A sensibilidade masculina foi sempre vista com alguma desconfiança, para não dizer com duplicidade e pesporrência. Por eles e por elas. Fulano pode ser sensível, mas com conta, peso e medida ou, o mesmo é dizer, desde que seja muito macho, não seja picuinhas e não manifeste excessiva fragilidade. Sem embargo, um homem sensível permanece muito valorizado no gineceu enquanto descodificador e bom entendedor do eterno feminino. Contudo, não deixa de se assemelhar a uma espécie de veículo de tracção animal, uma charrette coquette, e jamais a um destino ideal, a uma casa vitoriana. Pode ser por excelência um bom amigo; terá porém de se esforçar muito para parecer um bom amante. Dir-me-ão: nada disso, a sensibilidade num homem tem outro encanto. Dir-vos-ei: sim, tem, na hora da despedida.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Aviso à navegação -Tel: 220131030
Nas últimas duas semanas tenho sido bombardeado com mais de dez telefonemas diários do número supra. Assim que atendo desligam. Fui pesquisar no Google. Surgem muitas reclamações de quem padece do mesmo problema, mas nunca iguais. Uns dizem que é de uma das três maiores operadoras telefónicas, sem se concluir ao certo qual. Outros dizem que é burla e já fizeram queixa à polícia. Uma coisa é certa, não é do euromilhões. Fica aqui apenas a informação.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Curiosidade
Não sei quem me lê. Só conheço pessoalmente cinco ou seis leitores, entretanto meus amigos. Das poucas centenas que por cá passam diariamente, sei nada. Serão amigos doutras guerras, inimigos (sim, também os tenho), cadastrados, alcoólicos, gente simpática? O que os leva a demorar mais de uma hora por aqui? Ou alguns segundos? Serão sempre os mesmos? Gostava de os ver todos reunidos numa sala, olhá-los de frente e cumprimentá-los cordialmente. Gostava de lhes agradecer a visita, mas também de saber o que procuram.
Um dia um indivíduo perguntou-me como se ganha dinheiro. Respondi o óbvio: trabalhando, herdando ou ganhando o euromilhões. Empertigado, perguntou-me se era preciso ser economista para saber isso. Não era, mas também não era necessário não o ser para desconhecê-lo.
Daqui posso inferir que pouco interessa conhecer o que procuram, apenas perceber que a curiosidade não mata pessoas de nenhum dos lados. Sejam, pois, sem perguntas, muito bem-vindos.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
You've got mail (4)
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| Woody Allen e John Turturro em Fading Gigolo |
– A ideia é formar um novo partido que vá ao encontro das aspirações femininas mais recônditas.
– Sei…
– Um líder que defenda os valores tradicionais, a família, os bons costumes, a ética. Enfim, um conservador com cara de devasso como tu.
– Como eu? Mas eu nem sei discursar – infirma Fioravante
– Melhor ainda. Se falasses muito, ainda te confundiam com o Marinho. O nosso eleitor alvo são as mulheres, todas as mulheres, reformadas, casadas, divorciadas, jovens.
– Mas eu não sei nada de mulheres…
– Não interessa o que tu sabes, o que realmente interessa é o que elas adivinham na tua postura: um discurso certinho, com poucas palavras, amigo das mulheres, sem que os seus companheiros desconfiem.
– Sei…
– As tuas parcas palavras soarão a música de embalar. O teu olhar e corpo, a uma promessa concupiscente de prazer. Vais resgatar-lhes as fantasias em troca de votos, simples, não?
– É… e as assinaturas e os mecenas?
– Não te preocupes, já tratei disso tudo. Só não te esqueças que continuamos sócios.
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sábado, 25 de outubro de 2014
Tolerância zero
Há um certo tipo de criaturas que só moem a paciência quando sentem que estamos fragilizados; quando a vida, essa velhaca, nos prega uma cilada na dobra da betesga. Aí, surgem elas, corajosas, cheias de certezas e razões, de dedo em riste, dizendo tudo aquilo que se encontrava arrolhado em suas goelas fétidas. Ah, essa coragem. Quando me calha em sorte, viro as costas e mostro os cascos caprinos e a cauda serpenteante que nunca havia exibido. Se quiserem por instantes um belzebu, não se prendam, tê-lo-ão. Caso contrário, deixem-me.
(Isto aqui fica sem possibilidade de comentários: as tristezas não são compatíveis com o chilreio de passarinhos)
(Isto aqui fica sem possibilidade de comentários: as tristezas não são compatíveis com o chilreio de passarinhos)
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
You've got mail (3)
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| Scarlett Johansson - Match Point |
– Atenta bem, nem tudo é mau se nos afastarmos por um tempo – explica Chris.
– Ah, não? Então?
– Terás mais tempo para sair com as tuas amigas à noite, vais a bares, a discotecas, até podes encontrar alguém mais interessante… enfim, terás novas experiências, és tão novinha. Já agora, não me leves a mal, mas parece que a tua cara está a inchar. Já tinhas essa borbulha? Espera, isso é uma borbulha ou é um herpes? Um frúnculo ou uma verruga?
– Vai-à-mer-da.
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
You've got mail (2)
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| Anne Hathaway - One Day |
– Ah, sim? Não te chega a vida complicada que já temos?
– O nosso amor merece um filho, Emma, uma filha, digo. Terá a boca da mãe e os olhos do pai.
– Claro… e o nariz será de quem?
– Dela mesma, da nossa Alice.
– Não sigas o teu coelho, não estás no País das Maravilhas.
– Chata, não se pode sonhar nas tuas costas?
– Podes, mas tudo tem um preço.
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terça-feira, 21 de outubro de 2014
You've got mail (1)
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| Meg Ryan - You've got mail |
– Gostava de a ver mais vezes... – sussurrou Joe enquanto afivelava o cinto.
– Depende.
– … de quê?
– Da bondade das mentiras que o levam até mim.
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segunda-feira, 20 de outubro de 2014
Ter Mundo
Na sociedade actual, "ter mundo" emana um imenso charme, uma espécie de credencial que figura bem ao lado do bom berço, do currículo académico avançado, dos "conhecimentos" certos e do percurso profissional bem-sucedido, entre outros itens.
Dum indivíduo viajado, que viveu em meio mundo, o meio que interessa, civilizado e desenvolvido com uns pozinhos de exotismo – afinal toda a gente sabe que na Martinica o cosmopolitan é mais intenso, tem mais cranberry –, polvilhado por umas escalas técnicas por regiões em guerra – ao perigo das imensas capitais, junte-se o mediatismo das que fazem as parangonas nos jornais mundiais –, poderemos dizer que tem mundo? Ah, pois deve ter.
Dum indivíduo letrado, que dissecou os clássicos, tratando as grandes personagens por velhos conhecidos, que já conta em sua biblioteca com mais de quarenta mil lombadas lidas, e outras tantas na mesinha da cabeceira por ler, e inúmeras incursões à Torre do Tombo, devemos dizer que tem mundo? Ah, pois tem de ter.
Dum sujeito bem relacionado, que conhece os meandros do poder, do político que foi seu colega de faculdade ao CEO que frequenta o mesmo restaurante uma estrela Michelin; que é amicíssimo do director do semanário e do professor catedrático com coluna semanal sobre actualidades, íntimo do grande poeta e do pintor com acervo em NYC, poderemos afirmar que tem mundo? Com certeza.
E do tipo que já comeu a apresentadora de tv da estação privada, casou com uma actriz socialite agora em depressão, frequentou assíduo os camarins das bailarinas do salão preto e prata, privou com a jornalista do painel dos prós e contras a favor da legalização dos bordeis fast fuck e da despenalização das drogas duras, que dizer? Muito mundo.
Ter mundo, hoje em dia, é como ostentar sinais exteriores de derivado de caviar. Poucos provaram, mas o original deve ser bom. E, claro, não deve figurar num cartão de apresentação de uma senhora: ela apenas será inteligente e muito interessante, tudo o resto deve ser omitido, pois esse resto não lhe assenta bem.
Porém, ter mundo é outra coisa, é muito mais. É saber entender e aceitar o próximo exactamente como ele é, reconhecer-lhe com respeito todas as suas misérias, não julgar pela aparência o que nunca presenciou, não levantar o dedo indicador a quem sente diferente e, sobretudo, nunca ser indiferente à sua diferença. Quem o souber fazer é mais conhecedor, viveu mais, tem mais mundo, todo o mundo do mundo.
Afinal, há mais por conhecer em cada um de nós do que nas viagens, nos livros, nas esferas mediáticas ou nos círculos restritos. Ter mundo não é ser mundano.
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Tragédia
A fragilidade feminina quando anunciada é uma carga de trabalhos. Um pedido de ajuda mansinho que pode elevar-se a catástrofe. Começa tenso e mudo. Como num vulcão minutos antes da primeira erupção, todo o cuidado é insuficiente, cuida rever a sinalética e munirmo-nos do breviário antes de propagados os tremores. Segue-se o queixume em palavras doces, trémulas, quase imperceptíveis. Ah, e surdas, que isto vem tudo dum só lado, do centro da Terra. É que nem adianta interromper e levar a cabo a operação socorro. Pouco há a fazer, creiam, mas muito pior é fazer nada. A fragilidade feminina quando difundida é intempérie à qual ninguém sai a salvo. Prontamente, deve ser declarada calamidade semi-pública. Se alguém não aguentar e se se queixar, incorre no esquartejamento simples. Este, sim, totalmente público.
Nivelar por baixo
A parábola do ouriço-caixeiro (prefiro chamar-lhe apólogo) tem servido para ilustrar muita coisa. Para mim foi das poucas demonstrações de bonomia que a soturnidade de Schopenhauer permitiu. A afectividade intensa e prolongada contém bem mais que uns dissabores, não sendo necessário exercitar o pessimismo para concluirmos que é letal. Já o afastamento depende muito mais da compleição do indivíduo, principalmente se estiver em causa a sua dignidade. Sozinho, mas fiel a si próprio sempre é uma solução. As meias distâncias, essas sim, são puro egoísmo. Se virmos bem, um egoísmo miserabilista: retira da pequena dor algum prazer e vice-versa. E é consabido que nem sempre as pequenas doses são profilácticas.
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
Locais fora do mundo (III)
Bem-vindos à Ilha do Inferno, tem três estações de correios e uma do Inverno
Há lugares que nos marcam pelas mais perceptíveis razões. Pela beleza, pelos cheiros, pela quietude, pela companhia, por tudo o que neles vivemos de bom. Outros, pelos motivos inversos. Aridez, miséria, desconsolo, feiura, por o que neles sentimos de mau. Pelo meio ficam muitos, porventura em maior número, quase indiferentes, vulgo, banais. Os lugares que vos trago nesta série não se enquadram em nenhuma destas categorias; como o nome anuncia, são locais fora do mundo.
Na placa norte-americana, a Ilha das Flores (Ilha Rosa) é o bocado de terra mais ocidental da Europa, ou seja, dentro da região ultra-periférica que já de si é os Açores, é a mais longínqua, situando-se a meio dos dois continentes. E, com menos de quatro mil habitantes, vende cara a sua insularidade: dois aviões e um barco. Até 1966, quando foi inaugurada uma base militar francesa para sondar mísseis balísticos, manteve-se entregue ao seu destino, melhor, à sua condição e propósito maiores, aguentar-se Paraíso. E Paraíso se manteve até hoje.
Tal Dante guiado por São Bernardo, não só cheguei à décima esfera como fui além, alcancei Empíreo, senti Deus e vi-me abençoado. Como todos os percursos não foi fácil, até porque, citando o génio, tudo deve ser feito tão simples quanto possível, mas não mais simples.
Na véspera, em amena cavaqueira com dois autóctones (chamam-se florentinos de peito impante, e como os homónimos de Florença, o lugar refinou-lhes o sentimento e o sentido estético), um deles deixou sair, gaguejante, onde "acaba o arco-íris": o Poço da Alagoinha, ou a Lagoa das Patas no dialecto local. Qualquer das designações fez-me espécie. Deus, todo Luz, enfiado num poço não é bonito; São Bernardo e as suas patas, também não.
Partindo da simpática Vila de Santa Cruz das Flores, pus-me a caminho. As estradas asfaltadas, tendo em conta os elevados níveis de pluviosidade ao longo de todo o ano, fazem inveja a qualquer uma de Lisboa e, confesso, a acentuada sinuosidade do traçado desafia o Sébastien Loeb que há em nós.
A Ilha já foi baptizada com outros nomes (Ilha dos Corvos Marinhos e Ilha de S. Tomás), mas sem esforço, onde quer que nos encontremos, percebemos a razão do actual.
Tem sete lagoas (a Funda, a Rasa, a da Lomba, a Comprida, a Seca, a Branca e a Funda das Lages), sete trilhos e sete édenes. As pedras do Frade e da Freira e a magmática (e enigmática) Rocha dos Bordões.
Tem tudo isto e muito mais.
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| Lagoa Funda das Lages |
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| Lagoa Funda e Lagoa Comprida |
| Pedras da Freira e do Frade |
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| Rocha dos Bordões - Enorme formação rochosa constituída por tubos semi-cilíndricos de origem vulcânica que se assemelham aos de um gigantesco órgão de tubos sacro. |
De todas as ilhas do arquipélago, esta é sem dúvida a mais intacta, tendo sido declarada pela Unesco Reserva Mundial da Biosfera. Perfeito. E onde acaba o arco-íris? Lembrei-me do florentino descuidado e recorri às minhas notas escritas: entre a Fajãzinha e a Fajã Grande há um planalto donde caem vinte cascatas para um poço. Ah, o Poço.
Vinte cascatas para um poço? Um poço sem fundo, com certeza, ou então desagua para os antípodas, para o Lake Taupo, o maior lago da Nova Zelândia – gracejei em voz alta.
Durante o caminho nunca mais deixei de ver as cascatas silenciosas sobre o fundo. Mas onde vão cair? Aquela conversa da véspera começou-me a soar a gozo: dois florentinos e um continental... upa, upa, vamos zombetear com o homem. Com sorte ainda vai a nado até às Bahamas em busca do pote de oiro no fundo do arco-íris. Ainda por cima era de Lisboa, o esperto. Deixa telefonar à Emília e contar. Olha, se o lisboeta desaparecer, eu não sei de nada, nunca estivemos com ele perto do Museu da Fábrica da Baleia. Aquela conversa nunca aconteceu, topaste, António? – Cada vez mais apreensivo e desconfiado continuei caminhando e cogitando. – Mas o que tinham a ganhar dois autóctones com a brincadeira? Nada. Uma ilha em forma de esmeralda, toda ela um jardim, com uns habitantes zombeteiros não havia de engrandecer o local. O grande poeta Pedro da Silveira, florentino de nascença, não iria aprovar. Depois, são boatos deste gabarito que estragam o turismo. Mas qual turismo? Só vi um francês e um casal de canadianos. Aliás, se isto é o que é, deve-se precisamente à quase inexistência de forasteiros. E muito bem.– Lá continuei mais uns quilómetros quando vi na berma da estrada uma tabuleta escrita à mão: Poço 980 m.
O trilho pedestre era estranhamente perigoso. Não parecia, mas escorregava mais que enguias pelas mãos. Ia bem calçado (botas de montanha), contudo parecia um elefante num ringue de patinagem artística: sim, ia com as mãos no chão, logo, caminhava de quatro patas, pois de trombas já eu estava. Quase no fim do caminho (pensamos sempre que nos encontramos no fim quando o começo demora uma eternidade), deparei-me com um casal obeso e seu filho tísico vindos de lá, do poço, e perguntei se demorava muito e se valia a pena. Não responderam. Tentei em Inglês. Nada. Em Francês. Nem uma palavra. Não eram chineses, nem africanos, nem indianos, raios. Enquanto o pequeno saltitava sobre as pedras viscosas, a mãe, ofegante e a suar mais de vinte cascatas, parecia ter acabado de dar à luz tal o esgar extasiado com que não me olhou. O homem, sempre a tropeçar e a olhar para o chão, parecia ter dito que sim. Digo eu, pois o queixo abanava para cima e para baixo à medida que avançava até se agarrar a mim. Naquele instante, um, dois segundos, juro que me pareceu ouvir: gorgeous!
Valeu a pena? Não sei responder. Ainda hoje não tenho a certeza onde estive, quanto tempo demorei e o que vi. Mais tarde descobri as fotografias que se seguem. Obrigado, Beatriz, S. Tomás e S. Bernardo – Dante tinha razão, vi Luz, senti calor, toquei Deus. Gorgeous.
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014
Quem é a pequerrucha mais bonita da blogosfera, quem é?
Muitos Parabéns, Sue!
Ide lá dar beijinhos à CF, ide; eu já dei.
Ide lá dar beijinhos à CF, ide; eu já dei.
terça-feira, 30 de setembro de 2014
sábado, 27 de setembro de 2014
«Fi-lo porque qui-lo»*
O trabalho não fora mal feito. Peguei-a menina e fi-la mulher. Só depois me apercebi que nunca tivera esquecido a menina e já houvera descurado a mulher. Em boa verdade não a peguei, qui-la menina e fi-la mulher.
*Expressão (errada, mas literária) de Odorico Paraguaçu, em O Bem-Amado do dramaturgo Dias Gomes.
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