© Paulo Abreu e Lima

sábado, 27 de setembro de 2014

«Fi-lo porque qui-lo»*

O trabalho não fora mal feito. Peguei-a menina e fi-la mulher. Só depois me apercebi que nunca tivera esquecido a menina e já houvera descurado a mulher. Em boa verdade não a peguei, qui-la menina e fi-la mulher.
 
*Expressão (errada, mas literária) de Odorico Paraguaçu, em O Bem-Amado do dramaturgo Dias Gomes.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Lua de Setembro [Fim]

 

 
(Fotografias sequenciais durante trinta minutos)
 
Nem todas as relações que acabam ficam invisíveis, como nem todas as que não terminam permanecem visíveis. A visão, como a paixão, é muito mais passiva do que se julga, contemplativa se quisermos, conservando a quietude e a serenidade que por fim necessitamos. Neste mês de equinócio dou por finda esta série. Virá outra – vem sempre outra depois da que se encerra. A do Sol.
 
Espero que apreciem.

sábado, 20 de setembro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A adoração das espécies

Tenho na cozinha mosquitos que bebem café. São poucos, mas amantes de Robusta. Vejo-os todos os dias. De manhã saem do suporte da máquina onde meto a chávena; à noite, das mesmas onde ficaram as borras. São pequenos, frágeis e dóceis. Não me picam, mas bebem café. Há uns anos só tinha formigas. Eram mindinhas como todas, mas não sucumbiam aos prazeres dos doces. Nada disso, eram carnívoras, não resistiam ao prazer da carne. Carne vermelha, se faz favor, crua ou cozinhada que os dentes eram bons; na bancada ou no prato, não faziam cerimónia; da rabadilha ou do filet mignon, não eram esquisitas. Desapareceram. Ou foi do colesterol ou das palavras da Isabel Jonet.
 
Um dia vou querer ácaros sopranos que me embalem a cama fria e me entoem La Traviata. Não me importarei se passar a chamar-me Alfredo, desde que me possa aquecer junto duma Violetta. E, não se prendam, suportarei a despesa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Imodium® plus

No jargão político, como no económico, há expressões detestáveis, muitas importadas do inglês e do francês, outras ainda inventadas por alguém e copiadas por quase todos. Inevitavelmente a coisa descamba e passa do irritante ao erro. Substantivar os adjectivos tem sido uma moda que está a passar a norma – antes que me tentem corrigir, advirto que irritante é adjectivo, mas também é substantivo. Acontece que nem todos os adjectivos são substantiváveis. É o caso de módico. Que significa modesto, parco, exíguo. Quantos de vós já ouvistes ou lestes (mais grave) "haja um módico de paciência", fazendo crer que módico significa "pouco", um indisfarçável substantivo? Todos nós, todos os dias. É imódico e não há imodium rapid que aguente.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Avareza


Não me peçam para falar de amor. É um par de sapatos incómodo. Um aperta porque é curto, o outro escorrega porque é grande. É um seixo pesado como o mundo. Umas vezes aguenta todas as tempestades; outras, sublima e voa por todas as ilhas. Devia ser proibido falar dele como tudo o que demuda, incha o peito e desasa os braços. Como tudo o que percorre eflúvios regatos e delonga a vida. Façamos então outra coisa: se ele vos achar, calem-se e demorem-se no olhar. Memorizem o que puderem e mapeiem o labirinto. Depois, larguem-no às águas em garrafa arrolhada e lacrada. O segredo manter-se-á em quem o encontrar e ficamos assim. As grandes dádivas nunca devem parecer nossas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Julgar

A propósito da prolixidade de muitos escritores, Schopenhauer cita Voltaire: "O adjectivo é o maior inimigo do substantivo". Eu, que não sou autor, mas adjectivo a torto e a direito, tendo a concordar: muitas palavras e poucas ideias é uma bela perda de tempo. Devemos ser, tanto quanto possível, claros e concisos na escrita. Como as pessoas, as palavras necessitam de mais acção e de menos julgamentos.

E o australopiteco sou eu

(retirado ao acaso do Google)
Por razões que mesmo sob tortura me recuso a responder fui ver Lucy. Que Morgan Freeman e Scarlett Johansson tenham aceitado participar neste filme de Luc Besson, enfim, até p€rc€bo. O orçamento de 40 milhões é curto, mas um bom quinhão terá acolchoado as suas contas bancárias. Agora, eu ter emborcado a esparrela assim de chofre, faz-me lembrar a cena dos baldes de água gelada. Sem beneficência alguma.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O calcanhar de Frederico Lourenço

A propalada entrevista de Anabela Mota Ribeiro a Frederico Lourenço (FL) foi amplamente elogiada por alguns círculos ligados às Letras e aos helenistas em particular. Nada contra. As dúcteis argolas literárias, de tão precisadas, sobrevivem precisamente do culto do panegírico inter pares, abominando o embate viril de ideias – não vá a estirpe extinguir-se por falta de descendência e de dependência. Resumidamente, FL ancora-se num paralelismo entre a Ilíada de Homero e o seu percurso pessoal e profissional. Paralelismo é eufemismo, em boa verdade, deveria chamar-lhe projecção freudiana, mas já lá vamos.
 
A determinada altura, afirma: «É um erro fundamental as pessoas pensarem que têm direito de ser felizes. O normal é estarem a sofrer, em situações que são desafiantes, injustas, doridas. Isso é o que distingue a vida da morte.». Para FL as pessoas não devem sequer incorrer no erro de sonhar [pensar] em ser felizes, porque na prática têm de sofrer sempre. Sempre, até à clemência da morte. Talvez por ele próprio ter sofrido bullying na escola, a desconfiança intelectual do pai, a silenciosa rejeição da sua orientação sexual por parte da mãe e do pai, a sua confessa falta de talento como pianista e porque «as pessoas por quem se apaixona são instáveis, um pouco amalucadas». No fundo, concede uma espécie de "Ámen" a todas as vítimas de injustiças, de desalentos e outras desventuras e negligências. Sofram, meus amigos, estais no caminho certo. E vai mais longe: quem tem o direito de ser feliz com o que lê nos jornais? Os eremitas das montanhas, não podem? – Pergunto eu. Os maluquinhos e demais criaturas estimadas, também não? – Volto a perguntar. Todos sabemos que a felicidade total é uma utopia, mas o sofrimento pleno não é uma obrigação. Se em vez de estar a aprender sânscrito, soubesse umas palavras de suaíle (ou tivesse visto o Rei Leão), conheceria por certo uma expressão mais colorida: "Hakuna Matata". Digo eu.
 
Continuando, e depois de revelar que o verdadeiro herói da Ilíada é Heitor e não Aquiles – porque sofre, claro –, termina dizendo: «Há um verso da Ilíada que é dos mais importantes da minha vida. Aparece duas vezes, diz o seguinte: "A estas coisas permitiremos o terem sido"... Vou aceitar que o passado existiu desta forma, não vou entrar em luta com o que foi o passado, vou centrar-me no agora e no futuro». Pois acho uma escolha avisada. Principalmente, e depois de tanto sofrimento, se confirma ter dito à sua irmã: «Tenho a sensação de que somos órfãos com os pais em vida».
 
Às vezes imagino o encontro entre um helenista e um verdadeiro helénico antigo, em que este, saturado com a verborreia daquele, sussurra uma frase, imaginem lá, de Schopenhauer: "A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios".

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Silêncio


O seu sorriso demilunar denunciava a proveniência do meu pensamento: alhures ou algures.

Lua de Agosto (... e uma perguntinha sabeísta)

[Só um maluco como eu vem aqui colocar uma Lua a esta hora do dia neste mês, adiante...]
 

Todos nós reparamos que à medida em que o mês avança a Lua aparece-nos com as suas diferentes fases. Contudo, é à noite que mais nos detemos a olhá-la. Sabemos, por exemplo, que a sua forma varia com a face iluminada pelo Sol, que a zona em que não a vemos está lá, igualzinha, mas não alumiada. É a chamada noite lunar. Durante o dia, na Terra, ligamos mais ao Sol, a nossa fonte de Vida. A Lua passa para plano secundário, e de vez em quando lá a vemos e perguntamos o que ela estará a fazer. 'Tadinha. Por acaso sabeis que o tempo que passa por nós durante o dia é idêntico ao que nos percorre durante a noite? Ah, pois é. Então passemos à perguntinha: nesta Lua crescente o que vedes do lado esquerdo (mesmo à esquerda das crateras mais visíveis)? O imenso azul do Céu. Ora, bolas, e onde está o resto da Lua? Imagineis que sois Cupido e quereis acertar nEla, para onde apontam? Para a parte branca - ninguém atira setinhas para o azul do Céu infinito, certo? Volto a perguntar: onde está a parte esquerda dEla, então? Afinal, só vemos azul infinito... Se fossem tão malucos como eu, arriscariam por certo uma bela resposta.
ps: Foi excessivamente  publicitada a super Lua deste mês. Não acrediteis em super coisas, foi apenas um perigeu mais próximo. E, sobretudo, não sucumbam a fotomontagens. Pronto, era só mais isso.