© Paulo Abreu e Lima

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Imodium® plus

No jargão político, como no económico, há expressões detestáveis, muitas importadas do inglês e do francês, outras ainda inventadas por alguém e copiadas por quase todos. Inevitavelmente a coisa descamba e passa do irritante ao erro. Substantivar os adjectivos tem sido uma moda que está a passar a norma – antes que me tentem corrigir, advirto que irritante é adjectivo, mas também é substantivo. Acontece que nem todos os adjectivos são substantiváveis. É o caso de módico. Que significa modesto, parco, exíguo. Quantos de vós já ouvistes ou lestes (mais grave) "haja um módico de paciência", fazendo crer que módico significa "pouco", um indisfarçável substantivo? Todos nós, todos os dias. É imódico e não há imodium rapid que aguente.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Avareza


Não me peçam para falar de amor. É um par de sapatos incómodo. Um aperta porque é curto, o outro escorrega porque é grande. É um seixo pesado como o mundo. Umas vezes aguenta todas as tempestades; outras, sublima e voa por todas as ilhas. Devia ser proibido falar dele como tudo o que demuda, incha o peito e desasa os braços. Como tudo o que percorre eflúvios regatos e delonga a vida. Façamos então outra coisa: se ele vos achar, calem-se e demorem-se no olhar. Memorizem o que puderem e mapeiem o labirinto. Depois, larguem-no às águas em garrafa arrolhada e lacrada. O segredo manter-se-á em quem o encontrar e ficamos assim. As grandes dádivas nunca devem parecer nossas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Julgar

A propósito da prolixidade de muitos escritores, Schopenhauer cita Voltaire: "O adjectivo é o maior inimigo do substantivo". Eu, que não sou autor, mas adjectivo a torto e a direito, tendo a concordar: muitas palavras e poucas ideias é uma bela perda de tempo. Devemos ser, tanto quanto possível, claros e concisos na escrita. Como as pessoas, as palavras necessitam de mais acção e de menos julgamentos.

E o australopiteco sou eu

(retirado ao acaso do Google)
Por razões que mesmo sob tortura me recuso a responder fui ver Lucy. Que Morgan Freeman e Scarlett Johansson tenham aceitado participar neste filme de Luc Besson, enfim, até p€rc€bo. O orçamento de 40 milhões é curto, mas um bom quinhão terá acolchoado as suas contas bancárias. Agora, eu ter emborcado a esparrela assim de chofre, faz-me lembrar a cena dos baldes de água gelada. Sem beneficência alguma.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O calcanhar de Frederico Lourenço

A propalada entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Frederico Lourenço (FL) foi amplamente elogiada por alguns círculos ligados às Letras e aos helenistas em particular. Nada contra. As dúcteis argolas literárias, de tão precisadas, sobrevivem precisamente do culto do panegírico inter pares, abominando o embate viril de ideias – não vá a estirpe extinguir-se por falta de descendência e de dependência. Resumidamente, FL ancora-se num paralelismo entre a Ilíada de Homero e o seu percurso pessoal e profissional. Paralelismo é eufemismo, em boa verdade, deveria chamar-lhe projecção freudiana, mas já lá vamos.
 
A determinada altura, afirma: «É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes. O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte.». Para FL as pessoas não devem sequer incorrer no erro de sonhar [pensar] em ser felizes, porque na prática têm de sofrer sempre. Sempre, até à clemência da morte. Talvez por ele próprio ter sofrido bullying na escola, a desconfiança intelectual do pai, a silenciosa rejeição da sua orientação sexual por parte da mãe e do pai, a sua confessa falta de talento como pianista e porque «as pessoas por quem se apaixona são instáveis, um pouco amalucadas». No fundo, concede uma espécie de "Ámen" a todas as vítimas de injustiças, de desalentos e outras desventuras e negligências. Sofram, meus amigos, estais no caminho certo. E vai mais longe: quem tem o direito de ser feliz com o que lê nos jornais? Os eremitas das montanhas, não podem? – Pergunto eu. Os maluquinhos e demais criaturas estimadas, também não? – Volto a perguntar. Todos sabemos que a felicidade total é uma utopia, mas o sofrimento pleno não é uma obrigação. Se em vez de estar a aprender sânscrito, soubesse umas palavras de suaíle (ou tivesse visto o Rei Leão), conheceria por certo uma expressão mais colorida: "Hakuna Matata". Digo eu.
 
Continuando, e depois de revelar que o verdadeiro herói da Ilíada é Heitor e não Aquiles – porque sofre, claro –, termina dizendo: «Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: "A estas coisas permitiremos o terem sido"... Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro». Pois acho uma escolha avisada. Principalmente, e depois de tanto sofrimento, se confirma ter dito à sua irmã: «Tenho a sensação de que somos órfãos com os pais em vida».
 
Às vezes imagino o encontro entre um helenista e um verdadeiro helénico antigo, em que este, saturado com a verborreia daquele, sussurra uma frase, imaginem lá, de Schopenhauer: "A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios".

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Silêncio


O seu sorriso demilunar denunciava a proveniência do meu pensamento: alhures ou algures.

Lua de Agosto (... e uma perguntinha sabeísta)

[Só um maluco como eu vem aqui colocar uma Lua a esta hora do dia neste mês, adiante...]
 

Todos nós reparamos que à medida em que o mês avança a Lua aparece-nos com as suas diferentes fases. Contudo, é à noite que mais nos detemos a olhá-la. Sabemos, por exemplo, que a sua forma varia com a face iluminada pelo Sol, que a zona em que não a vemos está lá, igualzinha, mas não alumiada. É a chamada noite lunar. Durante o dia, na Terra, ligamos mais ao Sol, a nossa fonte de Vida. A Lua passa para plano secundário, e de vez em quando lá a vemos e perguntamos o que ela estará a fazer. 'Tadinha. Por acaso sabeis que o tempo que passa por nós durante o dia é idêntico ao que nos percorre durante a noite? Ah, pois é. Então passemos à perguntinha: nesta Lua crescente o que vedes do lado esquerdo (mesmo à esquerda das crateras mais visíveis)? O imenso azul do Céu. Ora, bolas, e onde está o resto da Lua? Imagineis que sois Cupido e quereis acertar nEla, para onde apontam? Para a parte branca - ninguém atira setinhas para o azul do Céu infinito, certo? Volto a perguntar: onde está a parte esquerda dEla, então? Afinal, só vemos azul infinito... Se fossem tão malucos como eu, arriscariam por certo uma bela resposta.
ps: Foi excessivamente  publicitada a super Lua deste mês. Não acrediteis em super coisas, foi apenas um perigeu mais próximo. E, sobretudo, não sucumbam a fotomontagens. Pronto, era só mais isso.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Língua viva

Soube que determinada pessoa me achou excessivamente educado, que já não existem pessoas assim. Caríssima pessoa – que antes de pessoalmente a conhecer já lhe tinha apreço –, sou quase sempre educado por natureza, cerimonioso até para com quem mais considero, agora, excessivamente educado, não. Não existe, não se aplica, nem sequer é figura de estilo. Na educação, como em poucas outras coisas, tudo o que se diz excessivo constitui ou um erro ou uma impossibilidade. Se assim não fosse, advertiria então que em certos sítios e com uma única pessoa, sou excessivamente ordinário. E isto já, sim, é excesso de certeza, com toda a possibilidade.

Língua morta

O culto do mau feitio pode ser um charme; o da má educação, uma necessidade de reconhecimento; o do "não valho nada", uma chamada de atenção e o do desprezo, uma presunção. Já o culto do "não me chateiem" não passa de uma pífia autocomiseração. Um bocejo sem culto ou cultura alguma.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Às estrelas, deixem o Céu (iv)

 
Diz-se que as infâncias felizes não têm história. Não sei se alguém o escreveu, mas a minha foi muito feliz e teve muitas. Da minha extrema infância lembro-me do restolho vindo do fundo da terra nas noites quentes de Verão, do meu tio Luís sentado no alpendre com o Cohiba a dormitar encostado aos lábios e com a mão esquerda em concha sob o cálice de Armagnac; do meu pai vindo da caça com ar maroto, muito suspeito com o produto da pólvora, antecipando os meus olhos surpresos e os dos meus irmãos; das conversas cruzadas entre a minha mãe, a minha avó e a criada, a minha querida Odete, sobre as patifarias que o meu tio teria feito à tia Ritinha. Mais do que com estas palavras, bastariam dois ou três acordes do Steinway & Sons da sala de estar, uma ou duas fotografias da Leica do meu pai ou três ou quatro copos de balão meios cheios de conhaque para melhor descrever aqueles serões com cheiro a pinheiros e a castanheiros de felicidade. Não sei que idade teria, não interessa que roupa vestia, nunca descobrirei que horas seriam e muito menos que patifarias o meu tio fizera. Ficou aquele barulhinho doce, os retratos e os cheiros difusos pelas nossas reminiscências.

As infâncias felizes não têm história, mas algumas são como as estrelas que perduram muitas vidas.

agradecimentos

Há uns largos meses recebi o convite irrecusável de colaborar neste blog. Foi com honra que aqui estive durante este tempo, que interagi com os seus leitores, que me senti em casa. Hoje, é chegada a hora de sair. Agradeço com todo o carinho e admiração ao Paulo, e ainda a todos os que com simpatia me acarinharam por cá.

Muito obrigada.

domingo, 3 de agosto de 2014

pausa

Temos tendência a acreditar em nós. Temos tendência a sentir que de nossa força depende o mundo, o que construímos e o que derrubamos, o que escolhemos e o que perdemos. Quando assim não é, ou seja, quando a vida escolhe por nós os passos que não queremos, temos tendência à fé. A fé não é mais do que uma entrega, nossa ou de alguém, numa força que queremos muito que exista, além corpo, além mundo, além céu. Uma força que nos pegue quando caímos, que nos guie quando nos perdemos, que nos faça viver quando quase morremos. Normalmente é quando não nos bastamos que nos entregamos, e o que vem daí em diante parece acontecer por divindade, seja aquilo que for. Se for bom é milagre, se for mau é o percurso da vida. Aceito-o mais do que a qualquer coisa, sou obrigada a isso, mas não aprecio. Viveria muito bem com a constância da existência, uma não vida e uma não morte, mesmo correndo o risco, óbvio, de nunca por cá ter passado. Que interlúdio idílico neste humilde blog. Como se fosse possível o delírio que acabei de escrever, encabeçado pela fantástica sensação de sentir sem existir. 

sábado, 2 de agosto de 2014

símbolo

O símbolo é que nos dá o rumo. É o que constrói a nossa perfeição de existência, coisa totalmente impossível se não acreditarmos nele como a supremacia no nosso eu. É simples e claro: uma árvore pode ser só uma árvore ou pode ser um prazer, um animal pode ser só um animal ou pode ser uma companhia, um doce pode ser só um doce ou pode ser um conforto, uma chuvada pode ser só uma chuvada ou pode ser um alívio. Uma pessoa, uma pessoa pode ser só uma pessoa ou pode ser um amor, um amor pode ser uma vida ou pode ser uma morte, uma morte pode ser o medo ou pode ser uma vontade, uma vontade poder ser uma fé ou pode ser uma urgência. É por isso que quando escrevo, escrevo de alma e coração. É por isso que quando escrevo, escrevo de mim e do que o mundo é para mim, é por isso que quando escrevo as palavras me pertencem, são a minha realidade, o meu sentir, as minhas circunstâncias e a minha existência. Quem rouba palavras alheias não tem noção da exposição a que se sujeita. Quem rouba palavras alheias usa a vida interna de alguém para expressar a sua, como se a sua fosse um corpo vazio a necessitar de outras para ser também. Bem vistas as coisas e julgo que quem rouba vidas também terá pertinências para contar, nada nem ninguém existe no mundo ao acaso. Sendo assim, se o problema é a expressão, aconselho a sentir primeiro o que lhe escorre dos dedos, em vez de sorver os outros e aproveitar o que lhe convém. Experimente cheirar o Verão e respirar as pessoas, olhar os contornos e arrumar o que encontra, destilar as experiências e transformá-las nos seus símbolos, a deitar cá para fora o que é seu, e não o que nem sabe o que é. Vai ver que é capaz, que tudo o que escreve passará a pertencer-lhe, e ainda que daí em diante, qualquer assalto ou usurpação irá causar-lhe desconforto (não há fraude maior do que tentarmos incorporar  uma outra identidade). 

(Agora experimente plagiar mais este texto. Até lhe perdoaria que me roubasse algumas ideias, mas nunca se esqueça que as minhas avós são minhas, jamais serão suas. Jamais.)

PS: Obrigada pelo alerta, mãe preocupada.