Bem-vindos à Ilha do Inferno, tem três estações de correios e uma do Inverno
Há lugares que nos marcam pelas mais perceptíveis razões. Pela beleza, pelos cheiros, pela quietude, pela companhia, por tudo o que neles vivemos de bom. Outros, pelos motivos inversos. Aridez, miséria, desconsolo, feiura, por o que neles sentimos de mau. Pelo meio ficam muitos, porventura em maior número, quase indiferentes, vulgo, banais. Os lugares que vos trago nesta série não se enquadram em nenhuma destas categorias; como o nome anuncia, são locais fora do mundo.
Na placa norte-americana, a Ilha das Flores (Ilha Rosa) é o bocado de terra mais ocidental da Europa, ou seja, dentro da região ultra-periférica que já de si é os Açores, é a mais longínqua, situando-se a meio dos dois continentes. E, com menos de quatro mil habitantes, vende cara a sua insularidade: dois aviões e um barco. Até 1966, quando foi inaugurada uma base militar francesa para sondar mísseis balísticos, manteve-se entregue ao seu destino, melhor, à sua condição e propósito maiores, aguentar-se Paraíso. E Paraíso se manteve até hoje.
Tal Dante guiado por São Bernardo, não só cheguei à décima esfera como fui além, alcancei Empíreo, senti Deus e vi-me abençoado. Como todos os percursos não foi fácil, até porque, citando o génio, tudo deve ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples.
Na véspera, em amena cavaqueira com dois autóctones (chamam-se florentinos de peito impante, e como os homónimos de Florença, o lugar refinou-lhes o sentimento e o sentido estético), um deles deixou sair, gaguejante, onde "acaba o arco-íris": o Poço da Alagoinha, ou a Lagoa das Patas no dialecto local. Qualquer das designações fez-me espécie. Deus, todo Luz, enfiado num poço não é bonito; São Bernardo e as suas patas, também não.
Partindo da simpática Vila de Santa Cruz das Flores, pus-me a caminho. As estradas asfaltadas, tendo em conta os elevados níveis de pluviosidade ao longo de todo o ano, fazem inveja a qualquer uma de Lisboa e, confesso, a acentuada sinuosidade do traçado desafia o Sébastien Loeb que há em nós.
E daí talvez não.
A Ilha já foi baptizada com outros nomes (Ilha dos Corvos Marinhos e Ilha de S. Tomás), mas sem esforço, onde quer que nos encontremos, percebemos a razão do actual.
Tem sete lagoas (a Funda, a Rasa, a da Lomba, a Comprida, a Seca, a Branca e a Funda das Lages), sete trilhos e sete édenes. As pedras do Frade e da Freira e a magmática (e enigmática) Rocha dos Bordões.
Tem tudo isto e muito mais.
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| Lagoa Funda das Lages |
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| Lagoa Funda e Lagoa Comprida |
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| Pedras da Freira e do Frade |
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| Rocha dos Bordões - Enorme formação rochosa constituída por tubos semi-cilíndricos de origem vulcânica que se assemelham aos de um gigantesco órgão de tubos sacro. |
De todas as ilhas do arquipélago, esta é sem dúvida a mais intacta, tendo sido declarada pela Unesco Reserva Mundial da Biosfera. Perfeito. E onde acaba o arco-íris? Lembrei-me do florentino descuidado e recorri às minhas notas escritas: entre a Fajãzinha e a Fajã Grande há um planalto donde caem vinte cascatas para um poço. Ah, o Poço.
Vinte cascatas para um poço? Um poço sem fundo, com certeza, ou então desagua para os antípodas, para o Lake Taupo, o maior lago da Nova Zelândia – gracejei em voz alta.
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Durante o caminho nunca mais deixei de ver as cascatas silenciosas sobre o fundo. Mas onde vão cair? Aquela conversa da véspera começou-me a soar a gozo: dois florentinos e um continental...
upa, upa, vamos zombetear com o homem. Com sorte ainda vai a nado até às Bahamas em busca do pote de oiro no fundo do arco-íris. Ainda por cima era de Lisboa, o esperto. Deixa telefonar à Emília e contar. Olha, se o lisboeta desaparecer, eu não sei de nada, nunca estivemos com ele perto do Museu da Fábrica da Baleia. Aquela conversa nunca aconteceu, topaste, António? – Cada vez mais apreensivo e desconfiado continuei caminhando e cogitando. –
Mas o que tinham a ganhar dois autóctones com a brincadeira? Nada. Uma ilha em forma de esmeralda, toda ela um jardim, com uns habitantes zombeteiros não havia de engrandecer o local. O grande poeta Pedro da Silveira, florentino de nascença, não iria aprovar. Depois, são boatos deste gabarito que estragam o turismo. Mas qual turismo? Só vi um francês e um casal de canadianos. Aliás, se isto é o que é, deve-se precisamente à quase inexistência de forasteiros. E muito bem.– Lá continuei mais uns quilómetros quando vi na berma da estrada uma tabuleta escrita à mão: Poço 980 m.

O trilho pedestre era estranhamente perigoso. Não parecia, mas escorregava mais que enguias pelas mãos. Ia bem calçado (botas de montanha), contudo parecia um elefante num ringue de patinagem artística: sim, ia com as mãos no chão, logo, caminhava de quatro patas, pois de trombas já eu estava. Quase no fim do caminho (pensamos sempre que nos encontramos no fim quando o começo demora uma eternidade), deparei-me com um casal obeso e seu filho tísico vindos de lá, do poço, e perguntei se demorava muito e se valia a pena. Não responderam. Tentei em Inglês. Nada. Em Francês. Nem uma palavra. Não eram chineses, nem africanos, nem indianos, raios. Enquanto o pequeno saltitava sobre as pedras viscosas, a mãe, ofegante e a suar mais de vinte cascatas, parecia ter acabado de dar à luz tal o esgar extasiado com que não me olhou. O homem, sempre a tropeçar e a olhar para o chão, parecia ter dito que sim. Digo eu, pois o queixo abanava para cima e para baixo à medida que avançava até se agarrar a mim. Naquele instante, um, dois segundos, juro que me pareceu ouvir: gorgeous!
Valeu a pena? Não sei responder. Ainda hoje não tenho a certeza onde estive, quanto tempo demorei e o que vi. Mais tarde descobri as fotografias que se seguem. Obrigado, Beatriz, S. Tomás e S. Bernardo – Dante tinha razão, vi Luz, senti calor, toquei Deus. Gorgeous.