© Paulo Abreu e Lima

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Tragédia

A fragilidade feminina quando anunciada é uma carga de trabalhos. Um pedido de ajuda mansinho que pode elevar-se a catástrofe. Começa tenso e mudo. Como num vulcão minutos antes da primeira erupção, todo o cuidado é insuficiente, cuida rever a sinalética e munirmo-nos do breviário antes de propagados os tremores. Segue-se o queixume em palavras doces, trémulas, quase imperceptíveis. Ah, e surdas, que isto vem tudo dum só lado, do centro da Terra. É que nem adianta interromper e levar a cabo a operação socorro. Pouco há a fazer, creiam, mas muito pior é fazer nada. A fragilidade feminina quando difundida é intempérie à qual ninguém sai a salvo. Prontamente, deve ser declarada calamidade semi-pública. Se alguém não aguentar e se se queixar, incorre no esquartejamento simples. Este, sim, totalmente público.

Nivelar por baixo

A parábola do ouriço-caixeiro (prefiro chamar-lhe apólogo) tem servido para ilustrar muita coisa. Para mim foi das poucas demonstrações de bonomia que a soturnidade de Schopenhauer permitiu. A afectividade intensa e prolongada contém bem mais que uns dissabores, não sendo necessário exercitar o pessimismo para concluirmos que é letal. Já o afastamento depende muito mais da compleição do indivíduo, principalmente se estiver em causa a sua dignidade. Sozinho, mas fiel a si próprio sempre é uma solução. As meias distâncias, essas sim, são puro egoísmo. Se virmos bem, um egoísmo miserabilista: retira da pequena dor algum prazer e vice-versa. E é consabido que nem sempre as pequenas doses são profilácticas.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Locais fora do mundo (III)


Bem-vindos à Ilha do Inferno, tem três estações de correios e uma do Inverno
 

 
Há lugares que nos marcam pelas mais perceptíveis razões. Pela beleza, pelos cheiros, pela quietude, pela companhia, por tudo o que neles vivemos de bom. Outros, pelos motivos inversos. Aridez, miséria, desconsolo, feiura, por o que neles sentimos de mau. Pelo meio ficam muitos, porventura em maior número, quase indiferentes, vulgo, banais. Os lugares que vos trago nesta série não se enquadram em nenhuma destas categorias; como o nome anuncia, são locais fora do mundo.
 
Na placa norte-americana, a Ilha das Flores (Ilha Rosa) é o bocado de terra mais ocidental da Europa, ou seja, dentro da região ultra-periférica que já de si é os Açores, é a mais longínqua, situando-se a meio dos dois continentes. E, com menos de quatro mil habitantes, vende cara a sua insularidade: dois aviões e um barco. Até 1966, quando foi inaugurada uma base militar francesa para sondar mísseis balísticos, manteve-se entregue ao seu destino, melhor, à sua condição e propósito maiores, aguentar-se Paraíso. E Paraíso se manteve até hoje.
 
Tal Dante guiado por São Bernardo, não só cheguei à décima esfera como fui além, alcancei Empíreo, senti Deus e vi-me abençoado. Como todos os percursos não foi fácil, até porque, citando o génio, tudo deve ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples.
 
Na véspera, em amena cavaqueira com dois autóctones (chamam-se florentinos de peito impante, e como os homónimos de Florença, o lugar refinou-lhes o sentimento e o sentido estético), um deles deixou sair, gaguejante, onde "acaba o arco-íris": o Poço da Alagoinha, ou a Lagoa das Patas no dialecto local. Qualquer das designações fez-me espécie. Deus, todo Luz, enfiado num poço não é bonito; São Bernardo e as suas patas, também não.
 
 
Partindo da simpática Vila de Santa Cruz das Flores, pus-me a caminho. As estradas asfaltadas, tendo em conta os elevados níveis de pluviosidade ao longo de todo o ano, fazem inveja a qualquer uma de Lisboa e, confesso, a acentuada sinuosidade do traçado desafia o Sébastien Loeb que há em nós.
 
E daí talvez não.


A Ilha já foi baptizada com outros nomes (Ilha dos Corvos Marinhos e Ilha de S. Tomás), mas sem esforço, onde quer que nos encontremos, percebemos a razão do actual.


Tem sete lagoas (a Funda, a Rasa, a da Lomba, a Comprida, a Seca, a Branca e a Funda das Lages), sete trilhos e sete édenes. As pedras do Frade e da Freira e a magmática (e enigmática) Rocha dos Bordões. Tem tudo isto e muito mais.
 
Lagoa Funda das Lages
 
Lagoa Funda e Lagoa Comprida
 
Pedras da Freira e do Frade
 
Rocha dos Bordões - Enorme formação rochosa constituída por tubos semi-cilíndricos de origem vulcânica que se assemelham aos de um gigantesco órgão de tubos sacro.
 
De todas as ilhas do arquipélago, esta é sem dúvida a mais intacta, tendo sido declarada pela Unesco Reserva Mundial da Biosfera. Perfeito. E onde acaba o arco-íris? Lembrei-me do florentino descuidado e recorri às minhas notas escritas: entre a Fajãzinha e a Fajã Grande há um planalto donde caem vinte cascatas para um poço. Ah, o Poço. Vinte cascatas para um poço? Um poço sem fundo, com certeza, ou então desagua para os antípodas, para o Lake Taupo, o maior lago da Nova Zelândia – gracejei em voz alta.
 

Durante o caminho nunca mais deixei de ver as cascatas silenciosas sobre o fundo. Mas onde vão cair? Aquela conversa da véspera começou-me a soar a gozo: dois florentinos e um continental... upa, upa, vamos zombetear com o homem. Com sorte ainda vai a nado até às Bahamas em busca do pote de oiro no fundo do arco-íris. Ainda por cima era de Lisboa, o esperto. Deixa telefonar à Emília e contar. Olha, se o lisboeta desaparecer, eu não sei de nada, nunca estivemos com ele perto do Museu da Fábrica da Baleia. Aquela conversa nunca aconteceu,  topaste, António? – Cada vez mais apreensivo e desconfiado continuei caminhando e cogitando. – Mas o que tinham a ganhar dois autóctones com a brincadeira? Nada. Uma ilha em forma de esmeralda, toda ela um jardim, com uns habitantes zombeteiros não havia de engrandecer o local. O grande poeta Pedro da Silveira, florentino de nascença, não iria aprovar. Depois, são boatos deste gabarito que estragam o turismo. Mas qual turismo? Só vi um francês e um casal de canadianos. Aliás, se isto é o que é, deve-se precisamente à quase inexistência de forasteiros. E muito bem.– Lá continuei mais uns quilómetros quando vi na berma da estrada uma tabuleta escrita à mão: Poço 980 m.


O trilho pedestre era estranhamente perigoso. Não parecia, mas escorregava mais que enguias pelas mãos. Ia bem calçado (botas de montanha), contudo parecia um elefante num ringue de patinagem artística: sim, ia com as mãos no chão, logo, caminhava de quatro patas, pois de trombas já eu estava. Quase no fim do caminho (pensamos sempre que nos encontramos no fim quando o começo demora uma eternidade), deparei-me com um casal obeso e seu filho tísico vindos de lá, do poço, e perguntei se demorava muito e se valia a pena. Não responderam. Tentei em Inglês. Nada. Em Francês. Nem uma palavra. Não eram chineses, nem africanos, nem indianos, raios. Enquanto o pequeno saltitava sobre as pedras viscosas, a mãe, ofegante e a suar mais de vinte cascatas, parecia ter acabado de dar à luz tal o esgar extasiado com que não me olhou. O homem, sempre a tropeçar e a olhar para o chão, parecia ter dito que sim. Digo eu, pois o queixo abanava para cima e para baixo à medida que avançava até se agarrar a mim. Naquele instante, um, dois segundos, juro que me pareceu ouvir: gorgeous!

Valeu a pena? Não sei responder. Ainda hoje não tenho a certeza onde estive, quanto tempo demorei e o que vi. Mais tarde descobri as fotografias que se seguem. Obrigado, Beatriz, S. Tomás e S. Bernardo – Dante tinha razão, vi Luz, senti calor, toquei Deus. Gorgeous.

 

sábado, 27 de setembro de 2014

«Fi-lo porque qui-lo»*

O trabalho não fora mal feito. Peguei-a menina e fi-la mulher. Só depois me apercebi que nunca tivera esquecido a menina e já houvera descurado a mulher. Em boa verdade não a peguei, qui-la menina e fi-la mulher.
 
*Expressão (errada, mas literária) de Odorico Paraguaçu, em O Bem-Amado do dramaturgo Dias Gomes.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Lua de Setembro [Fim]

 

 
(Fotografias sequenciais durante trinta minutos)
 
Nem todas as relações que acabam ficam invisíveis, como nem todas as que não terminam permanecem visíveis. A visão, como a paixão, é muito mais passiva do que se julga, contemplativa se quisermos, conservando a quietude e a serenidade que por fim necessitamos. Neste mês de equinócio dou por finda esta série. Virá outra – vem sempre outra depois da que se encerra. A do Sol.
 
Espero que apreciem.

sábado, 20 de setembro de 2014

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

A adoração das espécies

Tenho na cozinha mosquitos que bebem café. São poucos, mas amantes de Robusta. Vejo-os todos os dias. De manhã saem do suporte da máquina onde meto a chávena; à noite, das mesmas onde ficaram as borras. São pequenos, frágeis e dóceis. Não me picam, mas bebem café. Há uns anos só tinha formigas. Eram mindinhas como todas, mas não sucumbiam aos prazeres dos doces. Nada disso, eram carnívoras, não resistiam ao prazer da carne. Carne vermelha, se faz favor, crua ou cozinhada que os dentes eram bons; na bancada ou no prato, não faziam cerimónia; da rabadilha ou do filet mignon, não eram esquisitas. Desapareceram. Ou foi do colesterol ou das palavras da Isabel Jonet.
 
Um dia vou querer ácaros sopranos que me embalem a cama fria e me entoem La Traviata. Não me importarei se passar a chamar-me Alfredo, desde que me possa aquecer junto duma Violetta. E, não se prendam, suportarei a despesa.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Imodium® plus

No jargão político, como no económico, há expressões detestáveis, muitas importadas do inglês e do francês, outras ainda inventadas por alguém e copiadas por quase todos. Inevitavelmente a coisa descamba e passa do irritante ao erro. Substantivar os adjectivos tem sido uma moda que está a passar a norma – antes que me tentem corrigir, advirto que irritante é adjectivo, mas também é substantivo. Acontece que nem todos os adjectivos são substantiváveis. É o caso de módico. Que significa modesto, parco, exíguo. Quantos de vós já ouvistes ou lestes (mais grave) "haja um módico de paciência", fazendo crer que módico significa "pouco", um indisfarçável substantivo? Todos nós, todos os dias. É imódico e não há imodium rapid que aguente.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Avareza


Não me peçam para falar de amor. É um par de sapatos incómodo. Um aperta porque é curto, o outro escorrega porque é grande. É um seixo pesado como o mundo. Umas vezes aguenta todas as tempestades; outras, sublima e voa por todas as ilhas. Devia ser proibido falar dele como tudo o que demuda, incha o peito e desasa os braços. Como tudo o que percorre eflúvios regatos e delonga a vida. Façamos então outra coisa: se ele vos achar, calem-se e demorem-se no olhar. Memorizem o que puderem e mapeiem o labirinto. Depois, larguem-no às águas em garrafa arrolhada e lacrada. O segredo manter-se-á em quem o encontrar e ficamos assim. As grandes dádivas nunca devem parecer nossas.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Julgar

A propósito da prolixidade de muitos escritores, Schopenhauer cita Voltaire: "O adjectivo é o maior inimigo do substantivo". Eu, que não sou autor, mas adjectivo a torto e a direito, tendo a concordar: muitas palavras e poucas ideias é uma bela perda de tempo. Devemos ser, tanto quanto possível, claros e concisos na escrita. Como as pessoas, as palavras necessitam de mais acção e de menos julgamentos.

E o australopiteco sou eu

(retirado ao acaso do Google)
Por razões que mesmo sob tortura me recuso a responder fui ver Lucy. Que Morgan Freeman e Scarlett Johansson tenham aceitado participar neste filme de Luc Besson, enfim, até p€rc€bo. O orçamento de 40 milhões é curto, mas um bom quinhão terá acolchoado as suas contas bancárias. Agora, eu ter emborcado a esparrela assim de chofre, faz-me lembrar a cena dos baldes de água gelada. Sem beneficência alguma.