usualmente enaltecemos a importância da saúde (importantíssima, como não enaltece-la?). Valorizamos a pertinência de dinheiro suficiente para que o corpo viva folgado neste mundo capitalista, referimos o trabalho, o ofício, como um meio directo para atingir o fim de uma realização muito além da profissional, mas pessoal, abrangente, plena. A família, é certo e sabido que a família ocupa o pódio das prioridades, as pessoas que nos pertencem, que constituem o nosso porto, com barcos, casas e tudo o resto. Os amigos, os amigos são aqueles que escolhemos e que nos completam plenamente, os que nos escutam nas tardes de inverno intenso, quando uma chuvada corrida levou tudo quanto viu (precisamos deles como do pão para a boca). Mas há mais coisas, inúmeras coisas das quais o mundo também precisa (mais ou menos como o sal no pão insípido do rei). No meu mundo, faz-me falta humor. Faz-me falta a ligeireza da vida, a relativização das adversidades, o sorriso pelo sorriso, a graça pelo próprio erro. Necessito de espíritos onde caibam enganos, onde nasçam gargalhadas, onde o rigor não se instale, ciente na sua (fraca) capacidade. O rigor excessivo assusta-me o corpo e o resto, vem de há muito, dos tempos do meu avô, que não sabia como sorrir. Vivia um dia de cada vez, sempre à mesma hora. Um litro de leite pela manhã, uma maçã perto do almoço, ao meio-dia estava à mesa. O copo do vinho era cheio, a banana da tarde sempre verde, e pelas seis, depois da sopa, recolhia o corpo até ao dia seguinte ( ainda sei de cor o cheiro da casa). Nunca se permitiu mudar escolhas, gostou sempre das mesmas pessoas, jamais ousou amar as que não devia amar (mas amava, só que por dentro). Quase mudou já muito velho e acabado. Transgrediu limites, mudou direcções, atalhou caminhos de alguma perdição, apaixonou-se por uma senhora branquinha e de olhos azuis. Disse-me uma vez em segredo, - vamos ver se eu tenho sorte com ela. Naquele dia, pareceu-me feliz (não cheguei a saber ao certo, se ela teve sorte com ele).
( Não gosto que me confidenciem segredos maiores, peco sempre, indico sem reservas o caminho do coração. Mas será que há outro, apetece-me perguntar?)
quarta-feira, 25 de junho de 2014
vontade
Abro as janelas que dão para a rotunda e olho o bulício da cidade. Preparo-me para respirar, o atraso é suficiente, sei de antemão. Não fecho os olhos, preciso de treinar a leveza no seio da confusão. Fico uns minutos a respirar o ar fresco da tarde, espreito as nuvens ao longe, imagino vidas que passam dentro dos carros que correm apressados, as horas, as malditas das horas chegam sempre cedo demais. Esqueço por instantes o que faço ali. Reservo-me o direito ao egoísmo, encontro-me comigo mesma, observo o meu âmago e espreito-o até ao último traço decifrável a olho nu. Nos meandros do meu ensaio entra um médico apressado. Esqueceu um livro de receitas e precisa delas ao domicilio, - sabe como é, dá um jeitão a excepção, quase tanto como a falência informática, a vida é feita de escapes, falências, remedeios e outras adaptações. Aceno-lhe que sim senhor, desejo-lhe um bom resto de dia, volto para a minha realidade e achei por bem tentar de novo o observatório, mas perdi-me. Dei voltas, reviravoltas, procurei a essência e o vazio externo, mas perdi-me à séria, ó que diabo. Fechei a janela e solicitei o silêncio, mas a criança entrou e sorriu para mim. -Trouxeste o lego, pergunta-me? - Claro que sim. - Vamos então brincar?, insiste - Vamos, afirmo, e sentei-me no chão, quase igual a ela. - Um dia vou crescer e ser grande, disse-me. E aí já posso ter tudo o que eu quiser. Escutei-a com atenção e concordei, a contingência é a supremacia da terapia, jamais deveremos defraudar expectativas e menos, muito menos, as de uma criança que cresce a acreditar. Por momentos, por escassos momentos, quis roubar-lhe a identidade. Quis sentir o valor da esperança, a abrangência da eternidade, a crença no colo, o poder da vontade. Mas prosseguimos, tranquilas, cada uma em seu lugar.
Sem comentários (se os fizesse mandava-a para um sítio muito feio)
O Tribunal da Relação revogou a decisão do Tribunal de Execução de Penas, ordenando a libertação condicional, com efeitos imediatos, de Isaltino Morais. À saída do Estabelecimento Prisional da Carregueira, segurando um saco de plástico preto do lixo com os seus pertences, visivelmente mais magro, agastado e corado, Isaltino, rodeado por repórteres, titubeava fugidio sobre o valor da liberdade. Uma das jornalistas, não resistindo à cretinice, bolçou uma pergunta:
« - Nós estamos a ver que está mais magro... andou a fazer ginástica? Vai continuar a fazer?»
domingo, 22 de junho de 2014
loucura ou maldade?
A minha avó defendia a loucura, introduzia na teoria a generalidade do mundo, assim poderia banir a maldade e viver sossegada. Não sei se teve culpa das minhas selecções, não sei sequer se a minha escolha adveio de uma necessidade suprema de lhe desvendar os mistérios da alma, de lhe explicar a essência do homem, de lhe dizer que na vida há gente boa e gente menos boa, e que a loucura, a pobre da insanidade, é um local medonho mas não tão medonho como a desalmada da maldade. Porém o problema, a minha única e permanente questão, é de onde surge esta última dimensão. Qual é o segundo exacto onde começa a acção, se nasce no corpo ou se medra com os anos, se aparece por obra e graça de um Espírito Santo danado ou se algum demónio, transeunte ou naufragado, toma de assalto os malditos que a partir dessa hora flagelam em nome do mal. Por vezes também não distingo maldade de necessidade, mas o caso em questão não me parece caber aqui. Se foi o caso, se uma mãe encenou um desaparecimento de um filho para posterior venda, onde cabe tal acto? Num desespero, numa maldade, num foco supremo em si própria, numa loucura insana? Para mim, e acima de qualquer grandeza, cabe num desapego e num desamor. Num abandono puro e duro, interessado e com fim à vista, uma premeditação, um meio para atingir um fim ambicionado, uma transacção de um ser humano, por acaso seu filho.
E agora, haverá maior loucura ou maior maldade? Eis a questão.
( No seguimento penso na suposição da reabilitação. Aí, assumo, creio mais na da insanidade do que na da maldade. Tudo porque o raciocínio, nesta última, tem objectivos específicos e direccionados. Eventualmente, digo eu, será um dos critérios que destrinça verdadeiramente ambas as realidades.)
sábado, 21 de junho de 2014
Ah Ah Ah Ah !
Crescemos a ouvir que os homens não podem com um rabo-de-saia. Pode ser, mas vós, mulheres, pelam-se por um bom pilantra.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
(...)
As mulheres e os homens são iguais e são diferentes. São um
corpo construído sem preceito de arquitectura, uma mente projectada sem o rigor
da matemática, uma construção genética aprimorada por dominante e recessivo,
ora mandas tu ora eu, dependendo da conjuntura e da carga imponente da possível questão. E dos astros e das vontades e da hora da concepção. No
final do encontro chegamos à definição inicial que norteia o caminho incerto,
entramos no cubículo reservado a sermos, fechamos a identidade dentro de um
local secreto, todos diferentes e todos iguais. Mas o mais certo, o que sinto
como sabido, o que me acrescenta e diminui enquanto pessoa que sou, é a
diferença que encontro na minha condição. Não me incomodam os movimentos
feministas que apregoam a igualdade a todo o custo, não me perturba a
insistência da paridade entre o que para mim é diferente, entre um género e o
outro, entre uma pessoa que nasce num corpo homem e outra que surge num corpo
mulher. A única coisa que insisto é no respeito e na tolerância, no resto sou
diferente, e se a sociedade me exige o contrário sinto uma enorme invasão. Ninguém
consegue ser os dois géneros ao mesmo tempo. Ninguém consegue o primor de um
lado e a sensibilidade do outro, a compreensão de um lugar e a ligeireza da
desordem, o amor e a autoridade, tudo, num corpo só. Um corpo não é um local
onde cabem todas as demandas do mundo. O corpo é o sítio onde crescemos numa
direcção.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
domingo, 15 de junho de 2014
mulher
A nossa sociedade diz-nos que ser mulher é uma condição. Dá-nos poder de usufruto, de decisão e de escolha, de argumento e de opção. Há outras, em pleno século XXI, onde ser mulher é um desprezo volante. Onde a maternidade prevalece como uma precisão de continuidade, e onde tudo o resto é história, ou no mínimo submissão. A perpetração da violência contra as mulheres na Índia é um assunto escondido de mais. Surge entretanto quase como novidade, com números assustadores e casos pertinentes que acolhem por dentro inúmeras situações escondidas nos meandros de uma sociedade masculina, onde se compra, se vende, se viola e se violenta. A questão central, muito mais do que afirmações infelizes de quem está no poder, é a questão cultural. É o intrínseco, é o que percorre as entranhas de um País confundido, é o que escorre nas veias de um mundo à parte onde manda quem pode e obedece quem tem de obedecer. É por isso que as crenças, a fé e as tradições, são dos maiores poderes do mundo.
Trabalhar ao contrário, a começar, começa tarde. Começa após anos de anulação feminina e de imposição masculina, avança na era em que a mulher já se tornou numa simples pertença, submissa à vontade de quem manda, surge depois de milhões de dotes, de remissões, de escolhas esquecidas e de vidas perdidas. É claro, terá de começar-se. Seria porém pertinente questionar o como antes de se actuar, pois como em tudo o que nos rege, o que interessa é o principio. Prover o País de uma segurança policial apertada, quando não se sabe minimamente a cumplicidade do agente ao sistema, pode não ser suficiente. Condenar uma parte das violações quando se permite a continuidade da compra de um corpo em troca de dinheiro ou bens, pode ser contraproducente. Dotar as habitações de recursos para que a mulher não necessite de se expor nua a céu aberto é pouco, quando dentro das famílias continua a ser importante que nasçam homens, as verdadeiras pessoas existentes.
Mudar tradições é um dos caminhos mais longos do mundo. Entrava em cada esquina, esbarra em cada crença, estanca em cada corpo absorvido pela supremacia da força e pela brutalidade da condição. Assumir o problema pode realmente ser o inicio do caminho, mas intervir na educação será eventualmente a única forma de iniciar uma real reviravolta no sentido. Será? Aguardemos, com a solidariedade feminina que todas conhecemos. Estou com elas. Estou com todas elas sentidas na liberdade que lhes desejo.
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Lisboa no dia seguinte
Hoje, pelas seis, Lisboa acordou suave, leitosa e altaneira. Nem poderia ser de outra forma, quem sobrevive a um terramoto, amanhece incólume a todos os excessos dos arraiais e às competições caninas das intermináveis e maçudas marchas populares. Aliás, os moldes do desfile são, cada vez mais, para quem fica em casa a ver TV – e para quem eriça leques de simpatia de pavão amedrontado, pagando com dinheiros dos munícipes e botões de punho cintilantes os constrangimentos de uma greve dos senhores do lixo. Tudo ao pormenor: trajes, holofotes e angariação de votos. De resto, entapetam-se os buracos e... siga a Marinha!
Este ano preferi os arraiais de rua, o carvão sob a sardinha a pingar e as linguiças estaladiças sobre o pão. Elegi os pregões intervalados por música popularucha, a sangria fresquíssima em copos de plástico, os mais velhos, os seus filhos e a berraria da criançada. O bairro dá cara e nome ao cidadão; as freguesias, cidadania ao merceeiro, ao sapateiro, ao bancário e ao talhante. Todos diferentes entre iguais. Não há cosmopolitismo sem proximidade, nem bairro sem cidade.
Querem um exemplo? No final da noite, um senhor, impecavelmente vestido (algo a despropósito para a ocasião), vem ter comigo e, num inglês de lorde, pede que o fotografe – chamo-me Benguet, A.J.P. Benguet, ao seu dispor. OK, vamos a isso – tirei-lhe a primeira foto:
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