A propalada entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Frederico Lourenço (FL) foi amplamente elogiada por alguns círculos ligados às Letras e aos helenistas em particular. Nada contra. As dúcteis argolas literárias, de tão precisadas, sobrevivem precisamente do culto do panegírico inter pares, abominando o embate viril de ideias – não vá a estirpe extinguir-se por falta de descendência e de dependência.
Resumidamente, FL ancora-se num paralelismo entre a Ilíada de Homero e o seu percurso pessoal e profissional. Paralelismo é eufemismo, em boa verdade, deveria chamar-lhe projecção freudiana, mas já lá vamos.
A determinada altura, afirma: «É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes. O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte.». Para FL as pessoas não devem sequer incorrer no erro de sonhar [pensar] em ser felizes, porque na prática têm de sofrer sempre. Sempre, até à clemência da morte. Talvez por ele próprio ter sofrido bullying na escola, a desconfiança intelectual do pai, a silenciosa rejeição da sua orientação sexual por parte da mãe e do pai, a sua confessa falta de talento como pianista e porque «as pessoas por quem se apaixona são instáveis, um pouco amalucadas». No fundo, concede uma espécie de "Ámen" a todas as vítimas de injustiças, de desalentos e outras desventuras e negligências. Sofram, meus amigos, estais no caminho certo. E vai mais longe: quem tem o direito de ser feliz com o que lê nos jornais? Os eremitas das montanhas, não podem? – Pergunto eu. Os maluquinhos e demais criaturas estimadas, também não? – Volto a perguntar. Todos sabemos que a felicidade total é uma utopia, mas o sofrimento pleno não é uma obrigação. Se em vez de estar a aprender sânscrito, soubesse umas palavras de suaíle (ou tivesse visto o Rei Leão), conheceria por certo uma expressão mais colorida: "Hakuna Matata". Digo eu.
Continuando, e depois de revelar que o verdadeiro herói da Ilíada é Heitor e não Aquiles – porque sofre, claro –, termina dizendo: «Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: "A estas coisas permitiremos o terem sido"... Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro». Pois acho uma escolha avisada. Principalmente, e depois de tanto sofrimento, se confirma ter dito à sua irmã: «Tenho a sensação de que somos órfãos com os pais em vida».
Às vezes imagino o encontro entre um helenista e um verdadeiro helénico antigo, em que este, saturado com a verborreia daquele, sussurra uma frase, imaginem lá, de Schopenhauer: "A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios".


